14.7.05

Aos corvos

Caio

Em Ilíada , de Homero, o prenúncio da vinda dos corvos revela o ânimo forte desses corvídeos ansiosos por destruição do que caminha para a morte, ou do já morto ("Corvos virão lacerar-te as tenras carnes, aos bandos, batendo, ruidosos, as asas"). No Brasil atual, da dinherama das malas e das cuecas, os corvos se fazem mais do que presentes. Há dois tipos. Os que estão dentro da estrutura do poder, explorando a carne de um Estado podre e viciado, e os que estão fora do comando, apreciando com escárnio toda a sujeira.

Os primeiros, dito aparelhadores, formaram-se neste governo sob o comando do Zé. Era a turma do Zé, previamente estruturada em seu partido desde sua ascenção á presidência da sigla, em 1995. Mais do que a fome de poder, a necessidade transcendental de mantê-la aos moldes de como fora instaurada na legenda _e que deu certo, já que foi reeleito por duas vezes_ poderia ,por que não, ser facilmente aplicada na Casa Civil. E o foi. Sua atuação em ambas as esferas foram semelhantes. Estrutura-se, coloca-se "gente sua" nos principais postos, articula-se ao seu gosto e ponto. Para que investir na organização e na mobilização da sociedade civil para viabilizar o projeto de poder do partido quando o caminho mais fácil é pelas facilitações do poder, que podem ser divididas sem qualquer compromisso com ideologia, como, aliás, sempre foi feito no país. Zé e sua turma são os principais culpados do desmoronamento do governo petista. Acharam que corromper pelas suas causas era diferente de corromper em causa própria. Ignoraram que a corrupção pública, aquela que não visa o enriquecimento prório, chega até a ser pior que a privada, vez que esvazia as instituições e sobrepõe um poder ao outro, no caso, o Executivo sobre o Legislativo. Um erro de estratégia do ex-brilhante oponente do regime militar. Lula também deu grandes contribuições para o enfraquecimento de seu governo. Como falta espaço para listá-la e aqui não é o principal tema, fico com apenas seu hábito herdado do sindicalismo de ouvir, ouvir, demorar, demorar e nada, ou muito pouco, resolver. Faltam-lhe muitas vezes a energia, o raciocínio rápido e a sensibilidade política necessária para um comandante do país, já que, em política, a demora em tomar decisões pode agravar situações.

Mas voltemos ao Zé e a sua estrutura. Se ela ruiu, o governo federal treme, mas ainda se segura. Ao menos por enquanto. Lula tentará, daqui para a frente, desligar-se publicamente do partido enquanto aguarda, ineternamente, que ex-ministros tentem salvar a agremiação, aproximando-se do governo. Na prática, os dois querem se aproximar. Mas um, Lula, não o pode fazer de forma tão explicita, já que o PT hoje está manchado na opinião pública. Ele consegue seguir presidente sem a legenda que fundou, mas sabe que em 2006 precisará dela para se candidatar. E, como ela precisará estar firme e forte, ainda que recauchutada, para o que promete ser uma das campanhas mais polarizadas da história, deslocou seus ministros para a operação-resgate.
Isso tudo, claro, se as denúncias não chegarem ao presidente. Como todo o esquema foi montado e coordenado no mesmo prédio em que Lula trabalha, é mal-visto, aos olhos da população, pensar que o presidente não sabia de nada. Dá ares de leniência, desleixo, ingenuidade ou, pior, participação. É ele quem governa mesmo? O que salva o presidente é sua trajetória e seu simbolismo, que faz com que até mesmo a oposição tema qualquer envolvimento seu. Seria frustrante demais para a população descobrir qualquer relação do presidente com as denúncias. Ademais, nas ruas, o resultado disso é imprevisível, mas também prejudicial aos setores direita. O afastamento de Lula antes das eleições de 2006 dará, no entendimento popular, ares de golpe e possibilidade de uma convulsão social, já que se trata ali _e aqui falo do Lula pré-poder_ de um símbolo da ascensão do pobre, do miserável, ao poder, subvertendo toda a lógica da história brasileira. Afastar Lula é perigoso. Daí porque, como já anunciado pelo presidente do PFL, Jorge Bornhausen, seria melhor condená-lo a ser candidato, para perder nas urnas. Se o presidente tem ou não culpa, as investigações e, principalmente, a quebra de sigilo telefônico do Zé deverá mostrar. Resta esperar.

Ocorre que os outros tipos de corvos _aqueles que não comandam o país_ assistem a todo o lamaçal do camarote, comendo pipoca e gargalhando, torcendo para que a dinâmica das denúncias seja mantida, fazendo a lógica do quanto pior, melhor. Padecem de um sentimento que julgam ter, mas que passa longe deles. O de brasilianidade. Não é nada satisfatório ou divertido ver o que acontece hoje no país. O eventual fracasso da estrela vermelha que subiu ao poder é também o fracasso das práticas que esses mesmos setores sempre fizeram quando comandaram o país. Ao atacar o fisiologismo, o conchavo petista, a máquina burocrática partidária de produzir votos e abafar ideologias, atacam a si mesmo, afinal, implementaram o esquema lá atrás e sempre assim o mantiveram. Claro que a vingança na política é um fator crucial nessa alternância de poder. Se petistas exageraram ao pedir o Fora FHC em 1999, se fizeram muitas vezes a oposição cega, se se julgaram os únicos detentores da ética e da moralidade pública, hoje a fatura chegou. É a vez da revanche. Da mesma maneira que os própios petistas já tiveram a sua em 1992, quando foram implacáveis contra Collor, que os derrotara três anos antes.

Porém, acompanhar o Brasil em frangalhos e gostar disso é falta de sensatez. Não partidarizo a crítica. A torcida contra se revela em diversos setores da sociedade civil. Mostra egoísmo, uma vez que a vida desses setores, de muito pouco vai mudar com um PT ou um PSDB ou qualquer outro partido no governo. Tem suas casas, suas piscinas, plano de saúde privado, os filhos estudam em escolas particulares e tentam ir uma vez por ano ao exterior. Definitivamente, não é a essas pessoas que o país tem de ter as prioridades de suas políticas. Não que devam ser excluídas, mas não é muito imaginar que milhões de pessoas ainda aqui vivam sem quaisquer condições de saneamento, para ficar em um item apenas. Por isso falta civismo em torcer para que um governo de esquerda dê certo. Falta civismo torcer para que qualquer governo não dê certo. Falta também a percepção de notar que esse país só vai melhorar quando for mais justo, mais inclusivo.
E falta informação. Lula não apareceu nesta semana como ainda imbatível nas eleições de 2006 à toa. A pesquisa revela que , mesmo com as denúncias, o sentimento popular de de que "são todos iguais" persiste, reforçado com a descoberta de um bispo-deputado-pefelista com R$ 10 milhões em malas, ou com a relação de Marcos Valério com tucanos mineiros, o que faz com que mantenham a confiança em Lula, "gente como nós". Além disso, mostra que o discurso oposicionista de que o governo parou, se não é errado, é falho. Nenhum governo se interrompe automaticamente com denúncias. Nenhum governo faz só o que os jornais publicam, qualquer que seja o governo. As escolas não param com denúncias, CPI´s não interrompem distribuição de Bolsa-Família, depoimento de testemunhas não pára o porto de Santos. Enfim, país nenhum se interrompe com crise política. O que pára, sim, é o Congresso. Mas vá lá, convenhamos, esse nunca gostou de trabalhar mesmo.

Não sou muito afeito a pesquisas e comparações, pois são relativos, ainda mais quando jogados em épocas diferentes. Mas, apenas para exemplificar, um estudo da revista Inteligência deste trimestre, a melhor revista menos conhecida do Brasil, compara 100 indicadores de desempenho econômico, social e produtivo entre os primeiros biênios das gestões FHC e o primeiro biênio da gestão Lula mostra que, na média geral, o desempenho dos dois primeiros anos do PT é superior aos dois primeiros anos de FHC em 64 dos indicadores. Isso revela que é falsa a tese de que o país está sem governo. Para eventual análise de algum leitor, o estudo está disponível pela internet (http://www.insightnet.com.br/inteligencia/pdf/29/cap01.pdf e http://www.insightnet.com.br/inteligencia/pdf/29/anexo.pdf).

Lula tenta salvar seu governo. Eliminou José Dirceu, mentor do estruturamento que montou. Aproximou-se de figuras apartidárias, como o ministro Márcio Thomas Bastos (Justiça). Encaminhou boa parte de seus ministros ao Congresso, de volta aos seus mandatos e empenhados em formar a tropa de choque do governo em uma das maiores crises da República. Tentarão impor seu trabalho à turminha do PT na Câmara, por sinal, fraquíssima. Não dá, de fato, para confiar a defesa do Planalto em gente fraca politicamente, deslumbrada e despreparada como José Mentor e Professor Luizinho, entre outros. Também mandou um dos seus melhores ministros, Tarso Genro (Educação), para a presidência do PT. Tem de travar a luta contra os corvos de dentro de seu governo e de seu partido, e os de fora, que adoram a crise, apesar de entenderem muito dela.

30.6.05

A solução passa por Minas

Caio

Em se tratando de política, a própria biologia em si é dos seus fatores mais importantes. A idéia de que ninguém, nem nada, é para sempre, nos fornece a constante esperança de que precisamos ter para nos certificarmos que mudanças, se não virão de imediato, poderão vir. Na administração pública, as práticas convivem com as idéias, com a diferença de que as idéias não morrem, mas as práticas sim, uma vez que, para sustentá-las, precisa-se de um ator que as concretize. As idéias não. Ficam ali, boas ou más, à espera de alguém para colocá-las em prática. Em suma, a prática pressupõe a idéia, mas a idéia não pressupõe a prática.

Nesta semana, mais uma vez veio à tona a discussão de uma união entre o PT e o PSDB, os dois principais partidos do país que há anos travam uma luta acirrada, mais pelo poder do que por idéias. Não foi a primeira vez que integrantes da assim chamada nova geração tucana, que tem como figura maior o governador mineiro Aécio Neves, sugeriu, ainda que de forma embrionária, uma aliança entre os dois partidos, ao afirmar que seu partido “está de mãos estendidas” a Lula para ajudá-lo a sair da pior crise política brasileira dos últimos anos.

O gesto, de imediato, causou reações. Mas não na jovem guarda de ambos os partidos e sim na velha geração, já com o acúmulo de todas as rusgas entre ambos os partidos. O pomposo Fernando Henrique, do alto de seu pedestal de presunção e orgulho, desde logo tratou de murchar Aécio e suas pretensões mineiras, diria, conciliadoras. Mesmo tratamento teve o ex-ministro-aparelhador-de-Estado José Dirceu ao prefeito de Belo Horizonte, Fernando Pimentel (PT), quando, no ano passado, mencionou que não havia diferenças entre PT e PSDB senão o projeto de poder.

Aécio e Pimentel tiveram um episódio recente de boas maneiras políticas. Em março deste ano, o governador buscou o apoio do prefeito para a defesa dos seus interesses na reforma tributária, em especial as mudanças no sistema das compensações da isenção de ICMS nas exportações. "O prefeito Fernando Pimentel tem um papel muito importante aí", afirmou.

Hoje, o governo federal se divide quanto ao tema. Basicamente não-petistas, como os ministros Aldo Rebelo (Articulação Política) e Márcio Thomaz Bastos (Justiça) defendem a idéia da aproximação. Assim como Antonio Palocci (Fazenda), para quem divergir seria se auto-atestar possuidor de grande hipocrisia, já que funciona como um Pedro Malan barbado com sotaque caipira. Já a cúpula do partido representada no Planalto, como Olívio Dutra (Cidades), rejeita o pacto. O mesmo para o PSDB. A geração do prefeito de São Paulo, José Serra, do secretário paulista da Casa Civil, Arnaldo Madeira, também a rejeitam. Frise-se que o bonzinho Alckmin o faz mais por interesse político do que pela convicção de que a aproximação não é viável. Mas por que expor isso, se logo posso ser presidente?

O que simboliza os dois jovens mineiros é uma esperança de que a renovação dos dois maiores partidos que hoje se lascam em farpas nem sempre bem fundamentadas possa, em um horizonte não muito longe, tornar a vivência entre ambos algo que não signifique mais disputas envolvendo egos e os melhores cargos, mas governabilidade e defesa dos interesses do país.

PT e PSDB tiveram origens na luta comum pela redemocratização do país. Em 1989, nas primeiras eleições presidenciais da Nova República, o então candidato tucano derrotado no primeiro turno, Mário Covas, subiu ao palanque de Lula no segundo turno para apóia-lo contra o desastre Collor (ícone da elite da época, mas deixa isso pra lá). A partir daí, no que poderia ter sido um movimento conjunto de construção de um projeto de país, transformou-se na ocupação do espaço do jogo eleitoral deixado pelo PMDB, que, aos poucos, foi se esfacelando.

Travam, desde então, disputas de sangue, o que não se justifica, visto que possuem congruências passíveis, senão da divisão do poder, de um apoio recíproco à governabilidade. Poderiam deixar as diferenças conceituais para os eleitores escolherem qual dos dois deve permanecer. Apenas como exemplo, se essa aproximação fosse hoje. O que se defenderia em conjunto seriam as reformas política e tributária, já que não há muitas divergências entre ambos sobre esses assuntos. Assim, para o bem do país, que sejam aprovadas.
E, naquilo em que há diferença substancial, no caso a política externa defendida por ambos (petistas querem ampliar contato com países pobres enquanto tucanos preferem se manter fortalecidos com americanos e europeus), joga-se a decisão para a população, que, nas eleições, ao escolher entre um ou outro, roga a um deles o direito de a executar conforme escolheu a maioria.

O que separa o PT do PSDB não é definitivo. As diferenças entre ambos se mostram em alguns aspectos pontuais, em outros locais, e em um ou outro fator, ideológico. Os mineiros Pimentel e Aécio sabem disso. E com a força da biologia em envelhecer e fazer passar as pessoas que impedem que novas idéias coloquem para trás velhas práticas, não é muito sugerir que um melhor país vai passar pelo caminho que, ainda de maneira tímida, começam a passar por Minas.

23.6.05

Contra-ataque

Caio Junqueira

A crise política por que passa o país suscitou, como necessário, um movimento de defesa dos envolvidos, organizado em várias frentes. O governo tenta implementar uma agenda positiva com a proposta de arrocho fiscal, deixando claro que deseja aproveitar o excesso de arrecadação para apoiar o esforço fiscal e, com isso, reduzir a necessidade de elevar os impopulares juros para conter a inflação.

Para tanto, como para a medida ser aprovada é necessário o difícil trâmite nas duas casas Legislativas, com a aprovação de 2/3 dos parlamentares em dois turnos, o Planalto ataca com a reforma ministerial para ampliar o espaço do PMDB no governo e evitar problemas na votação, que, por si só, será difícil em meio a tantas CPIs instauradas e em fase de instauração. Evita também que o governo se torne refém da oposição nessas comissões, que, apesar de controladas por pessoas ligadas a ele, enfrentará o forte desejo de tucanos e pefelistas de que tudo seja investigado e cabeças sejam cortadas, ainda mais quando se fala em minar o maior adversário político a pouco mais de um ano das eleições.

O PT, por outro lado, escolhe como estratégia a união dos integrantes do partido, sempre dividido por suas diversas tendências, e o retorno a suas bases por meio do apoio dos movimentos sociais, principalmente da CUT e do MST. Porém, esse apoio parece mais ligado à cúpula dessas entidades, estritamente vinculadas ao alto escalão do governo federal, do que às massas em si.

Isso porque é difícil crer que todos os cinco milhões de filiados da CUT e as centenas de milhares dos sem-terra apóiam incondicionalmente Lula e sua política econômica ortodoxa e continuísta, que acabou por prejudica-los, ou, pelo menos, mantê-los na mesma situação que combina desemprego, baixos salários e desrespeito às leis trabalhistas. Ou seja, há um abismo na situação de vida da militância e da cúpula que, em tese, deveria defender sua classe.

Só um aparte a quem pensa que um regime de metas de inflação e manutenção de superávit funciona. Dá certo sim, só que para quem sempre deu certo. Quando empresários estão muito satisfeitos com o governo dito de esquerda é porque algo está errado e a história, está sim, está certa, vez que mantida..

No entanto, essa defesa dos movimentos sociais (ou pelo menos de suas cúpulas) é compreensível. É evidente que Luiz Marinho e João Pedro Stedile são contrários à política econômica tucana de Palocci, mas mais evidente ainda é que sabem que uma desestabilização e enfraquecimento de Lula para as próximas eleições deixariam as classes menos favorecidas incertas quanto a quem poderia substitui-lo como liderança, uma vez que essa pessoa, ao menos a médio prazo, não existe. Pensam, então, que antes um Lula aliado à direita do que um Fernando Henrique contrário à esquerda. Contraditório, visto que economicamente têm gestões similares. Mas a questão aqui acaba sendo mais de confiança, história e relações pessoais do que a qualquer outro fator. O PT tenta, assim, se fortalecer e exercer um estranho papel de oposição sendo situação. Aplicará nesta crise a experiência dos anos em que bravatava contra qualquer cheiro de inidoneidade. Mas hoje, sendo governo, fica em uma situação no mínimo estranha para o olhar popular. Como ser ambos ao mesmo tempo? E como fazer isso com a classe de quem soube ser oposição e atacar o que hoje no poder estabelece tão bem? Falar em golpismo das elites remonta a um PT-raiz que soa ridículo, se não cômico, além de ser uma fuga aos pontos reais de toda a celeuma.

Tudo bem que sempre foi muito claro que parte da chamada grande mídia, em especial a “Veja”, em defesa do liberalismo-tucanês que abertamente defende não perde qualquer oportunidade para golpear o partido, o presidente e seus integrantes. Mas todas as acusações vêm, antes da imprensa, de um inimigo que até há pouco era amigo. Nada fora criado. Veio dessa gente que o PT escolheu para dormir junto. Agora, precisa saber lidar muito bem com as contradições que seu governo e seu partido caíram, sob pena de experimentar a sua maior derrota política e ser eternamente lembrado como a maior ilusão da história do Brasil.

16.6.05

A frustração venceu a esperança

Caio Junqueira


Com a lama que a cada dia se espalha mais por Brasília, já é possível afirmar que o todas as esperanças da esquerda brasileira na eleição do primeiro governo progressista do país se definham numa velocidade assustadora, intensificada sobremaneira com as últimas denúncias de corrupção.

Esse processo de descrédito com as forças que sempre apoiaram Lula e o Partido dos Trabalhadores e sonhavam com a chegada ao poder se iniciou, todavia, antes da vitória nas eleições, com a Carta ao Povo Brasileiro. Nela, o PT buscou a confiança daqueles que sempre foram seu alvo: as tradicionais forças que sempre comandaram o país, representadas, por exemplo, no mercado financeiro e nos empresários.

Com o apoio de todos e com a saturação do governo Fernando Henrique Cardoso entre os eleitores, a vitória foi fácil. Afinal, tinha-se ali a consolidação de uma ampla aliança para eleger Lula. Da direita, firmada no afastamento de qualquer crise pós-início de gestão, no respeito ao cumprimento de contratos e também no fato de que, órfã de um candidato forte, deveria se render àquele que havia 13 anos tentava ser presidente. E da esquerda, que, apesar de assustada com a troca de afagos do então candidato com as forças que historicamente lutaram contra, apoiou sua maior liderança desde Luis Carlos Prestes. Era, enfim, a possibilidade de consumação da esquerda no poder, com seus anseios de justiça social no segundo país mais desigual do planeta.

Ocorre que foi essa aliança entre o que não pode andar junto, _no caso, sonhos de mudança da esquerda com sonhos de permanência da direita_ feita no processo eleitoral de 2002, que desenhou características de seu governo que hoje colaboram para sua derrocada: o dualismo, a esquizofrenia, o anacronismo. É um governo que quer agradar o agronegócio e o MST, que defende a taxa de juros alta e um alto crescimento do PIB, o desenvolvimento de políticas sociais e a retração de recursos nessa área. Tudo ao mesmo tempo, comos e isso fosse possível.

Assim, a trupe petista levou a técnica de juntar extremos ideológicos e programáticos aprendida na disputa eleitoral para o seu governo, esquecendo-se de que promessas podem ser feitas a qualquer um, mas realizações de administração pública, essas sim, precisam de unidade e coerência no decorrer do mandato.

Se não bastasse essas deturpações gerenciais, o governo Lula arrastou ainda adentro de sua gestão técnicas da direita histórica decorrentes também das alianças, costuradas principalmente após o início de seu governo.
Receoso da minoria no Congresso e de uma eventual incapacidade de aprovar as matérias que enviasse, a cúpula governista preferiu rasgar as concepções éticas contra a qual sempre lutou e se juntou a gente da pior espécie, como o outrora collorido Roberto Jefferson, que agora afunda sem se querer sozinho. Manteve-se a barganha, o toma lá dá cá, o balcão de negócios.

Hoje, falar que xerifes petistas como os ministros Palocci e Dirceu, velhacos da política do partidão, foram ingênuos ao montarem a estratégia das relações Planalto-Congresso-aliados é elogio. Foram, sim, além de traidores, ruins de serviço e agora a fatura começa a chegar. Tudo com o aval de Lula, que, para ser eleito, renunciou desde o primeiro momento a muitas das exigências esquerdistas de seu partido.

Traição a conteúdos partidários tem seu preço e a pena, quem sabe, não seja uma boa derrota eleitoral e, antes disso, uma desconstrução diária, aos olhos do mundo, de um governo que se dizia divisor de águas na história brasileira.

Justiça seja feita, o PT que está aí não representa todo o partido, mas apenas o chamado Campo Majoritário, ninho das "estrelas" do partido. Por isso, simplesmente criticar o partido aleatoriamente é de todo equivocado. É generalizar, e, quem generaliza, peca. O partido passará pelo PED (Processo de Eleições Diretas) neste ano, que irá renovar a direção partidária em todos os diretórios do país. Para enfrentar o patético José Genoino, seis candidatos defendem mudanças nos rumos do governo, a criação de um projeto estratégico para o país, o reencantamento da militância e a recondução do partido às suas bases. Ainda há esperança. Mas creio que não com esse PT que está no poder.

A Câmara (do prefeito) de Bebedouro

Caio Junqueira

A atual legislatura da Câmara Municipal de Bebedouro tem seguido a tradição do restante dos Legislativos municipais e estaduais do país e funcionado como uma Casa sem autonomia e independência, interessada mais em trabalhar pelos interesses do Poder Executivo do que procurar soluções ou mesmo propostas interessantes para os problemas da cidade.
Dos 39 projetos de lei aprovados até o último dia 9, 35 eram do Executivo, dois de vereadores e dois da Mesa Diretora da Casa (e tratavam, claro, de assuntos de interesse da casa, como a abertura de crédito suplementar e a incorporação de abonos aos vencimentos de seus funcionários). Assim, apenas dois projetos de vereadores foram aprovados até aquela data. Um deles, não era de interesse especificamente dos seus cidadãos, mas dos bichinhos da cidade, já que proibiu a produção e comercialização de alçapões, visgueiras, arapucas e afins. O outro, menos mal, declarou de utilidade pública uma casa assistencial.

A inércia da vereança continua ao vermos os projetos de lei que deram entrada na Câmara. Foram 55, sendo 38 da prefeitura. Dos 17 restantes, 2 são de vereadores da oposição e 15 da situação. Em um primeiro momento, passados quase cinco meses de mandato, a conclusão imediata é de que a prefeitura passa como um trator pela Câmara, já que possui maioria na Casa (oito dos dez vereadores estão com o prefeito). Por essa ótica, não era de se imaginar o contrário, uma vez que assim funciona o falho sistema político brasileiro: têm-se as eleições e, se o chefe do Executivo é eleito com maioria do Legislativo, governa-se com facilidade, caso contrário, terá dificuldades.

Porém, seria muito simplista, muito brasileiro, ver o fato com esses cômodos olhos. Afinal, vereador é eleito e pago por eleitores para por eles trabalharem, e não somente para o prefeito eleito. Se assim não o fosse, poderiam ambos trabalharem no mesmo prédio e despacharem mais perto do seu chefe.

Mais do que isso, essa conduta desrespeita centenas de eleitores da cidade que votaram no vereador que se elegeu mas não no prefeito que ganhou o pleito e, dessa forma, não quer ver seu vereador tão dependente e tratando com tanto zêlo tudo o que vem da prefeitura. O prefeito foi eleito pela maioria, mas deve governar para todos, e como sua atuação, pelo menos constitucionalmente falando, dever ser intercalada com a Câmara, esta, assim como ele, também deve cuidar da minoria que preferiu outros candidatos (ou mesmo o voto nulo, cujo índice foi altíssimo na cidade).

Além da submissão situacionista, o trabalho (ou não) legislativo até agora também nos permite concluir que a oposição está apagada na Casa e tem tido dificuldades em obter resultados concretos dos discursos que faz.
Afora esse quadro, o que se nota nos projetos de lei apresentados não é de todo fraco. Estímulo à doação de sangue, isenção da cobrança de taxas nos concursos municipais para doadores de sangue, cassação de alvará das instituições que fizerem apologia à prostituição infanto-juvenil são iniciativas de alto nível e que aguardam na Câmara sua colocação em pauta.

Outros, porém, são específicos demais, como o que quer obrigar supermercados a disponibilizar terminais de leitura ótica por código de barra; desnecessários demais, como o que visa incluir o quesito "cor" nos formulários de informações utilizados no sistema municipal de saúde; ou, como não poderia deixar de ter, pitorescos demais, como a proibição do comércio de arapucas (como se a mera canetada fosse impedir a prática). Há, portanto, criatividade demais e efeitos práticos de menos.

Uma mera atenção maior ao que passa no resto do país seria de bom grado e a população agradeceria. Por exemplo, a Câmara de São Paulo aprovou um projeto que determina maior participação da população nas decisões sobre a cidade, por meio da instituição instrumentos de consulta popular. Outra iniciativa que tem crescido, ainda que sensivelmente, em algumas Câmaras no país, é o fim dos salários dos vereadores e a transformação de suas funções em cargos honoríficos. A idéia é louvável, uma vez que os recursos poupados com o fim da folha de pagamento destes vereadores seriam destinados a áreas e serviços mais importantes para a comunidade. Ademais, sem remuneração é possível que aumente o número de candidatos que queiram o cargo mais por interesse público do que por interesse no salário. Nos Estados Unidos, por exemplo, desde os anos 40 vereadores de cidades com até 200 mil habitantes não recebem salários. No Brasil, há o caso Campinas do Sul (RS), que, no ano passado, por unanimidade, aprovou um projeto que acabou com os salários dos nove vereadores a partir das últimas eleições. Com a medida, o município passou a economizar R$ 700 mil, o equivalente a 3% do Orçamento municipal.

É certo que não é apenas com a contabilidade dos projetos de lei apresentados que deve ser analisada a postura e a conduta da Câmara, que também deve envolver outras atividades, como debates e contato com os eleitores. Mas também é certo que projetos de lei são o cerne do exercício da atividade, o meio pelo qual podem ser concretizadas as mudanças na sociedade local. Muitas são as maneiras de se legislar de maneira inteligente e independente. Resta esperar. Ou a percepção popular de que a política é um assunto sério demais para se deixar com os políticos será reforçada.

Penúria pública, ostentação privada

Caio Junqueira

Na produção alemã Edukators, três jovens _os "educadores" do título_ invadem mansões em Berlim, desarrumam todos os imóveis, empilham poltronas, arremessam sofás na piscina, jogam porcelanas no vaso sanitários, colocam a televisão na geladeira. Não roubam nada e tampouco agridem a alguém. Deixam apenas dentro de um envelope recados como: "Seus dias de fartura estão contados".

Tentam, evidentemente de maneira figurativa, dar aos abastados da sociedade em que vivem a educação e sensibilidade social _aqui subentendida como consciência_ que, ou não receberam, ou receberam e não absorveram ou, pior, pensam que receberam e que agem conforme o que imaginam ter aprendido, mas, como é de se concluir, seguem tocando suas vidas pensando em si mesmos.

Uma das características que mais marcam a sociedade moderna é o individualismo. Seja em Bebedouro, Berlim ou São Paulo, as pessoas somos cada vez mais egoístas e vivemos focalizando as atenções de nossas vidas e nosso bolso, chegando, no máximo, a se preocupar também com nossos pais, irmãos e filhos. O resto, dane-se. Se forem pobres, danem-se mais ainda.

Em um país como o Brasil, a tremenda diferença entre classes sociais exacerba essa prática individualista e gera uma apologia do ego, na medida em que uma pessoa rica passa a ter muito mais valor e ser respeitada na sociedade, ainda que seja o pior dos canalhas e tenha enriquecido com práticas pouco heterodoxas, que é, convenhamos, o que se vê por aí.

Assim, de um lado fica a riqueza aos montes, em fatias grandes, acumuladas muitas vezes como que por acaso, em um lance de dados, às custas, também muitas vezes, das pessoas incultas e analfabetas. Com eles, claro, os seguidores, que como fiéis escudeiros os seguem e limpam suas babas.

Do outro lado, homens de grande reputação por seu saber, seu mérito e sua inteligência, são tirados do caminho para dar passagem aos "influentes", que graças a golpes desaforados, atrevidos e petulantes, conseguem gritar insistentemente aos ouvidos dos condutores do país, dos Estados e das cidades.

Cai-se, assim, num círculo horrendo de burrice, na qual se valoriza mais a exaltação do tenho-uso-posso-esbanjo-mando do que as cabeças que pensam saídas para a construção de um país sem tanta discrepância e sem essa estimação equivocada das coisas.

Claro, mas claro que não é errado e nem é preciso sentir culpa por nascer "privilegiado". O errado sim é pensar que a beleza da vida está no berço de ouro em que nasceu, conquistou ou roubou.
Quando se imagina que o acesso cada vez maior à informação _outra das características da sociedade moderna_ possa inverter esse quadro e abrir a consciência de quem, em conseqüência desse processo, posiciona-se nessa condição diferenciada de poder ter acesso à cultura, o que se vê é, para nossa tristeza, é justamente a continuidade e até um superdimensionamento desse estado.

As pessoas que hoje podem acessar a livre, boa e consciente informação se abastecem mais com o que justamente corrobora esse processo. Estão mais interessadas na informação frívola, superficial, mexericos da sociedade, pedaços de histórias, pedaços de reportagens, pedaços de escândalos, pedaços de anedotas, pedaços de estatísticas, pedaços de bobagens.

Conseguem, afinal, viver em um mundo em que 90% das pessoas passam fome e os outros 10% comem tanto que têm de fazer dieta e só conseguem ser felizes à base de Prozac. Precisam, enfim, dos edukators para lhes mostrar que a ostentação de sua ignorância é que é pública, e a penúria de suas consciências, essa sim, são-lhes privadíssimas.

13.5.05

Caminhos da América latina

Caio Junqueira

Os recentes acontecimentos em boa parte dos países latino-americanos permitem constatar que algo diferente e positivo vem acontecendo nesta parte do continente: a espontânea participação popular na deposição de governantes, independentemente da eventual boa situação econômica por que passe e também do apoio da elite dos países a esses processos.

Vamos a alguns exemplos. Na Nicarágua, a população, apoiada por 96 dos 152 prefeitos do país, pede a renúncia do presidente Enrique Bolanos. Motivo? A alta do preço das passagens de ônibus. Dois anos atrás, o então presidente da Bolívia, Sanchez de Lozada, foi expulso após um levante popular contra a sua política acerca de uma das principais economias do país, o gás. Basicamente, a população temia que futuros rendimentos originados pela exploração de produto não fossem revertidos para ajudar os pobres. A situação se agravou com o atual presidente, Carlos Mesa, que, pressionado sobre o mesmo assunto neste ano, chegou a apresentar carta de renúncia, mas recuou.

Evidentemente a revolta popular atinge também os supostos corruptos. Mesmo que a economia vá bem. No Equador, Lucio Gutierrez foi deposto depois de ter se livrado do processo de impeachment no Congresso e a Corte Suprema tê-lo absolvido das acusações de corrupção, isso mesmo com o país tendo tido crescimento econômico de 6,6 % e a menor taxa de inflação das últimas três décadas. Já no Peru, Alexandre Toledo é suspeito de falsificar assinaturas para obter o registro do partido que o elegeu. Seu governo, no entanto, apresentou taxas de crescimento econômico superiores a 4% nos últimos anos.

A leitura que se deve fazer desses, por que não, fenômenos sociais, é simples, direta e objetiva. Cansados de seus governos terem seguido à risca o Consenso de Washington, a agenda neoliberal, com a perda de poderes regulatórios para o capital privado, a perda de recursos financeiros para a aplicação em programas sociais (já que há metas econômicas a serem cumpridas e essas devem ser sobrepostas a, por exemplo, construção de hospitais) esses povos, finalmente, começam a se perguntar: E nós? O que podemos fazer se a economia vai bem e o povo vai mal ou, pior, se a economia nem vai tão bem assim mas a fixação pelos ditames do FMI e pelos elogios dos analistas econômicos cegam governantes afoitos pela histórica submissão às regras que vêm de fora?

O maior problema da receita econômica pré-pronta a nós apresentada nos últimos 15 anos não é propriamente o que ela diz, mas a inércia em buscar alternativas. Ao que parece, não há mais a necessidade de divulgar o pacto neoliberal, visto que ele já faz parte da realidade. É comum, normal e mecânico e se revoltar contra ele é ser louco ou atrasado.

Mas o que esses movimentos populares estão passando é justamente que o atrasado ou o louco é quem se adapta a esse pacto sem se ater aos resultados sociais que ele, conforme as promessas iniciais, iria apresentar.
Isso inicialmente ocorreu na Argentina, que sentiu, no final dos anos 90, que todo o crescimento econômico e glamour da dolarização cambial do início da década passada era balela. Veio a revolta, a crise política e hoje sim os argentinos têm um governo decente, autor de uma acertada readequação econômica firme e independente de regras internacionais financeiras. Além dos argentinos, outro país que se afastou do modelo neoliberal imposto foi a Venezuela, mas este é um caso específico, já que mistura economia com ideologia.

Hugo Chávez é, sem dúvida, o maior líder da esquerda latino-americana. Faz do seu discurso um ataque permanente ao grande idealizador do neoliberalismo, os Estados Unidos. Tem, todavia, a sorte de comandar um país com a quinta maior produção de petróleo do planeta, o que lhe permite abusar de sua verborragia sem que, ao menos a curto a prazo, haja uma represália econômica, já que, petróleo, todo mundo quer e todo mundo precisa.

Apesar de sua proposta de sistema econômico ainda ser obscura, uma vez que sinaliza para um modelo que reúna ganhos sociais com fluxo de capital privado, o fenômeno chavista começa a assustar os Estados Unidos pela contundência e força que tem no seu país. Nesta semana, o instituto Datanalisis revelou que 70,5% dos venezuelanos apóiam seu presidente. Um número excelente, em se considerando que ele governa o país há cerca de seis anos.

Fora do país, o chavismo começa a entrar nas facções políticas como símbolo de resistência, o que preocupa não só os Estados Unidos, mas os grandes grupos econômicos, em especial os de comunicação. No Brasil, não é segredo a ninguém a campanha que a Veja e O Estado de S. Paulo fazem para amenizar esse efeito, ao menos nas classes média e alta.

Chávez tem sim muitas credenciais de um mau político. É populista, demagogo, militar e exarcebadamente assistencialista. Porém, para entender o que ocorre na Venezuela e na América Latina é preciso recorrer às raízes históricas de um continente imerso em pobreza, dominação e exploração, onde o bolo, com seus rompantes de crescimento, nunca chegou a ser efetivamente dividido.

Ao que parece, a tradicional soberania do capital que sempre reinou nesta parte da América começa a se esvair e a fragilizar governos, em prol, quem sabe, de uma guinada do social. Na visão da secretária de Estado dos EUA, Condoleezza Rice, essa "instabilidade" ocorre porque muitos desses países são "democraticamente frágeis". Na realidade, fragilidade para ela siginifica desobediência ao estabelecido por Washington. Lula, nesse sentido, não comandaria um país frágil. Seu governo continua refém do capital e apartado da economia popular e das necessidades populares. Resta saber se essa não-fragilidade aos olhos norte-americanos será respaldada nas urnas no próximo ano.

24.4.05

Quando o totalitarista Vaticano escolhe uma estratégia

Caio Junqueira

É preciso enxergar o Vaticano não apenas como um lugar sagrado, ainda que possa sê-lo, ou um lugar em que todo mundo é bonzinho, ainda que os que por lá trabalham possam sê-los. Como qualquer outro Estado no mundo, a sede da Igreja Católica tem suas entranhas do poder, ambições, diferentes correntes políticas e, claro, hierarquia.
A exceção é que, ao contrário da maior parte das nações, lá o sistema vigente se assemelha a uma ditadura, com ares de rigidez extrema. Não consigo encontrar outra nomenclatura para um lugar cujas eleições são indiretas e cujos eleitores foram (e são) escolhidos a dedo por uma única pessoa, o papa, o que facilita a continuidade da sua, digamos, metas de governo.

Contra a democracia também é o modo como os fatos se sucederam nesses últimos dias. Convenhamos, a eleição de Bento 16 ficou fácil demais para ele, digna de causar inveja ao presidente Lula, que já começa a se preocupar com sua reeleição. O que dizer de um pleito em que um dos candidatos favoritos pode fazer campanha antes de começar as eleições, como a homilia feita por Ratzinger antes do início do conclave, na qual, ao apresentar sua “plataforma de governo”, pregou conservadorismo para um grupo de 115 eleitores-conservadores. E mais, como explicar uma lei do silêncio dos cardeais à imprensa ordenado pelo mesmo Ratzinger, de forma a evitar que, durante o conclave, eles tomassem conhecimento das especulações e opiniões, muitas das quais contrárias ao seu nome e ao próprio papado do eu ex-chefe, João Paulo II?.

Também não consigo classificar de outro modo um Estado que, à exemplo de qualquer Estado totalitarista que existiu no século 20, dizimou facções contrárias ao que seu chefe de governo pensava, caso das teologias surgidas a partir dos anos 60 nos países do Terceiro Mundo, produzidas as partir do exercício da pastoral que tinha ligação com as demandas sociais. Aqui, destaca-se a Teologia da Libertação, que ligava o marxismo à religião. Ainda que, de fato, pareça-me discutível até onde essa brasileiríssima teologia é religião ou é proselitismo político da esquerda latino-americana.

Isso porque, assim como a maioria das teologias emergidas dos países pobres como forma de combate à miséria, a Teologia da Libertação prega a emancipação do homem e sugere a marxista luta de classes, do pobre contra o rico, o que seria anticristão, já que almejaria a destruição de um “semelhante”. Porém, optar por sua simples eliminação por meio de punições à pessoas de alta espiritualidade e ligadas à luta pela justiça social revela um apreço pela mordaça, mais uma característica das nações anti-democráticas.

Ademais, o totalitarismo vaticano lembra sim os uníssonos e poderosos Estados de George Orwell (Tanto o dos porcos, em “A Revolução dos Bichos”, como o do Grande Irmão, em “1984”), que abertamente declaravam que “a verdade está conosco” e que o seus chefes de Estado tinha o dom da infabilidade.

Críticas à parte, a eleição de Ratzinger é, antes de mais nada, a escolha por uma estratégia de Estado, iniciada na “gestão” anterior, mas que tende a ser asseverada neste papado, uma vez que Bento 16 é muito mais conservador do que seu antecessor. Ela consiste em intensificar a dogmatização da Igreja e a volta à espiritualidade e às tradições. Um reforço na lapidação da alma.

Haveria a opção por uma Igreja mais aberta ao mundo moderno, despreendida de tradicionalismos e aberta ao diálogo sobre os mais diversos temas, desde o celibato dos padres até a aceitação da utilização de métodos contraceptivos.

Porém, não foi essa a opção. Não é à toa que, além de ter sido cão de guarda do conservador João Paulo II, Ratzinger é da Europa, lugar onde os problemas da fé são mais preocupantes, uma vez que a questão é que não só que as pessoas não crêem que a Igreja de São Pedro não é mais seu lar espiritual. Pior. Elas não mais crêem em mais nada, vivem sem deuses, desgarrados de qualquer ligação com o espiritualismo. Enfim, uma espécie de neopaganismo e neoagnoticismo, decorrentes, por que não, do materialismo exarcebado em que vivem. Nesse sentido, Ratzinger, fruto de uma teologia primeiro-mundista, ensinada na universidade, é o homem ideal se o que aqui se pretende é mais resgatar quem perdeu a fé em qualquer religião do que em quem perdeu a fé no catolicismo.

O caminho, no entanto, não parece ser esse. Esperava-se por um papa pastor, inspirado no missionarismo cristão e que conciliasse a preocupação com a consolidação da fé nas pessoas com a defesa dos necessitados e a inserção nos problemas atuais da humanidade.

Há, todavia, esperança. Ratzinger no início de sua sacra carreira, foi progressista e um influente teólogo na elaboração do Concílio Vaticano II, elaborado entre 1962 e 1965 e responsável pelo “aggiordamento” (modernização) da Igreja. Mudou de lado em 1968, quando estudantes extremistas cristãos atacavam a religião nas universidades por acharem que ela era a ponta de lança das injustiças capitalistas. Passou a acreditar que os valores são imutáveis, independem do mundo em que vivemos e que as religiões que se aproximam dele são superficiais.

Ainda que não haja essa improvável reviravolta conceitual no alemão, a opção escolhida pelo Vaticano pode dar certo e não é de todo condenável. Como disse acima, trata-se de uma estratégia de Estado. A mim, cheira a erro e pode se reverter em algo pior. Em se considerando as previsões de São Malaquias, o santo que no século 12 previu as características de 113 papas, os tempos para a Igreja Católica tendem a piorar. De acordo com esse santo, o lema do próximo papa (sim, o próximo, depois do Bento) será “In persecutione extrema”, que indica perseguições à Igreja. À título de curiosidade, São Malaquias previu o papado de Bento 16 com o lema “Gloria Olivae”, que significa grandes teólogos e intelectuais da Igreja, características reconhecidas em Ratzinger. É esperar para ver se tamanha grandeza intelectual fará da Igreja uma instituição atrativa ou dispersiva.

23.4.05

Argentino foi o segundo mais votado no conclave

Marcio Pinheiro

O cardeal jesuíta argentino Bergoglio, 68, consegiu 40 votos na terceira votação (penúltima) do conclave, que elegeu o novo papa. A informação é do jornal italiano Il Giornale.

Segundo Andrea Tornielli, vaticanista daquele veículo, Bergoglio esteve a uma distância de 10 a 15 votos do ex-cardeal Ratzinger. Se isso for verdade, terá sido o maior número de votos já conquistados por um latino-americano em um conclave.

De qualquer maneira não devemos lamentar muito a não-eleição de Bergoglio: ele é denunciado por ligação em um seqüestro, feito por um comando da Marinha, de dois jesuítas em 1976, em plena ditadura militar argentina.

Ainda sobre os votos do conclave: já foi amplamente divulgado que Ratzinger recebeu "muito mais votos" que os 77 necessários para ser eleito. O primeiro a falar abertamente sobre isso foi cardeal-arcebispo de Colônia, Joaquim Meinsner, quando deu uma entrevista em seu país.

Outros vaticanistas dizem que o cardeal italiano Carlo Maria Martini - considerado um fotíssimo papabili "progressista" - tenha convidado seus eleitores a votarem ao "rival" da ala conservadora, Ratzinger, após ser verificada a vantagem do alemão na primeira votação. No primeiro dia de conclave Martini polarizou com Ratzinger.

Os principais observadores do Vaticano dizem que a homilia preparada por Ratzinger, que traçou o perfil do papa esperado pela igreja na missa que precedeu ao encerramento do conclave influenciou muito o voto de seus pares a seu favor.

A tão propagada candidatura do arcebispo de Milão, Dionigi Tettamanzi, foi relegada, parece, desde o início do conclave.

2.4.05

João Paulo 2º, mais que conservador

Marcio Pinheiro

* Cardeal progressista, papa conservador - Ainda como cardeal, Karol Wojtyla era visto como ligado à justiça social e aos direitos dos camponeses e dos operários, dos pobres e dos oprimidos, numa igreja ainda profundamente influenciada pelo espírito progressista do Concílio Vaticano 2º e do papa Paulo 6º, que ajudou a implementar esse espírito. Foi neste contexto que foi eleito papa em 1978. No entanto, fez uma gestão ultraconservadora. Veja:

* Contra a Teologia da Libertação – João Paulo 2º alegava que aproximação com a Teologia da Libertação implicava aproximação com governos de esquerda. No entanto, aproximou-se de líderes liberais-conservadores como Ronald Reagan e Margaret Thatcher.
Tendo apenas pouco tempo antes tomado conhecimento da Teologia da Libertação, o papa se convenceu de que ela deveria ser rejeitada, pois a via como conceitualmente marxista.

* Culpa pela Aids na África - O ponto mais polêmico de sua gestão está na posição sobre a moral sexual, em especial a condenação ao uso de preservativos. A censuras aos preservativos são insustentáveis porque a igreja condena os métodos artificiais de contracepção (pílulas, camisinhas), mas admite os naturais. Essa igreja tem, portanto, parcela de culpa significativa na proliferação da epidemia da Aids no continente africano (conseqüentemente com a mortandade na região) e nos demais cantos do planeta.

* Leniência com a pedofilia - A moral conservadora adorada por João Paulo 2º cai por terra ao colocar panos quentes nos casos de padres que se envolveram em abusos de menores. Era esperado que o Vaticano recorresse a medidas rigorosas, já que leva tão a sérios as “questões morais”. Não houve durante a gestão Wojtyla nenhuma punição exemplar.

* Católicos deixam igreja - O ativismo do papa-pop, que adorava os holofotes da mídia, não bastou para fazer sua igreja crescer. Daqui a pouquíssimo tempo, cerca de dois terços das paróquias do mundo não terão nenhum pastor ordenado. O número de padres está mais ou menos estabilizado em torno de 400 mil há mais de dez anos. O número de fiéis cai sem parar. Além do conservadorismo, outro importante motivo para esse abandono está na liquidação das CEBs (Comunidades Eclesiais de Base), que visava ao envolvimento dos fiéis na vida da igreja. A explicação do papa para a rejeição das CEBs era que essas comunidades ameaçavam a autoridade dos bispos em suas dioceses; ela quebraria a rígida hierarquia.. Além das CEBs, a Sociedade de Jesus - ordem jesuíta de tendência marcadamente liberal - foi privada da influência que anteriormente tinha dentro do Vaticano.

* Igreja voltada para si - Os movimentos apoiados pela igreja de João Paulo 2º têm o espírito de restauração, conservando os antigos (ou atrasados) dogmas do catolicismo. Por isso, Wojtyla se negou a pôr fim ao celibato dos padres - mesmo sabendo de inúmeros casos de comprovadas relações dos religiosos com mulheres, homens ou menores. Além disso, vetou o ordenamento de mulheres.

* Papa censor - João Paulo 2º sufocou as discussões teológicas não-ortodoxas. Ele proibiu pensadores críticos de lecionar e publicar trabalhos com a aprovação da igreja. Entre os casos mais famosos está a repreensão de João Paulo 2º ao então arcebispo de El Salvador, Oscar Arnulfo Romero, que se manifestou publicamente contra as mortes de padres e figuras da oposição vítimas de esquadrões da morte, com conivência de militares. Pouco depois, Romero foi assassinado por esse esquedrão. Outro caso famoso: em dezembro de 1979, o papa privou o teólogo suíço Hans Kung (que João Paulo antes admirava), de ensinar teologia católica porque ele havia questionado a doutrina da infalibilidade do papa. Muitos outros teólogos católicos em diversas partes do mundo foram punidos de maneira semelhante. Ah, sim, faltou o exemplo brasileiro: Wojtyla condenou ao silêncio o teólogo Leonardo Boff. Outra forma se censura está no corte de recursos e de espaço dos movimentos católicos que se opõem ao Vaticano (vários sofreram processo disciplinar).

* Aproximação com Opus Dei – Trata-se de uma associação ultraconservadora, rica, obediente, muito fechada e forte intelectualmente. Esse braço católico ganhou força e espaço como nunca na gestão de João Paulo 2º. A Opus Dei conta com uma rede de escolas e universidades de excelência e possui fundos para expandir o papel ideológico conservador. A Opus Dei (ou "obra de Deus") é acusada de ter uma agenda secreta e fundamentalista e de tentar formar uma "igreja dentro da igreja". Parlamentares italianos já declararam que o grupo era semelhante a uma loja maçônica.

* Mudou regras da sucessão –João Paulo 2º nomeou quase todos os cardeais conservadores (exceto três) que vão eleger o sucessor, ou seja, vem aí, muito provavelmente, um sumo pontífice afinado com a sua linha de pensamento. Ele nomeou esses cardeais para assegurar que a igreja, conservando-se fiel à imagem dele, mantenha-se solidamente conservadora e centralizada após sua morte. João Paulo mudou a regra da sucessão em 1996: os dois terços mais um dos votos valem apenas até ser contabilizada a 30ª votação. Se até esse ponto não tiver sido escolhido um papa, será exigida apenas uma maioria simples. Desse modo, não será necessário buscar um consenso, e torna-se possível para uma facção conservadora negar a um candidato liberal.

* Homossexualismo – João Paulo 2º, em 2003, condenou por um documento o casamento entre pessoas do mesmo sexo. Classificou o homossexualismo como desvio e ameaça à sociedade. Segundo o líder católico, o homossexualismo "vai contra as leis da natureza". Documentos da igreja falam ainda que seus integrantes devem ter uma postura "varonil"; aqueles que apresentam “trejeitos” são dispensados ou perseguidos.

* “Infabilidade do papa” – O dogma da infalibilidade papal (ou seja, que o papa é infalível, nunca erra) foi instituído em 1869 pelo papa Pio 9º, no Concílio Vaticano 1º. Desde a sua promulgação, poucos papas se serviram dessa prerrogativa. Além de fazer intenso uso indireto dela (sem evocá-la diretamente), Karol Wojtyla puniu padres que se opuseram a este dogma.

* Um perdão vexaminoso - O papa não pediu desculpas diretamente por abusos históricos da igreja, como a Inquisição. João Paulo 2º pediu perdão, vagamente, pelas transgressões praticados por “filhos e filhas” da igreja. Ignorou a culpa de papas, cardeais, bispos e padres em episódios lamentáveis que maculam até hoje a imagem desta instituição.

Assim, essa igreja que aí está é feita à imagem e semelhança de João Paulo 2º. Seus 26 anos de pontificado poderiam e deveriam ter sido diferentes e bem melhores para o mundo.

19.3.05

Boa imagem e a articulação

O governador de São Paulo, Geraldo Alckmin não anda numa boa fase: fugas espetaculares na Febem, altos índices de seqüestros no Estado. A imagem de bom administrador está indo pro espaço.

A do colega carioca Cesar Maia, idem. E pior ainda: mente descaradamente ao dizer que apóia a internvenção federal na Saúde (senão não teria entrado no Supremo contra a medida).

Bem, a imagem ainda pode ser recuperada. Mas esses dois políticos deveriam ter aprendido com a história algumas lições.

Cesar Maia deveria lembrar do preço que se paga ao lançar prematuramente uma pré-campanha presidencial. O caso Roseana é inesquecível nesse sentido. O prefeito do Rio está se queimando nacionalmente.

Já Alckmin não deve ter lembrado o que significa rachar com o PFL, como no caso da eleição do presidente da Assembléia Legislativa de São Paulo. A rebeldia do partido em 2002 foi um dos responsáveis pela derrota de José Serra.

Bem faz Lula nos dois casos: está reorganizando a base aliada com a oferta de ministérios e continuou em campanha sem parar desde 2002. Isso é que é tática!

Mudanças no Oriente Médio

Marcio Pinheiro

Hoje, as mulheres podem votar no Afeganistão, os palestinos estão rompendo com os velhos modelos de violência e centenas de milhares de libaneses estão protestando para exigir soberania e direitos democráticos.

Essas palavras saíram da boca de George W. Bush, num discurso no rádio neste sábado pela manhã.

Faltou dizer obviamente que problemas gravíssimos continuam nesses países.

No Iraque, por exemplo, na véspera de completar dois anos de ocupação/guerra, os aliados ainda não suforaram (e vão conseguir sufocar?) a força "rebelde" - o que já custou 1.500 mortes e bilhões de dólares aos países interventores. Sem contar a morte de civis, mulheres, crianças iraquianas, as redes de hospitais e de esgoto destruídas, a proliferação de doenças etc.

Outro problema por vir é bem simbólico: o julgamento, sempre adiado, de Saddam Hussein. O tribunal responsável pelo julgamento tem legitimidade questionada porque violaria a Lei Fundamental, que entra em vigor até o final de 2005. Uma das cláusulas de lei estipula a proibição de tribunais especiais. Sem contar a falta de preparo dos jovens e inexperientes juízes.

Mas voltemos aos argumentos de Bush: ele realmente está fazendo uma revolução no Oriente Médio. As mudanças chegaram até a Arábia Saudita que, acreditem, passou por uma recente eleição (claro que as mulheres não votaram, mas houve um pleito!).

Quer dizer que Bush está certo? Erra quem afirma ou nega peremptoriamente. Os hábitos muito enraizados, o sentimento anti-imperialista e o fundamentalismo são impedimentos fortíssimos na luta pela "imposição (sic) democrática" de Washington e subjetivos ao ponto de não poderem ser enfraquecidos com bombas. Mas outras armas poderão ser usadas em breve pelos superpoderosos.

3.3.05

Jobim quer voltar para a Câmara?

Marcio Pinheiro

Depois da desconcertante delcaração da ministra Ellen Gracie sobre sua banheira paga com dinheiro público, desta vez foi a vez do ex-deputado federal pelo PSDB e atual presidente do Supremo, Nelson Jobim, se apequenar.

Conhecedor dos meandros das leis e das jogadas congressuais, Jobim alertou o presidente da Câmara, Severino Cavalcanti (PP-PE), que existia uma maneira de aprovar o aumento de deputados com apenas uma canetada, desde que a Mesa do Senado concordasse com o aumento de R$ 12,8 mil para R$ 19,1 mil.

Jobim negociou com deputados e senadores a equiparação do aumento dos salários dos congressistas com os dos ministros do Supremo.

Se presidente do Supremo Tribunal Federal sente saudades de seu tempo de Congresso, que tire a toga e tente voltar à politicagem pelo voto.

Só para lembrar: Jobim é cotado por parlamentares do PMDB para concorrer à Presidência.

2.3.05

Alckmin, o querido, Lula, o maldito
Caio Junqueira

O que mais irrita em um governo é a inércia, por falta de vontade ou incompetência, em solucionar os problemas da sociedade. A falta de vontade incomoda um pouco mais que a incompetência, já que pressupõe desvio da finalidade do governante, que foi eleito e é pago para propor soluções.

Mas a incompetência também perturba, porque ela, na maior parte das vezes, decorre da falta de análise do histórico do problema ou da visão a longo prazo equivocada dos resultados que uma medida ou um pacote delas pode oferecer.

A Febem do PSDB paulista é um desses exemplos. Com 69 unidades em todo o Estado, nunca se teve uma política a longo prazo para a construção de novas instalações, tampouco um eficiente combate à delinqüência e reinserção social dos menores.

Além das sucessivas rebeliões em sua história, os números do censo do sistema penitenciário revelam que 15% da população carcerária do Estado passou pelas unidades da Febem. Também aponta que 19% dos 6.623 internos de hoje voltam à instituição depois que saem dela. Ou seja, é fácil constatar que a Febem é um lixo, assim como a política adotada para a sua condução.

Os tucanos, que há dez anos governam o Estado _e, por conseqüência, a Febem, já bateram tanto a cabeça sobre o assunto que a instituição virou uma batata quente no Palácio dos Bandeirantes. Nos últimos anos, passou pelas secretarias de Assistência e Desenvolvimento Social, Esporte e Lazer, Educação e depois voltou à Justiça. E o lixo na sua gestão continua.

Já o modelo de concessão das rodovias adotado no Estado se enquadra no subitem da falta de vontade: a de desonerar o cidadão. Implementada pelo governador Mário Covas e continuada por Geraldo Alckmin, o plano de concessão das rodovias estaduais foi responsável pelo alto preço pago nos pedágios, já que a "concessão onerosa" define como ganhador da licitação o concorrente que, sabendo dos investimentos a serem feitos, e do valor da tarifa fixada pelo governo, fizer a maior oferta pela concessão.

A título de comparação, no processo de concessão das rodovias federais, a União privilegiou o concorrente que ofereceu a menor tarifa. Desse modo, o preço pago pelos usuários das estradas tende a ficar mais baixo.Um terceiro aspecto mistura incompetência com falta de vontade, o da segurança pública. Em 10 anos, não bastasse o crescente histórico de violência na capital, os tucanos não conseguiram segurar o que se chamou de interiorização do crime. No último levantamento trimestral apresentado pela Secretaria de Segurança Pública, mais da metade dos latrocínios e uma parcela crescente de homicídios dolosos ocorreram fora da capital e da região metropolitana. De um modo geral, no interior os crimes cresceram ou então caíram em proporção menor do que na capital.

Não faço aqui proselitismo político. Mas sempre me pareceu que, para essas três questões e
muitas outras de responsabilidade dos governos estaduais, foi esquecido quem é, ou quem são, os constitucionalmente responsáveis.

É mais fácil escutar por aí críticas (devidas) ao “avião do Lula” ou aos “CEUs da Marta” do que “a Febem do Alckmin” ou “o pedágio do Alckmin”. Talvez isso ocorra porque a própria atenção das pessoas esteja mais voltada às políticas de âmbito municipal e federal, culpa até mesmo de um falho federalismo brasileiro.

Mas talvez o fato de Alckmin ser médico, branco, limpo e cheiroso, e com uma filha que trabalha na Daslu, seja outra razão para um tratamento mais cauteloso com seu governo.Mas prefiro acreditar que o que acontece mesmo é falta de vontade e incompetência dos cidadãos em saber o que cobrar e de quem cobrar, apesar de não afastar a crença de que ainda há uma certa dificuldade _principalamente dos ricos_ em se desprender de preconceitos ideológicos e sociais.

27.2.05

Por falar em esconder corrupção...

Marcio Pinheiro

Recordar é viver. Em dezembro de 1998, dois meses depois de vencer a eleição presidencial no primeiro turno, Fernando Henrique ligou para Lula para fazer um agradecimento ao petista.

FH agradeceu Lula por não ter usado o "dossiê Caribe" (documento forjado que comprovaria que Covas e outros tucanos teriam contas não declaradas fora do país) na campanha sucessória.

Lula autofágico

Marcio Pinheiro


Ao dizer que encobertou sujeiras no governo FHC, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva consegiu o que parecia quase impossível: ser acusado de corrupto (ou leniente com a corrupção).

Não é válido evocar aqui o argumento Waldomiro Diniz - ele não atingiu Lula diretamente; a "suspeita" caiu e cabia somente a José Dirceu, justamente pelo acusado ter sido seu assessor e amigo.

Ao falar qualquer coisa, não prezar a racionaliade e ligar de mais para o que Fernnado Henrique fala, Lula tende a perder fôlêgo onde mais precisa: o Congresso Nacional.

As asneiras de Lula colocam, a cada dia, em xeque sua reeleição. E, pra variar, seus áulicos assessores seguem sem alertar o chefe.

Uma crise dada de bandeja para a oposição. Fevereiro, recordemos o caso Waldomiro, é , definitivamente, o pior mês para o governo Lula.


PSDB, oposição responsável. Sei...

O mesmo PSDB que votou em peso em Severino Cavalcanti fala em impeachment de Lula e processo no Supremo.

Os dois partidos mais importantes do Brasil, PT e PSDB, descem a um nível desnecessário. Cabem a eles dar o melhor exemplo, mas isso não vem sendo feito.

Quando dois grandes brigam, sempre aparece um terceiro e leva. 2006 está aí, mas ainda dá tempo de consertar o estrago.

Ellen Gracie e a França

Marcio Pinheiro

Nesta semana o o ministro francês da Economia, Herve Gaymard, renunciou porque, pressionado pela opinião pública, vivia em um apartamento de alto padrão num bairro bem chique de Paris com despesas pagas pelo governo.

"Eu estou consciente do sério erro de julgamento [que cometi] sobre as condições de minha moradia oficial", delcarou.

Na mesma semana, a ministra do Supremo Tribunal Federal, Ellen Gracie Northfleet, mandou construir uma banheira de hidromassagem em seu apartamento funcional de 523 metros quadrados onde parrasá a morar em março.

Declaração da excelentíssima: "É claro que eu vou botar uma banheira lá, não tem nada demais nisso. E tem que ser paga com dinheiro público, sim, porque está em um imóvel público", disse a O Globo.

Pergunta que não quer calar: se é público, eu posso usar? A minsitra acaba de abrir um precedente muito peculiar para nosso país.

15.2.05

A vingança dos 300 picaretas...
...e a culpa é toda do PT

Marcio Pinheiro

Com 300 votos - especialmente aqueles do baixo clero - Severino Cavalcanti (PP-PE) foi eleito presidente da Câmara dos Deputados. Trata-se do terceiro homem na hierarquia da República.

Um azarão que só conseguiu esse status graças ao PT, o do Planalto e o do Congresso, nesta ordem.

O processo de escolha do candidato petista à sucessão de João Paulo Cunha (PT-SP) foi burra e ingênua. Burra, porque Luiz Eduardo Greenhalgh (PT-SP) não naturalmente o mais votado e não era o mais querido (tanto da bancada do PT quanto na Câmara em geral). O concorrente Virgilio Guimarães (PT-MG), por outro lado, não perdeu tempo e lançou sua candidatura avulsa. Ele também errou ao insistir nisso até o fim, fechando acordos até com garotinhos.

Mas o grande culpado, vamos logo deixar claro, não foram os petistas Greenhalgh x Virgilio, mas o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (e sua trupe) que trata com desprezo o Congresso nesses dois anos e dois meses de mandato.

Quinze anos depois, os "300 picaretas" se vingaram. Eles aproveitaram o racha do PT para lembrar os acordos e promessas não-cumpridos, a falta diálogo de atenção do primeiro escalão com o baixo clero, as ligações não-atendidas. É o tal "menosprezo pelo sentimento político da Casa", como resumiu bem o governador tucano Aécio Neves.

Lula até enviou 11 ministros para fazer lobby para a eleição de Greenhalgh. Mas era tade demais. Muitos desses ministros não atendiam os parlamentares há dois anos... Sem contar que o próprio presidente enrolou os parlamentares, aliados e inimigos por quase um ano ao não se decidir pelo apoio à emenda de reeleição para as Presidências da Câmara e Senado.

Além disso, o PT passou-se por ingênuo ao confiar na tradição da vitória ao partido com maior bancada, e esperava apoio oposicionista. Não passou pela cabeça das lideranças petistas que o "acordo de cavalheiros", que sempre ocorre nas eleições internas da Casa, poderia falhar.

Quem mais perde com a vitória de Severino não é o governo Lula - o deputado do PP tem tudo para fazer uma gestão sem grandes dificuldades para o Plantalto. Os grandes perdedores foram o Congresso Nacional e o Brasil.

O Congresso, especialmente pela imagem perante a opinião pública, ao eleger um ser reacionário, homofóbico, ultrareligioso e que defende abertamente o nepotismo e aumentos surreais de seu próprio salário. Além disso, questões como as da células-tronco, reforma política, dentre outras, entram automaticamente em xeque.

Quem vai pagar o pato com essa eleição, esperamos, será o próprio Congresso (oposição tucana e pefelista e partidos importantes para a base aliada como o PMDB, PL, PTB e o próprio PP). E o que é vingança hoje contra Lula poderá soar análogo a esses 300 inconseqüentes em 2006. O custo dessa eleição para o Brasil foi de anos para trás, e esperamos que os eleitores de Severino sejam punidos pelos cidadãos.

Por isso, é imprudente apontar a eleição de hoje como o "início da derrota da reeleição de Lula". Em breve chegará uma reforma ministerial na qual Lula terá que acolher os partidos traidores.

E para a nova estrela política brasileira, fica o paradoxo do político rasteiro que não tem o menor compromisso com o "projeto" de Lula para o Brasil. Severino diz que que governará com o Planalto, mas a base da Câmara o elegeu com motivos contrários ao palácio.

Não sabemos ainda como será a sua presidência, mas certamente a relação Executivo-Legislativo será mais trabalhosa e, por isso, o Congresso, que já anda devagar-quase-parando, ficará ainda mais lerdo nesses últimos anos do governo Lula.

2.2.05

Da barganha e da falta de esperança
Caio Junqueira


A reforma ministerial que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva promoverá nas próximas semanas em muito revela a promiscuidade política e o jogo sujo com que a política é feita, desde sempre, no país.

Num jogo que se arrasta há meses, Lula tenta acomodar aliados do Congresso –e inimigos históricos do PT , como o malufista PP_, e dar mais espaço aos fisiológicos PMDB e PTB para, assim, garantir a governabilidade no Congresso nos dois últimos anos de seu governo e aprovar reformas importantes, como a política, a sindical e a trabalhista. Pretende ainda, de quebra, assegurar uma ampla coalizão de partidos com o PT nas eleições de 2006.

Porém, para isso, submete-se à bárbara lógica da política tupiniquim e ajuda a manter um círculo vicioso no qual o comandante que nela não entra acaba punido, seja pela incapacidade de aprovar seus projetos no Legislativo ou por futuras rejeições em alianças eleitorais _com as quais se garante maior tempo de exposição na televisão.

A regra é clara. Se o administrador não conceder cargos a indicados políticos, deputados e vereadores, integrantes do partido “rejeitado” vota contra projetos enviados pelo Executivo, ainda que importantes à população. O bem-estar e a relevância aqui pouco importam, já que as regras há muito estão postas. Em contrapartida, o legislador, líder político ou partido que a elas não se sujeitar pode cair no ostracismo, já que, sem um cargo importante, como uma secretaria, ministério ou autarquia, terá menos exposição na mídia.

Afora isso, o tempo que se perde na discussão de qual-cargo-vai-para-qual-indicado demonstra a insensibilidade dos políticos, que, ou imaginam que o país possui índices econômicos e sociais de uma Escandinávia ou assumem a cara de pau e a suposta incapacidade de poder fazer algo para que se alterem as regras. Isso mostra, além de indiferença, distância entre a política e a vida popular brasileira e a comprovação de que a intenção dos políticos neste país é lutar e conservar suas posições, seus nomes e seus status.

Em São Paulo, o prefeito José Serra (PSDB) tentou, no início, não se submeter às maliciosas regras e teimou em negociar com o chamado centrão, grupo de vereadores do PL, PP, PMDB e PTB que se juntaram para negociar cargos de primeiro escalão e participação nas 31 subprefeituras da cidade.

Serra até tentou depois negociar, mas já era tarde. O centrão apoiou o dissidente do PSDB, Roberto Tripoli, e, assim, o partido majoritário na Casa e do prefeito ficou sem a presidência da Câmara, essencial na condução das votações de interesse do Executivo.

Ainda assim, Serra não deve ser considerado o bom mocinho na luta pelos bons costumes políticos. Longe disso. À exemplo de Lula, teve de colocar políticos no seu governo para contemplar aliados de sua eleição, como PFL, PPS, PDT e PV e preterir as indicações técnicas que tanto prometeu no processo eleitoral.

Diriam, “evidente, esses partidos o apoiaram e a fatura chegou”. No entanto, o enxugamento administrativo da Prefeitura de São Paulo e a fusão de secretarias foram promessas feitas pelo tucano durante a campanha, que não puderam ser cumpridas justamente para acomodar esses “parceiros”.

Umas de suas críticas mais freqüentes à então prefeita e candidata à reeleição Marta Suplicy (PT) era de que ela fez apenas nomeações políticas. A prática, como visto, manteve-se. O que mudou foi o sexo, o nome e o partido.

Até mesmo o governador Geraldo Alckmin (PSDB) entrou na dança. A reforma de seu secretariado _que teve início no final do ano passado_ busca acomodar parceiros como PPS e PDT, de forma a assegurar ampla aliança na difícil campanha para o governo do Estado em 2006, já que o partido carece de nomes para a disputa enquanto no rival PT sobram nomes, como Marta, Aloizio Mercadante e João Paulo Cunha.

Alckmin cai também na ciranda da tradicional política brasileira ao fazer a reforma do seu secretariado de olho no relógio. Precisa terminá-la antes de 15 de fevereiro, data das eleições para a presidência da Assembléia Legislativa. Acomodando outros partidos no primeiro escalão paulista, garante os votos para o nome do PSDB ao cargo.

É revoltante ver que o amadurecimento político caminha a lentos passos no país. Nomes como o de Lula, Marta, Serra e Alckmin, que sempre tiveram como bandeiras políticas a luta pela ética repetem o que os velhos barões do PFL, PMDB e PP sempre fizeram: barganha. Se não pudermos esperar deles a limpeza ética, de quem esperaremos?

16.9.04

Palimpsesto

Virgilio Abranches

Por que, meu Deus, hão de me escolher entre centenas que passam por aquela rampa do metrô para pedir esmolas? “Meu senhor, o senhor poderia...”. Não, eu não posso. Eu tenho pressa. “O senhor teria...”, não, eu não tenho. Quer dizer, tenho, mas não quero dar. Francamente. Eu tenho cara de socialmente responsável? Não é possível.

Eu tenho cara de petista. Isso, um dia, já foi sinônimo de socialmente responsável, mas hoje... Hoje, francamente! Se bem que essa história de dizer que eu tenho cara de petista é coisa dos meus amigos tucanos da escola. Ou dos meus tios “amo-Mário-Covas”. Mesmo porque é difícil mensurar o que é “ter cara de petista”.

Eu tenho barba. Isso faz pouco tempo. Mesmo antes, já diziam que eu tinha “cara de petista”. Na verdade, tudo advinha das idéias. A minha visão de mundo me deixava com a tal cara. Por quê? Ora, porque eu falava em educação para os pobres, em comida para todos, em empregos, em salários melhores. Isso, hoje, não é mais ser petista. É ser... vejamos... isso é ser... Socialmente responsável!

É isso. O mendigo me escolhe porque vê em mim uma certa responsabilidade social. Está decidido. A partir de amanhã, além da barba, vou usar uma camisa com uma foto do Palocci. Para parecer mais petista. Quem sabe esses pobres me deixam em paz!

12.9.04

Mentalidade tacanha

Não deveria, mas a politicagem sempre fala mais alto. Em ano de eleição então, nem se fala. Ao longo das última semanas tivemos dois episódios, vindos dos representantes dos dois Estados mais importantes da federação.

Em São Paulo, o governador Geraldo Alckmin vai à TV, nas inserções e no horário eleitoral de José Serra (PSDB) , para dizer que "só me dou bem com ele", ou seja, só faltou dizer que não se dá bem (e nem se esforça para isso) com a atual prefeita, Marta Suplicy (PT).

No Rio de Janeiro, a governadora Rosinha Matheus não compareceu num dos mais importantes eventos na capital: o seminário Revitalização do Rio. Motivo? "Tinha muita gente do governo federal".

Esse é o nível dos políticos mais "importantes" do eixo São Paulo-Rio. A arrogância deles nos faz indagar: será que eles pensam que estão governando Pindamonhangaba ou Campos?

31.8.04

O Jornal Nacional e a Venezuela

Nesta quarta-feira o Jornal Nacional, da Rede Globo, comemora 35 anos no ar. Os brasileiros também devem se orgulhar do telejornal, de seus erros e seus acertos.

Contar a história do JN não é apenas contar a história do jornalismo brasileiro, mas sobretudo os momentos cruciais da história política do Brasil recente. Afinal, jornalismo é versão, e a que foi e vai ao ar no JN foi e é vista por mais de 31 milhões de pessoas, formadores de opinião, eleitores.

A análise mais pueril é sempre a da “teoria da conspiração”. Não vamos negar que Globo não tenha dado apoio a todos os presidentes (e retirado o apoio em momentos oportunos), ou que não tenha servido de “Voz do Brasil” no regime militar (1964-1985). Mas alguns fatos – mal analisados – deram margem a esse tipo de interpretação mais apressada.

Passados vários anos, certos episódios são reavaliados. Em pesquisas qualitativas de um importante instituto de pesquisa - que por motivos óbvios jamais serão veiculadas no JN, mas ao qual o TRÊS PALAVRAS teve acesso – indicam que o quesito "manipulação" ainda vem junto com o nome Rede Globo e Jornalismo.

Dizer, por exemplo, que a Globo prejudicou o então candidato Luiz Inácio Lula da Silva no último debate com Fernando Collor em 1989 é fato. Mas a questão, nesses e em outros casos, é: foi incompetência ou má fé?

Ambos. E nenhum dos dois.

Os fatos. Às 13h entra no ar o "Jornal Hoje" de sábado. Na edição dos melhores momentos do debate da noite anterior, Collor e Lula ganham o mesmo tempo e uma edição que mostrava momentos bons e ruins de ambos os candidatos. Nada mais injusto: Collor se saíra bem melhor que o candidato do PT naquela noite! Conclusão: Lula foi beneficiado.

Horas depois, às 20h foi ao ar o JN. Uma edição bem diferente do “Hoje” e um pouco mais realista. Foram exibidas falhas de Lula, momentos bons de Collor (e este teve 1 minuto a mais que Lula; não é exagero dizer que 1 minuto em TV é uma eternidade). Conclusão: Collor foi beneficiado. Como o JN tem maior audiência, é claro que a celeuma se deu em torno da edição da noite, e não à da tarde.

Até hoje a autoria da edição do debate é reivindicada por alguns profissionais que eram da emissora à época. Isso aqui é o que menos importa. A questão era fazer uma edição com os melhores momentos (sic.) de um debate. E ninguém sabia como fazer isso. Era o primeiro debate da primeira eleição livre para presidente depois de 21 anos de ditadura militar.

Para se ter uma idéia desse absurdo, hoje, quando os candidatos (da presidência à prefeitura) são convidados para um debate na Globo, norma do contrato diz que a emissora se compromete a não fazer uma edição de debate. A história teve que mostrar isso. Errou-se para aprender. Assim como ocorre com o eleitor que erra o voto: não dá pra voltar atrás, mas aprende-se muito elegendo um candidato ruim. O troco virá na eleição seguinte. No caso da Globo, o aprendizado veio com debates e entrevistas seguintes.

O mea culpa de 89, por sinal, foi feito na edição do JN da última segunda-feira, dia 30 de agosto de 2004. Demorou 15 anos, já com Lula na Presidência da República. Mas já em anos tucanos, a própria apresentadora do jornal, Fátima Bernardes, já corroborava com essa visão. Em palestra em uma universidade do Rio de Janeiro em 1999 foi questionada por um estudante se “a Globo continuava a manipular”. Resposta da jornalista: “Já tivemos problemas no passado”. A fala de Fátima Bernardes é emblemática exatamente 5 anos depois ao vermos o telejornal correndo atrás de um outro erro: o modo de divulgação de uma pesquisa eleitoral.

Na edição desta terça (31 de agosto), o JN apresentou a margem de erro na pesquisa eleitoral – algo inédito na divulgação de pesquisas eleitorais em telejornais – em divulgação de pesquisa Ibope sobre a sucessão da prefeita Marta Suplicy (PT). Que ironia.

Tivesse tido o mesmo cuidado na apresentação de uma pesquisa do Ibope às vésperas do pleito do governo de São Paulo em 1998, talvez a hoje prefeita-candidata Marta fosse governadora. Mas a inexperiência mais uma vez atrapalhou.

Não só diretores do Ibope, mas todos os cientistas políticos com quem conversei desde então são unânimes: o erro na pesquisa não foi a pesquisa em si, mas a divulgação dela. E se Covas passou para o segundo turno foi graças ao “voto útil” de petistas que viram, na noite anterior, o nome de três candidatos acima do de Marta na telinha azul do telejornal.



A emissora que apóia todos os presidentes

A linha editorial do JN não é de apoio a um político ou um presidente específico, a um partido ou a um projeto de política pública. A Rede Globo adota, sobretudo, a linha preservacionista e, conseqüentemente, apóia aquele que está no poder. A moeda? A permanência da concessão com a família Marinho – autorizada com a bênção da Presidência da República – e, em troca, a estabilidade democrática no maior país da América Latina.

Tivesse o JN uma linha editorial crítica à la Folha de S.Paulo, certamente o Brasil se transformaria rapidamente numa Venezuela.

É a opção mais responsável para o único veículo que, se quiser, pode “derrubar” um presidente ou provocar uma crise institucional em segundos, pois somente a Globo fala simultaneamente para todo, todo o país (ok, vamos ser mais exatos, que fala para 99,8% do território nacional) e detém a maior audiência.

Esse tipo de preservacionismo ficou bem claro com a vitória de um candidato que, por décadas, foi renegado pelo dono da emissora.
A cobertura eleitoral de 2002 foi exemplar: todos os candidatos entrevistados no JN tiveram o mesmo tempo e tratamento semelhante; a emissora, portanto, não se comprometera com nenhum candidato, exceto com o vencedor, fosse quem fosse. Essa mudança de rumo na cobertura presidencial, claro, tem outras causas (que serão abordadas aqui neste espaço no momento oportuno), mas, por enquanto cabe a análise de que seja quem for o eleito, ele será “preservado” pelo jornalismo da Globo.

A crítica, a vigilância, a análise sobre o veículo de informação mais importante e de maior audiência do país devem estar sempre presentes. Ter a audiência desses milhões de brasileiros e escolher aquilo que o brasileiro vai ouvir, ver e sentir todas as noites é uma responsabilidade tão grande quanto governar o país. Maior até.



CRÍTICOS DO JN

Aqueles que criticam o JN por ser rápido, superficial e pouco analítico vão ao cerne da alma do jornal e pecam pela ignorância: o objetivo do JN é exatamente esse o descrito acima. Quer profundidade? Vá ler os clássicos, o JN decididamente não é pra você.




28.8.04

São Paulo vai ganhar as eleições
Caio Junqueira

Não é apenas o PT ou o PSDB que sairá vitorioso nas eleições de outubro em São Paulo. A cidade também ganhará e o sucessor, em 2005, receberá uma cidade melhor. Tanto a prefeita Marta Suplicy quanto o tucano José Serra são bons candidatos e com bom retrospecto político e gerencial.

Evidente que, ao se analisar suas trajetórias políticas, principalmente nos cargos executivos (Marta na Prefeitura de São Paulo e Serra no Ministério da Saúde), deslizes e erros são facilmente apontados.

A capital paulista, de longe, não é o melhor lugar para viver. Tem os maiores índices de violência do país, um trânsito que prejudica a economia e a saúde mental dos habitantes e milhares de miseráveis nas ruas. Mas não se resolvem erros históricos em quatro anos.
Marta, nos quatro anos de sua gestão, procurou, a sua maneira, melhorar a cidade. Desde a posse, mostrou ter um projeto para a cidade, ainda que discutível _e falho_ em diversos aspectos. Os CEUs vão além do projeto pedagógico, são centros sociais, muito necessários nas periferias tão carentes de áreas de lazer e cultura e esporte. O Bilhete Único funciona. A frota de ônibus na cidade foi renovada. Diversos espaços públicos, como praças e avenidas, nas áreas nobres e na periferia, foram revitalizados e ficaram com ares de cidade decente.
Isso é comprovado quando vê-se que certas áreas como transporte e educação --antes alvo de qualquer candidato-- são esquecidas do debate político, justamente pelo fato de saber-se que o projeto nestas áreas resumem-se à continuidade e ampliação.

Os críticos de Marta _em geral, integrantes da elite_ ignoram suas realizações ou por preconceito petista comum à classe econômica que fazem parte ou por desconhecimento e falta de vontade de reconhecer nela uma prefeita, no mínimo, razoável. Claro que a arrogância da prefeita colabora com essa oposição desinformada. Incomoda uma mulher petista no terceiro cargo mais importante do país. Alia-se a isso os erros cometidos pela prefeita durante sua administração, devidamente dimensionados, como o loteamento político feito nas subprefeituras e à falta de prioridade na área da saúde. Propositalmente ou não, criou-se uma situação em que seus erros são dimensionados e suas virtudes esquecidas.

A cidade também ganhará com Serra prefeito. O tucano, além de ter sido um dos melhores legisladores da Nova República, mostrou-se bom gestor no Ministério da Saúde. Entre seus pontos positivos, destacam-se o caráter executivo, de tirar idéias do papel e colocá-las em prática. Negativamente, além de sua antipatia e falta de carisma, ele fez parte do governo FHC, tão celebrado pelas classes dominantes, mas não visto pelas camadas pobres da sociedade como um bom governo. Pudera, desde 1995, ano da posse de FHC, até 2004, a renda do brasileiro diminuiu, a economia estagnou e o desemprego aumentou. Resultados de modelos econômicos sentem-se na pele e a era FHC, da qual Serra teve participação ativa, foi dura para a maior parte da população.

Assim, o que parece que está em disputa em São Paulo são mais os projetos de poder dos dois maiores partidos do país do que ideologia e gestão em si. No âmbito gerencial, os fins de ambos os candidatos são os mesmos, embora os caminhos sejam diferentes. Mas São Paulo, depois de administrações desastrosas como a de Celso Pitta (1997-2000) e Paulo Maluf (1993-1996), estará em boas mãos com Serra ou com Marta.

Baixo clero
José Aníbal, ex-presidente nacional do PSDB, tem sido criticado por sair candidato a vereador em São Paulo. A decisão, no entanto, transcende o caráter pessoal. O interesse do partido é ter uma força articuladora na Câmara Municipal em um eventual governo Serra, uma vez que dificilmente os tucanos terão maioria na Casa. Agora, não é preciso mencionar que uma eventual derrota de Aníbal seria o fiasco do ano.

Medo
Nenhum tucano quer enfrentar Lula em 2006. Próximas eleições presidenciais somente em 2010, quando marta deixará o governo do Estado de São Paulo e Alckmin o Senado para travarem o duelo PT x PSDB, que irá se consolidar como marca desse início de século na política brasileira. Uma opção para o tucanato é colocar o senador Tasso Jereissati na disputa em 2006. Outra é repetir a aliança com o PFL, só que desta vez com os pefelistas encabeçando a chapa.

Duda
Tenho esperança de que os CEUs da saúde não contabilizem votos para Marta, apesar de não achar isso possível. A apresentação do projeto deu a Marta um aspecto malufista, de político que faz grandes promessas. Isso piora ao constatar que o que a prefeita e seu marqueteiro tentam é rebater as críticas à gestão pífia que fez na saúde. Deprimente.

Quem sabe...
A derrota de Maluf não o faz desistir da carreira de candidato para sempre. Como paulista, tenho vergonha até mesmo de ele ser candidato.

20.8.04

HORÁRIO ELEITORAL 20/08/2004

O contraponto tem que chegar

No segundo dia de horário eleitoral em São Paulo, posicionamentos são estabelecidos. Marta Suplicy (PT) direciona o discurso para a educação. José Serra (PSDB), para saúde.

Marta exibiu orgulhosa os seus CEUs, o vai-e-volta, os uniformes, o material escolar de graça. E
criticou Pitta, com suas escolas de latinha. Serra, por sua vez, criticou o descaso da prefeita com a saúde. Até aí, nenhuma novidade. Essas críticas já foram feitas anteriormente pela imprensa, no debate da TV Bandeirantes, em entrevistas isoladas com candidatos e no programa de estréia da propaganda eleitoral.

Mas quando os candidatos líderes nas pesquisas terão a coragem fazer crítica nos quesitos em que são mais bem avaliados respectivamente? Será que o PT vai criticar o modelo excludente de saúde implementado pelo tucano no governo FHC? A crise de dengue será lembrada?

E a campanha do ex-ministro, vai lembrar que nos CEUs faltam professores de matemática? Que alguns alunos que foram para os CEUs querem voltar para as escolas "comuns", onde pelo menos não tinham um défcit tão grande de professores? Os pais dessas crianças serão entrevistados no horário eleitoral?

Enquanto isso, os lanternas Paulo Maluf (PP) "requenta" o programa anterior e Luiza Erundina (PSB) decreta a derrota. A candidata usou todo o programa de hoje para "velar" os mendigos assassinados no centro de São Paulo. Beirou a demagia, sentimento até pouco tempo atrás identificado apenas em outros concorrentes, especialmente os das antigas. O novo programa da Erundina é a cara do PMDB; talvez o fundo azul do cenário e a roupinha da mesma cor da candidata não sejam mera coincidência.

Assim como também não é coincidência o jingle de Havanir (Prona): a "5ª Sinfonia", de Beethoven, em ritmo grave. Mas curioso o uso de uma trilha de um músico alemão no mais nacionalista dos partidos.

E ainda sobre os partidos pequenos: parabéns ao PSTU. Tirando os programas do Duda Mendonça (com a exceção de alguns poucos), trata-se da campanha política mais eficiente (mas também a mais fácil de ser produzida).

18.8.04

Eterno retorno

No Rio de Janeiro, o argumento de ataque de um candidato contra o outro é motivo de auto-reconhecimento quando fazemos um breve retorno ao passado.

No início de julho, a candidata à prefeitura, Jandira Feghali (PCdoB) disse que jamais apoiaria o PFL. No entanto, em 1986, na eleição de Moreira Franco (PMDB), os comunistas se aliaram à Frente Liberal contra Fernando Gabeira, então candidato pelo PT e dos verdes (que ainda não existia como partido constituído; foi formado no ano seguinte).

Em 2004, por sinal, Gabeira apóia Cesar Maia (o ex-PV e x-PT foi personagem ilustre no programa eleitoral de estréia do prefeito que concorre à reeleição). O mesmo Cesar, aliás, que critica o apoio do PCdoB ao PMDB de Moreira Franco, o PMDB pelo qual foi eleito prefeito pela primeira vez, em 1992! Crítica não só a Moreira Franco, mas também a seu rival e ex-superaliado, Conde, que mudou de mala e cuia do PFL para o PSB e de lá para o ex-MDB, acompanhando o o casal Garotinho.

Resumo da ópera: PCdoB, que ama o PFL, que ama o PMDB, que, pelo visto, ama todo mundo. De quadrilha a orgia. Antes assim.




HORÁRIO ELEITORAL 18/08/2004

Propaganda começa com reprises de 2002 e com estratégias de 2006


A eleição começou de verdade. Incia-se o horário eleitoral para os candidatos a prefeito e vice-prefeito no rádio e na TV. A partir de hoje, o TRÊS PALAVRAS passa a oferecer pra você a análise da propaganda em São Paulo.

E primeira leitura que faço programa de estréia é de, simultaneamente, um "deja vu" e uma "pre-monição".

"Deja vu" não apenas por José Serra ter repetido cenas da campanha eleitoral de 2002 (quando estava visivelmente menos magro, em imagens com os mesmos cortes do tucano na ONU etc.) ou pela repetição dos bordões de PSTU e PCO. Mas principalmente pela reedição do segundo turno PSDB x PT, que veio pra ficar.

E "Pré-monitório" porque o discurso de Marta Suplicy (PT) certamente será repetido à exaustão em 2006 pelo candidato Lula. "Não deu pra fazer tudo em quatro anos". Foi o que disse Marta hoje à noite. Duvido que Duda Mendonça mude a ordem das palavras na gravação do programa presidencial do PT daqui a dois anos.

O programa da tarde na TV praticamente repetiu o que já havia sido mostrado no rádio horas antes: foi exibida uma breve biografia dos principais candidatos. Mas com uma peculiaridade: Marta Suplicy (PT), Paulo Maluf (PP) e Luiza Erundina (PSB) justificaram de cara os aspectos mais embaraçosos para suas respectivas campanhas.

Marta usou maior pare do tempo para explicar que ainda é amiga do senador Eduardo Suplicy (PT) e que a decisão de terminar um casamento de mais de 30 anos não foi fácil. Duda Mendonça colocou o dedo na ferida, e se saiu muito bem. Tranformou a "vilã" na mulher "justa" e "sincera" com o marido.

O narrador do programa de Maluf não deixou por menos e soltou nos primeiros segundos: "Maluf nasceu numa família de posses"; é dono da Eucatex, "gerando mais de 10 mil empregos diretos e indiretos". O "Rouba, mas faz já era". Agora veio o "roubar pra que, se já sou milionário?".

Já Erundina, via Michel Temer, justificou a aliança com o PMDB quercista. A aliança PSB-PMDB "não é eleitoral" e, ainda segundo Temer, "é uma aliança para hoje e amanhã". Literalmente até amanhã? Historicamente os candidatos em horário eleitoral não levam ao pé da letra o que prometem, portanto... quem sabe não chegue a 2006?

Outra estratégia usada na estréia foi a dos candidatos se adequarem ao que "pediam" as pesquisas qualitativas. A prefeita de São Paulo, que passa uma imagem de arrogância, prepotência (segundo as qualis), foi mostrada como a Marta "vovó", ganhando até música composta pelo seu filho João.

José Serra, agora "do bem", dedicou os últimos 30 segundos teve direito no programa da tarde a um clipe com imagens sucessivas de sorrisos seus. Falta de carisma? É, até que deu pra (deixar) enganar.

Já Erundina não teve dinheiro para usar qualquer estratégia. No dia anterior, dia da propaganda dos vereadores, o espaço na TV e no rádio foi usado pelos presidentes regionais do PSB e PMDB, e nenhum candidato a vereador da coligação foi mostrad! O programa foi modificado de última hora, pois parte dos assessores e colaboradores de Erundina se mandaram: em crise e atrás nas pesquisas, a campanha da ex-prefeita (1989-1992) não estava pagando os salários da equipe em dia. Aliás, a falta de dinheiro foi lembrada em discurso de Michel Temer no horário de hoje. O programa foi o mesmo à tarde e à noite pelos motivos já expostos.

À noite, Marta, Maluf e Serra tiveram programas novos. Maluf, com poucas alterações. Uma mudança interessante foi quando o locutor disse que Maluf já "era rico antes de entrar para a política". Eis que surge uma animação com setas mostrando o fluxo de dinheiro do exterior para o Brasil; simulando a aplicação de investidores nas empresas do candidato do PP. Um fluxo ao contrário, do Brasil para o Exterior? Só na arte do "Jornal Nacional".

Mas como estamos em pleno Horário Eleitoral, recordar é viver. Vide a estratégia de José Serra, que copiou imagens da campanha à presidência (ainda bem que foi só no da tarde). É certo que o candidato ainda não quitou suas dívidas da campanha anterior e que as imagens de arquivo eram boas, mas a parte que tratava da biografia do tucano foi demasiadamente extensa. Candidato à presidente, até Rio Branco sabe que o Serra é filho do feirante da Mooca. No entanto, já à tarde, Serra anunciou o que estava pro vir: Saúde, saúde, saúde. "Especialmente à voltada para a mulher" (maior parte do eleitorado).

Cumpriu-se o prometido à noite, quando apareceu o Serra dos genéricos, o Serra do mutirão da catarata, o Serra ministro da saúde. Também foi enfatizada a dobradinha "Serra-Alckmin".

Nos mesmos moldes da dobradinha "Marta-Lula", à tarde. "Tenho muito orgulho de ser amiga do Lula", disse a prefeita.

Mas à noite, brilhou a Marta dos CEUs (Centros Educacionais Unificado). O programa foi encerrado (com direto à lágrimas nos olhos do espectador; afinal o programa foi produzido por Duda Mendonça) com uma apresentação de música dos alunos dos CEUs, tocando violino. E já "respondendo" Serra: a prefeita reafirmou o "mea culpa" na saúde e pediu mais quatro anos para repetir na saúde a revolução que fez nos transportes ("bilhete único") e educação.

No mais, candidatos afirmando cobrar para dar entrevista (PAN), prometendo acabar com a "indústria da multa" (PSDC) e candidata histriônica usando palavras como "visceral", "sistêmico" e "maquiavélico". Nem criando um milhão de CEUs o povo alcança isso.

Enfim, a novela continua na sexta. Até lá.



16.8.04

O PSDB na Esplanada dos Ministérios em pleno governo do PT

O presidente do Banco Central e deputado federal licenciado por Goiás será, a partir desta terça-feira, o primeiro ministro do PSDB a integrar o governo do PT.

Numa manobra de Lula-Palocci, Henrique Meirelles passa a ter status de ministro de Estado, ou seja, terá FORO PRIVILEGIADO NO STF (Supremo Tribunal Federal). O motivo mais óbvio é que Lula quer proteger Meirelles das denúncias que começaram a sair na imprensa há algumas semanas, que tratam de crimes de sonegação fiscal e evasão ilegal de divisas que teriam sido praticadas pelo "ministro" Henrique Meirelles.


Meirelles teria uma conta não-declarada no Goldman Sachs, de cerca de US$ 50 mil. Esse dinheiro teria sido enviado para uma outra conta de doleiros investigados pela CPI do Banestado por suspeita de lavagem de dinheiro... Por causa disso, o tucano é aguardado pelo Senado para dar explicações.

O governo do PT mostra-se mais uma vez mais rasteiro que o antecessor ao mudar o status de um ministro para encobertar possíveis crimes finaceiros e dificultar as investigações. O pt revela-se o partido menos transparente que já ocupou o Planalto desde os militares. Asssitimos, nesta terça, a um golpe.

Mas o recado que parece ser mais importante (para o governo e para o mercado) foi dado: Meirelles fica fortalecido; o fechamento da Bovespa amanhã certamente ( e infelizmente) indicará esse caminho. Mas o mercado, entende-se. Esse joga contra. Injustificável é termos eleito um governo que também joga contra; que joga contra democracia, contra a transparência das contas do presidente do BC, contra a chance de se investigar um integrante do governo.

Lula, Palocci e Meirelles deram mais uma prova de covardia e passaram recibo da culpa no cartório.


12.8.04

Vai dar Brizola na eleição do Rio

Bizola nos deixou, mas seu legado ficará. Nos anos 90, perdeu todos os cargos eletivos a que concorreu. Mas elegeu todos seus afilhados e ex-afilhados para a prefeitura e para o governo. Começamos a contar a partir de 1982, primeira eleição disputada por Brizola e sua trupe desde a volta do exílio.

Na prefeitura:
1983: Jamil Haddad assume a prefeitura pelo PDT, mas deixa o cargo por discordar do partido; assume o vice, Saturnino Braga (PDT).
1985: Saturnino Braga é eleito pelo PDT; hoje é senador pelo PT
1988: Marcello Alencar é eleito pelo PDT; hoje é tucaníssimo. Não anda bem de saúde, mas foi o principal articulador em tirar a deputada federal Denise Frossard da sucessão à prefeitura nesta ano e entregar à vice a Cesar Maia.
1992: Cesar Maia é eleito prefeito. Lembramos que trata-se de um filhote direto de Brizola. Foi secretário de fazenda de caudilho e eleito deputado federal constituinte pelo PDT, em 1986. Por isso eu entendo porque tanta gente foi às ruas no Rio chorar a morte de Brizola. As pesquisas indicam que Cesar ganharia em primeiro turno.
1996: O filho do filho de Brizola é eleito; "Conde é Cesar, Cesar é Conde". Conde foi eleito pelo PFL.
2000: o ex-brizolista Cesar Maia ganha de novo a prefeitura, desta vez pelo PTB.

No senado:
O Senado é um caso à parte. Brizola só conseguiu eleger dois "filhotes" de 1982 até hoje.
1982: Saturnino Braga foi eleito pelo PDT; foi reeleito em 1998 pelo PT.
1990: Darcy Ribeiro é eleito pelo PDT.

No governo:
1982: Com todo o problema com Globo, Proconsult, deu Brizola na cabeça.
1986: A exceção; naquele ano, com a febre do Plano Cruzado, os candidatos do PMDB ganharam praticamente todos os governos estaduais. No Rio deu Moreira Franco; Darcy Ribeiro, candidato de Brizola, perdia a eleição.
1990: Ddepois de perder por pouco a chance de ir ao segundo turno contra Collor em 1989, Brizola é eleito no ano seguinte em primeiro turno para o governo do Rio.
1994: um ex-pedetista é eleito governador, desta vez pelo PSDB (na onda da febre do Plano real). Marcello Alencar ganha, no segundo turno, contra Garotinho (PDT).
1998: Garotinho governador, Bené vice. PDT de novo no poder.
2002: Rosinha Garotinho governadora; Conde (o filho do filho de Brizola) na vice. Rosângela Matheus foi eleita pelo PSB, mas hoje está no PMDB, partido pelo qual Cesar Maia foi eleito prefeito pela primeira vez.
2004: Tudo leva a crer que o ex-pedetista Cesar Maia vai ser eleito em primeiro turno. É o que indica todas as pesquisas. E se ganhar, Cesar terá poder de fogo grande para disputar o governo do Estado em 2006.
E também em 2006: Clarisse Garotinho para a Câmara dos Deputados. Mesmo com o casal Garotinho brigado com Brizola, Clarisse era fiel amiga do caudilho, e foi a responsável pela reaproximação do casal com o ex-governador pouco antes dele morrer. Clarisse prefeita em 2008? Não estranharia se ela concorrer/ganhar.

Nem morrendo Brizola deixou de fazer estragos.


18.7.04

A moda que não veio mais pra ficar

Marcio Pinheiro
 
No meu primeiro artigo aqui no TRÊS PALAVRAS eu havia criticado o uso indiscriminado dos programas partidários na TV que ocorriam à época. Segundo a lei eleitoral, esses programas deveriam ser usados para que os partidos divulguem suas idéias e propostas para o país, ou para criticar modelos vigentes. Isso ficou na ficção. Fez-se propaganda dos então pré-candidatos. E hoje, os agora candidatos começam a colher o que plantaram: a falta de ética.
 
Só para citar os recentes condenados mais ilustres: Paulo Maluf (PP), Luiza Erundina (PSB), José Serra (PSDB) e Paulo Pereira da Silva (PDT), que foram multados em R$ 21 mil por propaganda fora do prazo.
 
É que todos estavam achando que 2004 repetiria 2002. Naquele ano, todos os então pré-candidatos à Presidência usaram o horário partidário como eleitoral.
 
Mas dessa vez o Ministério Público está de atento e a Justiça Eleitoral, quem diria, está dando conta do recado, ao acolher as denúncias de propaganda antecipada (e ainda querem diminuir os poderes do Ministério Público... ).
 
Isso tudo, lembramos, está inserido num contexto de revolução do Tribunal Superior Eleitoral. Revolução sim porque, pela primeira vez em sua história, a Justiça Eleitoral está fazendo valer leis importantíssimas (sem criar nenhuma lei nova!). O maior exemplo até agora é o tempo do horário eleitoral.
 
Até então, entre a eleição dos deputados em outubro e a posse em fevereiro, inflavam-se bancadas de partidos bandidos, que cooptavam deputados para não só ter uma bancada enorme no Congresso, ou para dominar as comissões e aumentar seu poder de fogo no balcão com o Planalto. O que esses partidos realmente queriam era aumentar sua bancada para conseguir o maior tempo eleitoral na TV possível. Por que? Porque até então a Justiça Eleitoral dividia o tempo de horário eleitoral com base na bancada que tomou posse (ou seja, inflacionada), e não na que foi eleita. Isso mudou. O TSE fez valer o bom senso.
 
A segunda velha novidade trazida à tona pelo Tribunal foi o número de vereadores. Simplesmente o tribunal pegou a máquina de calcular e fez valer a o que está na constituição, ou seja, que o tamanho das Câmaras Municiapis seja proporcional ao número de habitantes! 

Que a (r)evolução continue. O Judiciário foi a instituição que mais demorou a se acomodar à democracia. Por vários motivos: por ter tido até poucos anos atrás a maior parte de ministros nomeados na ditadura, por ter tido que encarar de frente problemas muito graves com a então recém-aprovada "Constituição Cidadã" (o impeachment do Collor foi um exemplo, quando  Supremo foi acusado de fechar os olhos).

Mais à vontade e oxigenado, a Justiça vai gozando as atribuições dos novos tempos. Que bom. 
  
  
    
MAS TAMBÉM NÃO VAMOS EXAGERAR
 
Na Rússia, o homem mais rico do país é preso por corrupção. Nos EUA o ex-diretorzão da Enron e amigo de George W. Bush também vai em cana. Martha Stewart (uma espécie de Ana Maria Braga dos EUA), idem. E no Brasil? Aqui, senador acusado de corrupção é nomeado para Tribunal que julga as contas do Estado, político que “rouba, mas faz” é segundo colocado em pesquisas, ex-banqueiro “falido” foge com todo o luxo... 
  

  
O NOVO REI DO HABEAS CORPUS
 
Antes era o presidente Marco Aurélio Melo. Agora é Nelson Jobim, que soltou o Sombra, suspeito no assassinato do ex-prefeito petista de Santo André, Celso Daniel. Parece que no STF as bancadas petista e tucana se afinam cada vez mais. 
No entanto, ainda falta muito para Jobim ganhar a coroa. Marco Aurélio soltou o advogado Carlos Alberto da Costa Silva, da Operação Anaconda, o “cantor” “Belo”, envolvido com tráfico, votou a favor da liberação de Lalau (mas a maioria do pleno vetou), do banqueiro Caciola, entre outros. 
  
  
SURREALISMO NO RIO
 
Jorge Bittar (PT) e Jandira Feghali (PCdoB) declararam guerra um ao outro. A máxima "semelhantes atraem semelhantes" nunca valeu tanto para esses candidatos (afinal, 4% de intenção de voto é bem próximo a 5%).
Enquanto isso, “lá em cima” (nas pesquisas, ok?), Crivella (PL) apresenta uma declaração de bens suerral (R$ 21 mil de patrimônio), César Maia usa a torto e a direito o Palácio da Cidade pra fazer campanha, e Conde (PMDB), bem o Conde... o Conde que se dane! 
  
  
A BAIXARIA E O COVARDE
 
De um deputadozinho do PSDB, em comício no último fim de semana, sobre a prefeita Marta Suplicy: "Vamos falar da importância de tirar a prefeitura das mãos desta mulher, que parece uma menininha que só quer saber de viajar e namorar e esquece da cidade".
O ex-Itamaraty FHC deve estar desolado com a falta de classe de integrantes de seu partido. E com a falta de coragem de seu candidato em São Paulo, que delega a terceiros (ou a quartos ou quintos) a tarefa de atacar os adversários.
A resposta da candidatura Marta? Utilizar o candidato a vice, Rui Falcão, para atacar Alckmin. E olha que ainda falta um mês para o horário eleitoral!
  
 
BLAIRO MAGGI e MST
 
O governador do Mato Grosso disse na noite de domingo, no programa "Canal Livre", da TV Bandeirantes: "O MST usa a terra para fazer política. Quando ele tem crédito, não tem conhecimento. Quando consegue produzir, não tem mercado. O que o Brasil precisa é uma reforma agrícola, e não agrária".


15.7.04

Eleição como diagnóstico

Virgilio Abranches
 
Mais do que um plebiscito do governo Lula, as eleições municipais deste ano devem tornar claros os caminhos pelos quais a política nacional tende a percorrer nos próximos anos. Esses caminhos não serão resultado do pleito, mas este servirá como uma espécie de termômetro (não é a melhor analogia), enfim, como algo que vai trazer à tona _a partir de um resultado prático_ como estão realmente divididas as forças políticas do país. Um diagnóstico, enfim.
Trocando em miúdos: até agora foi muito blá-blá-blá. Esquerdistas revoltados, esquerdistas que correram para o centro, outros que foram para a direita, partidos que se fortalecem, partidos que se enfraquecem, mas tudo isso solto no ar. Afinal, o que vai acontecer com a esquerda que outrora depositava suas esperanças no PT? Como eles vão se comportar nas eleições municipais? Vão ficar jogados no vento ou correr para sob o guarda-chuvas das siglas menores e mais radicais? Enfim, a partir destas eleições nós vamos ver para onde está indo, na prática, a esquerda nacional. 
Siglas: o PTB está ousando para voltar, quarenta anos depois da deposição de João Goulart, a ser um partido significativo. É claro que o PTB não é nada igual àquela sigla da Era Vargas. Outra história, tem até collorido. Mas o apoio a Marta Suplicy em São Paulo, a Jorge Bittar no Rio e a fidelidade ao governo Lula estão empurrando a sigla para ter um vice numa possível tentativa de reeleição do presidente. Se a aliança PT-PTB vingar neste ano, está formada uma dobradinha a la PSDB-PFL, que governou o país por oito anos. Outra tendência que as eleições vão mostrar.
O que será do tucanato? Já descolou de FHC? Dá para falar em voltar ao poder sem ter vergonha do passado? Vamos ver. E o PMDB? Cada vez mais fraco? Será o fim de uma era que dura desde a redemocratização?
Eleições regionais _como para governadores e prefeitos_ sempre, inevitavelmente, são sintomáticas em relação ao momento e ao futuro político do país. A História mostra isso. O PMDB se tornou o partido mais forte na década de 80 quando elegeu quase todos os governadores sob a égide dos planos econômicos de Sarney. Mais lá atrás, a ditadura começou a despencar quando foram eleitos prefeitos e governadores oposicionistas.
Com a eleição de Lula em 2002, o panorama político do país começou a tomar um rumo. Com a de 2004, nós vamos saber que rumo é esse.