19.10.09

“Serra vai ganhar guerra de biografias”

Caio Junqueira, de São Paulo, Valor Econômico, 13/10/2009

Luiz González, 56 anos, paulistano, neto de espanhóis da Galícia, deverá ser o principal estrategista da campanha do governador de São Paulo, José Serra, a presidente em 2010. É o marqueteiro preferido dos tucanos paulistas. Sua ascensão no marketing político foi concomitante à consolidação do PSDB no governo estadual. Já se vão 15 anos desde que fez a campanha de Mário Covas, em 1994, mesmo ano em que trabalhou para Serra, que disputava o Senado. Quatro anos depois, ajudava Covas a se reeleger. Em 2000, perdeu com Alckmin na prefeitura, mas o fez governador dois anos depois. Voltaria a trabalhar para Serra na campanha à prefeitura em 2004 e ao governo do Estado em 2006, quando atuou para Alckmin na disputa presidencial. No ano passado, elegeu Gilberto Kassab (DEM) prefeito.

Foi em sua agência Lua Branca, detentora de contratos de publicidade tanto com a Prefeitura de São Paulo quanto com o governo paulista, que ele recebeu o Valor para uma entrevista, explicitou sua estratégia que, a exemplo do governo, é de polarização entre Serra e Dilma – “Só que o embate não vai ser entre Lula x FHC, mas entre a biografia de um realizador e a de uma desconhecida”. A seguir, trechos da entrevista:

Valor: O senhor não teme a transferência de votos de Lula para Dilma?

Luiz González: Aqui em São Paulo ou em Caetés (cidade pernambucana em que Lula nasceu)? Em Caetés haverá mais. A pergunta é: quanto Lula vai transferir nos lugares onde a informação é menos variada, chega mais devagar e as pessoas dependem mais do Estado? Quanto isso pesa mais do que a admiração que as pessoas possam ter por um cara como o Serra e a expectativa de que com ele o lugar onde o eleitor vive melhora? Lula fez campanha para Marta. Foi para o palanque e resultou em quê? Nada. Não levantou meio ponto porque o eleitor aqui é atento.
Valor: Mas e no resto do país?

González: Alckmin era desconhecido nacionalmente, enfrentava um mito que tinha disputado as cinco últimas eleições e que havia feito um governo em que a economia ia bem. Agora está invertido. A Dilma é desconhecida, o Serra é mais conhecido e tem mais biografia. Dilma precisa mostrar o que o governo fez. Pode subir até certo ponto, mas para subir para valer tem que expor a pessoa.

Valor: Foi a privatização que derrotou o Alckmin?

González: Eu nunca saí de um estúdio tão festejado como naquele dia do debate da Bandeirantes. Não só os políticos mas também os coleguinhas. E eu sabia que tinha dado errado. Tinha falado pra ele: não faz isso. Foi ali que ele perdeu a eleição. Colocou o dedo na cara do Lula, foi desrespeitoso. O público fala: ‘Quem é esse cara? Tô desconhecendo’. E teve também a reação do Lula no segundo turno. Fez a famosa reunião no Palácio do Planalto com 17 ministros, despachou um para cada Estado e escalou quatro para aparecerem no “Bom Dia Brasil”, “Jornal Hoje”, “Jornal Nacional” e “Jornal da Globo”. Várias entrevistas do PT metendo a ripa no Alckmin e do nosso lado ninguém. O Tasso (Jereissati) estava no interior do Ceará, o Sérgio Guerra, em Pernambuco, o César Maia sumiu. Consegui o Heráclito Fortes para dar uma coletiva. Se você dá uma entrevista às 15h eu tenho que dar outra às 15h30. Esse é o jogo. E o nosso foi um desastre.

Valor: A força do Lula no Nordeste também não foi decisiva?

González: Não foi apenas no Nordeste. Uma grande derrota que ele sofreu foi no Amazonas. Perdemos em Minas, que tem 10 milhões de eleitores, por 1 milhão de votos. No Amazonas, que tem 2 milhões, perdemos por 900 mil votos. Amazonas virou Minas, que é o terceiro colégio eleitoral do país, porque os dois candidatos da base do Alckmin, Arthur Virgílio e Amazonino Mendes, brigaram o tempo todo e nenhum deles conseguiu defender o candidato da acusação de que ele acabaria com a Zona Franca.

Valor: Em 2010, o comando de Lula sobre a campanha não fará a diferença?

González: Uma coisa é o Lula outra é essa mulher [Dilma] que ninguém sabe de onde veio. Estou colocando como caricatura o discurso, mas no fundo é o seguinte: será que as pessoas estão dispostas a aguentar o PT mais quatro anos sem o Lula? Sem o Lula ficam só os Waldomiros [Waldomiro Diniz, ex-assessor do Planalto flagrado em vídeo recebendo propina]. O Lula foi preservado nessa coisa toda, e sem ele como é que fica?

Valor: O senhor aposta numa campanha pela biografia, mas não acha que o governo vai se pautar por temas como Bolsa Família, crédito popular, valorização do salário mínimo?

González: Mas para cuidar disso aí você prefere esse cara aqui ou essa mulher [Dilma] que ninguém conhece? Tudo isso vai continuar e vai melhorar porque onde esse cara [Serra] põe a mão dá certo. Veja só, como ministro: 300 hospitais reformados. Como deputado: tirou o seguro-desemprego do papel. Como ministro da Saúde: fez os genéricos. Como governador: fez três vezes mais metrô que todo mundo. Onde ele põe a mão dá certo. Vai dar certo com aposentadoria, com salário mínimo, água encanada porque ele é um realizador, tem credibilidade, melhora a vida das pessoas por onde passa. E do lado de lá? Quem é? Ninguém sabe.

Valor: E o PAC e o pré-sal?

González: Eles vão mostrar o PAC, nós vamos mostrar que o PAC não existe. Está tudo parado. A vantagem da campanha política é que o contraditório é exercido todos os dias. Cada um fala o que quer, ouve o que não quer e o eleitor julga. Por isso a campanha não é publicitária, é jornalística. Quanto tem para o pré-sal? São 5 bilhões de barris a US$ 40 dólares o barril. US$ 200 bilhões. Por que não põe US$ 100 bilhões na saúde agora? Ah, não existe? Pensei que tivesse. Não estão falando que a Petrobras está sendo capitalizada com 5 bilhões de barris?

Valor: A aposta, então, é que na disputa entre biografias o Serra leve?

González: O Serra é o favorito, tem grandes chances de ganhar. A Dilma passou a ter problemas com a entrada do Ciro [Gomes] e da Marina. Será uma surpresa se ela decolar. O governo acha que vai ser um plebiscito Lula versus não-Lula, ou Lula versus FHC, mas nós não vamos deixar. Não é isso. É a biografia do Serra contra a da Dilma. E daí o nosso japonês é melhor do que o japonês dos outros. Serra foi deputado constituinte, senador, secretário de Estado, ministro duas vezes, prefeito, governador. Tudo o que ele fez alicerça o que vai prometer. Isso dá credibilidade, confiança. E é uma figura nacional.

Valor: Como contrabalançar o Norte e o Nordeste?

González: Uma questão central na campanha é que Serra não pode perder Sul e Sudeste. Não é à toa toda essa movimentação em São Paulo. Eles não são trouxas, precisam de alguém que tire votos do Serra aqui. Uns cinco, seis pontos. Todo esse jogo com o [Gabriel] Chalita é entre PSB e PT porque tem que tirar uns 4 milhões de votos do Serra aqui. O Nordeste é fundamental, é importante, mas acho que nunca se pode perder suas cidadelas. O negócio é que não se pode perder de muito lá e ganhar bem aqui. Serra é tido no Nordeste como o melhor ministro da Saúde que o Brasil já teve.

Valor: O PMDB é crucial?

González: Se o PMDB for para o governo nos prejudica bastante porque tempo de TV é importante.

Valor: O fato de o PMDB ter as maiores bancadas no Congresso e o maior número de prefeitos não é importante também?

González: Não. Isso não é garantido, pois ninguém sabe se eles vão ajudar mesmo. Alguns só ajudam se receberem recurso material, outros até ajudam adversários. O PMDB de Pernambuco é diferente do de Goiás, que é diferente do Rio. Há a possibilidade remota, mas existente, de eles fecharem com o Serra. Aí nossa chance aumenta muito. A possibilidade em que acredito: o PMDB não vai para ninguém. Aí zera e a eleição fica polarizada entre Serra e Dilma. Mas até o início da campanha ela vai sofrer com matérias que ela não emplaca. Alguém do PT em off criticando, dizendo que o gênio dela é ruim, que ela briga com todo mundo. Só bastidores. Ela vai sofrer com isso.

Valor: E o Ciro?

González: Não emplaca. Primeiro porque não vai ter tempo de TV. Vai ter PSB e mais o tempo igualitário, que vai dar uns dois minutos e meio. Sabe qual a leitura do público? ´Aquele pequenininho lá não vai governar porque não consegue agregar. Tem dois que são pra valer e dois nanicos´. Segundo porque ele é verborrágico e alguém vai provocá-lo. Pode ser o Serra ou até mesmo a Dilma, porque pode se travar uma disputa entre ela e o Ciro pelo segundo lugar. Para nós é o melhor cenário. Isso se o Ciro não tiver cometido nenhum deslize verborrágico, o que eu não acredito.

Valor: E a Marina?

González: É uma candidata interessante, bacana, com história bacana, com aura de seriedade. A única coisa que a prejudica neste momento é o pouco tempo de TV. É pouco para expor as ideias, convencer, seduzir e apaixonar. O eleitor também avalia a capacidade de fazer alianças pelo tempo de TV. A tradução do pouco tempo é esse: o cara não tem força. Ela tende a murchar também.

Valor: Aqui em São Paulo o PSDB faz sucessor sem atropelos?

González: São Paulo sempre é uma eleição complicada. É um lugar com opinião pública forte, gente informada, urbanizada, antenada. Mas acho difícil para a oposição mesmo porque não sei quem é o candidato.

Valor: O Palocci pode ser competitivo em São Paulo?

González: Será um erro se ele sair. Tem uma série de coisas de quando ele foi prefeito de Ribeirão Preto que ainda não foram resolvidas, assim como o caso do caseiro Francenildo que também não foi resolvido na opinião pública.

Valor: E a disputa entre os tucanos? Alckmin lidera as pesquisas, mas o meio político prefere Aloysio Nunes Ferreira, com dois pontos nas pesquisas. É difícil alavancar o Aloysio?
González: Você pergunta o que é mais difícil, não a minha preferência. Mesmo porque, essa é uma questão partidária e não me caberia opinar. Mas é óbvio que é mais difícil pegar alguém com 3 ou 5 pontos e lutar morro acima para levar a 20, 25 pontos e forçar o segundo turno do que pegar um candidato com 50 pontos, ex-governador do Estado.

Valor: O que é mais determinante ao voto?

González: Tem uma tese do professor João Albuquerque, da USP, defendendo que 15% votam por identificação, o mesmo percentual, por oposição e 70% por expectativa de benefício futuro. A questão central é como se cria uma identificação com o candidato e se desperta no eleitor a confiança de que ele é capaz de melhorar sua vida.

Valor: A internet vai ser importante em 2010?

González: A cada eleição a internet fica mais importante. E, em 2010, pode até ser a ferramenta mais comentada, pelas novidades que trará. Mas não acredito que será a mais importante. Nas condições de 2010, acho que a TV ainda será mais importante do que a internet, por mais amplas e diversificadas que sejam as ações na internet e por mais tradicionais que sejam na TV. Mário Covas dizia que se ele tivesse pouco dinheiro pagaria advogado e programa de TV e depois contrataria o resto. Se fosse para hierarquizar os veículos que eu usaria, diria que o mais importante é o horário eleitoral, free media [presença dos candidatos no rádio, TV, jornais e revistas], programa eleitoral no rádio e, por fim, a internet.

Valor: Por que?

González: Pela abrangência. O Brasil tem pouco mais de 131 milhões de eleitores. A televisão chega a praticamente todos. Existem 57 milhões de domicílios no Brasil. Há pelo menos um aparelho de TV em 95% desses domicílios – 170 milhões de brasileiros a assistem diariamente. Estima-se que haja até 60 milhões de internautas, com 11 milhões de conexões em banda larga. Ou seja: a televisão chega a muito mais gente. Outra questão é a distribuição geográfica. A TV chega a todo o país de maneira mais uniforme: 96% dos domicílios urbanos têm TV. Na zona rural a presença cai, mas ainda é alta: 78% das residências rurais têm TV. Essa presença avassaladora e bem distribuída não acontece, ainda, com a internet. A internet está mais presente nas regiões Sul e Sudeste, com 60% dos internautas. Mas as regiões Norte e Nordeste que têm, juntas, 34% do eleitorado, só têm 22% dos internautas.

Valor: Essa concentração da internet no Sul e Sudeste favorece alguma candidatura?

González: Acho que a internet vai servir de maneira distinta às candidaturas. Serve mais ao PT do que ao PSDB. Como o PT tem mais dificuldade no Sul e no Sudeste, onde a internet tem mais penetração, o instrumento vale mais. Da mesma forma, se o corte for cidade grande versus cidade pequena, o PT tem mais dificuldade nas capitais e cidades grandes. O PSDB tem mais dificuldade nos grotões. Desse ponto de vista, o que o PSDB precisa é de carro de som nas pequenas cidades. Além disso, a televisão é um veículo impressionista. É um veículo de emoção, que surpreende o telespectador em sua casa. Nessas características essenciais, é insubstituível.
Valor: O que o senhor achou da reforma eleitoral recém-aprovada?

González: Lamentável. O Congresso perdeu a oportunidade de limpar as regras eleitorais, de deixar o pleito mais livre. Por exemplo: não se pode usar imagem externa nas inserções ao longo da programação, nos comerciais. Mas se pode usar imagem externa nos programas grandes, em bloco. Qual o motivo?

Valor: Quais são os outros problemas da reforma?

González: A reforma instituiu um “liberou geral” nas coligações. Agora é possível, na mesma circunscrição eleitoral, fazer coligações que se contradizem. Essa emenda do “liberou geral” para as coligações atende a estratégia governista. Nos últimos anos, prevaleceu a norma que impedia o uso de um espaço eleitoral no rádio e na TV por um candidato a outro cargo. Mesmo assim, em 2006 Lula “invadiu” grande parte das campanhas estaduais, principalmente onde o candidato a governador do PT era fraco. Foi parcialmente punido por isso, com perda de tempo de TV. Nem todas as “invasões” foram descobertas a tempo de se acionar o TSE. Na eleição de 2010, as campanhas estaduais estão autorizadas a veicular “imagem e voz” do candidato a presidente, ou de militante político nacional. Traduzindo: é a licença para Lula e Dilma” invadirem” os tempos de propaganda de candidatos a governador, senador e deputados. Vai ser uma festa. Infelizmente, a oposição deixou passar. Vamos ver o que o TSE diz sobre o assunto.

28.9.09

Líder nas pesquisas para o governo, Alckmin isola-se no PSDB
Caio Junqueira, Valor Econômico, 28/09/2009

A isolada liderança de Geraldo Alckmin (PSDB) para a sucessão do governo paulista em 2010 não tem sido suficiente para que seu nome tenha a unanimidade de seu partido, muito menos de seus principais aliados, DEM e PMDB. Há uma crescente mobilização para viabilizar a candidatura do seu correligionário, o secretário-chefe da Casa Civil de São Paulo, Aloysio Nunes Ferreira, distante de Alckmin quase 50 pontos nas pesquisas.

O cenário lembra o de 2008, quando os tucanos se dividiram entre a candidatura à reeleição do prefeito de São Paulo, Gilberto Kassab (DEM), e a de Alckmin. Um ano depois, quem apoiou Kassab está com Aloysio. Já o grupo de Alckmin comporta dissidências.

Em razão disso, há no partido a certeza de que só o governador José Serra (PSDB) pode arbitrar o embate interno entre seus dois secretários e impedir a realização de prévias ou de uma convenção, se avaliar que isso pode atrapalhar sua campanha a presidente da República. A prioridade, por ora, é consolidar seu nome para a disputa ao Planalto, em uma composição com o governador mineiro, Aécio Neves (PSDB). Isso deve ser feito até janeiro. Depois, focará no cenário estadual até o final de março, prazo final para Alckmin e Aloysio se desincompatibilizarem de seus cargos.

Não havendo definição, o processo pode se estender até a convenção, em junho. O embate, porém, é dado como certo. “Vai ter disputa interna. Não há nenhum problema em passarmos por isso”, afirma o líder do governo na Assembleia, Vaz de Lima (PSDB), historicamente ligado a Aloysio.

Até que a disputa seja explícita, o trabalho é nos bastidores, onde Aloysio tem liderança absoluta. Seus apoiadores apostam na força da máquina do governo paulista – da qual Aloysio é o gerente – e na rejeição a Alckmin, no partido e entre os aliados, para construir sua candidatura.
Cálculos do PSDB mostram que na Câmara Municipal de São Paulo, dos 12 vereadores, apenas um tem apoio declarado a Alckmin: seu ex-secretário de Assistência Social, Floriano Pesaro. O ex-governador tinha outro vereador ao seu lado, seu também ex-secretário de Educação Gabriel Chalita que, sem espaço no partido, assina amanhã sua ficha de filiação ao PSB para concorrer ao Senado. Na Assembleia Legislativa, dos 23 deputados, o cálculo é de que 21 estão com Aloysio. A bancada federal se divide, mas ainda assim a preferência é por Aloysio: 9 x 7.

O que explica esse quadro é, primeiro, o relacionamento político-financeiro que Aloysio tem construído com as bases estaduais. É ele o principal responsável pela liberação das emendas parlamentares e pelos convênios assinados entre o Estado e os municípios. Só nos dois primeiros anos do governo, foram liberados cerca de R$ 210 milhões diretamente para prefeitos e R$ 227 milhões para deputados estaduais, ambas dentro de uma rubrica orçamentária específica da Casa Civil, denominada Unidade de Apoio aos Municípios. Na gestão anterior, do próprio Alckmin, os valores dessa rubrica eram, segundo o governo, “muito menores”. Cotas orçamentárias para deputados estaduais, hoje em R$ 3 milhões, nem existiam.

Outro fator é o crescente isolamento político-partidário de Alckmin, dentro e fora do PSDB. Sua atuação nos três últimos processos eleitorais levaram a isso. Em 2004, tentou impor seu polêmico secretário de Segurança Pública, Saulo de Castro Abreu Filho, como candidato a prefeito, uma figura sem qualquer ligação histórica com o partido.

Dois anos depois, o PSDB sangrou na disputa entre Serra e Alckmin para a candidatura à Presidência. O atual governador ia melhor nas pesquisas, mas Alckmin e seu grupo disseminavam a tese do “candidato natural”, uma vez que Serra teria de deixar a prefeitura ao passo que Alckmin estava em seu último ano no governo do Estado.

Mas são das eleições de 2008 que ainda restam as grandes feridas. Parte dos tucanos apoiava Kassab, já que se tratava da manutenção da aliança em que fora eleito em 2004, como vice de Serra. Outra parte, o grupo de Alckmin, se apoiava na liderança nas pesquisas para impor sua candidatura. Ao final, o ex-governador não chegou ao segundo turno.

Muitos dos tucanos que ficaram com Kassab foram chamados de traidores e chegaram a sofrer ameaças de expulsão. Fundador do partido, o secretário paulistano de Esportes e deputado federal licenciado Walter Feldman é um deles. Cauteloso, não se posiciona na disputa mas diz que ela é bem-vinda. “O partido só se fortalecerá na luta interna. O que prejudica o PSDB é ter medo disso. Será uma boa disputa entre os dois.”

A formação de uma forte corrente favorável a convenção ou às prévias não é único revés que Alckmin enfrenta. Ele assiste ainda à defecção de antigos aliados. Um exemplo é Tião Farias, muito ligado a Mário Covas e um dos poucos vereadores que em 2008 foram de Alckmin. Lotado na Secretaria Estadual de Transportes Metropolitanos, está com Aloysio. Outros dois alckmistas de carteirinha também desembarcaram, o atual vereador Carlos Bezerra Júnior e o deputado estadual Marcos Zerbini. Procurados, Farias e Bezerra não responderam ao pedido de entrevista. Zerbini disse que “não queria comentar o assunto”.

O ex-secretário municipal das Subprefeituras, Andrea Matarazzo, que ajudou Alckmin nos conflitos internos em 2008, está fechado com Serra. Será uma espécie de assessor político especial do governador. O presidente do PSDB paulistano, José Henrique dos Reis Lobo, ligado a Alckmin e importante ponte entre ele e Serra, enfrenta desprestígio com a base municipal. Tem o diretório, mas não o diálogo com a Câmara e a prefeitura.

No DEM de Kassab, o discurso é de que o apoio é total a quem Serra indicar, embora seja nítido o desconforto com a hipótese de que Alckmin seja esse nome. Um sinal disso é a colocação de Kassab como nome viável ao governo do Estado. O DEM também baseia-se em pesquisas internas que dão viabilidade eleitoral a Kassab no Estado e no crítico cenário nacional que o partido prevê enfrentar em 2010, após oito anos de oposição ao popular presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT). A opção do PSDB pela candidatura Aloysio deixaria uma porta aberta a Kassab caso o secretário tucano se mostre pouco viável até abril, prazo da desincompatibilização.
Mais próximo aliado de Kassab em Brasília, o deputado federal Guilherme Campos (DEM-SP), ex-vice prefeito de Campinas e coordenador da bancada paulista federal do DEM, diz que o projeto da legenda é fazer Serra presidente e apoiar quem este indicar à sucessão. Afirma ainda que liderança em pesquisa, a um ano das eleições, é irrelevante. “A pesquisa nessa fase pré-eleitoral é um cenário que mede antes o nível de conhecimento do que de viabilidade eleitoral. Não dá para comparar a exposição e a presença na mídia que o Alckmin tem com a do Aloysio. É só pegar o exemplo de 2008, com o Kassab. Alckmin liderava e perdeu. Kassab decolou”, afirma.
O PMDB do ex-governador Orestes Quércia também está fechado com Aloysio, que foi homem forte nas duas últimas gestões do partido no Estado. Além disso, há resquícios de 2008. Na campanha, Alckmin, ao criticar a aliança de Kassab com Quércia, disse que o ex-governador “quebrou o Estado”.

Em meio às dificuldades, os alckmistas adotaram a seguinte premissa: esquecer os conflitos de 2008, pois eleição para presidente e governador tem nuances diferentes da de prefeito e o foco agora deve ser construir o melhor cenário no Estado para que Serra seja eleito presidente.
“O objetivo é ganhar a presidência e criar cenários para que isso se dê da forma mais favorável possível. Não se pode pensar 2010 com a cabeça de 2008″, diz o deputado federal Edson Aparecido (SP), fiel a Alckmin. Para ele, não se pode querer “turbinar cenários que hoje não existem”. “As questões que fazem parte de um processo eleitoral para presidente e governador são absolutamente distintas”, diz.

O também deputado federal Silvio Torres (SP), do mesmo grupo político, aposta no governador José Serra para unir o partido. “Os problemas são perfeitamente superáveis a partir do momento em que Serra conduzir esse processo. Não vamos nos perder em malquerências do passado. O projeto Serra presidente passa por candidaturas fortes nos Estados. É essa visão amadurecida que precisamos ter”, afirma.

A prioridade de fazer Serra presidente é uníssona entre os dois grupos. A diferença é que os defensores de Aloysio acham que seus 2% nas pesquisas podem ser alavancados com certa facilidade. O partido tem a máquina, a aliança tem a quase totalidade dos 645 municípios paulistas e os investimentos em 2010 serão grandes. Por outro lado, se o crescimento nas pesquisas demorar a acontecer, o PSDB corre o risco de enfrentar uma dura eleição no Estado que comanda desde 1995, colocando em risco o projeto principal de voltar ao governo federal. “As atenções não podem estar voltadas para a candidatura a governador, mas sim para presidente. Uma disputa em Sao Paulo dispersaria os esforços”, afirma o secretário-geral do PSDB paulista, Cesar Gontijo.

Serra aguarda a definição do cenário até o início de 2009. Precisa, primeiro, compor com Aécio, pois avalia que sem São Paulo e Minas unidos em uma candidatura tucana – trata-se dos dois maiores colégios eleitorais do país – fica difícil se contrapor ao favoritismo petista no Norte e Nordeste. Quer partir de uma base de 70% em seu Estado. Para atingir esse índice precisa de um candidato forte.

“Para Alckmin ter chance precisa se aproximar desses setores que têm reclamações contra ele, caso contrário corremos o risco de DEM e PMDB até fazerem um candidato. Isso pode ser evitado”, diz o secretário municipal de Participação e Parceria, Ricardo Montoro (PSDB). Assim como outros tucanos próximos a Kassab, ele também acha que só a pesquisa não será suficiente para dar amálgama à candidatura Alckmin. “Não se iluda com Ibope. Ibope é nível de conhecimento, não é voto definido. Quem acha diferente disso não entende de política.”

Procurado por meio de sua assessoria, Alckmin não foi localizado pela reportagem. Em público, tem emitido sinais de composição. Por exemplo, costuma comparecer a eventos em que Kassab está e já conversou com Quércia. Mas ainda que prevaleça seu nome, terá que ceder. O desenho atual, caso isso ocorra, é de que Kassab indique o candidato a vice – possivelmente o secretário estadual de Trabalho, Afif Domingos – e que, para ajudar na campanha de Quércia ao Senado, o PSDB lance apenas um nome ao cargo. Por outro lado, pode avaliar que sua situação no partido está muito difícil e aceitar sair para o Senado ou procurar outra legenda para se candidatar, como fez Chalita ao ir para o PSB. Teria até a próxima semana para fazê-lo.

2.9.09

Collor prepara-se para voltar ao cargo que o projetou ao Planalto

Caio Junqueira, De Maceió, Valor Econômico, 30/08/2009

Vinte anos depois de sua eleição à Presidência da República, o senador Fernando Collor de Mello (PTB-AL) prepara-se para tentar retomar o cargo de onde saiu para disputar o Palácio do Planalto: o governo de Alagoas. Aos 60 anos, voltou à velha forma agressiva que marcou sua ascensão à política. Controla a TV, rádio e jornal das Organizações Arnon de Mello que o projetaram no Estado, selou uma reaproximação com um antigo aliado, o senador Renan Calheiros (PMDB-AL), e explora, com eficiência, perante os alagoanos, a aura de injustiçado pelo impeachment.

Além de velhos companheiros de 1989, agregou novos entusiastas, muitos dos quais na mira da Polícia Federal. Entre os principais articuladores, está o deputado estadual Cícero Ferro (PMN), preso pela Operação Taturana, que apurou desvios de mais de R$ 280 milhões de recursos públicos. Ferro é ardoroso defensor da candidatura: “Collor é carismático, tem serviços prestados ao Estado e junta todas as lideranças”.

O deputado federal Augusto Farias (AL), irmão de Paulo César Farias, é outro importante articulador de Collor. Com reduto eleitoral no litoral norte alagoano, a família Farias permanece envolvida em acusações de corrupção. A mais recente foi nas eleições de 2008, quando a PF prendeu seu irmão, Rogério Farias, candidato à reeleição em Porto de Pedras; sua cunhada, então prefeita de Barra de Santo Antônio, Rume Farias; e a filha deles, Camila Farias, candidata em São Miguel dos Milagres. Todos são do PTB.

Ainda integra o grupo do senador no Estado mais dois deputados presos na Taturana: Antonio Albuquerque, ex-presidente da Assembleia Legislativa, então no DEM, hoje sem partido; e o deputado estadual João Beltrão (PMN). Junto com Ferro, os dois são acusados pela PF de crimes de pistolagem. Afastados do cargo, puderam retornar, junto com outros indiciados, por decisão do presidente do Supremo Tribunal Federal (STF), Gilmar Mendes.

Nenhum desses “colloridos”, no entanto, faz sombra ao poder de articulação de Renan Calheiros (PMDB-AL). O dueto de Renan e Collor no Senado, repete-se no Estado. Renan afastou-se do governador Teotonio Vilela Filho (PSDB), candidato à reeleição em 2010 e contra quem Collor pretende concorrer. O afastamento foi selado pela Operação Navalha da PF, em 2007, que prendeu Adeilson Bezerra, secretário de Infraestrutura de Alagoas, apontado como responsável pela ordem de pagamento à construtora Gautama em troca de propina. Ele havia sido indicação de Renan.

Constrangido, Vilela o demitiu e não devolveu o posto a Renan. Depois disso, o MST invadiu a principal fazenda dos Calheiros, em Murici, e o governador não se esforçou para retirá-los de lá. Some-se a isso o afastamento da dona do cartório da cidade suspeita de favorecer os Calheiros em processos de grilagem de terras e a fiscalização do frigorífico Mafrial, acusado de passar notas frias da compra de bois para abate a Renan.

No início deste ano, Renan retirou a última Pasta que tinha no governo, a da Saúde e, pouco depois, indicou Collor para presidir a poderosa Comissão de Infraestrutura do Senado. O movimento teve por objetivo sinalizar que, em 2010, estarão juntos. Segundo seus aliados, Renan avalia que, com Collor, sua reeleição ao Senado corre menos risco, tendo em vista que seu prestígio no eleitorado alagoano caiu muito devido às denúncias feitas pela ex-namorada de seu envolvimento com a Andrade Gutierrez, que culminaram com a renúncia à presidência do Senado em dezembro de 2007.

Renan é presença pública rara em Alagoas. Ausentou-se do evento que deu publicidade à aliança entre Collor e o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, em Palmeira dos Índios, em 14 de julho. Além disso, há concorrentes fortes às duas vagas do Senado, como Heloísa Helena (P-SOL), e o ex-governador Ronaldo Lessa (PDT), favoritos nas pesquisas. Renan vem em terceiro.
Collor, por sua vez, tem interesse em auxiliá-lo como retribuição à indicação à comissão do Senado e porque Renan é melhor articulador político. Embora em baixa no eleitorado, goza de muito prestígio entre os 102 prefeitos alagoanos, que veem nele canal direto e eficiente com Lula e os ministérios. Apenas do PAC, até 2010, em transporte, energia, irrigação, saneamento e habitação, serão cerca de R$ 3,5 bilhões em investimentos — 17 vezes o que o governo estadual pretende investir em 2009.

O trabalho é para que essa chapa Collor/governador e Renan/senador aglutine, além de PTB e PMDB, o PDT do ex-governador Ronaldo Lessa, PR, PCdoB, PV, PT, PMN, DEM, PTdoB, PRB, PSC e o PP, o que somaria mais de 80% dos municípios do Estado.

Considerado imprevisível em seu Estado, Collor, por ora, nega qualquer tentativa de retorno ao Executivo — federal ou estadual. Ríspido e monossilábico, não quis fazer prognósticos em conversa com o Valor, em seu gabinete em Brasília. Instado a avaliar cenários políticos de 2010, abusou de respostas como “não acho nada” e “não sei”. Solicitado a aprofundar alguma declaração, afirmou que já tinha respondido à questão. Alegou não ter pesquisas para traçar um perfil de seu eleitorado em Alagoas. Em relação ao fato de o Estado ser um dos recordistas em fraudes e assassinatos eleitorais, disse não ser “muito afeito” a esta agenda.

A cautela sobre o que fará em 2010 pode ser atribuída à existência de um obstáculo a ser contornado para que seu plano dê certo: Cícero Almeida (PP), prefeito de Maceió, reeleito em 2008 com 81,5% dos votos válidos. Nas pesquisas, é ele quem lidera a disputa com cerca de 30%, contra 25% de Collor e 4% de Vilela.

Dono de uma uma carreira política meteórica — foi vereador, deputado e prefeito em menos de dez anos — lembra Collor no apelo à religiosidade e Lula na habilidade para composições. No primeiro mandato, governou com partidos conservadores e investiu na infraestrutura tanto de áreas ricas quanto pobres. Foi criticado pela pouca ênfase na área social e no segundo mandato deu ao PT a secretaria da Educação e Assistência Social; ao PCdoB, a Fundação Municipal de Ação Cultural; e ao PDT, Governo e Economia Solidária.

Em seu gabinete, repleto de imagens de santos e de quadros em que aparece sorridente, Cícero, que costuma usar a terceira pessoa para falar sobre si, promete decidir se sai ou não candidato até dezembro. “Preciso ter os pés no chão, um grupo consolidado. Não sendo Collor o candidato, a gente tem a eleição ganha. Se a situação ficar dividida, tenho que pensar duas vezes”, afirma, propenso a ser o palanque da provável candidata do PT a presidente, Dilma Rousseff. “As pessoas gostam de olhar no olho e sentir confiança. E a ministra olhou nos olhos do prefeito Cícero Almeida e sentiu isso.” Resume algumas das razões de sua popularidade: “Tenho anos de trabalho como repórter policial no rádio, um programa de forró, sete CDs gravados, 40 composições. Todo mundo tem Cícero Almeida em casa.”

O possível racha do bloco idealizado por Renan e Collor também se baseia na força do PP, sigla que mais cresce no Estado, muito em razão dos recursos do Ministério das Cidades, comandado pelo ministro Márcio Fortes, da mesma legenda. Desde 2004, o partido passou de cinco prefeituras em Alagoas para 22, à frente do PMDB de Renan (19), do PTB de Collor (19) e do PSDB de Vilela (13).

Com 43 anos de vida pública, o presidente estadual da sigla, deputado federal Benedito de Lyra, ex-Arena, PDS, PFL e PTB, é uma espécie de mentor político do prefeito de Maceió. De antemão, avisa quais poderiam ser os termos de uma eventual coligação com Collor: “Sempre ajudei a eleger, nunca a governar. O que disse a ele foi que o projeto de 2010 não pode ser pessoal, mas de Alagoas”. Tem certeza de que os dois senadores estarão juntos em 2010: “Renan é o principal articulador dele. Para onde um for, o outro vai.”

O receio maior do PP é partir para uma concorrida disputa contra Collor ao governo e correr o risco de deixar a Prefeitura de Maceió, depois de um ano e três meses de mandato, nas mãos da vice Lourdinha Lyra (PRB), irmã de Thereza Collor e filha do usineiro João Lyra. Cícero e Lourdinha não confiam um no outro, apesar de o prefeito garantir que os desentendimentos fazem parte do passado. Outro problema é que Cícero foi indiciado pela PF na Operação Taturana, sob a acusação de ter contraído um empréstimo irregular quando era deputado, usando como garantia a verba de gabinete da Assembleia e o aval do Legislativo alagoano. Na semana retrasada, foi denunciado pelo coordenador do Movimento Nacional de Combate à Corrupção Eleitoral em Alagoas por enriquecimento ilícito e movimentação financeira fraudulenta. Para Cícero, tudo não passa de campanha difamatória, tendo em vista que lidera as pesquisas para o governo.

O provável principal adversário de Collor, governador Teotonio Vilela, tem assumido um discurso de composição com os cotados para enfrentá-lo. Por ora, é de que tanto Collor quanto Renan são bem vindos ao seu lado em 2010. “Nas duas únicas eleições em que não concorremos eu e Renan do mesmo lado, perdemos. Em 1990 não o apoiei ao governo, e em 1992 ele não me apoiou para prefeito. Pode ser coincidência, mas é fato”, disse.

Palanque tucano em 2010, Vilela é só elogios a Lula. “O presidente tem tido uma postura mais que republicana, solidária, amiga, conosco. Nunca me pediu nada em troca”, afirmou, às vésperas da terceira visita de Serra em menos de dois anos.

Atribui seu baixo índice nas pesquisas ao fato de suas ações ainda não terem aparecido à população. “É um trabalho de reconstrução de um Estado. Melhoramos a máquina administrativa, enxugamos o Estado”. Vilela afirma que avanços sociais serão notados em 2010. Cita como feitos saltos na habitação popular, no saneamento e na redução da mortalidade infantil.

Nos primeiros dois anos da gestão fez um ajuste fiscal para que o Estado recuperasse sua capacidade de endividamento, o que ocorreu apenas este ano. Foram tomados cerca de R$ 380 milhões junto ao Banco Mundial. Como contrapartida, o governo se comprometeu em consolidar o ajuste fiscal. Ocorre que esse ajuste afetou sua popularidade. Logo que assumiu, Vilela baixou decretos cancelando aumentos do funcionalismo público, concedidos no fim da gestão de seu antecessor, Ronaldo Lessa (PDT). Além de ser o estopim para o rompimento de Lessa com o governo que ajudara a eleger, o episódio serviu também para reavivar o movimento sindical no Estado, que estava fechado com Lessa. A partir daí, as greves não cessaram.

Os críticos apontam um governo solitário, centralizado na figura do governador, do seu secretário-chefe do Gabinete Civil, Alvaro Machado, e do seu secretário de Planejamento, Sérgio Moreira, que blindam Vilela do acesso aos aliados — hoje restritos ao PSB e ao PPS. Um retrato disso é que uma antiga aliada, a ex-prefeita de Arapiraca Célia Rocha, militante histórica do PSDB alagoano, rompeu com Vilela e foi levada por Collor ao PTB. Com alta popularidade em sua cidade, a segunda maior do Estado, deve conduzir o Agreste —um terço do eleitorado de Alagoas— a uma maciça votação em Collor. “Cara-pintada só apareceu com Collor, mas corrupção houve com todos os presidentes. E ele ainda foi inocentado depois”, afirma ela, pré-candidata a deputada federal, que completa: “Collor e Renan juntos são muitos fortes”.

Do grupo que o elegeu, Cleto Falcão é o único que vive em crise

Caio Junqueira, De Maceió, Valor Econômico, 30/08/2009

Do grupo político que levou o senador Fernando Collor de Mello (PTB-AL) à Presidência da República em 1989, o senador Renan Calheiros (PMDB-AL) é o mais bem sucedido dos sobreviventes.

Renan foi o primeiro líder do governo na Câmara, mas os dois se afastaram quando Collor optou por Geraldo Bulhões como candidato ao governo do Estado, em 1990. Dois anos depois, viria a revanche: Renan votou a favor do impeachment do presidente. Ficaram a maior parte do tempo afastados. Na eleição que selou o retorno de Collor aos mandatos eletivos, Renan não o ajudou. Foram os interesses de 2010 que os reaproximaram.

O interlocutor do governo Collor com os bancos na campanha de 89, Lafayette Coutinho, que veio a ser presidente da Caixa Econômica Federal e do Banco do Brasil, vive em um apartamento de altíssimo padrão em uma área nobre de São Paulo. Perto dali, presta consultorias na área financeira. Na época, era vice-presidente da Febraban. “Juntamos Bradesco, Itaú, Real, Econômico, Bamerindus, Nacional e Noroeste para fazer as doações. Ele tinha o discurso que queríamos: pró-mercado, era contra a hipertrofia do Estado, a favor da recuperação dos investimentos do Estado e combate à inflação”, diz.

Coutinho afirma que as maiores somas foram para a campanha de Collor, mas que também foram ajudados Guilherme Afif Domingos (PL), Paulo Maluf (PDS), Aureliano Chaves (PFL), Ronaldo Caiado (PSD) e Ulysses Guimarães (PMDB). Conta ainda que para Mário Covas (PSDB) foram doados US$ 500 mil, mas como ele não era unanimidade entre os banqueiros, decidiu-se liberar o dinheiro em parcelas semanais de U$ 100 mil, para que sua campanha não deslanchasse.

O jornalista Cláudio Humberto mantém relacionamento com Collor, embora não seja mais o grande conselheiro, como era na campanha de 1989. A sua coluna de notas políticas é uma das mais lidas do jornal de Collor, “Gazeta de Alagoas”.

Pedro Paulo Leoni Ramos, amigo de juventude em Brasília nos anos 60 e ex-secretário de Assuntos Estratégicos em seu governo, também permanece próximo e fala-se com Collor com frequência. Ele mora em São Paulo e atua na Globalbank Participações e Investimentos, empresa que faz investimentos no setor de infraestrutura, principalmente em pequenas centrais hidrelétricas.

Cleto Falcão, ex-líder do PRN na Câmara, rompido com Collor antes do impeachment, passa por dificuldades financeiras, em Maceió, desde sua derrota eleitoral em 1994. Assim como ele, outros protagonistas daquela campanha permanecem afastados de Collor.

Seu irmão, Leopoldo, um dos responsáveis pela campanha em São Paulo, mora na capital paulista, onde luta contra um câncer. Estão rompidos há anos. Em declarações à imprensa, afirmou que o irmão mantém contas bancárias no exterior, o que Collor nega.

O responsável pelas pesquisas que direcionaram o discurso e a campanha de Collor, Marcos Coimbra, continua presidente do Instituto Vox Populi, de Belo Horizonte, onde também vive seu pai, o ex-embaixador Marcos Coimbra, casado com a irmã mais velha de Collor, Leda.Secretário particular de Collor na Presidência, Cláudio Vieira tem um escritório de advocacia de pequeno porte, em Maceió. Fala com o senador constantemente e tem, no seu rol de clientes, a Organização Arnon de Mello, da família Collor.

Em Roteiro, Collor iguala-se a Lula

Caio Junqueira, De Roteiro, Valor Econômico, 02/09/2009

“Bem vindo ao Paraíso”. A placa, cravada de balas, faz referência à praia do Gunga, incluída em qualquer guia turístico como uma das mais bonitas do país. Está fincada no limite entre o asfalto da rodovia AL-420 e os 12km da estrada terra que chega ao município de Roteiro. Foi lá que, há 20 anos, Fernando Collor de Mello conseguiu 87,7% dos votos, proporcionalmente seu melhor desempenho no país.

Essa devoção a Collor, porém, trouxe pouco retorno para Roteiro. Menos de 0,1% das residências têm acesso a esgoto sanitário. Água encanada, só em 37,8% dos lares. Metade da população é analfabeta. A cidade também está no roteiro da violência do Estado. Os carros transitam em baixíssima velocidade pela acidentada estrada de terra e se tornam alvo fácil de assaltantes encapuzados, que param os veículos e tomam os pertences de seus passageiros. Ali Collor está no mesmo patamar de devoção do presidente Luiz Inácio Lula da Silva.

“Foi ótimo presidente, é trabalhador e honesto. É um rapaz vistoso e o povo fica tudo doido com ele. Fica doido também com o Lula. Eles são ótimos. Todos são bons, não tenho o que dizer desse povo”, diz Sebastião dos Santos, 59, sorveteiro. Sua avaliação coincide com a do músico Edvani Nascimento, 37 anos: “É um cara que sabe trabalhar. O tempo que ele passou presidente foi muito bom. Meu pai sempre falava que ele era legal. Desde pequeno escutando isso, ficou”.

O encantamento vem adicionado ao modo de falar, “elegante”, e a trajetória “em defesa dos pobres”. “Quando aparece um para trabalhar pela pobreza aparecem outros mil contra ele.
Collor é que nem o Lula. Só ricão pra ver se tira ele. Quando aparece um para trabalhar pela gente o rico quer que só trabalhe para ele”, diz o cortador-de-cana José Luciano da Silva, 35 anos, funcionário da usina Caetés e morador de uma simples casa com uma das melhores vistas da cidade, a laguna de Roteiro. “Collor saiu por causa dos poderosos. O povo apoia Collor, ele já mostrou serviço. Se fosse pelos pobres ele teria continuado. Quando veio, Roteiro fechou para olhar o homem. Prometeu muita coisa boa” disse.


Na campanha ao Senado em 2006, Collor chegou no helicóptero “288, o senador do povo” pela manhã, desceu a colina acompanhado da multidão e improvisou um palanque nas escadarias da igreja, de onde avistava a laguna de Roteiro e a imagem de padre Cícero, o “santo nordestino”, encrustrada a poucos metros do seu palanque. “Quando ele veio foi o maior assombro, uma euforia. As pessoas comentam até hoje. Foi um dia extraordinário”, afirma Alex, o padre da cidade.

“Ele é simpático, o jeito de se comunicar com as pessoas. Ele passou aqui, as pessoas aplaudindo, ele dava a mão, perguntava se tava tudo bem. Já teve gente que veio aqui e nem olhava para nós”, afirma Maria Antonia Silva, 50 anos, moradora da principal rua da cidade.Entre as promessas, está o asfaltamento da estrada de terra, que ainda não chegou nesses dois anos e meio de mandato no Senado, o que em nada mexe no imaginário do roteirense de que Collor é trabalhador.

“A pista aqui para Roteiro quem fez foi ele”, continua José Luciano, referindo-se à estrada de terra.O impeachment de Collor é considerado pela população uma perseguição política e, desse modo, uma injustiça cometida contra ele. “A desgraça do Collor foi o irmão dele. Ele foi o culpado. O irmão botou a fama nele e o pessoal acreditou. Porque o que se passa hoje no mundo e o que a gente vê na tevê é tudo muito pior e porque só ele teve que sair do cargo?”, afirma o aposentado Cícero Pedro dos Santos, 80 anos, “ex-tudo” segundo ele. Já cortou cana, já fez tijolo, já carpiu pasto, já plantou muda. “Não tenho muita lembrança de quando Collor foi presidente, mas foi um bom governador e presidente. Nunca me fez mal. É uma boa pessoa. Dentro do Brasil não teve presidente como Collor e Lula. Só trabalham contra a pobreza. A volta do Collor é boa para tudo”, acrescenta.

A merendeira da única escola da cidade, Nelci Sebastiana, 52 anos, lembra de sua saída da Presidência. “A saída foi ruim para ele e para as pessoas que amavam ele. Mas dez vezes que ele se candidatar eu voto nele. É o meu presidente. O dia em que ele veio aqui a gente andou na rua. Gosto do jeito dele de se expressar. Ano que vem voto nele pra governador e no Lula para presidente”, diz.Para Edvani, o músico, os acontecimentos que derrubaram Collor não tiveram sua participação. “O roubo que teve não foi culpa dele, foi do pessoal dele”.

Felipe Hermann, 20 anos, é uma das poucas vozes dissonantes. Filho de um pastor da Assembleia de Deus, figura entre os 343 moradores da cidade (7,2%) que completaram o ensino médio. Uma exceção frente aos 2.661 sem instrução (55,6%) e aos 1.745 que terminaram apenas o ensino fundamental (36,5%) no município. Ele interrompe a leitura do livro “Herança Sacerdotal”, escrito pelo pastor Rene Terra Nova e destinado a filhos de pastores. E critica Collor e seus eleitores.


“Para mim, Collor é um Hitler bonzinho, pela capacidade de persuasão que tem e pelo poder de suas palavras. Não sei o que o povo vê, é um feitiço, ele encanta as pessoas. É algo inexplicável. É um mito”, afirma.

Ele classifica de injustiça o que Collor fez com os alagoanos e os brasileiros. “Tantos alagoanos lá no poder e Alagoas nesse Estado. É mal de alagoano se iludir com pouca coisa e palavras bonitas. É como se tivesse ouvido tapado. A população é muito desinformada. Essa cidade vai continuar afundando na lama”. Collor voltou a Roteiro em 2008, para auxiliar na campanha de reeleição do prefeito Fábio Jatobá (PTB). “Quando disse que ele ia vir o povo morrer só faltou morrer”, afirma. Para ele, é difícil definir os motivos da força de Collor. “O que ele já passou, o que já sofreu na vida política dele faz com que ele seja o que é. É Collor. É Collor. É difícil de explicar. E não é porque ele é senador. Ele seria Collor, seria forte, mesmo se não tivesse o mandato”.

A presença de Collor na campanha acabou surtindo efeitos. Jatobá foi reeleito com 94,92% dos votos da cidade, um dos maiores percentuais do país. O desempenho se torna ainda mais aviltante ao levar em conta que ele exercera apenas um ano e meio de mandato. O motivo é que o prefeito anterior, Edvaldo dos Santos Ribeiro, foi assassinado junto com dois auxiliares em 2006, no crime que ficou conhecido como a “chacina de Roteiro”. Como a vítima já tinha assumido o cargo na condição de vice, uma vez que o prefeito eleito em 2004 renunciara ao cargo, houve novas eleições, conforme determina a lei.

O crime ocorreu na estrada de terra que leva a Roteiro. A mesma em que sua população é assaltada frequentemente, e que Collor, nas vezes que foi a cidade, não viu, vez que chegara de helicóptero. Restaram dois sobreviventes da chacina, que não viram os rostos dos encapuzados assassinos. O crime permanece impune. E Collor lá ainda reina soberano.

Fronteira agrícola ampliou margem da vitória

Caio Junqueira, De Maceió, Valor Econômico, 02/09/2009

Tocantins foi o Estado que proporcionalmente mais votos deu a Fernando Collor de Mello no segundo turno das eleições, em 17 de dezembro de 1989. Quatro outros Estados lhe deram votações superiores a 70% naquele primeiro turno: Roraima, Alagoas, Mato Grosso do Sul e Pará. Tirando seu Estado de origem, os demais têm em comum sua condição de fronteira agrícola, onde a população costuma ser muito sensível à exploração política do anticomunismo e da ameaça ao direito de propriedade, mote de Collor na reta final da campanha contra Luiz Inácio Lula da Silva (PT).

O professor da Pontifícia Universidade Católica (PUC) do Rio César Jacob divide o eleitorado de Collor naquele ano em três bastiões: do eleitor do interior do país, o dos evangélicos pentecostais dos grandes centros urbanos e parte do voto de opinião escolarizado das maiores cidades do país.No interior, aliada à força da vinculação de Luiz Inácio Lula da Silva ao comunismo, o domínio era dos então pefelistas (atual DEM), que fecharam desde o início questão pelo candidato do PRN.

“A direita marchou unida em torno do Collor. O candidato do PFL, Aureliano Chaves, foi abandonado desde o começo. Ulysses Guimarães (PMDB) também. Mas o apoio a Collor foi às escuras, porque Collor batia no presidente José Sarney, do PMDB. Era o que as pesquisas indicavam que ele deveria fazer”, diz Jacob. Os ataques a Sarney se justificavam em sua baixa popularidade.

Em setembro de 1989, o Datafolha divulgou uma pesquisa em que seu governo era considerado ruim ou péssimo por 68% dos entrevistados. A inflação mensal estava por volta dos 80%.Outro aspecto dessas eleições levantado por Jacob é o voto religioso da periferia. “A periferia metropolitana pobre, dominada por pastores evangélicos pentecostais, estava ao lado do Collor e trabalhou para que ele fosse o candidato. Isso explica porque ele teve força nessas regiões das capitais do país”, afirma o professor, que fez trabalhos analisando os resultados eleitorais em todas as eleições presidenciais desde 1989.

O terceiro fator foi o voto de opinião. Com um discurso liberal, moralizante e antigovernista, Collor conseguiu atingir parte da opinião pública escolarizada das grandes cidades, que se dividiu. “Nesses locais, Collor disputou com a esquerda, representada por Lula, Brizola e Covas, o voto de opinião”, diz Jacob.

As piores votações de Collor ocorreram, pela ordem, no Rio de Janeiro, Rio Grande do Sul, Distrito Federal, Pernambuco e Santa Catarina. Nos dois primeiros Estados, a baixa votação se deveu à força de Brizola, que levou seus eleitores para Lula. Santa Catarina era governado por um pemedebista histórico, Luiz Henrique da Silveira, ligado a Ulysses Guimarães. Pernambuco era o Estado natal de Lula e seu governador, Miguel Arraes, então no PMDB, trabalhou em favor do petista. No Distrito Federal, o movimento sindical do funcionalismo público federal era muito forte e ligado ao PT.

No Estado de São Paulo, Collor não mostrou força no primeiro turno, tendo em vista que muitos dos candidatos eram paulistas: Paulo Maluf (PDS), Ulysses Guimarães (PMDB), Guilherme Afif Domingos (PL), Mário Covas (PSDB) e Lula. No segundo turno, porém, o Estado se dividiu entre as duas candidaturas. Lula foi muito forte no ABC paulista, enquanto Collor ganhou no interior. Além do enfoque pelo lado do eleitor, o professor César Jacob aponta outros motivos, do ponto de vista do candidato, que o levaram a vitória.

“Collor introduz em sua campanha elementos até então desconhecidos. Com as pesquisas qualitativas, identifica a opinião média do eleitor para identificar os temas que deveria abordar. Fez também pesquisas de mídia para identificar a agenda dos veículos de comunicação. Passou a fazer o discurso competitivo em cima do que pensava o eleitor e os jornais.” (CJ)

27.8.09

Luta interna atravessa governos e fomenta crise na Receita
Caio Junqueira, De São Paulo, Valor Econômico, 27/08/2009

Uma luta interna por disputa de poder é o substrato da atual crise na Receita Federal, que se acirrou com a indicação de Jorge Rachid a secretário do órgão, em 2003. Desde então, o grupo daquela que viria a ser sua sucessora, Lina Maria Vieira, em sua maioria ligados ao PT, sempre atuou para derrubá-lo. Atribuíam sua ascensão profissional a vínculos com o governo Fernando Henrique Cardoso e acusavam funcionários de seu grupo de negociar com empresas alterações na legislação tributária.

Como as pressões sobre o então ministro da Fazenda, Antonio Palocci, não surtiam o efeito esperado, o grupo de Lina, cuja maior liderança é Paulo Gil Hock, ex-presidente do Sindicato Nacional dos Auditores Fiscais da Receita Federal do Brasil (Unafisco) entre 1999 e 2003, começou a se opor ao governo. Houve até adesões ao P-SOL. O grupo de Rachid, porém, fortaleceu-se com uma arrecadação em curva crescente desde 2003.

A primeira tentativa de assumir o poder veio com a criação da SuperReceita, patrocinada pelo então ministro da Previdência e atual secretário-executivo do Ministério da Fazenda, Nelson Machado. Para acalmar os descontentes, Machado ofereceu o comando da SuperReceita ao grupo de Paulo Gil. Palocci não aceitou e a luta interna continuou, entre defensores de um posicionamento mais agressivo contra grandes contribuintes e aqueles que defendiam uma atuação pulverizada entre todos tipos de contribuintes.

O primeiro sinal mais evidente dessa luta interna deu-se no Unafisco, em 2005. No ano anterior, o grupo do atual presidente da entidade, Paulo Delarue, desligou-se de Paulo Gil e disputou as eleições internas, mas acabou perdendo.

A queda de Palocci em maio do ano seguinte fez aumentar as pressões sobre Rachid. Lula nomeou Guido Mantega para o ministério, que deixou as questões da Receita mais a cargo de Nelson Machado, sobre quem as pressões passaram a ser exercidas. Ele acabou cedendo. Nos últimos meses de Rachid, Machado despachava pouco com ele. Preferia atuar com secretários-adjuntos da Receita.

Rachid, então, é demitido e em seu lugar Machado chama Lina, que conhecia das reuniões do Conselho Nacional de Política Fazendária (Confaz). A costura para o nome de Lina foi feita por Paulo Gil, junto com o ex-ministro José Dirceu e o presidente do PT, Ricardo Berzoini. Sem vinculações partidárias, Lina evitaria que essa ocupação petista ficasse evidente.

Com isso, os ânimos internos da categoria foram apaziguados. A posse de Lina entregou a Receita a um grupo forjado no movimento sindical com longo histórico de atuação contra grandes empresas, muitas vezes servindo até mesmo como fonte de informação para que políticos petistas, quando oposição, apresentassem denúncias.

Tomado o poder, passou-se a colocar em prática a estratégia de focar as autuações contra grandes contribuintes. Houve, porém, segundo auditores fiscais, erro de avaliação, pois são justamente as grandes empresas que podem pagar melhores advogados e barrar na via judicial ou administrativa a efetivação dessas autuações. "Fez muito barulho mas teve pouco resultado. A gestão anterior autuava menos os grandes contribuintes, mas era mais eficaz. O dinheiro entrava", disse uma fonte ao Valor.

Os números comprovam isso. De janeiro a julho de 2008, últimos meses da gestão Rachid, foram arrecadados R$ 407,16 bilhões. De janeiro a julho deste ano, a gestão Lina arrecadou R$ 380 bilhões (números atualizados pelo IPCA). Foi a primeira queda na arrecadação neste período durante os sete anos do governo Lula. Há que se relativizar os números, na medida em que a arrecadação de 2009 traz os efeitos da crise financeira internacional.

Mesmo assim, a diminuição na arrecadação embasou a saída de Lina, em julho. Teria sido um pedido da ministra-chefe da Casa Civil, Dilma Rousseff, a partir da avaliação de que a equipe de Lina não correspondeu às expectativas e não soube encontrar saídas para os efeitos da crise. Sentindo o risco de perder o cargo, iniciou uma tentativa de se cacifar. Foi aí que começaram a surgir casos de fiscalizações contra grandes empresas. O episódio em que foi revelado a mudança do regime contábil da Petrobras, que lhe permitiu compensar mais de R$ 1 bilhão em tributos federais, é o exemplo mais vistoso. Antes de cair, Lina teria ainda imposto autuações vultuosas à montadora Ford e ao banco Santander.

Não foi o suficiente para se manter no poder e Lina acabou caindo, sob a pecha de incapaz de manter o aumento na arrecadação mesmo diante da crise. O grupo de Paulo Gil tentou ainda fazer com que o governo indicasse o presidente do Ipea, Marcio Pochmann, e o economista Paulo Nogueira Batista. Os nomes foram recusados pelo governo. Otacílio Cartaxo, adjunto de Lina, ligado a ela pessoalmente por serem ambos do Rio Grande do Norte, não tinha atuação política sindical. Ele ficou como interino até ir depor no Congresso e fazer enfática defesa em favor do governo. Sua confirmação no cargo foi consequência disso, sob a condição de que trocasse a cúpula da Receita.

Até então, o grupo de Lina não tinha certeza de que também sairia. Com a confirmação de Cartaxo, sentiram que a saída era inevitável, o que se aconteceu na sexta-feira. Cartaxo realizou uma reunião com os três principais assessores dela, Alberto Amadei, Henrique Freitas e Marcelo Lettieri, e afirmou que teria que substituí-los. A partir daí, começou a circular a versão de que sua queda se deu devido a perda na luta contra "os poderosos", argumento difundido na carta dos demissionários, no início desta semana.

Derrotados no comando administrativo da Receita e no controle político do sindicato nas eleições da semana passada, o grupo de Lina vai esgrimir este argumento da "luta contra os poderosos" para resistir na luta interna da instituição. "Esse discurso veio muito ao encontro do que eles precisavam. De quem quer sair bem do cargo, como quem não tem apego", disse outra fonte ao Valor.

Além desse ponto, o grupo passou a trabalhar com outras reivindicações e reclamações da classe, como o atraso no encaminhamento de uma nova lei orgânica da Receita, a falta de contratação de procuradores fazendários para executar as autuações do fisco e o fim da remuneração variável, que permitia receber por quantidade de autuações efetuadas.”

25.8.09

Serra expande Sabesp em territórios aliados
Caio Junqueira, De Maceió, Valor Econômico, 14/08/2009

O governador de São Paulo, José Serra (PSDB), desembarca nesta tarde em Alagoas para ampliar a participação da Sabesp nos locais em que o tucano tem seus principais aliados políticos. Alagoas é o único Estado do Nordeste a ter um governador do PSDB, Teotônio Vilela Filho. Foi também onde o único em que Serra venceu o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) no primeiro e segundo turnos da eleição presidencial de 2002.No mesmo dia, o governador de Minas Gerais, Aécio Neves (PSDB), desembarca no Recife para uma série de reuniões políticas.

Depois de conceder entrevista à uma rádio popular da cidade, o governador e também pré-candidato à Presidência almoçará com lideranças do PSDB e de outros partidos de oposição no Estado. À tarde, vai se reunir com o prefeito de Jaboatão dos Guararapes, Elias Gomes (PSDB). Em seguida, terá um encontro com o governador Eduardo Campos (PSB). A agenda de Aécio é bastante distinta daquela cumprida por Serra em Pernambuco recentemente. No início de agosto, ele foi a Exu conhecer a cidade onde o compositor Luiz Gonzaga nasceu e fugiu de encontros políticos. Apenas o senador Sérgio Guerra, presidente nacional do PSDB, e o deputado federal Raul Henry (PMDB) o acompanharam.

Em Maceió, Serra participará de dois eventos relacionados a vitrines de seu mandato no Palácio dos Bandeirantes. Em um deles, manterá a essa estratégia de levar a Sabesp para o restante do país. Desta vez com a Companhia de Saneamento de Alagoas (Casal), na qual a autarquia paulista investirá R$ 20 milhões para reduzir as perdas que a companhia alagoana tem com vazamentos de água e ligações clandestinas. A média nacional de perdas é de 30%, enquanto em Alagoas chega a 50%.

Por meio da Sabesp, já assinou acordos de cooperação técnica com boa parte de seus aliados políticos no país. Isso ocorreu com a Companhia de Água e Esgotos da Paraíba, quando o Estado era governado por Cássio Cunha Lima (PSDB), afastado do cargo pela Justiça Eleitoral; com a Companhia Riograndense de Saneamento, da alçada da governadora Yeda Crusius (PSDB); a Companhia Catarinense de Águas e Saneamento, cujo governador Luiz Henrique da Silveira integra a ala do PMDB que faz oposição a Lula; e a Companhia Espírito Santense de Saneamento, cujo governador, Paulo Hartung (PMDB), mantém-se equidistante entre Serra e Lula. Com a Mato Grosso Companhia de Saneamento da Capital, de Cuiabá (MT), cujo prefeito reeleito em 2008, Wilson Santos, também é do PSDB, o acordo está para ser fechado.

Em outra cerimônia, entregará o prêmio da Nota Fiscal Alagoana, inspirado na Nota Fiscal Paulista, cujo objetivo é aumentar a arrecadação do Estado por meio da devolução de percentuais do ICMS efetivamente recolhido pelo estabelecimento a seus consumidores.Trata-se de um incentivo a que as pessoas, ao adquirirem mercadorias, exijam do estabelecimento comercial o documento fiscal. Serra também assinará acordo de investimentos de outra autarquia paulista, a Imprensa Oficial do Estado de São Paulo, com a Imprensa Oficial de Alagoas.

“Serra é um amigo de Alagoas. A população gosta dele”, afirma o governador de Alagoas, Teotonio Vilela (PSDB). Será a terceira vez em que Serra vem a Alagoas como governador. Em uma delas apenas fez breve caminhada pelo shopping Iguatemi. O Estado tem um dos menores colégios eleitorais do país, com 1,9 milhão de eleitores (1,5 % do total).

É o Estado também onde fica São José da Tapera,a 211km de Maceió, no sertão alagoano. O município foi considerado pela Organização das Nações Unidas (ONU), em 1991, o mais pobre do Brasil, com Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) comparável ao dos países mais miseráveis da África. Quando o presidente Fernando Henrique Cardoso foi eleito, em 1994, a primeira-dama Ruth Cardoso elegeu a cidade como a ponta de lança do bolsa-alimentação e símbolo do combate à mortalidade infantil. A taxa caiu de 147 mortos em cada 1000 crianças nascidas vivas, em 1996, para 18,2 em 2000, voltando a crescer a partir deste ano. Hoje esta taxa é de 37,7.

Vilela diz não acreditar que Serra venha a Alagoas por ser o único Estado tucano do Nordeste, região onde Lula alcança seus maiores índices de popularidade. “Serra tem um carinho especial pelo Estado pelas boas votações que já teve aqui”, afirma. “Ele está sem movimentando pelo país inteiro”, disse. Na segunda-feira, Serra esteve na Bahia, onde encontrou o candidato a governador, Paulo Souto (DEM), que já fechou aliança com o PSDB para 2010; e o governador Jaques Wagner (PT), que tentará se reeleger. Com o petista, Serra assinou acordo tributário.
PTB busca alternativa para desembarcar do governismo em 2010
Caio Junqueira, Valor Econômico, 10/08/2009


Dono da principal Pasta do partido no governo Lula, Múcio espera ser indicado para uma vaga no Tribunal de Contas da União. A nomeação tiraria o único nome da legenda da Esplanada e principal apoiador do governo federal dentro da legenda. Simultaneamente, abriria espaço para que o restante do PTB apoie o candidato da oposição em 2010. Se ele não for o nomeado, a legenda se manteria no governo ainda por alguns meses, embora seja grande a probabilidade de que o próprio Múcio, ressentido, deixe o governo.

Hoje, a chance de que a nomeação não ocorra é grande e deve levar às outras correntes do partido a aderir, juntas, à candidatura oposicionista em 2010. O PTB é dividido em três forças, cada uma com cerca de um terço do partido: o ex-deputado federal e presidente nacional da sigla, Roberto Jefferson (RJ), uns dos protagonistas do escândalo do mensalão que acabou tendo seu mandato cassado pela Câmara; Campos Machado (SP), deputado estadual desde 1990 e o mais votado das Assembleias do país em 2006; e o chamado "PTB do Nordeste", que tem em Múcio sua principal liderança, além do ex-presidente da República e atual senador Fernando Collor (AL), trazido à legenda em 2006 por Jefferson. Dos atuais sete senadores petebistas, três são do Nordeste, ao passo que dos vinte deputados federais, sete são nordestinos.

Os grupos de Jefferson e Campos tendem a ser oposição na campanha presidencial em 2010, ao contrário do de Múcio, que pretende embarcar na candidatura da ministra da Casa Civil, Dilma Roussef. Para Jefferson, porém, o xadrez político de 2010 está completamente indefinido. Antipetista, diz acreditar que um cenário em que prevaleça entre os tucanos a candidatura do governador de Minas Gerais, Aécio Neves, sobre o de São Paulo, José Serra (PSDB), seja mais agregador. "Para conciliar o país o candidato teria que ser o Aécio. Ele sintetiza o pós-Lula. Até o PMDB, se Aécio se lançar, não vai de Dilma. Com Aécio, a campanha seria mais tranquila, mais serena. Ele não é o candidato do confronto contra o Lula como é o Serra", afirma.

Ele afirma haver risco na estratégia de Lula de tentar consolidar Dilma como candidata. "Foi muito precoce o lançamento da Dilma e isso leva a uma grande exposição do presidente. Por exemplo, dizer que quem está contra o Bolsa Família é um imbecil quando muitos que estavam com ele não estão mais justamente devido ao Bolsa Família é um grande risco", diz. Também aposta que por enquanto há uma proteção de Lula em relação a Dilma e que a ministra pode ser prejudicada quando tiver de encarar a campanha sozinha. "Ele está muito exposto e a Dilma também está muito exposta. Por enquanto tem essa proteção do Lula, mas a hora em que ela estiver sozinha na campanha pode complicar, pelo pavio curto".

Além disso, dentro de um quadro de imprevisões para 2010, Jefferson avalia danos a Dilma com a aventada candidatura da ex-ministra do meio Ambiente, Marina Silva (PT), pelo PV. "A Marina é um torpedo na Dilma". Ele também diz acreditar que o deputado federal Antonio Palocci (PT-SP) não está fora do jogo para a disputa presidencial pelo PT.

"Você veja que em qualquer espaço que abra um cargo o Lula cogita a hipótese de Palocci ocupá-la. Em todo lugar tem espaço para o Palocci. Além disso, a classe empresarial paulista que detém o poder real no país prefere o Palocci a Dilma. Palocci está no jogo."

Um outro fator que pode alterar o jogo interno no PTB é a candidatura à reeleição de Romeu Tuma (SP) ao Senado. Sua mudança de partido há dois anos, do DEM (então PFL) para o PTB, impulsionada por Campos Machado, teve como uma de suas condicionantes a candidatura à reeleição.

O partido no Estado de São Paulo é aliado do PSDB, mas são muitos os candidatos para as duas vagas existentes na chapa que deve ter Geraldo Alckmin como candidato ao Palácio dos Bandeirantes. Além de Tuma, há quatro tucanos (o presidente estadual do PSDB, deputado federal Mendes Thame; o líder do partido na Câmara, José Aníbal; o vereador em São Paulo, Gabriel Chalita; e o secretário paulista de Educação, Paulo Renato Souza) e um pemedebista, Orestes Quércia.

Se Tuma não for candidato, o partido pode debandar para uma candidatura adversária em São Paulo, hipótese reforçada se o deputado federal Ciro Gomes (PSB-CE) for o candidato a governador no Estado, dentro de uma aliança com PT, PDT, PSB e PCdoB. Campos Machado é amigo de Ciro de longa data.

Mesmo com a indefinição que deve se arrastar até 2010, Tuma aproveitou o recesso parlamentar para fazer campanha pelo interior, contando com a grande capilaridade que o partido tem no Estado, um atrativo a mais e tão importante quanto o tempo de televisão. A legenda é a que mais cresce no Estado. O número de filiados (277,6 mil) se aproxima do PT (314,5 mil) e já passou o PSDB (230,2 mil), mediante um sistema de metas de filiações estruturada pelo seu presidente estadual, Campos Machado.

A capilaridade do PTB no Estado é tamanha que sua estrutura alcança todos os 645 municípios paulistas. Até o fim do ano serão inaugurados 25 escritórios regionais. Desde 2008, já foram formados onze departamentos partidários segmentados para setores da sociedade, como afrodescendentes, mulheres, inter-religioso e sindical. "Não tenho a menor dúvida de que Tuma será candidato à reeleição. O partido que caminha para ser o mais forte do Estado não pode ficar sem candidato", afirma Campos Machado.

Egresso da política nas mãos do ex-presidente Jânio Quadros, que, segundo ele, afirmou que Campos Machado fora "o filho que não teve", a estrutura que o deputado estadual arma no partido visa resultados eleitorais efetivos nas eleições de 2012 e 2014, quando o partido não deve mais acompanhar o PSDB em São Paulo. "Deixaremos de entrar como vagão nas eleições dentro de três anos", afirma Campos, que foi candidato a vice de Alckmin em 2008 e 2000 para a Prefeitura de São Paulo.

A intenção é de que a partir de São Paulo o PTB deixe de ser coadjuvante, fato que tem feito com que, nacionalmente, o partido perca cadeiras tanto no Legislativo como no Executivo. Atualmente, os principais nomes que ocupam cadeiras no Executivo são os prefeitos de Manaus (AM), Amazonino Mendes, e de Belém, Duciomar Costa (PA). Entretanto, nenhum dos 27 governadores é filiado ao partido.

30.7.09

Força vai com PSDB se Aécio for candidato

Caio Junqueira Valor Econômico De Praia Grande (SP)

Unido pela primeira vez na reeleição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, o movimento sindical pode voltar a se dividir em 2010 caso o governador de Minas Gerais, Aécio Neves, seja o escolhido pelo PSDB para disputar a Presidência da República. Nesse caso, a Força Sindical, segunda maior entidade do setor no país, apoiaria o mineiro, enquanto a Central Única dos Trabalhadores (CUT), estaria ao lado da candidata do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, a ministra da Casa Civil, Dilma Rousseff.

Para o presidente da Força, deputado federal Paulo Pereira da Silva (PDT-SP), é grande a chance de que isso ocorra. “A Dilma está subindo muito antes da hora e o [José] Serra [governador de São Paulo que disputa com Aécio a indicação do PSDB à candidatura à Presidência], caindo. Se o Serra continuar caindo muito, ele vai desistir da disputa e o Aécio pode acabar vir a ser o candidato do PSDB, com o nosso apoio”, disse ao Valor, depois da cerimônia que abriu o 6 Congresso da agremiação, em Praia Grande, litoral sul paulista.

Prestigiaram o evento os ministros José Pimentel (Previdência), Carlos Lupi (Trabalho) e Luiz Dulci (Secretaria Geral), os deputados federais paulistas Márcio França (PSB), José Aníbal (PSDB) e José Genoino (PT). Segundo Paulinho, a assessoria do Palácio dos Bandeirantes telefonou a ele dizendo que Serra não viria nem mandaria representantes. Aécio chegou a sobrevoar a cidade, mas o mau tempo não permitiu que a aeronave pousasse.

O ex-governador Geraldo Alckmin (PSDB), atual secretário de Desenvolvimento de Serra, estava confirmado no evento até a véspera, mas acabou não vindo. Alckmin, ao contrário de Serra, tem bom relacionamento com o movimento sindical paulista e Paulinho da Força costuma apoiá-lo em eleições.

Para Melquíades Araújo, vice-presidente da Força e filiado ao PSDB, a ausência do governador pode prejudicar seus interesses políticos. “Não existe social-democracia sem o movimento sindical. Esse está sendo o pecado do Serra: não está abraçando o movimento sindical nem mesmo dentro do próprio partido”, afirmou. “O PSDB tem sido contra todos os projetos que nos interessam, tem feito oposição ao governo federal e também a nós”.

O líder do PSDB na Câmara, José Aníbal, compôs a Mesa que abriu o congresso e se colocou a favor da redução da jornada. Aníbal é pré-candidato do PSDB ao Senado e atua como uma das pontes do governador mineiro junto à bancada tucana.

No caso de Serra ser o candidato do PSDB, as duas maiores centrais sindicais brasileiras devem repetir a união ocorrida em 2006 e ficar ao lado de Dilma contra o governador paulista. No entanto, essa posição pode não ser unânime. A entidade não fecha questão sobre seus apoios políticos e libera seus integrantes para apoiar quem quiserem.

Nas últimas eleições presidenciais, por exemplo, químicos, gráficos aposentados, parte dos comerciários e a direção nacional da central apoiaram Lula, enquanto o setor paulista de alimentação e parte dos metalúrgicos ficaram com Alckmin.

Dirigentes da Força avaliam que houve avanços para os trabalhadores no governo Lula, o que deve fazer com que a maioria da entidade apoie Dilma. São citados a efetivação de uma política de valorização do salário mínimo e o reconhecimento das centrais sindicais. Isso acabou por levar as duas centrais para o mesmo espectro político-ideológico.

“O Fórum Nacional do Trabalho criado a partir de 2003 pôs na mesa todas as centrais sindicais e patronais. Isso uniu as principais centrais em torno das bandeiras e afastou as diferenças partidárias que elas tinham”, afirma Sérgio Leite, primeiro-secretário nacional da Força.A divisão da Força no caso de uma candidatura Aécio a presidente pode acontecer também em alguns Estados.

É o caso de São Paulo, na eventualidade de o deputado federal Ciro Gomes (PSB-CE) ser candidato ao Palácio dos Bandeirantes. Ciro tem bom trânsito junto à Força. Paulinho foi seu candidato a vice na disputa presidencial de 2002. Em São Paulo, a entidade se dividiria entre Ciro e Alckmin.

Por outro lado, nesse cenário, a CUT estaria com Ciro, por entender que ele seria o candidato de Lula, numa coligação que envolvesse PT, PCdoB, PDT e PSB. No Paraná, a Força está praticamente fechada com o governador Roberto Requião (PMDB). No Rio Grande do Sul, a Força tem retirado o apoio que deu à governadora Yeda Crusius (PSDB).

Enquanto as convenções partidárias previstas para o primeiro semestre de 2010 não chegam, a Força mapeia politicamente seus próprios filiados e os parlamentares. Duas pesquisas estão sendo preparadas e serão peça-chave no quadro de apoios em 2010.

Uma delas será um mapa com o posicionamento de todos os parlamentares sobre a principal reivindicação da classe atualmente, a redução da jornada salarial para 40 horas. A outra é sobre o perfil político dos seus 4 mil delegados, que representam mais de 10 milhões de trabalhadores dos 1,2 mil sindicatos associados.

Na única pesquisa do gênero feita em 1991, 60% dos integrantes da Força eram simpáticos ao PT.A central determinou que todos os sindicatos do país se reúnam com os deputados federais que atuem em suas regiões para pressionar pela votação.“Ano que vem é época de eleição e num primeiro mandato estou recomendando a não ir a Brasília diretamente esculhambar os parlamentares. É preciso convencê-los da proposta. Aí sim, se eles não votarem em nós poderemos esculhambar eles”, disse Paulinho, no seu discurso.Além da redução da jornada, as outras bandeiras que vão entrar na negociação do apoio político em 2010 são a nova fórmula do salário mínimo, atrelada ao crescimento do PIB e da inflação; o aumento real das aposentadorias, a ratificação das convenções da Organização Internacional do Trabalho 158 (legislação que prevê garantias contra demissões imotivadas) e 151 (legislação sobre direitos de negociação coletiva).
Quércia trabalha para evitar que convenção nacional do PMDB apoie PT

Caio Junqueira Valor Econômico De Sorocaba 29/07/2009

“Fui eu quem aproximou o presidente Lula do PMDB”. O ex-governador de São Paulo Orestes Quércia (PMDB) não esconde os motivos de seu rompimento com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva que o levariam a se reaproximar de José Serra (PSDB) e transformá-lo no principal aliado do atual governador paulista no PMDB. “Não gostei da idéia de ministério de PMDB dividido entre outros partidos. E também me decepcionei com o presidente”.

O afastamento de Quércia do Planalto coincidiu com a influência crescente no governo de pemedebistas que haviam sido aliados do PSDB, como o atual presidente da Câmara, Michel Temer (SP), e o senador Renan Calheiros (AL). Quem fez a ponte para a reaproximação foi o secretário da Casa Civil, Aloysio Nunes Ferreira.

A aliança foi selada com a entrada do PMDB quercista na chapa à reeleição do prefeito Gilberto Kassab (DEM) e o compromisso tucano em garantir a Quércia uma das duas vagas ao Senado. Aos 70 anos, Quércia está em franca campanha para tentar voltar ao primeiro time da política nacional.

Mas depende 100% da definição tucana. “Minha candidatura só existe se existir uma candidatura Serra”.Quércia integra o núcleo da pré-campanha serrista à Presidência, composto ainda pelo prefeito de São Paulo, Gilberto Kassab (DEM), Aloysio Nunes Ferreira, o vice-governador Alberto Goldman, o ex-presidente do DEM, Jorge Bornhausen, o presidente nacional do PSDB, senador Sérgio Guerra (PE) e o presidente nacional do PPS, Roberto Freire.

Este grupo já se reuniu duas vezes este ano na casa de Kassab para tratar da campanha de Serra em 2010. A preocupação mais imediata deles é viabilizar as alianças estaduais que garantam o palanque presidencial de Serra.

A principal meta do grupo é consolidar o PMDB como aliado nos Estados e, quando isso não for possível, ao menos conseguir que a legenda não apóie a provável candidatura da ministra da Casa Civil, Dilma Roussef (PT), na sua convenção nacional do próximo ano.Quércia duvida que Lula abrigue Temer na chapa de Dilma, mas reconhece que travará uma grande batalha para evitar que a convenção referende a composição se o convite lulista for feito.

Como em todas as convenções pemedebistas, a de 2010 também promete controvérsias. Em 2006, o PMDB enfrentou uma batalha jurídica para decidir se teria a candidatura própria ou não. Convenções foram adiadas, candidaturas lançadas, retiradas e relançadas, insultos, rachas e até a greve do fome do pré-candidato Anthony Garotinho.

Quércia e seu grupo estão seguros de que, apesar da postulação de Temer, o PMDB, em São Paulo, vai de Serra. Aposta que terá o apoio também em Estados em que o PMDB e PT são rivais de longa data, como Rio Grande do Sul, Santa Catarina, Goiás e Pernambuco, noutros em que se ensaia uma composição, como Paraná e Mato Grosso do Sul, e até onde o partido almeja vôo solo, como a Bahia.

Outra aposta do ex-governador se dá sobre os delegados que votam na convenção. “O PMDB que vota não é o PMDB do governo federal. A maioria é ligada ao MDB, tem história no partido e não crê na aliança com Lula como melhor caminho para o partido”, diz.Na tarde chuvosa de sábado em Sorocaba, ele discursava no plenário da Câmara Municipal para uma platéia de 150 pessoas.

“Esse partido hoje é muito dividido em nível nacional. Aqui em São Paulo temos uma posição. Discordamos do sentimento de grande parte do diretório nacional que apóia o governo Lula. Nossa proposta é apoiar Serra presidente e termos candidato ao Senado, que poderei ser eu.”

Era mais um encontro do PMDB paulista, o quinto dos dezoito programados pelo diretório para divulgar a candidatura Quércia ao Senado e ouvir as bases municipais daquele que um dia foi o partido onipresente no Estado, mas cuja identificação hoje se vale mais de ex-funções do que de poder. Algo constatado pela presença de alguns que acompanharam Quércia na mesa do evento: um vereador há onze mandatos de um município vizinho, um-ex-líder do governo, um ex-presidente da Câmara de Sorocaba.

A nostalgia é recorrente nos discursos dos que se oferecem para subir no púlpito do salão. Frases como “Gostaria que o PMDB voltasse a ser o PMDB de antes”, “Infelizmente o nosso partido aqui quase parou”, “Não quero mais trabalhar para outro partido em eleição”, “É momento do PMDB ressurgir das dificuldades”, “O diretório hoje caminha capengando” e “A gente tem que bancar do próprio bolso” apontam que tempos melhores já existiram.

E a solução posta para que voltem é Orestes Quércia. Pelo menos para eles.Apartados na política nacional, Quércia e Temer têm um acordo. Os quercistas comandarão o diretório estadual até as próximas eleições internas, quando passa o bastão para o deputado estadual Jorge Caruso, do grupo de Temer.

O ex-governador também tem sofrido pressão das bancadas legislativas em Brasília e em São Paulo, por exemplo, que ao longo dos anos viu seu número de integrantes diminuir gradativamente. Em 1994, após oito anos do PMDB no Palácio dos Bandeirantes, foram eleitos 14 deputados federais e vinte e três estaduais. Em 2006, após doze anos com os tucanos no poder, foram eleitos três federais e quatro estaduais.

Quércia, por sua vez, tem muito apoio nos mais tradicionalistas que, ao lado dele, compartilharam a hegemonia pemedebista no Estado. São eles hoje que criticam Sarney. “Como explicar, eticamente falando, que o partido tenha um Pedro Simon em uma ponta e Sarney em outra?”, questionou um desses em Sorocaba.

É justamente essa rejeição a Sarney outra aposta dos quercistas, que acreditam que as sucessivas denúncias afastam ainda mais o interesse o “MDB histórico” de Lula.Ainda que essa conjuntura do PMDB possa ameaçar sua candidatura, a avaliação é de que se trata de uma ameaça de pequeno porte. Embora possa causar algum constrangimento caso Temer seja o vice de Dilma, dificilmente Quércia desistiria. Encontraria respaldo no estilo Temer de evitar confrontos. Ameaça maior é a candidatura do senador Romeu Tuma à reeleição. Em São Paulo, o PTB integra a base de Serra e já firmou compromisso com os tucanos de apoiá-los nas eleições de 2010, condicionando isso à candidatura Tuma ao Senado.

Nesse cenário, as duas vagas ao Senado da chapa de Serra têm pelo menos seis candidatos: Quércia, Tuma, e quatro tucanos: o presidente estadual do PSDB, deputado federal Mendes Thame; o líder do partido na Câmara, José Aníbal; o vereador em São Paulo, Gabriel Chalita; e o secretário paulista de Educação, Paulo Renato de Souza. Em seu partido, Serra tem preferência por Paulo Renato, mas os acordos com o PMDB e com o PTB no Estado podem comprometer sua escolha.

28.7.09

PSDB-SP avalia prévias para a escolha dos candidatos ao governo e ao Senado

Caio Junqueira De São Paulo Valor Econômico 21/07/2009

A exemplo do que deve ocorrer com os governadores de Minas, Aécio Neves, e de São Paulo, José Serra, o PSDB avalia transferir a solução encontrada para a existência de dois candidatos a presidente em 2010 também para a sucessão no Estado de São Paulo: as prévias partidárias.

A hipótese começa a ganhar força e é tida como melhor saída para que os dois pretendentes ao cargo, o secretário da Casa Civil, Aloysio Nunes Ferreira, e o secretário de Desenvolvimento, Geraldo Alckmin, não façam com que o partido entre em mais uma eleição paulista dividido. Assim como a disputa em plano nacional, os principais defensores da ideia são aqueles que estão com o mais baixo índice de intenção de voto.

No caso, tucanos ligados a Aloysio, que na última pesquisa Datafolha marcou 2% das intenções de voto, no melhor dos cenários. Fica atrás de Antonio Palocci (PT), Luiza Erundina (PSB), Paulo Maluf (PP) e Soninha (PPS). Alckmin atinge mais de 50%.A fórmula por ora que prevalece é de que votem os 4.004 delegados estaduais do partido distribuídos entre os 645 municípios.

Também se avalia a possibilidade de um processo interno eleitoral que restrinja a disputa entre os 105 integrantes do diretório estadual, composto em sua maioria por detentores de cargos eletivos nos planos federal e estadual.Nesse universo, os correligionários de Aloysio dizem que ele venceria uma eventual disputa interna, embalado pela liberação de recursos para deputados estaduais e prefeitos.

O secretário tem percorrido o interior paulista para participar de encontros com lideranças municipais e regionais, nas quais ouve as reivindicações e trabalha para consegui-las. Seu reduto eleitoral é a região de São José do Rio Preto (440 km a noroeste do Estado), uma das mais populosas do Estado, mas sua atuação na Casa Civil tem feito com que ganhe apoio em outras regiões do Estado.

Afastado do comando do governo estadual desde 2006, Alckmin tem nos altos índices das pesquisa sua principal força para ser escolhido candidato. Rivaliza esse apoio popular com os recursos financeiros que Aloysio tem utilizado para se movimentar pelo interior.

Além disso, é um tucano de origem, fundador do PSDB e que praticamente formou o partido no Estado no início dos anos 90. Aloysio é um ex-pemedebista muito ligado a Orestes Quércia, cujo grupo foi reconduzido ao núcleo do poder estadual pelas mãos de Serra. O reduto alckmista mais forte é no Vale do Paraíba, região de Pindamonhangaba (145 km a Nordeste de São Paulo) onde iniciou sua carreira política. Politicamente, a Pasta que ocupa no governo Serra —Desenvolvimento — limita sua atuação no Estado basicamente à definição de políticas de educação superior, técnica e tecnológica. Contra ele pesam ainda recentes embates internos no partido, para ser escolhido candidato a presidente em 2006 e a prefeito de São Paulo em 2008.

Ambos os episódios geraram rachas no partido. Os prós e contras de ambos são suficientes para que dirigentes do partido não especulem sobre quais seriam as chances reais de vitória de cada um deles. O que não falta é bombardeio interno. Para um lado, Aloysio não é tucano de origem (ele se filiou ao partido no final dos anos 90) e só tem apoio pela força do cargo. Para o outro lado, Alckmin é um neo-serrista que passou por cima do governador nas duas últimas eleições. Com esse cenário, as prévias paulistas só acontecerão se Serra não encontrar uma solução que agrade aos dois candidatos.

Embora tenha preferência por Aloysio, o governador paulista imagina que Alckmin partindo de 50% seja imbatível e não lhe traria problemas no Estado que seu partido comanda desde 1995. A disputa entre os dois é impulsionada pelo fato de o indicado ter grandes chances de ser eleito. O governo paulista está presente, diretamente ou com seus aliados, em cerca de 550 dos 645 municípios paulistas. O partido dá a eleição como ganha. Acha que o PT vai entrar apenas para construir o nome de alguém para as eleições seguintes. E que a possibilidade de o deputado federal Ciro Gomes (PSB-CE) entrar na disputa é o sinal mais claro da falta de opção da oposição e do receio de um péssimo desempenho nas urnas.

A possibilidade de prévias também atinge os candidatos ao Senado. O partido tem quatro nomes em jogo: o presidente estadual do PSDB, deputado federal Mendes Thame; o líder do partido na Câmara, José Aníbal; o vereador em São Paulo, Gabriel Chalita; e o secretário de Educação, Paulo Renato de Souza. Serra tem preferência por Paulo Renato, embora o ex-ministro da Educação não tenha tanta exposição eleitoral quanto Aníbal e Mendes Thame. Chalita é considerado alckmista ferrenho. E, segundo tucanos paulistas, se o grupo de Alckmin não levar a candidatura ao governo ficará com o Senado.

A outra vaga para o Senado está reservada a Quércia. Foi esta a condição do acordo feito em 2008 pelo qual o PMDB apoiaria Gilberto Kassab (DEM).As duas prévias em discussão, porém, não são a única preocupação do governador no cenário eleitoral de 2010 no Estado. Serra tem manifestado apreensão sobre a composição da chapa das eleições proporcionais, que escolherão os deputados federais e estaduais.

O governador quer uma chapa com puxadores de voto. Sem a presença de aventureiros, portanto. Com isso, pretende que o PSDB e seu aliado DEM elejam o maior número possível de parlamentares para a bancada federal que possa dar sustentação a um eventual mandato tucano na Presidência da República. Em 2006, os tucanos elegeram 17 dos 80 deputados paulistas. O DEM elegeu três.Em razão disso, na semana que vem dirigentes estaduais do partido irão se reunir para começar a definir a distribuição de candidatos pelo Estado. A meta é evitar que mais de um candidato dispute a mesma região.

Assim, cada um teria uma faixa de cerca de 330 mil eleitores que seriam o público-alvo de cada um.O partido também conversará sobre as intervenções já feitas este ano em 73 diretórios municipais paulistas em que os tucanos não obtiveram bom desempenho eleitoral em 2008, como Ubatuba, São Caetano, Barretos, Itú, Matão e Mogi-Guaçu. Nesses municípios, as lideranças estaduais —como deputados e coordenadores regionais— indicarão nomes para compor uma comissão provisória, que será responsável pela revitalização local do partido.