14.10.05
As cidades mais petistas do Brasil
Caio
Entre esses 4.637 municípios em que o PT está organizado, há um colégio eleitoral excepcionalmente petista: dez cidades espalhadas por sete Estados de todas as regiões do país têm uma média de 9% de filiados petistas em seu eleitorado. A média nacional é de 0,68%. Os números foram obtidos pelo cruzamento da lista de filiados petistas por cidade com a distribuição municipal do eleitorado. Os petistas dessas cidades votaram maciçamente no primeiro turno no candidato do Campo Majoritário, Ricardo Berzoini, salvo dois deles, que preferiram Valter Pomar. A manutenção do grupo que comanda a legenda há dez anos, porém, não embaça a postura crítica dessas localidades sobre os rumos do partido no governo. O PT surgiu nesses lugares em circunstâncias muito distintas das de sua fundação, em 1980, pela efervescência operária-sindical no ABC paulista. Hoje tornaram-se os verdadeiros ‘grotões’ petistas. São municípios pequenos, de no máximo 12 mil eleitores, e economia predominantemente agrária. A única semelhança com o petismo de 25 anos atrás é a intensa presença de movimentos sociais.
Com 12 em cada 100 habitantes filiados ao PT, Pontão (RS), a 300 km de Porto Alegre, no noroeste do Estado, é a cidade brasileira com maior número de petistas do país em relação ao eleitorado. É lá que está localizada a Fazenda Annoni, onde, há 20 anos, foi feita a primeira ocupação do Movimento dos Sem Terra (MST). O antigo latifúndio foi transformado em glebas de terra onde hoje vivem 400 famílias que participam ativamente das atividades petistas. Nas reuniões, decidem desde temas cotidianos, como o melhor atendimento da rede de transporte rural, até quais devem ser os candidatos do PT a vereador e a prefeito. Foi assim que se decidiu pela pré-candidatura do atual prefeito, Delmar Zambiasi, de 38 anos. Filho de empregados rurais que trabalhavam na Annoni, Zambiasi nasceu na fazenda e participou da ocupação. Apesar de não mais morar lá, parte de sua renda -além dos R$ 4 mil que recebe da prefeitura- vem da Annoni, com a plantação de soja e um "camping" construído nos 30 hectares que recebeu no assentamento às margens de uma bela represa. Tem churrasqueiras, piscina de azulejo (um toboágua será colocado para o próximo verão), campos de futebol e vôlei e chalés com diárias a R$ 50. A data da ocupação da Annoni- 29 de outubro - transformou-se em feriado municipal depois que Pontão elegeu, em 1996, o primeiro prefeito sem-terra do país, que foi reeleito em 2000 e passou o cargo em 2004 a Zambiasi. A bandeira do MST tem local privativo no gabinete do prefeito e na Mesa da Câmara, que também é presidida por um sem-terra. Na parte urbana do município, uma pequena avenida se estica por um quilômetro na cidade, com a prefeitura ao meio delimitando a luta de classes que os petistas afirmam haver: à esquerda da prefeitura, ficam as terras dos assentados; à direita, as propriedades das 22 famílias cujas rendas somadas são maiores que a renda do restante da população pontãuense.
A tensão do conflito agrário já foi maior na época das primeiras ocupações, mas sempre reaparecem no período eleitoral. Às vésperas da eleição, os assentamentos ficam em vigília contra os chamados "ranchos", grupo de pessoas supostamente enviados por grandes proprietários rurais para trocarem cestas básicas por votos. Após as últimas vitórias eleitorais, houve atentados: uma escola e um posto de saúde foram incendiados na Annoni em 1996 e 2001, respectivamente. Neste ano, após a terceira vitória consecutiva do partido nas urnas, as ameaças por ora se restringem ao prefeito que, em uma das primeiras realizações de seu governo, desapropriou 10 hectares de uma fazenda colada à parte urbana da cidade. A crise do partido, segundo o prefeito, ainda não chegou à cidade. "As pancadas sobre o Lula não chegaram aqui e talvez nem cheguem", afirma. O otimismo pode ser explicado pelos projetos sociais do governo federal que chegam à cidade, como a distribuição de 180 bolsas-família, 60 cestas básicas e a construção de 400 habitações rurais.
Nas reuniões em que avaliam a conjuntura, os petistas locais apontam as alianças "com a direita" feitas nas eleições de 2002 e o esquecimento "do povo" após assumir o governo como principais causas da crise. "Uma coisa errada neste governo foi não governar com o povo . Perdeu uma grande oportunidade. Agora, não vejo outra saída a não ser fazer como o Hugo Chávez, que o povo segura no governo para ele fazer as mudanças", diz Odacir Valério, vice-presidente eleito do PT. No âmbito nacional, Pontão elegeu Valter Pomar com mais de 90% dos votos. No segundo turno, direcionarão essa ampla votação para Raul Pont. Os petistas de Pontão atribuem a força do partido no local às gestões dos prefeitos assentados, que, de acordo com eles, priorizaram necessidades locais como alargamento e manutenção das estradas rurais, formação de uma satisfatória rede de transporte escolar, reforma do posto de saúde e a ampliação da eletrificação rural. No entanto, o modo de operar dos petistas de Pontão são contestados pela oposição, que os acusam de privilegiar os assentados em detrimento do restante da população. Também apontam um empreguismo exagerado e falta de transparência administrativa. De acordo com Rudimar Banaletti (PTB), também assentado rural, mas duro oposicionista, desde que o PT assumiu a prefeitura em 1996 o número de cargos de confiança passou de 160 para 300, ocupando hoje 56% da folha de pagamento do município. "Não é que o PT é maioria aqui, é que a maioria aqui não se interessa e nem quer se comprometer", diz Benaletti.
Localizada na região do Bico do Papagaio, extremo norte do Estado do Tocantins, Sampaio é a segunda na lista das cidades mais petistas do país . No início dos anos 80, o padre Jozimo Tavares chegou ao Bico do Papagaio, onde fez trabalhos de evangelização com trabalhadores rurais que se encontravam imersos em intensos conflitos por grilagem de terra. Integrante da Comissão Pastoral da Terra e adepto da Teologia da Libertação, instalou-se para pregar na cidade que margeia o rio Tocantins e foi importante centro de distribuição dos produtos que chegavam do porto de Imperatriz (TO). Ali estava o embrião do PT na região, fruto da junção entre a Igreja e os trabalhadores rurais. Desde então, o petismo local só cresceu. Na comparação, por exemplo, com São Bernardo do Campo (SP), cidade natal do partido, Sampaio tem mais de dez vezes a proporção de petistas. Esse crescimento, porém, ocorreu paralelamente ao declínio e ao esquecimento econômico da cidade, iniciados pela construção de estradas federais nas proximidades no fim dos anos 80 e nos anos 90, tirando do rio e da cidade sua importância estratégica. Todo esse quadro não foi acompanhado por Jozimo, que foi assassinado por fazendeiros em 1986, pouco tempo depois de sua chegada ao local. Em meio à maior crise da história do partido, a terra de Jozimo cobra da cúpula petista um olhar para o passado com a consulta às bases, pilar formador da legenda. "A crise pegou todo mundo de surpresa aqui. Ninguém imaginou tudo isso. A gente sempre trabalhou pelo partido, com poucos recursos, no sufoco, e fomos esquecidos. Todas as informações que tivemos foram pela imprensa. Ninguém falou conosco, parece que a gente trabalhou à toa. Construímos o partido com camadas populares, com setores realmente comprometidos com a transformação do país. Queríamos que esse debate fosse ampliado, que fossem ouvidos os que estão há 25 anos na luta, os que se sacrificaram. Queríamos ser ouvidos. Isso tudo que está acontecendo é muito triste", afirma Carlos Luna, 33, integrante da Executiva municipal de Sampaio. De acordo com ele, nos encontros regionais que precederam as eleições internas do PT houve um consenso de que a antiga cúpula envolvida nas denúncias de corrupção deve se explicar às bases enquanto a nova cúpula que vencer as eleições neste domingo deve expulsar os petistas comprovadamente envolvidos."Tem que ter coragem para chegar e dizer às pessoas que elas não correspondem mais às expectativas."
Avaliação semelhante tem José Maria Rigo, presidente recém eleito do diretório de Floriano Peixoto (RS), o quinto município com mais petistas do Brasil. "O partido cresceu muito rapidamente e foram entrando pessoas descompromissadas com as raízes do PT", afirma. Apesar das críticas dos dirigentes de Sampaio e Floriano à forma como partido cresceu e ao esquecimento da consulta à militância, em ambas as cidades o Campo Majoritário, tendência que controla o partido há mais de dez anos, venceu as eleições com a quase totalidade dos votos. Os sampaienses deram a Ricardo Berzoini 95% dos votos, enquanto os florianos o elegeram com 90%. Rigo, porém, nega ter havido em sua cidade a filiação em massa incentivada pelo Campo em nível nacional. "Aqui o crescimento foi automático, decorrente das políticas públicas que implementamos". As melhorias a que o dirigente se refere são a finalização da eletrificação rural e a construção de poços artesianos em quase todo o município de Floriano Peixoto, medidas importantes em se considerando o caráter disperso deste pequeno município gaúcho, distante 300 km de Porto Alegre, com população basicamente descendente de imigrantes alemães e poloneses espalhados em 16 comunidades em um raio de 3 km. Antigo distrito de Getulio Vargas (RS), o petismo local nasceu com o movimento de pequenos agricultores contra a barragem de Machadinho (RS), cuja construção alagaria 30% da área do então distrito. Emancipada em 1997, a cidade passou por duas administrações petistas, mas perdeu a última. A alguns quilômetros dali fica Xavantina (SC), que apresenta traços parecidos com Floriano Peixoto. Terceira no ranking de filiação petista, vive da agricultura e pecuária. A população de 4.100 habitantes se espalha por 15 comunidades e descende, na maior parte, de imigrantes italianos, poloneses e alemães. Lá, o PT nasceu do movimento sindical agrário e, ao contrário de Sampaio e Floriano Peixoto, nas eleições internas Valter Pomar venceu Ricardo Berzoini.
Longe do ambiente agrário e do sul do país, também houve espaço para o forte crescimento do PT. Foi em Icapuí, cidade cearense limítrofe com o Rio Grande do Norte que tem economia focada na pesca de lagosta. Com quase 100% de filiados pescadores, é a quarta com mais petistas do Brasil, fato esse explicado pela cidade ter vivido sob a égide do partido durante cinco gestões seguidas. Por ter colocado a totalidade das crianças da cidade na escola, a cidade foi finalista do prêmio Município Amigo da Criança, promovido pela Unicef. Nas eleições de 2004, perdeu a prefeitura para o PSDB, mas na linha da administração Luiz Inácio Lula da Silva de abrigar petistas derrotados nas eleições, acomodou dois de seus principais líderes no governo federal: os ex-prefeitos José Airton, que foi para a Associação Nacional de Transportes Terrestre (ANTT), e Dedé Teixeira, que virou assessor da Secretária Especial de Aqüicultura e Pesca. Sobre a crise do partido, os petistas pescadores dividem suas opiniões. Uma parte culpa o deputado federal e ex-ministro da Casa Civil, José Dirceu, por todas as práticas contrárias ao que a sigla previa. Outra parte crê que, ainda que esses erros possam ter ocorrido, foram feitos devido a uma "boa causa". Nas eleições internas, os votos se dividiram entre o vencedor Berzoini e a deputada gaúcha Maria do Rosário.
Se a história destas cidades revela a propagação do partido por meio de suas bases históricas, há também nas cidades mais petistas do país flagrantes de incoerência com esses traços. É o caso de Iaras (SP), única paulista na relação e nona no ranking. Distante 282 km a noroeste de São Paulo, este pequeno município com cerca de 3.500 habitantes viu o PT ser criado já em um cenário nacional de partido grande e de filiação em massa. "Sou político aqui há muitos anos. Em 2001, analisei o quadro e, acreditando que o Lula seria eleito presidente, fundei o partido. O PT nunca existiu antes aqui", afirma o bancário Edílson Xavier, ex-PTB que rompeu em 2000 com antigos correligionários. Ele trava na Justiça um embate por uma nova anulação das eleições de 2004, em que perdeu para um antigo aliado do qual fora chefe-de-gabinete na primeira gestão após a emancipação do município, em 1992. No Estado vizinho do Mato Grosso do Sul, em Caracol, décima no ranking, algo parecido ocorreu. O partido foi fundado em 1994 em decorrência de uma greve de professores do setor público municipal. Hoje, a cúpula é formada por pecuaristas. Em contraste com os feudos petistas, as cidades com o menor número de filiados da legenda não estão nacionalmente distribuídas. São município maiores, com população que varia entre 50 mil e 100 mil habitantes, concentrados no Nordeste. Paragominas (PA), é a cidade com menos petistas do país. Há 26 em 50 mil eleitores (0,052%). Na seqüência, aparecem São Gonçalo do Amarante (RN), Itapecuru Mirim (MA), Acarau (CE), Monte Santo (BA), Tutoia (MA) e Maranguape (CE).
8.10.05
A fé move rios
Em se considerando que valeu a lógica de que é melhor matar um projeto do que um homem, a greve de fome do bispo de Barra (BA), dom Luiz Flávio Cappio, acabou relativamente bem para o governo, que, ainda que tarde, soube dar a relevância que o caso pedia e deslocou um dos seus principais ministros para Cabrobó (PE) para propor o adiamento do diálogo sobre a transposição do rio São Francisco. Também acabou bem para o bispo, que não matou a si próprio e, de quebra, deu sobrevida às discussões das obras.
O projeto, aliás, é uma babel. Afastado do eixo político-econômico do sul do país, nada sabemos e tampouco queremos saber sobre o projeto, já que por aqui temos água e outros problemas para resolver. Mas, para o governo federal, é um projeto essencial. Ali estão em jogo o futuro político do nordestino Ciro Gomes e o grande projeto social do PT para a região mais pobre do país.
Política aparte, o que chamou mesmo a atenção no episódio foi a capacidade que um jejum religioso teve de mobilizar milhares de pessoas que mal sabem quem é Ciro e PT, muito menos o que significa transposição. Peregrinaram pelo sertão nordestino em busca de algo que não sabiam, mas que queriam, visto que movidos por uma fé cega que lhes direcionavam diretamente ao bispo, o candidato à martir que poderia lhes fornecer não mais que uma benção, uma atenção, uma voz.
O processo ali ocorrido foi semelhante ao da formação dos outros mitos regionais, como Padre Cícero e Antonio Conselheiro. Imersos na miséria que os faz ignorantes, suados e sofridos sob o sol escaldante, o cenário pobre ao qual a parte rica do país pôde acompanhar com emoção contagiante contrapunha com a luta solitária de um homem letrado, o bispo, apoiado por uma massa em busca do seu Dom Sebastião, completamente desconectada com a causa da luta dele, mas que, mesmo assim, chegaram até a, ao seu lado, iniciar também um jejum. Erro, pois, o bispo dizer que os "letrados" não entendiam a sua luta, apenas o "povo simples". Oras, esse "povo simples" mal sabia o que fazia lá. Rezavam, louvavam, como fazem sempre, eis que a saída para a vida ingrata que levam. Carência de mitos de um povo, pois.
O que é mais correto dizer é que qualquer um entende a luta do bispo, dentro, evidentemente, de suas realidades. Se aos sertanejos há uma intensa paixão, no sentido bíblico do termo, aos letrados, de uma forma geral, há respeito pela bravura de passar dez dias sem comer, apesar do desinteresse pela causa. Isso, claro, se considerarmos parte desses letrados, já que muitos assistiram ao espetáculo da devoção como uma novela das seis, sem os toques da dramaturgia global, o que, na verdade, até pode ter desagradavel, já que muito pobre junto não enche os olhos de ninguém. Ou enche. De desgosto.
A greve de fome, como qualquer forma de protesto, é válida. Ela pode até ter ares de uma arrogância pacífica, haja vista que, levada até o fim, alguém morre, mas deixa a grande derrota para o adversário. Nesse sentido, cabe questionar o posicionamento de parte da Igreja ao condenar a atitude. Essa conversa de que ninguém é senhor da própria vida merece uma boa dose de relativismo, ainda mais quando se sobrepõe à essa vida a causa que a sustenta. Assim, para pessoas que têm uma motivação a lhes conduzir, por vezes maior que qualquer outra coisa, até mesmo a própria vida, vale dela abdicar.
Não tenho filho, mas não conheço um pai ou mãe que não daria a sua vida pela dos filhos. Transpondo-se isso para o bispo Cappio, que chegou a Bahia em 1974 só com a roupa de frei e o hábito de franciscano _sequer tinha documentos, o que fez com que a ordem franciscana confirmasse sua identidade, é compreensível sua atitude.
É direito da instituição religiosa questionar os atos de alguém de alto cargo como um bispo, mas a instituição também deve ter a humildade de delimitar e se perguntar até onde quer e pode chegar sua influência. A Igreja, perita em marketing há 2.000 anos, deve reconhecer a greve de fome do bispo com esse mesmo efeito marqueteiro. Ele conseguiu chamar a atenção para os supostamente esquecidos nos debates da transposição do rio São Francisco, e surtiu efeito, com o adiamento da execução da obra. Sua luta foi em vão? Evidente que não.
O quanto o governo cederá em relação ao projeto original ainda é dúvida. Alguns movimentos sociais, como o MST e a Comissão Pastoral da Terra já reivindicam a realização de um plebiscito sobre o projeto, que seria uma solução para o intenso confronto entre defensores e opositores do rio. Atualmente, dois projetos referentes a um plebiscito sobre a transposição tramitam no Congresso. A dificuldade maior será atrair atenção nacional para um projeto regional. Nem greve de fome conseguirá.
20.9.05
A improvável travessia petista
Após a fundação do Partido dos Trabalhadores, em fevereiro de 1980, a data mais importante para os militantes, filiados e para os que odeiam a sigla é amanhã, quando os mais de 800 mil filiados poderão comparecer às urnas para decidir o futuro do partido. Afora o independente Gegê, ligado ao movimento de moradores, e o trotskista Marcus Sokol, disputam de fato o pleito o representante do Campo Majoritário _tendência que domina o PT há dez anos e responsável por sua guinada à direita e os outros quatro candidatos da chamada esquerda do partido. Para quem torce contra o partido, o ex-ministro de Lula é o nome mais apropriado para digamos, torcer-se.
Egresso do grupo que maculou o PT e introduziu no partido práticas comuns em outras siglas, como a aceitação de recursos de grandes empresas e de banqueiros para as campanhas eleitorais, a introdução do marketing eleitoral e a adequação do programa partidário ao bel sabor das classes mais abastadas da sociedade, a tendência ruiu o PT.
A que se ponderar, porém, essa observação. Como teria o partido ruído por essas adequações se foram elas que os fizeram vencer eleições e se tornar uma máquina eleitoral? E antes, quando todo o processo era feito, os milionários valores inundavam as eleições, onde estava a inquirição de todos acerca da proveniência do dinheiro? Parece hoje muito fácil a esquerda do partido atacar a conduta do Campo, de Dirceu e sua turma, mas não é difícil afirmar que, sem elas, o caminho ao poder com o discurso de estatização, calote na dívida externa e fora FMI seria quase impossível por vias democráticas.
Com todo o decorrer da crise, entre petistas se busca sempre seu efetivo início, sem consenso naturalmente. Alguns lembram a Carta ao Povo Brasileiro, em 2002, que acalmou o mercado e os endinheirados com a promessa de garantia dos contratos. Outros vão a 2000, na imposição de Lula de que só concorreria pela quarta vez à presidência se ganhasse. Há ainda a lembrança de 1995, quando foi aceito o grande capital na campanha, ou, no mesmo ano, a não-depuração interna feita ante as denúncias do ex-petista Paulo de Tarso do suposto esquema operado pela cúpula do partido para arrecadação de dinheiro em prefeituras administradas pela legenda.
O fato é que essas medidas não devem ser vistas isoladamente, mas como parte de um processo, o qual alguns tentaram impedir e foram sumariamente expulsos_ outros fingiram que não viram, já que o que interessava era o poder, e mais outros _Campo Majoritário basicamente_ aceitavam-no como o caminho para o poder.
As opiniões expressas em geral remontam a paixões dos seus emitentes, tal qual ocorre no que por aí se prolifera em relação a crise política. Ao escutar um petista convicto defender Lula, é possível que seus argumentos sejam coerentes, baseados no ele-foi-traído-e-nada-sabia. Com tucanos e pefelistas, o mesmo, com fundamento no mas-que-presidente-omisso-ou-ladrão-é-esse.
Nesse mesmo sentido, não faz sentido torcer para a derrocada terminal do Partido dos Trabalhadores, ainda que isso possa ocorrer. Isso porque um partido, antes de se firmar por quadros ou condutas, ele é construído em meio às idéias dos seus formadores, e é aí que o PT sempre se diferenciou dos seus pares e se tornou um dos principais fatos políticos do país no século 20 (assim como seu fim pode ter o mesmo título neste início de século).
Imaginar que a cassação do registro do PT ou sua desmoralização possa abafar o que por trás dele é, ou foi, representado, é um erro, vez que o partido pode passar, mas a massa desassistida que, ao menos em tese, foi objeto de cuidado da legenda, não passará tão cedo. Os anseios dos intelectuais que formaram o PT e as demandas da população menos favorecida continuarão, ainda que o partido passe. Nessa linha, a forma de representação encontrada pelas causas embrionárias do PT pode muito bem mudar de sigla e serem abrigadas em outra casa, e aí está o PSOL em franco crescimento.
No entanto, o que pode salvar o PT, neste momento crítico, é uma vitória da esquerda do partido concomitantemente com uma adequada visão política de futuro, coisa que, convenhamos, nunca foi muito o forte dos partidos de esquerda. Basta lembrar que das poucas vezes em que um partido de operários chegou ao poder, na Itália dos anos 20, o sonho durou pouco e logo o governo foi entregue ao ditador Benito Mussolini.
Colocados lado a lado, a esquerda petista que hoje concorre se divide entre mais próxima ao Campo Majoritário (a deputada gaúcha Maria do Rosário); uma de centro, que divide sua plataforma entre críticas à política econômica e apoio a Lula (a do terceiro vice-presidente Valter Pomar); uma que apóia Lula mas tece críticas mais duras ao seu governo (a do ex-prefeito de Porto Alegre Raul Pont); e, finalmente, a de ultra-esquerda, que ataca Lula e todo o seu governo, num discurso que se aproxima do da oposição (a do economista Plínio de Arruda Sampaio).
Desse modo, assim como na atmosfera política de qualquer nação, dentro do universo petista há uma linha que vai da extrema direita (Campo Majoritário) para a extrema esquerda (Plínio Sampaio). E não é forçoso dizer que a vez da direita petista chegou ao fim. Se o modelo a que o petismo se rendeu é o utilizado ampla, tradicional e historicamente pela maioria dos partidos políticos do país, o grupo petista que fez essa escolha deve ser bem punido pelos militantes com a sua saída do comando da sigla.
Esse, frise-se, seria o primeiro passo. Reorganizar o partido com todas as premissas que o formaram respeito à diversidade de opinião e a estrutura partidária. A travessia será difícil, ainda mais com a permanência do Campo Majoritário do partido. Qualquer que seja o resultados das eleições e do período pós-eleitoral petista, a certeza que fica é de que a causa embrionária do petismo nunca lhe pertenceu, e o eventual fim simbólico do partido tampouco a eliminará. Ao contrário, dará força para que as novas tendências de esquerda aprendam como não fazer com o PT e permeiem seu trabalho por uma fidelidade às práticas que suas causas pedem.
1.9.05
A irresponsabilidade como requisito político
O presidente da Câmara, Severino Cavalcanti (PP-PE), foi, assim, dizer, o personagem da semana. Não que ele precise fazer muito para torná-lo. É o típico homem que aparece e acontece, perdoem-me o chavão. Mas essa semana houve algo como um superdimensionamento de sua figura, do atraso dos costumes políticos e da pieguice personalista por ele representada. Em entrevista à Folha de S. Paulo, defendeu a complacência com a corrupção. Para quem não se divertiu com a entrevista-piada-tragédia de uma página, em suma, o tosco parlamentar afirma que os deputados que comprovarem a utilização de recursos ilegais em suas campanhas merecem penas mais brandas, como uma advertência, enquanto os que receberam recursos em troca de apoio deveriam ter uma pena mais grave.
O problema em si não está propriamente na gradação de uma pena para a outra, visto que, de fato, a natureza dos são crimes diferentes. Em uma, burla-se o sistema para ter mais recursos, e, assim, mais chances de vencer a eleição. Em outra, burla-se a alma, a convicção, a ideologia ou a ausência desta stricto senso, e se troca o direito fundamental de um parlamentar e símbolo máximo da sua representação popular, o voto, por dinheiro. Ambos os casos corrompem o sistema, mas, em se considerando que um homem pode perder tudo, que continua tendo a sua alma, se esta é vendida, perde-se ela e aquele ao qual a ela se vincula.
Ocorre que aqui não se fala de um cidadão comum. O parlamentar, na atribuição de suas funções, possui um caráter diferenciado, vez que a ele é delegado o poder popular. Nessa linha, quando se vende, ou quando corrompe um sistema, seja ele eleitoral, fiscal ou até mesmo do clube a que pertence, iguala-se na quebra do que se usa chamar decoro, que nada mais é um nome chique para a quebra da safadeza implícita que não se deve deixar emergir quando se está ali, trabalhando e recebendo por delegação popular, ainda que isso seja ignorado pela maioria dos que lá estão.
Desse modo, caixa 2 e venda de voto podem até ter uma diferença no cerne de suas motivações e finalidades, mas nunca devem ter tratamento desigual quanto à gradação de suas punições. As duas devem ser vergastadas com a devida propriedade. Mas a situação é tão crítica que, como a punição exige autoridade, resta um quadro em que ficam escassas as lideranças para fazê-lo. O problema, como diz a piada corrente, não é de política, é de polícia. O presidente do Conselho de Ética, por exemplo. Soldado malufista, abateu-se durante os desvios dos recursos destinados a pagar precatórios judiciais nas gestões Maluf e Pitta em São Paulo. “Ele (Maluf) usou o dinheiro dos precatórios para fazer obra'', afirmou na época.
Há suspeitas dos motivos que levam Severino a ser tão brando com suas exigências. O presidente da Câmara declarou à Justiça Eleitoral ter gasto R$ 60 mil em sua última campanha por Pernambuco. Não declarou gastos comuns em qualquer campanha, como combustível. O jornalista Ricardo Noblat, conforme relata em seu blog, ouviu cinco pessoas do Recife habituadas com campanhas: três deputados federais, um estadual e um ex-ministro. Todas calcularam que a campanha de Severino não saiu por menos de R$ 600 mil, uma vez que se baseou na distribuição de cabos eleitorais nos grotões do Estado. Isso porque não houve gastos com gasolina.
O diabo em tudo isso, não bastasse o fato isolado deste homem ser o terceiro da linha sucessória, é uma velha prática de nossa sociedade: o afago, o puxa-saquismo. Neste país do status, não importa o caráter e os valores de uma pessoa para ela ser, digamos, agraciada com a boa educação da comunidade que o rodeia. Aqui, basta o poder, seja ele político ou financeiro, para capacitar alguém ao cargo de personalidade passível de congratulações e receber os beneplácitos de uma comunidade. Isso a despeito de práticas sujas empresariais que ele tenha praticado para chegar ao bom saldo financeiro em que chegou. Isso a despeito da condução impoluta de sua vida política. Tudo em nome do interesse. O ricão, ou o politicão tem, no Parlamento, nas grandes e nas pequenas cidades, a garantia de seus egos agraciados com o séqüito que os seguem e acabam os cegando, por, na realidade, estar cercado de devotos de uma fé suja, pois maculada por sub-interesses que não os da amizade e admiração, mas o do medo e do interesse. Daí decorre outras bizarrices vistas nesta semana em Brasília. A força com que os petistas-governistas-lulistas, como Devanir Ribeiro (PT-SP) e Arlindo Chinaglia (PT-SP), saíram em defesa de Severino após o deputado Fernando Gabeira (PV-RJ) trocar ofensas com o pernambucano e pedir sua deposição, em razão de suas declarações à Folha mostram isso. Fato pior foi a condecoração de Severino com a Grã-Cruz do Rio Branco, a insígnia de mais alto grau da diplomacia brasileira, concedida pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Uma ofensa a mundialmente reconhecida diplomacia nacional. Revela, assim, interesse e medo.
No entanto, não seria justo atacar somente os que dele precisam nesta crise. Cabe questionar quem o colocou lá. E aí aparece a oposição, tucanos e pefelistas que, em optar pela integridade e chatice do petista Greenhalgh, preferiram achincalhar o governo e eleger ele, Severino, em uma operação que hoje virou reversa, haja vista o explícito interesse do presidente da Câmara em segurar processos contra os governistas. O que comprova que, no quesito responsabilidade, ninguém passa. Pobre país.
18.8.05
Os teóricos mudos
A construção da teoria da formação dos agrupamentos de esquerda no planeta sempre se conceberam, e assim não poderia ser diferente, da valorização da sabedoria popular, tida como força motriz de qualquer revolução que se pretenda fazer. A valorização do senso comum e o entender das idéias como concepções partilhadas das pessoas a respeito de qualquer fatos em contraposição e intelectualmente superior ao que a sociedade civil constituída _formadores de opinião, acadêmicos, profissionais liberais_ pensa foi, para situarmos a questão ao Brasil, um dos pilares da formação do Partido dos Trabalhadores em 1980. Em oposição, a idéia de que o senso comum é um saber, e não uma falsa consciência, sempre encontrou resistências nas classes mais altas do país. Sempre foi difícil imaginar que um peão, sujo e ignorante, possa saber tanto ou mais do que o grupo dos com-universidade, já que ele, não teve à sua frente livros e ensino de qualidade que os outros tiveram e, assim, tornou-se incapaz de fazer análises inteligentes sobre os mais diversos aspectos da vida, quiçá, sua própria condição de sujo e ignorante.
Nesta semana, porém, assistimos à manifestações públicas que desmascaram tanto um quanto outro argumento e que revelam que aquilo que buscamos todos, é poder e conforto. Na terça, a linha chapa branca das históricas entidades de classe representativas _UNE e CUT_ atacou a corrupção, mas não o governo. Como se uma não se relacionasse com o outro. Demonstraram, além da cegueira, o que querem. Preservar um governo que enfim lhes dão cargos no alto escalão e dinheiro todo mês. Poder, pois. Com amparo no PT e no PC do B, partidos dos quais a maioria dos seus integrantes fazem parte. No dia seguinte foi a vez dos excluídos deste governo protestarem. E mais partidos por trás, desta vez, o PSTU e o PSOL, em plena campanha. Não que protestos não devam ser feitos, muito ao contrário, devem ser incentivados. Mas parece claro que em meio a uma crise gigantesca como tal todos querem tirar sua lasca e nessas situações a sabedoria popular tão proclamada no momento de formação desses agrupamentos se esvai e se transforma em massa de manobra em nome de um projeto de poder. Falta credibilidade à UNE e a CUT defender um governo que as sustenta na mesma proporção que falta credibilidade ao PSTU e ao PSOL combaterem um governo e defenderem um golpe branco, no caso, a antecipação das eleições.
Os mesmos teóricos que elevaram a sabedoria popular como ponto central de qualquer projeto revolucionário de poder também firmaram em suas teses a figura do filósofo espontâneo, que seria o intelectual orgânico que soubesse bem captar o fluxo de idéias que corre no andar de baixo das sociedades e se transformar na voz desses milhões, a partir de suas ricas experiências pessoais. Dois exemplos cabem aqui. O primeiro, da ex-primeira-ministra britânica Margareth Thatcher. Ao iniciar as reformas estruturais que fez na economia de seu país, como a privatização de estatais e a austeridade fiscal, foi duramente criticada pelos desenvolvimentistas que sempre acreditaram que o limite de gastos dos Estados deveria sempre ser aproveitado. Como filha do dono de uma marcenaria, passou a infância na venda do pai e, com base nisso, respondeu ao manifesto que mais de 300 economistas fizeram contra ela: o Estado é como uma loja, a receita deve bater com a despesa e não de pode gastar mais do que tem. O outro filósofo espontâneo que retrata essas teorias é o sindicalista Luiz Inácio Lula da Silva. Na greve geral de 1979, que o consolidou como figura do cenário nacional, defendeu já a ação ilegal quando a legalidade impedia a ação. Válida ou não, a partir desse preceito Lula sacudiu o então agonizante regime militar.
Se a esquerda tanto se vincula a sabedoria popular e aos líderes que saibam a conduzir, o momento de crise por que passa o país cabe a reflexão de ao menos tornar esses pilares mais transparentes e flexíveis. Assumir o desejo do poder é característica que poucos se deixam transparecer. Vincular esse desejo ao comando de manifestações, idem. Quanto ao líder, é preciso reconhecer que a beleza e a graça do filósofo espontâneo se limita ao momento em que este e sua turma se aproximam do poder, seja de um sindicato, de um partido, ou de uma República. Mas para que esse reconhecimento seja efetivado, é preciso que ele venha de cima para baixo, a partir do próprio líder, que, intelectual espontâneo que é, captaria esse anseio daqueles que os representam e em seqüência a isso tenta conciliar a práxis com o discurso que ouve. Lula está hoje neste limiar. Ou escuta ou se tornará o Lech Walesa tapuia. Leva a vantagem de poder ver o pífio fim que levou o operário polonês depois de um governo desastroso que frustrou esperanças dos poloneses. Resta ver se será capaz de evitar as coincidências que rumam para desenhar a história.
28.7.05
FHC, Lula e Jobim na aula de direito casuístico
Crê-se que toda crise política deve ser seguida de uma renovação no quadro dos representantes, a se realizar nas eleições. Cansados e perplexos pela mesma história repetida por outros atores, a população brasileira, ávida por justiça, mas sem se lembrar de quem votou nas últimas eleições e portanto sem cobrar deles a atuação devida, vai às urnas e pune os delúbios, os dirceus, os genoinos e os silvinhos. Ainda, repito, que venham a se esquecer dos novos escolhidos pouco tempo depois, mas isso faz parte da nossa história, cíclica que é.
Outro aspecto da mudança é a própria mudança. Do sistema. Esse sim o grande culpado pelos péssimos hábitos dos puritanos burocratas das máquinas partidárias. O financiamento privado de campanha e as facilitações que proporciona é o alvo da vez. Discute-se o financiamento público, a fidelidade partidária, a prestação mensal de contas no período eleitoral. Enfim, discute-se tudo. Agora. Antes não. Quando todos estavam centrados na reeleição ou não dos integrantes da Mesa da Câmara, quando todos discutiam a viabilidade de aumentar seus salários, quando todos tiravam e continuam a tirar seus três meses de férias o que era esse tal financiamento público imerso num longo texto de uma tal reforma política? Mais um tema subtraído às vistas alheias da sociedade, visto que não de muito interesse no perfazer-se diário do objetivo real por qual quiseram obter seus cargos: dinheiro e poder.
No entanto, hoje, com a revelação do envolvimento amplo, geral e irrestrito (só para ficar no slogan setentista dos hoje envolvidos) de tucanos, vermelhos, pefelistas, liberais, trabalhistas em um valerioduto que a cada dia é renovado ou por novos integrantes ou por novos esquemas espúrios de burlar a Viúva, todos se voltam à causa principal de toda a lama: o sistema. Não, não é o homem o culpado. Esnobam a inteligência alheia ao perpetuar a tese de que somos nós, homens, os culpados. Nossa natureza, se me fazem entender. Retomam a filosofia para afirmar que o poder corrompe os homens. Nesse caso, perdoem-me, não. O poder os revela.
E cada um a sua maneira. Não de revelá-la, claro, mas de justificá-la. Dom Fernando Henrique e sua pompa inova nesse aspecto ao criar novas figuras jurídicas para defender os seus pupilos que fizeram a lição de casa errada. O senador Eduardo Azeredo (PSDB-MG), tucano de bico vistoso, usou a lavanderia do seu Marcos Valério em 1998. Dom Fernando não achou tão grave. Acha que denúncias como essa desviam o foco das denúncias contra os rivais petistas. Inova no direito tapuia. Cria a figura do flagrante de crime eleitoral, ou um habeas corpus político preventivo. Lula, por sua vez, em sua triste e equivocada omissão sobre tudo o que se passa no país, cria uma legítima defesa política. Acha que buscar o amparo das massas é válido em meio ao bombardeio da oposição. Esquece primeiro que esse bombardeio, apesar de por vezes dimensionado, fundamenta-se nos fatos, esses sim, as excelências de toda a crise. E segundo, mostra confiança em demasia no trambiqueiro Duda Mendonça, mentor dessa movimentação. Ser aclamado pelo povão é bom, vale a foto da capa, dá manchete. Mas é cálculo de risco à medida em que os fatos, que não escolhem data para aparecer, sucedem-se e fatos são fortes o suficiente para, se não quebrar o mito, tirar-lhe a aura de superior às incorreições e impurezas do homem bom.
A esses movimentos de Lula há _triste país o nosso_ até suporte jurídico do maior representante do setor no país. Trata-se do grande jurista Nelson Jobim, presidente do STF, o juiz político, peemedebista e governista, sempre que assim se faz necessário. Ao iniciar uma rodada de conversas com líderes dos partidos políticos advertindo-os de que o país ficará ingovernável nos próximos dez anos se a oposição tentar derrubar Lula, criou a figura do atenuante para crime cometidos por presidentes carismáticos. Aqui, não importa o grau de envolvimento do presidente da República, qualquer que seja ele, com eventuais atos de improbidade e afins.
Se tem carisma, o povão gosta, e a deposição via impeachment abalará o país, melhor deixar quieto. A rigor, a tese é verdadeira. Mas impedir quem quer que seja de cair por risco de instabilidade é uma tentativa de blindagem que fracassa diante, novamente, dos fatos. É, mais do que isso, confundir os interesses eleitorais dele e de seu futuro partido, o PMDB, e tentar apegar-se a um presidente que aparece ainda imbatível em pesquisas eleitorais.
Aparte defesas cegas e propostas de mudanças por conveniência, o que precisamos agora é de sangue, muito sangue, escorrendo do Congresso, dos partidos, de Brasília. Cortar na carne os malfeitores, cassar-lhes os direitos políticos, afastá-los em definitivo da vida pública. E lembrar que punir apenas a porta de saída é dar chance de que o sistema seja mantido, mude-se ou não suas regras, já que o lado de lá, a outra face do esquema de corrupção, será mantida. A porta de entrada, em que lavagem de dinheiro e financiamento ilegal da política estão intimamente ligados por relações subversivas entre políticos e empresários são o outro vetor condicionante da corrupção. Se uns usam do poder dos votos para intermediar seus interesses eleitorais, os outros usam o poder econômico para defender seus negócios. Se uns são corruptos, outros são corruptores. Permitir que os ricaços que tanto como os políticos mamam nas benesses do Estado, via facilitações contratuais, tráfico de influência, off-shores e afins é corrigir uma parte do defeito, e, portanto, não corrigi-lo. Melhorar o sistema envolve vários fatores e, desse modo, há vários envolvidos nesse processo. Os eleitores, pela análise do que há por aí, e os políticos e a Justiça, pela punição de todos os envolvidos. Não pode sobrar ninguém.
14.7.05
Aos corvos
Em Ilíada , de Homero, o prenúncio da vinda dos corvos revela o ânimo forte desses corvídeos ansiosos por destruição do que caminha para a morte, ou do já morto ("Corvos virão lacerar-te as tenras carnes, aos bandos, batendo, ruidosos, as asas"). No Brasil atual, da dinherama das malas e das cuecas, os corvos se fazem mais do que presentes. Há dois tipos. Os que estão dentro da estrutura do poder, explorando a carne de um Estado podre e viciado, e os que estão fora do comando, apreciando com escárnio toda a sujeira.
Os primeiros, dito aparelhadores, formaram-se neste governo sob o comando do Zé. Era a turma do Zé, previamente estruturada em seu partido desde sua ascenção á presidência da sigla, em 1995. Mais do que a fome de poder, a necessidade transcendental de mantê-la aos moldes de como fora instaurada na legenda _e que deu certo, já que foi reeleito por duas vezes_ poderia ,por que não, ser facilmente aplicada na Casa Civil. E o foi. Sua atuação em ambas as esferas foram semelhantes. Estrutura-se, coloca-se "gente sua" nos principais postos, articula-se ao seu gosto e ponto. Para que investir na organização e na mobilização da sociedade civil para viabilizar o projeto de poder do partido quando o caminho mais fácil é pelas facilitações do poder, que podem ser divididas sem qualquer compromisso com ideologia, como, aliás, sempre foi feito no país. Zé e sua turma são os principais culpados do desmoronamento do governo petista. Acharam que corromper pelas suas causas era diferente de corromper em causa própria. Ignoraram que a corrupção pública, aquela que não visa o enriquecimento prório, chega até a ser pior que a privada, vez que esvazia as instituições e sobrepõe um poder ao outro, no caso, o Executivo sobre o Legislativo. Um erro de estratégia do ex-brilhante oponente do regime militar. Lula também deu grandes contribuições para o enfraquecimento de seu governo. Como falta espaço para listá-la e aqui não é o principal tema, fico com apenas seu hábito herdado do sindicalismo de ouvir, ouvir, demorar, demorar e nada, ou muito pouco, resolver. Faltam-lhe muitas vezes a energia, o raciocínio rápido e a sensibilidade política necessária para um comandante do país, já que, em política, a demora em tomar decisões pode agravar situações.
Mas voltemos ao Zé e a sua estrutura. Se ela ruiu, o governo federal treme, mas ainda se segura. Ao menos por enquanto. Lula tentará, daqui para a frente, desligar-se publicamente do partido enquanto aguarda, ineternamente, que ex-ministros tentem salvar a agremiação, aproximando-se do governo. Na prática, os dois querem se aproximar. Mas um, Lula, não o pode fazer de forma tão explicita, já que o PT hoje está manchado na opinião pública. Ele consegue seguir presidente sem a legenda que fundou, mas sabe que em 2006 precisará dela para se candidatar. E, como ela precisará estar firme e forte, ainda que recauchutada, para o que promete ser uma das campanhas mais polarizadas da história, deslocou seus ministros para a operação-resgate.
Isso tudo, claro, se as denúncias não chegarem ao presidente. Como todo o esquema foi montado e coordenado no mesmo prédio em que Lula trabalha, é mal-visto, aos olhos da população, pensar que o presidente não sabia de nada. Dá ares de leniência, desleixo, ingenuidade ou, pior, participação. É ele quem governa mesmo? O que salva o presidente é sua trajetória e seu simbolismo, que faz com que até mesmo a oposição tema qualquer envolvimento seu. Seria frustrante demais para a população descobrir qualquer relação do presidente com as denúncias. Ademais, nas ruas, o resultado disso é imprevisível, mas também prejudicial aos setores direita. O afastamento de Lula antes das eleições de 2006 dará, no entendimento popular, ares de golpe e possibilidade de uma convulsão social, já que se trata ali _e aqui falo do Lula pré-poder_ de um símbolo da ascensão do pobre, do miserável, ao poder, subvertendo toda a lógica da história brasileira. Afastar Lula é perigoso. Daí porque, como já anunciado pelo presidente do PFL, Jorge Bornhausen, seria melhor condená-lo a ser candidato, para perder nas urnas. Se o presidente tem ou não culpa, as investigações e, principalmente, a quebra de sigilo telefônico do Zé deverá mostrar. Resta esperar.
Ocorre que os outros tipos de corvos _aqueles que não comandam o país_ assistem a todo o lamaçal do camarote, comendo pipoca e gargalhando, torcendo para que a dinâmica das denúncias seja mantida, fazendo a lógica do quanto pior, melhor. Padecem de um sentimento que julgam ter, mas que passa longe deles. O de brasilianidade. Não é nada satisfatório ou divertido ver o que acontece hoje no país. O eventual fracasso da estrela vermelha que subiu ao poder é também o fracasso das práticas que esses mesmos setores sempre fizeram quando comandaram o país. Ao atacar o fisiologismo, o conchavo petista, a máquina burocrática partidária de produzir votos e abafar ideologias, atacam a si mesmo, afinal, implementaram o esquema lá atrás e sempre assim o mantiveram. Claro que a vingança na política é um fator crucial nessa alternância de poder. Se petistas exageraram ao pedir o Fora FHC em 1999, se fizeram muitas vezes a oposição cega, se se julgaram os únicos detentores da ética e da moralidade pública, hoje a fatura chegou. É a vez da revanche. Da mesma maneira que os própios petistas já tiveram a sua em 1992, quando foram implacáveis contra Collor, que os derrotara três anos antes.
Porém, acompanhar o Brasil em frangalhos e gostar disso é falta de sensatez. Não partidarizo a crítica. A torcida contra se revela em diversos setores da sociedade civil. Mostra egoísmo, uma vez que a vida desses setores, de muito pouco vai mudar com um PT ou um PSDB ou qualquer outro partido no governo. Tem suas casas, suas piscinas, plano de saúde privado, os filhos estudam em escolas particulares e tentam ir uma vez por ano ao exterior. Definitivamente, não é a essas pessoas que o país tem de ter as prioridades de suas políticas. Não que devam ser excluídas, mas não é muito imaginar que milhões de pessoas ainda aqui vivam sem quaisquer condições de saneamento, para ficar em um item apenas. Por isso falta civismo em torcer para que um governo de esquerda dê certo. Falta civismo torcer para que qualquer governo não dê certo. Falta também a percepção de notar que esse país só vai melhorar quando for mais justo, mais inclusivo.
E falta informação. Lula não apareceu nesta semana como ainda imbatível nas eleições de 2006 à toa. A pesquisa revela que , mesmo com as denúncias, o sentimento popular de de que "são todos iguais" persiste, reforçado com a descoberta de um bispo-deputado-pefelista com R$ 10 milhões em malas, ou com a relação de Marcos Valério com tucanos mineiros, o que faz com que mantenham a confiança em Lula, "gente como nós". Além disso, mostra que o discurso oposicionista de que o governo parou, se não é errado, é falho. Nenhum governo se interrompe automaticamente com denúncias. Nenhum governo faz só o que os jornais publicam, qualquer que seja o governo. As escolas não param com denúncias, CPI´s não interrompem distribuição de Bolsa-Família, depoimento de testemunhas não pára o porto de Santos. Enfim, país nenhum se interrompe com crise política. O que pára, sim, é o Congresso. Mas vá lá, convenhamos, esse nunca gostou de trabalhar mesmo.
Não sou muito afeito a pesquisas e comparações, pois são relativos, ainda mais quando jogados em épocas diferentes. Mas, apenas para exemplificar, um estudo da revista Inteligência deste trimestre, a melhor revista menos conhecida do Brasil, compara 100 indicadores de desempenho econômico, social e produtivo entre os primeiros biênios das gestões FHC e o primeiro biênio da gestão Lula mostra que, na média geral, o desempenho dos dois primeiros anos do PT é superior aos dois primeiros anos de FHC em 64 dos indicadores. Isso revela que é falsa a tese de que o país está sem governo. Para eventual análise de algum leitor, o estudo está disponível pela internet (http://www.insightnet.com.br/inteligencia/pdf/29/cap01.pdf e http://www.insightnet.com.br/inteligencia/pdf/29/anexo.pdf).
Lula tenta salvar seu governo. Eliminou José Dirceu, mentor do estruturamento que montou. Aproximou-se de figuras apartidárias, como o ministro Márcio Thomas Bastos (Justiça). Encaminhou boa parte de seus ministros ao Congresso, de volta aos seus mandatos e empenhados em formar a tropa de choque do governo em uma das maiores crises da República. Tentarão impor seu trabalho à turminha do PT na Câmara, por sinal, fraquíssima. Não dá, de fato, para confiar a defesa do Planalto em gente fraca politicamente, deslumbrada e despreparada como José Mentor e Professor Luizinho, entre outros. Também mandou um dos seus melhores ministros, Tarso Genro (Educação), para a presidência do PT. Tem de travar a luta contra os corvos de dentro de seu governo e de seu partido, e os de fora, que adoram a crise, apesar de entenderem muito dela.
30.6.05
A solução passa por Minas
Em se tratando de política, a própria biologia em si é dos seus fatores mais importantes. A idéia de que ninguém, nem nada, é para sempre, nos fornece a constante esperança de que precisamos ter para nos certificarmos que mudanças, se não virão de imediato, poderão vir. Na administração pública, as práticas convivem com as idéias, com a diferença de que as idéias não morrem, mas as práticas sim, uma vez que, para sustentá-las, precisa-se de um ator que as concretize. As idéias não. Ficam ali, boas ou más, à espera de alguém para colocá-las em prática. Em suma, a prática pressupõe a idéia, mas a idéia não pressupõe a prática.
Nesta semana, mais uma vez veio à tona a discussão de uma união entre o PT e o PSDB, os dois principais partidos do país que há anos travam uma luta acirrada, mais pelo poder do que por idéias. Não foi a primeira vez que integrantes da assim chamada nova geração tucana, que tem como figura maior o governador mineiro Aécio Neves, sugeriu, ainda que de forma embrionária, uma aliança entre os dois partidos, ao afirmar que seu partido “está de mãos estendidas” a Lula para ajudá-lo a sair da pior crise política brasileira dos últimos anos.
O gesto, de imediato, causou reações. Mas não na jovem guarda de ambos os partidos e sim na velha geração, já com o acúmulo de todas as rusgas entre ambos os partidos. O pomposo Fernando Henrique, do alto de seu pedestal de presunção e orgulho, desde logo tratou de murchar Aécio e suas pretensões mineiras, diria, conciliadoras. Mesmo tratamento teve o ex-ministro-aparelhador-de-Estado José Dirceu ao prefeito de Belo Horizonte, Fernando Pimentel (PT), quando, no ano passado, mencionou que não havia diferenças entre PT e PSDB senão o projeto de poder.
Aécio e Pimentel tiveram um episódio recente de boas maneiras políticas. Em março deste ano, o governador buscou o apoio do prefeito para a defesa dos seus interesses na reforma tributária, em especial as mudanças no sistema das compensações da isenção de ICMS nas exportações. "O prefeito Fernando Pimentel tem um papel muito importante aí", afirmou.
Hoje, o governo federal se divide quanto ao tema. Basicamente não-petistas, como os ministros Aldo Rebelo (Articulação Política) e Márcio Thomaz Bastos (Justiça) defendem a idéia da aproximação. Assim como Antonio Palocci (Fazenda), para quem divergir seria se auto-atestar possuidor de grande hipocrisia, já que funciona como um Pedro Malan barbado com sotaque caipira. Já a cúpula do partido representada no Planalto, como Olívio Dutra (Cidades), rejeita o pacto. O mesmo para o PSDB. A geração do prefeito de São Paulo, José Serra, do secretário paulista da Casa Civil, Arnaldo Madeira, também a rejeitam. Frise-se que o bonzinho Alckmin o faz mais por interesse político do que pela convicção de que a aproximação não é viável. Mas por que expor isso, se logo posso ser presidente?
O que simboliza os dois jovens mineiros é uma esperança de que a renovação dos dois maiores partidos que hoje se lascam em farpas nem sempre bem fundamentadas possa, em um horizonte não muito longe, tornar a vivência entre ambos algo que não signifique mais disputas envolvendo egos e os melhores cargos, mas governabilidade e defesa dos interesses do país.
PT e PSDB tiveram origens na luta comum pela redemocratização do país. Em 1989, nas primeiras eleições presidenciais da Nova República, o então candidato tucano derrotado no primeiro turno, Mário Covas, subiu ao palanque de Lula no segundo turno para apóia-lo contra o desastre Collor (ícone da elite da época, mas deixa isso pra lá). A partir daí, no que poderia ter sido um movimento conjunto de construção de um projeto de país, transformou-se na ocupação do espaço do jogo eleitoral deixado pelo PMDB, que, aos poucos, foi se esfacelando.
Travam, desde então, disputas de sangue, o que não se justifica, visto que possuem congruências passíveis, senão da divisão do poder, de um apoio recíproco à governabilidade. Poderiam deixar as diferenças conceituais para os eleitores escolherem qual dos dois deve permanecer. Apenas como exemplo, se essa aproximação fosse hoje. O que se defenderia em conjunto seriam as reformas política e tributária, já que não há muitas divergências entre ambos sobre esses assuntos. Assim, para o bem do país, que sejam aprovadas.
E, naquilo em que há diferença substancial, no caso a política externa defendida por ambos (petistas querem ampliar contato com países pobres enquanto tucanos preferem se manter fortalecidos com americanos e europeus), joga-se a decisão para a população, que, nas eleições, ao escolher entre um ou outro, roga a um deles o direito de a executar conforme escolheu a maioria.
O que separa o PT do PSDB não é definitivo. As diferenças entre ambos se mostram em alguns aspectos pontuais, em outros locais, e em um ou outro fator, ideológico. Os mineiros Pimentel e Aécio sabem disso. E com a força da biologia em envelhecer e fazer passar as pessoas que impedem que novas idéias coloquem para trás velhas práticas, não é muito sugerir que um melhor país vai passar pelo caminho que, ainda de maneira tímida, começam a passar por Minas.
23.6.05
Contra-ataque
A crise política por que passa o país suscitou, como necessário, um movimento de defesa dos envolvidos, organizado em várias frentes. O governo tenta implementar uma agenda positiva com a proposta de arrocho fiscal, deixando claro que deseja aproveitar o excesso de arrecadação para apoiar o esforço fiscal e, com isso, reduzir a necessidade de elevar os impopulares juros para conter a inflação.
Para tanto, como para a medida ser aprovada é necessário o difícil trâmite nas duas casas Legislativas, com a aprovação de 2/3 dos parlamentares em dois turnos, o Planalto ataca com a reforma ministerial para ampliar o espaço do PMDB no governo e evitar problemas na votação, que, por si só, será difícil em meio a tantas CPIs instauradas e em fase de instauração. Evita também que o governo se torne refém da oposição nessas comissões, que, apesar de controladas por pessoas ligadas a ele, enfrentará o forte desejo de tucanos e pefelistas de que tudo seja investigado e cabeças sejam cortadas, ainda mais quando se fala em minar o maior adversário político a pouco mais de um ano das eleições.
O PT, por outro lado, escolhe como estratégia a união dos integrantes do partido, sempre dividido por suas diversas tendências, e o retorno a suas bases por meio do apoio dos movimentos sociais, principalmente da CUT e do MST. Porém, esse apoio parece mais ligado à cúpula dessas entidades, estritamente vinculadas ao alto escalão do governo federal, do que às massas em si.
Isso porque é difícil crer que todos os cinco milhões de filiados da CUT e as centenas de milhares dos sem-terra apóiam incondicionalmente Lula e sua política econômica ortodoxa e continuísta, que acabou por prejudica-los, ou, pelo menos, mantê-los na mesma situação que combina desemprego, baixos salários e desrespeito às leis trabalhistas. Ou seja, há um abismo na situação de vida da militância e da cúpula que, em tese, deveria defender sua classe.
Só um aparte a quem pensa que um regime de metas de inflação e manutenção de superávit funciona. Dá certo sim, só que para quem sempre deu certo. Quando empresários estão muito satisfeitos com o governo dito de esquerda é porque algo está errado e a história, está sim, está certa, vez que mantida..
No entanto, essa defesa dos movimentos sociais (ou pelo menos de suas cúpulas) é compreensível. É evidente que Luiz Marinho e João Pedro Stedile são contrários à política econômica tucana de Palocci, mas mais evidente ainda é que sabem que uma desestabilização e enfraquecimento de Lula para as próximas eleições deixariam as classes menos favorecidas incertas quanto a quem poderia substitui-lo como liderança, uma vez que essa pessoa, ao menos a médio prazo, não existe. Pensam, então, que antes um Lula aliado à direita do que um Fernando Henrique contrário à esquerda. Contraditório, visto que economicamente têm gestões similares. Mas a questão aqui acaba sendo mais de confiança, história e relações pessoais do que a qualquer outro fator. O PT tenta, assim, se fortalecer e exercer um estranho papel de oposição sendo situação. Aplicará nesta crise a experiência dos anos em que bravatava contra qualquer cheiro de inidoneidade. Mas hoje, sendo governo, fica em uma situação no mínimo estranha para o olhar popular. Como ser ambos ao mesmo tempo? E como fazer isso com a classe de quem soube ser oposição e atacar o que hoje no poder estabelece tão bem? Falar em golpismo das elites remonta a um PT-raiz que soa ridículo, se não cômico, além de ser uma fuga aos pontos reais de toda a celeuma.
Tudo bem que sempre foi muito claro que parte da chamada grande mídia, em especial a “Veja”, em defesa do liberalismo-tucanês que abertamente defende não perde qualquer oportunidade para golpear o partido, o presidente e seus integrantes. Mas todas as acusações vêm, antes da imprensa, de um inimigo que até há pouco era amigo. Nada fora criado. Veio dessa gente que o PT escolheu para dormir junto. Agora, precisa saber lidar muito bem com as contradições que seu governo e seu partido caíram, sob pena de experimentar a sua maior derrota política e ser eternamente lembrado como a maior ilusão da história do Brasil.
16.6.05
A frustração venceu a esperança
Com a lama que a cada dia se espalha mais por Brasília, já é possível afirmar que o todas as esperanças da esquerda brasileira na eleição do primeiro governo progressista do país se definham numa velocidade assustadora, intensificada sobremaneira com as últimas denúncias de corrupção.
Esse processo de descrédito com as forças que sempre apoiaram Lula e o Partido dos Trabalhadores e sonhavam com a chegada ao poder se iniciou, todavia, antes da vitória nas eleições, com a Carta ao Povo Brasileiro. Nela, o PT buscou a confiança daqueles que sempre foram seu alvo: as tradicionais forças que sempre comandaram o país, representadas, por exemplo, no mercado financeiro e nos empresários.
Com o apoio de todos e com a saturação do governo Fernando Henrique Cardoso entre os eleitores, a vitória foi fácil. Afinal, tinha-se ali a consolidação de uma ampla aliança para eleger Lula. Da direita, firmada no afastamento de qualquer crise pós-início de gestão, no respeito ao cumprimento de contratos e também no fato de que, órfã de um candidato forte, deveria se render àquele que havia 13 anos tentava ser presidente. E da esquerda, que, apesar de assustada com a troca de afagos do então candidato com as forças que historicamente lutaram contra, apoiou sua maior liderança desde Luis Carlos Prestes. Era, enfim, a possibilidade de consumação da esquerda no poder, com seus anseios de justiça social no segundo país mais desigual do planeta.
Ocorre que foi essa aliança entre o que não pode andar junto, _no caso, sonhos de mudança da esquerda com sonhos de permanência da direita_ feita no processo eleitoral de 2002, que desenhou características de seu governo que hoje colaboram para sua derrocada: o dualismo, a esquizofrenia, o anacronismo. É um governo que quer agradar o agronegócio e o MST, que defende a taxa de juros alta e um alto crescimento do PIB, o desenvolvimento de políticas sociais e a retração de recursos nessa área. Tudo ao mesmo tempo, comos e isso fosse possível.
Assim, a trupe petista levou a técnica de juntar extremos ideológicos e programáticos aprendida na disputa eleitoral para o seu governo, esquecendo-se de que promessas podem ser feitas a qualquer um, mas realizações de administração pública, essas sim, precisam de unidade e coerência no decorrer do mandato.
Se não bastasse essas deturpações gerenciais, o governo Lula arrastou ainda adentro de sua gestão técnicas da direita histórica decorrentes também das alianças, costuradas principalmente após o início de seu governo.
Receoso da minoria no Congresso e de uma eventual incapacidade de aprovar as matérias que enviasse, a cúpula governista preferiu rasgar as concepções éticas contra a qual sempre lutou e se juntou a gente da pior espécie, como o outrora collorido Roberto Jefferson, que agora afunda sem se querer sozinho. Manteve-se a barganha, o toma lá dá cá, o balcão de negócios.
Hoje, falar que xerifes petistas como os ministros Palocci e Dirceu, velhacos da política do partidão, foram ingênuos ao montarem a estratégia das relações Planalto-Congresso-aliados é elogio. Foram, sim, além de traidores, ruins de serviço e agora a fatura começa a chegar. Tudo com o aval de Lula, que, para ser eleito, renunciou desde o primeiro momento a muitas das exigências esquerdistas de seu partido.
Traição a conteúdos partidários tem seu preço e a pena, quem sabe, não seja uma boa derrota eleitoral e, antes disso, uma desconstrução diária, aos olhos do mundo, de um governo que se dizia divisor de águas na história brasileira.
Justiça seja feita, o PT que está aí não representa todo o partido, mas apenas o chamado Campo Majoritário, ninho das "estrelas" do partido. Por isso, simplesmente criticar o partido aleatoriamente é de todo equivocado. É generalizar, e, quem generaliza, peca. O partido passará pelo PED (Processo de Eleições Diretas) neste ano, que irá renovar a direção partidária em todos os diretórios do país. Para enfrentar o patético José Genoino, seis candidatos defendem mudanças nos rumos do governo, a criação de um projeto estratégico para o país, o reencantamento da militância e a recondução do partido às suas bases. Ainda há esperança. Mas creio que não com esse PT que está no poder.
A Câmara (do prefeito) de Bebedouro
A atual legislatura da Câmara Municipal de Bebedouro tem seguido a tradição do restante dos Legislativos municipais e estaduais do país e funcionado como uma Casa sem autonomia e independência, interessada mais em trabalhar pelos interesses do Poder Executivo do que procurar soluções ou mesmo propostas interessantes para os problemas da cidade.
Dos 39 projetos de lei aprovados até o último dia 9, 35 eram do Executivo, dois de vereadores e dois da Mesa Diretora da Casa (e tratavam, claro, de assuntos de interesse da casa, como a abertura de crédito suplementar e a incorporação de abonos aos vencimentos de seus funcionários). Assim, apenas dois projetos de vereadores foram aprovados até aquela data. Um deles, não era de interesse especificamente dos seus cidadãos, mas dos bichinhos da cidade, já que proibiu a produção e comercialização de alçapões, visgueiras, arapucas e afins. O outro, menos mal, declarou de utilidade pública uma casa assistencial.
A inércia da vereança continua ao vermos os projetos de lei que deram entrada na Câmara. Foram 55, sendo 38 da prefeitura. Dos 17 restantes, 2 são de vereadores da oposição e 15 da situação. Em um primeiro momento, passados quase cinco meses de mandato, a conclusão imediata é de que a prefeitura passa como um trator pela Câmara, já que possui maioria na Casa (oito dos dez vereadores estão com o prefeito). Por essa ótica, não era de se imaginar o contrário, uma vez que assim funciona o falho sistema político brasileiro: têm-se as eleições e, se o chefe do Executivo é eleito com maioria do Legislativo, governa-se com facilidade, caso contrário, terá dificuldades.
Porém, seria muito simplista, muito brasileiro, ver o fato com esses cômodos olhos. Afinal, vereador é eleito e pago por eleitores para por eles trabalharem, e não somente para o prefeito eleito. Se assim não o fosse, poderiam ambos trabalharem no mesmo prédio e despacharem mais perto do seu chefe.
Mais do que isso, essa conduta desrespeita centenas de eleitores da cidade que votaram no vereador que se elegeu mas não no prefeito que ganhou o pleito e, dessa forma, não quer ver seu vereador tão dependente e tratando com tanto zêlo tudo o que vem da prefeitura. O prefeito foi eleito pela maioria, mas deve governar para todos, e como sua atuação, pelo menos constitucionalmente falando, dever ser intercalada com a Câmara, esta, assim como ele, também deve cuidar da minoria que preferiu outros candidatos (ou mesmo o voto nulo, cujo índice foi altíssimo na cidade).
Além da submissão situacionista, o trabalho (ou não) legislativo até agora também nos permite concluir que a oposição está apagada na Casa e tem tido dificuldades em obter resultados concretos dos discursos que faz.
Afora esse quadro, o que se nota nos projetos de lei apresentados não é de todo fraco. Estímulo à doação de sangue, isenção da cobrança de taxas nos concursos municipais para doadores de sangue, cassação de alvará das instituições que fizerem apologia à prostituição infanto-juvenil são iniciativas de alto nível e que aguardam na Câmara sua colocação em pauta.
Outros, porém, são específicos demais, como o que quer obrigar supermercados a disponibilizar terminais de leitura ótica por código de barra; desnecessários demais, como o que visa incluir o quesito "cor" nos formulários de informações utilizados no sistema municipal de saúde; ou, como não poderia deixar de ter, pitorescos demais, como a proibição do comércio de arapucas (como se a mera canetada fosse impedir a prática). Há, portanto, criatividade demais e efeitos práticos de menos.
Uma mera atenção maior ao que passa no resto do país seria de bom grado e a população agradeceria. Por exemplo, a Câmara de São Paulo aprovou um projeto que determina maior participação da população nas decisões sobre a cidade, por meio da instituição instrumentos de consulta popular. Outra iniciativa que tem crescido, ainda que sensivelmente, em algumas Câmaras no país, é o fim dos salários dos vereadores e a transformação de suas funções em cargos honoríficos. A idéia é louvável, uma vez que os recursos poupados com o fim da folha de pagamento destes vereadores seriam destinados a áreas e serviços mais importantes para a comunidade. Ademais, sem remuneração é possível que aumente o número de candidatos que queiram o cargo mais por interesse público do que por interesse no salário. Nos Estados Unidos, por exemplo, desde os anos 40 vereadores de cidades com até 200 mil habitantes não recebem salários. No Brasil, há o caso Campinas do Sul (RS), que, no ano passado, por unanimidade, aprovou um projeto que acabou com os salários dos nove vereadores a partir das últimas eleições. Com a medida, o município passou a economizar R$ 700 mil, o equivalente a 3% do Orçamento municipal.
É certo que não é apenas com a contabilidade dos projetos de lei apresentados que deve ser analisada a postura e a conduta da Câmara, que também deve envolver outras atividades, como debates e contato com os eleitores. Mas também é certo que projetos de lei são o cerne do exercício da atividade, o meio pelo qual podem ser concretizadas as mudanças na sociedade local. Muitas são as maneiras de se legislar de maneira inteligente e independente. Resta esperar. Ou a percepção popular de que a política é um assunto sério demais para se deixar com os políticos será reforçada.
Penúria pública, ostentação privada
Na produção alemã Edukators, três jovens _os "educadores" do título_ invadem mansões em Berlim, desarrumam todos os imóveis, empilham poltronas, arremessam sofás na piscina, jogam porcelanas no vaso sanitários, colocam a televisão na geladeira. Não roubam nada e tampouco agridem a alguém. Deixam apenas dentro de um envelope recados como: "Seus dias de fartura estão contados".
Tentam, evidentemente de maneira figurativa, dar aos abastados da sociedade em que vivem a educação e sensibilidade social _aqui subentendida como consciência_ que, ou não receberam, ou receberam e não absorveram ou, pior, pensam que receberam e que agem conforme o que imaginam ter aprendido, mas, como é de se concluir, seguem tocando suas vidas pensando em si mesmos.
Uma das características que mais marcam a sociedade moderna é o individualismo. Seja em Bebedouro, Berlim ou São Paulo, as pessoas somos cada vez mais egoístas e vivemos focalizando as atenções de nossas vidas e nosso bolso, chegando, no máximo, a se preocupar também com nossos pais, irmãos e filhos. O resto, dane-se. Se forem pobres, danem-se mais ainda.
Em um país como o Brasil, a tremenda diferença entre classes sociais exacerba essa prática individualista e gera uma apologia do ego, na medida em que uma pessoa rica passa a ter muito mais valor e ser respeitada na sociedade, ainda que seja o pior dos canalhas e tenha enriquecido com práticas pouco heterodoxas, que é, convenhamos, o que se vê por aí.
Assim, de um lado fica a riqueza aos montes, em fatias grandes, acumuladas muitas vezes como que por acaso, em um lance de dados, às custas, também muitas vezes, das pessoas incultas e analfabetas. Com eles, claro, os seguidores, que como fiéis escudeiros os seguem e limpam suas babas.
Do outro lado, homens de grande reputação por seu saber, seu mérito e sua inteligência, são tirados do caminho para dar passagem aos "influentes", que graças a golpes desaforados, atrevidos e petulantes, conseguem gritar insistentemente aos ouvidos dos condutores do país, dos Estados e das cidades.
Cai-se, assim, num círculo horrendo de burrice, na qual se valoriza mais a exaltação do tenho-uso-posso-esbanjo-mando do que as cabeças que pensam saídas para a construção de um país sem tanta discrepância e sem essa estimação equivocada das coisas.
Claro, mas claro que não é errado e nem é preciso sentir culpa por nascer "privilegiado". O errado sim é pensar que a beleza da vida está no berço de ouro em que nasceu, conquistou ou roubou.
Quando se imagina que o acesso cada vez maior à informação _outra das características da sociedade moderna_ possa inverter esse quadro e abrir a consciência de quem, em conseqüência desse processo, posiciona-se nessa condição diferenciada de poder ter acesso à cultura, o que se vê é, para nossa tristeza, é justamente a continuidade e até um superdimensionamento desse estado.
As pessoas que hoje podem acessar a livre, boa e consciente informação se abastecem mais com o que justamente corrobora esse processo. Estão mais interessadas na informação frívola, superficial, mexericos da sociedade, pedaços de histórias, pedaços de reportagens, pedaços de escândalos, pedaços de anedotas, pedaços de estatísticas, pedaços de bobagens.
Conseguem, afinal, viver em um mundo em que 90% das pessoas passam fome e os outros 10% comem tanto que têm de fazer dieta e só conseguem ser felizes à base de Prozac. Precisam, enfim, dos edukators para lhes mostrar que a ostentação de sua ignorância é que é pública, e a penúria de suas consciências, essa sim, são-lhes privadíssimas.
13.5.05
Caminhos da América latina
Os recentes acontecimentos em boa parte dos países latino-americanos permitem constatar que algo diferente e positivo vem acontecendo nesta parte do continente: a espontânea participação popular na deposição de governantes, independentemente da eventual boa situação econômica por que passe e também do apoio da elite dos países a esses processos.
Vamos a alguns exemplos. Na Nicarágua, a população, apoiada por 96 dos 152 prefeitos do país, pede a renúncia do presidente Enrique Bolanos. Motivo? A alta do preço das passagens de ônibus. Dois anos atrás, o então presidente da Bolívia, Sanchez de Lozada, foi expulso após um levante popular contra a sua política acerca de uma das principais economias do país, o gás. Basicamente, a população temia que futuros rendimentos originados pela exploração de produto não fossem revertidos para ajudar os pobres. A situação se agravou com o atual presidente, Carlos Mesa, que, pressionado sobre o mesmo assunto neste ano, chegou a apresentar carta de renúncia, mas recuou.
Evidentemente a revolta popular atinge também os supostos corruptos. Mesmo que a economia vá bem. No Equador, Lucio Gutierrez foi deposto depois de ter se livrado do processo de impeachment no Congresso e a Corte Suprema tê-lo absolvido das acusações de corrupção, isso mesmo com o país tendo tido crescimento econômico de 6,6 % e a menor taxa de inflação das últimas três décadas. Já no Peru, Alexandre Toledo é suspeito de falsificar assinaturas para obter o registro do partido que o elegeu. Seu governo, no entanto, apresentou taxas de crescimento econômico superiores a 4% nos últimos anos.
A leitura que se deve fazer desses, por que não, fenômenos sociais, é simples, direta e objetiva. Cansados de seus governos terem seguido à risca o Consenso de Washington, a agenda neoliberal, com a perda de poderes regulatórios para o capital privado, a perda de recursos financeiros para a aplicação em programas sociais (já que há metas econômicas a serem cumpridas e essas devem ser sobrepostas a, por exemplo, construção de hospitais) esses povos, finalmente, começam a se perguntar: E nós? O que podemos fazer se a economia vai bem e o povo vai mal ou, pior, se a economia nem vai tão bem assim mas a fixação pelos ditames do FMI e pelos elogios dos analistas econômicos cegam governantes afoitos pela histórica submissão às regras que vêm de fora?
O maior problema da receita econômica pré-pronta a nós apresentada nos últimos 15 anos não é propriamente o que ela diz, mas a inércia em buscar alternativas. Ao que parece, não há mais a necessidade de divulgar o pacto neoliberal, visto que ele já faz parte da realidade. É comum, normal e mecânico e se revoltar contra ele é ser louco ou atrasado.
Mas o que esses movimentos populares estão passando é justamente que o atrasado ou o louco é quem se adapta a esse pacto sem se ater aos resultados sociais que ele, conforme as promessas iniciais, iria apresentar.
Isso inicialmente ocorreu na Argentina, que sentiu, no final dos anos 90, que todo o crescimento econômico e glamour da dolarização cambial do início da década passada era balela. Veio a revolta, a crise política e hoje sim os argentinos têm um governo decente, autor de uma acertada readequação econômica firme e independente de regras internacionais financeiras. Além dos argentinos, outro país que se afastou do modelo neoliberal imposto foi a Venezuela, mas este é um caso específico, já que mistura economia com ideologia.
Hugo Chávez é, sem dúvida, o maior líder da esquerda latino-americana. Faz do seu discurso um ataque permanente ao grande idealizador do neoliberalismo, os Estados Unidos. Tem, todavia, a sorte de comandar um país com a quinta maior produção de petróleo do planeta, o que lhe permite abusar de sua verborragia sem que, ao menos a curto a prazo, haja uma represália econômica, já que, petróleo, todo mundo quer e todo mundo precisa.
Apesar de sua proposta de sistema econômico ainda ser obscura, uma vez que sinaliza para um modelo que reúna ganhos sociais com fluxo de capital privado, o fenômeno chavista começa a assustar os Estados Unidos pela contundência e força que tem no seu país. Nesta semana, o instituto Datanalisis revelou que 70,5% dos venezuelanos apóiam seu presidente. Um número excelente, em se considerando que ele governa o país há cerca de seis anos.
Fora do país, o chavismo começa a entrar nas facções políticas como símbolo de resistência, o que preocupa não só os Estados Unidos, mas os grandes grupos econômicos, em especial os de comunicação. No Brasil, não é segredo a ninguém a campanha que a Veja e O Estado de S. Paulo fazem para amenizar esse efeito, ao menos nas classes média e alta.
Chávez tem sim muitas credenciais de um mau político. É populista, demagogo, militar e exarcebadamente assistencialista. Porém, para entender o que ocorre na Venezuela e na América Latina é preciso recorrer às raízes históricas de um continente imerso em pobreza, dominação e exploração, onde o bolo, com seus rompantes de crescimento, nunca chegou a ser efetivamente dividido.
Ao que parece, a tradicional soberania do capital que sempre reinou nesta parte da América começa a se esvair e a fragilizar governos, em prol, quem sabe, de uma guinada do social. Na visão da secretária de Estado dos EUA, Condoleezza Rice, essa "instabilidade" ocorre porque muitos desses países são "democraticamente frágeis". Na realidade, fragilidade para ela siginifica desobediência ao estabelecido por Washington. Lula, nesse sentido, não comandaria um país frágil. Seu governo continua refém do capital e apartado da economia popular e das necessidades populares. Resta saber se essa não-fragilidade aos olhos norte-americanos será respaldada nas urnas no próximo ano.
24.4.05
Quando o totalitarista Vaticano escolhe uma estratégia
É preciso enxergar o Vaticano não apenas como um lugar sagrado, ainda que possa sê-lo, ou um lugar em que todo mundo é bonzinho, ainda que os que por lá trabalham possam sê-los. Como qualquer outro Estado no mundo, a sede da Igreja Católica tem suas entranhas do poder, ambições, diferentes correntes políticas e, claro, hierarquia.
A exceção é que, ao contrário da maior parte das nações, lá o sistema vigente se assemelha a uma ditadura, com ares de rigidez extrema. Não consigo encontrar outra nomenclatura para um lugar cujas eleições são indiretas e cujos eleitores foram (e são) escolhidos a dedo por uma única pessoa, o papa, o que facilita a continuidade da sua, digamos, metas de governo.
Contra a democracia também é o modo como os fatos se sucederam nesses últimos dias. Convenhamos, a eleição de Bento 16 ficou fácil demais para ele, digna de causar inveja ao presidente Lula, que já começa a se preocupar com sua reeleição. O que dizer de um pleito em que um dos candidatos favoritos pode fazer campanha antes de começar as eleições, como a homilia feita por Ratzinger antes do início do conclave, na qual, ao apresentar sua “plataforma de governo”, pregou conservadorismo para um grupo de 115 eleitores-conservadores. E mais, como explicar uma lei do silêncio dos cardeais à imprensa ordenado pelo mesmo Ratzinger, de forma a evitar que, durante o conclave, eles tomassem conhecimento das especulações e opiniões, muitas das quais contrárias ao seu nome e ao próprio papado do eu ex-chefe, João Paulo II?.
Também não consigo classificar de outro modo um Estado que, à exemplo de qualquer Estado totalitarista que existiu no século 20, dizimou facções contrárias ao que seu chefe de governo pensava, caso das teologias surgidas a partir dos anos 60 nos países do Terceiro Mundo, produzidas as partir do exercício da pastoral que tinha ligação com as demandas sociais. Aqui, destaca-se a Teologia da Libertação, que ligava o marxismo à religião. Ainda que, de fato, pareça-me discutível até onde essa brasileiríssima teologia é religião ou é proselitismo político da esquerda latino-americana.
Isso porque, assim como a maioria das teologias emergidas dos países pobres como forma de combate à miséria, a Teologia da Libertação prega a emancipação do homem e sugere a marxista luta de classes, do pobre contra o rico, o que seria anticristão, já que almejaria a destruição de um “semelhante”. Porém, optar por sua simples eliminação por meio de punições à pessoas de alta espiritualidade e ligadas à luta pela justiça social revela um apreço pela mordaça, mais uma característica das nações anti-democráticas.
Ademais, o totalitarismo vaticano lembra sim os uníssonos e poderosos Estados de George Orwell (Tanto o dos porcos, em “A Revolução dos Bichos”, como o do Grande Irmão, em “1984”), que abertamente declaravam que “a verdade está conosco” e que o seus chefes de Estado tinha o dom da infabilidade.
Críticas à parte, a eleição de Ratzinger é, antes de mais nada, a escolha por uma estratégia de Estado, iniciada na “gestão” anterior, mas que tende a ser asseverada neste papado, uma vez que Bento 16 é muito mais conservador do que seu antecessor. Ela consiste em intensificar a dogmatização da Igreja e a volta à espiritualidade e às tradições. Um reforço na lapidação da alma.
Haveria a opção por uma Igreja mais aberta ao mundo moderno, despreendida de tradicionalismos e aberta ao diálogo sobre os mais diversos temas, desde o celibato dos padres até a aceitação da utilização de métodos contraceptivos.
Porém, não foi essa a opção. Não é à toa que, além de ter sido cão de guarda do conservador João Paulo II, Ratzinger é da Europa, lugar onde os problemas da fé são mais preocupantes, uma vez que a questão é que não só que as pessoas não crêem que a Igreja de São Pedro não é mais seu lar espiritual. Pior. Elas não mais crêem em mais nada, vivem sem deuses, desgarrados de qualquer ligação com o espiritualismo. Enfim, uma espécie de neopaganismo e neoagnoticismo, decorrentes, por que não, do materialismo exarcebado em que vivem. Nesse sentido, Ratzinger, fruto de uma teologia primeiro-mundista, ensinada na universidade, é o homem ideal se o que aqui se pretende é mais resgatar quem perdeu a fé em qualquer religião do que em quem perdeu a fé no catolicismo.
O caminho, no entanto, não parece ser esse. Esperava-se por um papa pastor, inspirado no missionarismo cristão e que conciliasse a preocupação com a consolidação da fé nas pessoas com a defesa dos necessitados e a inserção nos problemas atuais da humanidade.
Há, todavia, esperança. Ratzinger no início de sua sacra carreira, foi progressista e um influente teólogo na elaboração do Concílio Vaticano II, elaborado entre 1962 e 1965 e responsável pelo “aggiordamento” (modernização) da Igreja. Mudou de lado em 1968, quando estudantes extremistas cristãos atacavam a religião nas universidades por acharem que ela era a ponta de lança das injustiças capitalistas. Passou a acreditar que os valores são imutáveis, independem do mundo em que vivemos e que as religiões que se aproximam dele são superficiais.
Ainda que não haja essa improvável reviravolta conceitual no alemão, a opção escolhida pelo Vaticano pode dar certo e não é de todo condenável. Como disse acima, trata-se de uma estratégia de Estado. A mim, cheira a erro e pode se reverter em algo pior. Em se considerando as previsões de São Malaquias, o santo que no século 12 previu as características de 113 papas, os tempos para a Igreja Católica tendem a piorar. De acordo com esse santo, o lema do próximo papa (sim, o próximo, depois do Bento) será “In persecutione extrema”, que indica perseguições à Igreja. À título de curiosidade, São Malaquias previu o papado de Bento 16 com o lema “Gloria Olivae”, que significa grandes teólogos e intelectuais da Igreja, características reconhecidas em Ratzinger. É esperar para ver se tamanha grandeza intelectual fará da Igreja uma instituição atrativa ou dispersiva.
23.4.05
Argentino foi o segundo mais votado no conclave
Marcio Pinheiro
O cardeal jesuíta argentino Bergoglio, 68, consegiu 40 votos na terceira votação (penúltima) do conclave, que elegeu o novo papa. A informação é do jornal italiano Il Giornale.
Segundo Andrea Tornielli, vaticanista daquele veículo, Bergoglio esteve a uma distância de 10 a 15 votos do ex-cardeal Ratzinger. Se isso for verdade, terá sido o maior número de votos já conquistados por um latino-americano em um conclave.
De qualquer maneira não devemos lamentar muito a não-eleição de Bergoglio: ele é denunciado por ligação em um seqüestro, feito por um comando da Marinha, de dois jesuítas em 1976, em plena ditadura militar argentina.
Ainda sobre os votos do conclave: já foi amplamente divulgado que Ratzinger recebeu "muito mais votos" que os 77 necessários para ser eleito. O primeiro a falar abertamente sobre isso foi cardeal-arcebispo de Colônia, Joaquim Meinsner, quando deu uma entrevista em seu país.
Outros vaticanistas dizem que o cardeal italiano Carlo Maria Martini - considerado um fotíssimo papabili "progressista" - tenha convidado seus eleitores a votarem ao "rival" da ala conservadora, Ratzinger, após ser verificada a vantagem do alemão na primeira votação. No primeiro dia de conclave Martini polarizou com Ratzinger.
Os principais observadores do Vaticano dizem que a homilia preparada por Ratzinger, que traçou o perfil do papa esperado pela igreja na missa que precedeu ao encerramento do conclave influenciou muito o voto de seus pares a seu favor.
A tão propagada candidatura do arcebispo de Milão, Dionigi Tettamanzi, foi relegada, parece, desde o início do conclave.
2.4.05
João Paulo 2º, mais que conservador
* Cardeal progressista, papa conservador - Ainda como cardeal, Karol Wojtyla era visto como ligado à justiça social e aos direitos dos camponeses e dos operários, dos pobres e dos oprimidos, numa igreja ainda profundamente influenciada pelo espírito progressista do Concílio Vaticano 2º e do papa Paulo 6º, que ajudou a implementar esse espírito. Foi neste contexto que foi eleito papa em 1978. No entanto, fez uma gestão ultraconservadora. Veja:
* Contra a Teologia da Libertação – João Paulo 2º alegava que aproximação com a Teologia da Libertação implicava aproximação com governos de esquerda. No entanto, aproximou-se de líderes liberais-conservadores como Ronald Reagan e Margaret Thatcher.
Tendo apenas pouco tempo antes tomado conhecimento da Teologia da Libertação, o papa se convenceu de que ela deveria ser rejeitada, pois a via como conceitualmente marxista.
* Culpa pela Aids na África - O ponto mais polêmico de sua gestão está na posição sobre a moral sexual, em especial a condenação ao uso de preservativos. A censuras aos preservativos são insustentáveis porque a igreja condena os métodos artificiais de contracepção (pílulas, camisinhas), mas admite os naturais. Essa igreja tem, portanto, parcela de culpa significativa na proliferação da epidemia da Aids no continente africano (conseqüentemente com a mortandade na região) e nos demais cantos do planeta.
* Leniência com a pedofilia - A moral conservadora adorada por João Paulo 2º cai por terra ao colocar panos quentes nos casos de padres que se envolveram em abusos de menores. Era esperado que o Vaticano recorresse a medidas rigorosas, já que leva tão a sérios as “questões morais”. Não houve durante a gestão Wojtyla nenhuma punição exemplar.
* Católicos deixam igreja - O ativismo do papa-pop, que adorava os holofotes da mídia, não bastou para fazer sua igreja crescer. Daqui a pouquíssimo tempo, cerca de dois terços das paróquias do mundo não terão nenhum pastor ordenado. O número de padres está mais ou menos estabilizado em torno de 400 mil há mais de dez anos. O número de fiéis cai sem parar. Além do conservadorismo, outro importante motivo para esse abandono está na liquidação das CEBs (Comunidades Eclesiais de Base), que visava ao envolvimento dos fiéis na vida da igreja. A explicação do papa para a rejeição das CEBs era que essas comunidades ameaçavam a autoridade dos bispos em suas dioceses; ela quebraria a rígida hierarquia.. Além das CEBs, a Sociedade de Jesus - ordem jesuíta de tendência marcadamente liberal - foi privada da influência que anteriormente tinha dentro do Vaticano.
* Igreja voltada para si - Os movimentos apoiados pela igreja de João Paulo 2º têm o espírito de restauração, conservando os antigos (ou atrasados) dogmas do catolicismo. Por isso, Wojtyla se negou a pôr fim ao celibato dos padres - mesmo sabendo de inúmeros casos de comprovadas relações dos religiosos com mulheres, homens ou menores. Além disso, vetou o ordenamento de mulheres.
* Papa censor - João Paulo 2º sufocou as discussões teológicas não-ortodoxas. Ele proibiu pensadores críticos de lecionar e publicar trabalhos com a aprovação da igreja. Entre os casos mais famosos está a repreensão de João Paulo 2º ao então arcebispo de El Salvador, Oscar Arnulfo Romero, que se manifestou publicamente contra as mortes de padres e figuras da oposição vítimas de esquadrões da morte, com conivência de militares. Pouco depois, Romero foi assassinado por esse esquedrão. Outro caso famoso: em dezembro de 1979, o papa privou o teólogo suíço Hans Kung (que João Paulo antes admirava), de ensinar teologia católica porque ele havia questionado a doutrina da infalibilidade do papa. Muitos outros teólogos católicos em diversas partes do mundo foram punidos de maneira semelhante. Ah, sim, faltou o exemplo brasileiro: Wojtyla condenou ao silêncio o teólogo Leonardo Boff. Outra forma se censura está no corte de recursos e de espaço dos movimentos católicos que se opõem ao Vaticano (vários sofreram processo disciplinar).
* Aproximação com Opus Dei – Trata-se de uma associação ultraconservadora, rica, obediente, muito fechada e forte intelectualmente. Esse braço católico ganhou força e espaço como nunca na gestão de João Paulo 2º. A Opus Dei conta com uma rede de escolas e universidades de excelência e possui fundos para expandir o papel ideológico conservador. A Opus Dei (ou "obra de Deus") é acusada de ter uma agenda secreta e fundamentalista e de tentar formar uma "igreja dentro da igreja". Parlamentares italianos já declararam que o grupo era semelhante a uma loja maçônica.
* Mudou regras da sucessão –João Paulo 2º nomeou quase todos os cardeais conservadores (exceto três) que vão eleger o sucessor, ou seja, vem aí, muito provavelmente, um sumo pontífice afinado com a sua linha de pensamento. Ele nomeou esses cardeais para assegurar que a igreja, conservando-se fiel à imagem dele, mantenha-se solidamente conservadora e centralizada após sua morte. João Paulo mudou a regra da sucessão em 1996: os dois terços mais um dos votos valem apenas até ser contabilizada a 30ª votação. Se até esse ponto não tiver sido escolhido um papa, será exigida apenas uma maioria simples. Desse modo, não será necessário buscar um consenso, e torna-se possível para uma facção conservadora negar a um candidato liberal.
* Homossexualismo – João Paulo 2º, em 2003, condenou por um documento o casamento entre pessoas do mesmo sexo. Classificou o homossexualismo como desvio e ameaça à sociedade. Segundo o líder católico, o homossexualismo "vai contra as leis da natureza". Documentos da igreja falam ainda que seus integrantes devem ter uma postura "varonil"; aqueles que apresentam “trejeitos” são dispensados ou perseguidos.
* “Infabilidade do papa” – O dogma da infalibilidade papal (ou seja, que o papa é infalível, nunca erra) foi instituído em 1869 pelo papa Pio 9º, no Concílio Vaticano 1º. Desde a sua promulgação, poucos papas se serviram dessa prerrogativa. Além de fazer intenso uso indireto dela (sem evocá-la diretamente), Karol Wojtyla puniu padres que se opuseram a este dogma.
* Um perdão vexaminoso - O papa não pediu desculpas diretamente por abusos históricos da igreja, como a Inquisição. João Paulo 2º pediu perdão, vagamente, pelas transgressões praticados por “filhos e filhas” da igreja. Ignorou a culpa de papas, cardeais, bispos e padres em episódios lamentáveis que maculam até hoje a imagem desta instituição.
Assim, essa igreja que aí está é feita à imagem e semelhança de João Paulo 2º. Seus 26 anos de pontificado poderiam e deveriam ter sido diferentes e bem melhores para o mundo.
19.3.05
Boa imagem e a articulação
A do colega carioca Cesar Maia, idem. E pior ainda: mente descaradamente ao dizer que apóia a internvenção federal na Saúde (senão não teria entrado no Supremo contra a medida).
Bem, a imagem ainda pode ser recuperada. Mas esses dois políticos deveriam ter aprendido com a história algumas lições.
Cesar Maia deveria lembrar do preço que se paga ao lançar prematuramente uma pré-campanha presidencial. O caso Roseana é inesquecível nesse sentido. O prefeito do Rio está se queimando nacionalmente.
Já Alckmin não deve ter lembrado o que significa rachar com o PFL, como no caso da eleição do presidente da Assembléia Legislativa de São Paulo. A rebeldia do partido em 2002 foi um dos responsáveis pela derrota de José Serra.
Bem faz Lula nos dois casos: está reorganizando a base aliada com a oferta de ministérios e continuou em campanha sem parar desde 2002. Isso é que é tática!
Mudanças no Oriente Médio
Hoje, as mulheres podem votar no Afeganistão, os palestinos estão rompendo com os velhos modelos de violência e centenas de milhares de libaneses estão protestando para exigir soberania e direitos democráticos.
Essas palavras saíram da boca de George W. Bush, num discurso no rádio neste sábado pela manhã.
Faltou dizer obviamente que problemas gravíssimos continuam nesses países.
No Iraque, por exemplo, na véspera de completar dois anos de ocupação/guerra, os aliados ainda não suforaram (e vão conseguir sufocar?) a força "rebelde" - o que já custou 1.500 mortes e bilhões de dólares aos países interventores. Sem contar a morte de civis, mulheres, crianças iraquianas, as redes de hospitais e de esgoto destruídas, a proliferação de doenças etc.
Outro problema por vir é bem simbólico: o julgamento, sempre adiado, de Saddam Hussein. O tribunal responsável pelo julgamento tem legitimidade questionada porque violaria a Lei Fundamental, que entra em vigor até o final de 2005. Uma das cláusulas de lei estipula a proibição de tribunais especiais. Sem contar a falta de preparo dos jovens e inexperientes juízes.
Mas voltemos aos argumentos de Bush: ele realmente está fazendo uma revolução no Oriente Médio. As mudanças chegaram até a Arábia Saudita que, acreditem, passou por uma recente eleição (claro que as mulheres não votaram, mas houve um pleito!).
Quer dizer que Bush está certo? Erra quem afirma ou nega peremptoriamente. Os hábitos muito enraizados, o sentimento anti-imperialista e o fundamentalismo são impedimentos fortíssimos na luta pela "imposição (sic) democrática" de Washington e subjetivos ao ponto de não poderem ser enfraquecidos com bombas. Mas outras armas poderão ser usadas em breve pelos superpoderosos.
3.3.05
Jobim quer voltar para a Câmara?
Depois da desconcertante delcaração da ministra Ellen Gracie sobre sua banheira paga com dinheiro público, desta vez foi a vez do ex-deputado federal pelo PSDB e atual presidente do Supremo, Nelson Jobim, se apequenar.
Conhecedor dos meandros das leis e das jogadas congressuais, Jobim alertou o presidente da Câmara, Severino Cavalcanti (PP-PE), que existia uma maneira de aprovar o aumento de deputados com apenas uma canetada, desde que a Mesa do Senado concordasse com o aumento de R$ 12,8 mil para R$ 19,1 mil.
Jobim negociou com deputados e senadores a equiparação do aumento dos salários dos congressistas com os dos ministros do Supremo.
Se presidente do Supremo Tribunal Federal sente saudades de seu tempo de Congresso, que tire a toga e tente voltar à politicagem pelo voto.
Só para lembrar: Jobim é cotado por parlamentares do PMDB para concorrer à Presidência.
2.3.05
Caio Junqueira
O que mais irrita em um governo é a inércia, por falta de vontade ou incompetência, em solucionar os problemas da sociedade. A falta de vontade incomoda um pouco mais que a incompetência, já que pressupõe desvio da finalidade do governante, que foi eleito e é pago para propor soluções.
Mas a incompetência também perturba, porque ela, na maior parte das vezes, decorre da falta de análise do histórico do problema ou da visão a longo prazo equivocada dos resultados que uma medida ou um pacote delas pode oferecer.
A Febem do PSDB paulista é um desses exemplos. Com 69 unidades em todo o Estado, nunca se teve uma política a longo prazo para a construção de novas instalações, tampouco um eficiente combate à delinqüência e reinserção social dos menores.
Além das sucessivas rebeliões em sua história, os números do censo do sistema penitenciário revelam que 15% da população carcerária do Estado passou pelas unidades da Febem. Também aponta que 19% dos 6.623 internos de hoje voltam à instituição depois que saem dela. Ou seja, é fácil constatar que a Febem é um lixo, assim como a política adotada para a sua condução.
Os tucanos, que há dez anos governam o Estado _e, por conseqüência, a Febem, já bateram tanto a cabeça sobre o assunto que a instituição virou uma batata quente no Palácio dos Bandeirantes. Nos últimos anos, passou pelas secretarias de Assistência e Desenvolvimento Social, Esporte e Lazer, Educação e depois voltou à Justiça. E o lixo na sua gestão continua.
Já o modelo de concessão das rodovias adotado no Estado se enquadra no subitem da falta de vontade: a de desonerar o cidadão. Implementada pelo governador Mário Covas e continuada por Geraldo Alckmin, o plano de concessão das rodovias estaduais foi responsável pelo alto preço pago nos pedágios, já que a "concessão onerosa" define como ganhador da licitação o concorrente que, sabendo dos investimentos a serem feitos, e do valor da tarifa fixada pelo governo, fizer a maior oferta pela concessão.
A título de comparação, no processo de concessão das rodovias federais, a União privilegiou o concorrente que ofereceu a menor tarifa. Desse modo, o preço pago pelos usuários das estradas tende a ficar mais baixo.Um terceiro aspecto mistura incompetência com falta de vontade, o da segurança pública. Em 10 anos, não bastasse o crescente histórico de violência na capital, os tucanos não conseguiram segurar o que se chamou de interiorização do crime. No último levantamento trimestral apresentado pela Secretaria de Segurança Pública, mais da metade dos latrocínios e uma parcela crescente de homicídios dolosos ocorreram fora da capital e da região metropolitana. De um modo geral, no interior os crimes cresceram ou então caíram em proporção menor do que na capital.
Não faço aqui proselitismo político. Mas sempre me pareceu que, para essas três questões e
muitas outras de responsabilidade dos governos estaduais, foi esquecido quem é, ou quem são, os constitucionalmente responsáveis.
É mais fácil escutar por aí críticas (devidas) ao “avião do Lula” ou aos “CEUs da Marta” do que “a Febem do Alckmin” ou “o pedágio do Alckmin”. Talvez isso ocorra porque a própria atenção das pessoas esteja mais voltada às políticas de âmbito municipal e federal, culpa até mesmo de um falho federalismo brasileiro.
Mas talvez o fato de Alckmin ser médico, branco, limpo e cheiroso, e com uma filha que trabalha na Daslu, seja outra razão para um tratamento mais cauteloso com seu governo.Mas prefiro acreditar que o que acontece mesmo é falta de vontade e incompetência dos cidadãos em saber o que cobrar e de quem cobrar, apesar de não afastar a crença de que ainda há uma certa dificuldade _principalamente dos ricos_ em se desprender de preconceitos ideológicos e sociais.