Caio
À sucessão daquilo que foi, até o momento, a notícia do ano no que tange ao assunto de “cidades”, a onda de ataques do PCC, teve-se uma bomba não maior, visto que diferente: a entrevista de Cláudio Lembo à Folha de S. Paulo. Com frases feitas como “Eu me assusto com toda a realidade social brasileira”, “Nós temos uma minoria branca muito perversa” e “Nossa burguesia devia é ficar quietinha e pensar muito no que ela fez para este país”, o governador paulista trouxe à tona os tradicionais elementos que a esquerda brasileira utiliza ao comentar e atacar justamente a classe político-social da qual Lembo participa e representa. Lendo a entrevista, e substituindo seu protagonista por Luis Carlos Prestes, Miguel Arraes ou Leonel Brizola, não há impacto. No entanto, partindo de Lembo, choca e enseja reflexões.
Lembo é uma figura folclórica. Vive há cerca de 40 anos na mesma casa, no tradicional bairro do Bexiga, centro de São Paulo. A casa foi crescendo aos poucos, e, na verdade, é um conjunto de pequenas casas que foi adquirindo com o tempo. Sempre foi o que se pode chamar de velho simpático. Como vice-governador, sempre esteve acessível à imprensa. Não sei se porque vices-governadores, em geral, não fazem nada. Ou se é próprio dos vices não ter nada a fazer mesmo, sobrando-lhe tempo para conversar com jornalistas, entre outros afazeres desnecessários. Mas o fato é que nunca teve aquele perfil peculiar aos políticos, de se considerarem “gente muito importante”. E essa característica reforça a autoridade que teve para dizer aquilo que bem entendeu.
Mais do que isso, porém, revelou sinais desse PFL, partido dito fisiológico, mas que busca renovar sua imagem à população, sem, claro, deixar de lado a fisiologia. E o processo de escolha do vice do candidato tucano a presidente, Geraldo Alckmin, retrata isso. Com a opção pelo senador José Jorge (PE), a legenda focou sua prévia na disputa interna entre o senador Antonio Carlos Magalhães ( apoiador de José Agripino Maia) e o senador Jorge Bornhausen (apoiador de José Jorge). Em vez dos pefelistas escolherem Agripino como vice, visto que era o preferido de Alckmin e tem um perfil mais agressivo ao governo Lula, podendo fazer as vezes do boxeador da chapa, já que o tucano não tem a fibra agressiva. Assim, não houve uma conciliação interna que beneficiasse a aliança escolhida para a campanha presidencial deste ano. Ao contrário, ocorreu uma disputa interna em detrimento da disputa externa contra Lula. A explicação pode ser desde a cultura política nacional que tende a favorecer esse tipo de comportamento até um eventual temor de que a candidatura Alckmin não emplacará mesmo. Algo como “nosso fisiologismo é mais importante do que o deles” (dos tucanos).
Mas a novidade não está aí. Como dito, a luta pelo poder é inerte aos partidos e a suas composições e segmentos internos. E o PFL tem longa carreira nisso, desde quando servia aos militares com a Arena. O que trás nova roupagem à legenda —e o resultado das prévias é uma derivada disso— é essa tentativa de se travestir com uma modelagem urbana. Um novo PFL, pois.
Explica-se. Com a consolidação da democracia, tenta-se desfazer o viés autoritário-direitista-coronelista que o partido encorpa e trazer uma característica urbana à sigla. Afinal, o país se tornou urbano. E são politicamente desastrosas associações com a imagem de Casa Grande & Senzala. Ainda mais ao lembrarmos que o Nordeste está tomado pela onda Lula. A moda é o Centro-Sul industrial-urbano do país. Ali estão os votos a serem captados.
Nessa linha, lideradas por Bornhausen, as novas lideranças do partido passam a ocupar mais espaço que os antigos coronéis nordestinos. Entram em campo o prefeito do Rio, César Maia, o prefeito de São Paulo, Gilberto Kassab, o presidente da Assembléia paulista, Rodrigo Garcia. Saem os líderes regionais nordestinos, como ACM e Agripino.
Evidente que afirmar que uma turma dessas saiu de campo pode até ser uma expressão forte, mas o que se tem passado no PFL é uma tentativa de se firmar como um partido mais ligado às cidades que ao campo. Melhor dizendo, mais ligados à cultura urbana que à rural.
E aqui entra, nesse raciocínio, um aspecto das declarações de Lembo. Afora o fato de que se viu isolado pelos aliados (sic) tucanos em meio ao clima de Independence Day que São Paulo viveu, afora o fato de ser uma personagem pitoresca desamarrado de submissão à cúpula partidária (e, quem sabe, a quem quer que seja), Lembo registrou um sentimento preponderante na periferia das grandes e médias cidades (e quem nunca por estas bandas andou que verifique): 1. Há uma divisão socio-econômica no país. 2. A casta superior, minoritária, desconhece a casta inferior, majoritária. 3. A casta superior só se preocupa com problemas que afetam a casta inferior quando esses problemas chegam à casta superior. Trocando em miúdos, quando as consequências da ausência do Estado (hospitais, escolas, segurança) ajudam a causar a violência, e essa violência chega aos Jardins, o problema da violência é de todo o país. Todavia, quando as consequências da falta da presença do Estado se restringem a Parelheiros, que por lá fique. E para quem está isolado no meio do furacão quando a bolha explode —caso de Lembo— as papas na língua somem. E o PFL segue sua reconstrução, mantendo os elementos que o fizeram estar sempre no poder, mas na tentativa de compreender o fenômeno urbano-social. Sob pena de ser atropelado pelos votos.
Hello
De Arthur Virgílio, minimizando a pesquisa CNT/Sensus que dá a vitória a Lula no primeiro turno. “O presidente está estagnado nos 40%. Daí ele não passa.” Como assim? Oras, a “estagnação” em 40% é suficiente para ganhar uma eleição. Se não tem o que falar, feche a boca.
8.8.06
Alckmin candidato
A obstinação que o governador paulista Geraldo Alckmin demonstrou desde que assumiu publicamente sua pré-candidatura a presidente marca sua carreira política. Em 1991, partiu para o embate com Zulaiê Cobra na disputa do diretório paulista do PSDB. Ganhou. Três anos depois, durante o processo interno de escolha do vice de Mário Covas na campanha ao Palácio dos Bandeirantes, enfrentou o então ministro do Trabalho do governo Itamar Franco, Walter Barelli, e ganhou de novo. Em 1996, já vice-governador, apresentou-se à legenda como candidato a prefeito de São Paulo, mas retirou sua pré-candidatura ao saber que o então ministro do Planejamento, José Serra, desejava sair. Passados quatro anos, a única eleição que perdeu foi justamente a que não precisou de grande esforços de bastidores: sua candidatura foi imposta por Covas.Mais do que essa obstinação, um outro fator merece ser apontado no governador. Ao enfrentar nos últimos três meses o triunvirato tucano formado Tasso, Aécio e Fernando Henrique— captou os anseios da base do partido —base esta de caráter elitista, estruturada nos deputados e governadores do partido— que não mais queriam que as decisões do partido se restrinjam ao que três cardeais desconectados com o que a massa tucana detentora de cargos eletivos queria.
Assim, é mérito de Alckmin dosar ter dosado sua estratégia política em não arrefecer seu intento e buscar força para continuar na luta contra a cúpula partidária nos que se viam excluídos do processo. Assim, as críticas internas ao governador em razão de sua insistência são muito mais pelo que ele teve de bom —ver o partido como um todo— do que pelo de ruim —encarar uma histórica ditadura interna. Comprovou-se, pois, que os tucanos não são tão obedientes assim quanto ao que se acreditava serem seus “guias”. Ponto para o partido.
Agora, evidentemente as rusgas que sobraram desse processo devem ser o quanto antes aparadas sob pena de a candidatura se esvair antes mesmo de começar. Lula larga com mais do que o dobro de votos na sucessão. Está em campanha há algum tempo e tem a máquina pública nas mãos. A desvantagem inicial é imensa contra Alckmin. Para solvê-la, precisa viajar o país e captar os votos tradicionalmente lulistas: as classes C, D e E. Está ciente disso, o que se mostra nas declarações feitas no primeiro dia de candidato, na última quarta-feira. Durante lançamento de um projeto de ensino à distância no Sebrae, o presidente da Fiesp, Paulo Skaf, pediu ao governador que, se eleito, concentre-se em promover o crescimento econômico do país.
Em resposta, Alckmin defendeu o crescimento econômico, mas deu um tom “social” ao discurso ao dizer que o crescimento sozinho não é suficiente para reduzir as diferenças sociais. “O caminho para ter emprego é o crescimento econômico. Mas, às vezes, o país pode crescer sem que sejam diminuídas as distâncias sociais. Melhora para o pobre um pouco, mas para o rico muito mais.
Então, o melhor caminho para a redução da desigualdade é a educação.”Em seguida, afirmou não ter “compromisso com privilégios“ e que, caso vença as eleições, irá conciliar crescimento econômico com justiça social, “melhorando a vida dos pobres e estimulando, principalmente, a educação no Brasil”. Alertou ainda que aqueles que o apontam como sendo de direita e conservador irão se assustar. “O susto será no bom sentido porque nós vamos chacoalhar as estruturas. Não tenho compromisso com o imobilismo. Temos de ter um país onde os filhos possam ter uma vida melhor do que a dos pais, de mobilidade social. Vamos chacoalhar as estruturas”.
Enfim, um típico discurso de quem está preocupado com a imagem de “o candidato dos empresários”.É sabido que ele cativa a classe média e alta paulistas, que o tem praticamente como um semi-Deus. Mas conseguirá ele penetrar nas regiões e nas classes pró-Lula? Há tempo para isso. E urge começar a elaborar um projeto de país, o qual ainda não tem nem rascunho. Necessário também se preparar para seus calcanhares-de-Aquiles. A Febem será o prato cheio para a campanha petista bater no governador. Se em 12 anos os tucanos não resolveram o problema, como este senhor quer governar o país, dirão os petistas no horário eleitoral. Também pesarão os pedágios, em especial à classe média. Dá para ver a equipe petista no horário eleitoral traçando o preço de uma viagem entre São Paulo e São José do Rio Preto e jogar isso em projeções para o país todo. Mas nada que não tenha revide. Aliás, os tucanos neste ano nunca tiveram tanto a explorar contra os petistas. Será, pois, uma campanha inesquecível.
Assim, é mérito de Alckmin dosar ter dosado sua estratégia política em não arrefecer seu intento e buscar força para continuar na luta contra a cúpula partidária nos que se viam excluídos do processo. Assim, as críticas internas ao governador em razão de sua insistência são muito mais pelo que ele teve de bom —ver o partido como um todo— do que pelo de ruim —encarar uma histórica ditadura interna. Comprovou-se, pois, que os tucanos não são tão obedientes assim quanto ao que se acreditava serem seus “guias”. Ponto para o partido.
Agora, evidentemente as rusgas que sobraram desse processo devem ser o quanto antes aparadas sob pena de a candidatura se esvair antes mesmo de começar. Lula larga com mais do que o dobro de votos na sucessão. Está em campanha há algum tempo e tem a máquina pública nas mãos. A desvantagem inicial é imensa contra Alckmin. Para solvê-la, precisa viajar o país e captar os votos tradicionalmente lulistas: as classes C, D e E. Está ciente disso, o que se mostra nas declarações feitas no primeiro dia de candidato, na última quarta-feira. Durante lançamento de um projeto de ensino à distância no Sebrae, o presidente da Fiesp, Paulo Skaf, pediu ao governador que, se eleito, concentre-se em promover o crescimento econômico do país.
Em resposta, Alckmin defendeu o crescimento econômico, mas deu um tom “social” ao discurso ao dizer que o crescimento sozinho não é suficiente para reduzir as diferenças sociais. “O caminho para ter emprego é o crescimento econômico. Mas, às vezes, o país pode crescer sem que sejam diminuídas as distâncias sociais. Melhora para o pobre um pouco, mas para o rico muito mais.
Então, o melhor caminho para a redução da desigualdade é a educação.”Em seguida, afirmou não ter “compromisso com privilégios“ e que, caso vença as eleições, irá conciliar crescimento econômico com justiça social, “melhorando a vida dos pobres e estimulando, principalmente, a educação no Brasil”. Alertou ainda que aqueles que o apontam como sendo de direita e conservador irão se assustar. “O susto será no bom sentido porque nós vamos chacoalhar as estruturas. Não tenho compromisso com o imobilismo. Temos de ter um país onde os filhos possam ter uma vida melhor do que a dos pais, de mobilidade social. Vamos chacoalhar as estruturas”.
Enfim, um típico discurso de quem está preocupado com a imagem de “o candidato dos empresários”.É sabido que ele cativa a classe média e alta paulistas, que o tem praticamente como um semi-Deus. Mas conseguirá ele penetrar nas regiões e nas classes pró-Lula? Há tempo para isso. E urge começar a elaborar um projeto de país, o qual ainda não tem nem rascunho. Necessário também se preparar para seus calcanhares-de-Aquiles. A Febem será o prato cheio para a campanha petista bater no governador. Se em 12 anos os tucanos não resolveram o problema, como este senhor quer governar o país, dirão os petistas no horário eleitoral. Também pesarão os pedágios, em especial à classe média. Dá para ver a equipe petista no horário eleitoral traçando o preço de uma viagem entre São Paulo e São José do Rio Preto e jogar isso em projeções para o país todo. Mas nada que não tenha revide. Aliás, os tucanos neste ano nunca tiveram tanto a explorar contra os petistas. Será, pois, uma campanha inesquecível.
Primeiras impressões da campanha
Caio
As pesquisas de intenção de voto que apontam a liderança isolada do presidente Luiz Inácio Lula da Silva tem causado revolta nas oposições política e civil. Afinal, ninguém sabe ao certo as razões que levam um governo assolado por denúncias e, recentemente, indiciamentos, levar a preferência popular com larga folga, ainda que momentânea. Para esse fenômeno, o argumento predominante dos petistafóbicos são, basicamente, dois: o de que vivemos em um país de ignorantes desinformados que ainda votam em Lula e o de que estamos a meses do início da campanha eleitoral que, com o bombardeio diário das cuecas com dólares, ministros depostos e indiciamentos em tramitação, iluminará os que ainda insistem em ser do outro lado. Ambas as explicações, fáceis demais e, assim, incompletas demais, são meias verdades.
É fato que em um país grande e desigual, em que há focos de educação de ponta ao lado de uma grande massa analfabeta e outra desinstruída, o apelo popular e o carisma que um político tenha ao se apresentar a essa população conta muito, e aqui a situação evidentemente favorece Lula. Mas concluir por aí sua liderança nas pesquisas é insatisfatório. O país não é tão simples assim. O raciocínio é o mesmo para quem crê que, em decorrência da campanha eleitoral, a massa mal informada verá que este foi “o governo mais corrupto da história”.
Cabe, portanto, verificar o comportamento de alguns atores políticos envolvidos nesse quadro para ampliar o leque de explicações plausíveis para o que, por ora, tem-se chamado de fenômeno. O primeiro, e mais importante deles é o que os gringos chamam de “feel-good factor”. Recentes pesquisas mostram que 85,3% das pessoas cadastradas no Bolsa Família, o carro chefe do governo, consideram o programa ótimo ou bom e 97% dizem que a iniciativa é muito importante em suas vidas. Seis em cada dez responderam que daqui a cinco anos a vida vai estar melhor. É assistencialismo? Populismo barato? Esta é outra discussão. Mas que surte efeito eleitoral, não há dúvida. Para ficar em outro exemplo, o tal do programa Luz para Todos. Já atendeu mais de 2 milhões de pessoas. Nas pesquisas, cerca de 60% das pessoas tem conhecimento dele. Ou ainda a fixação de um salário mínimo cujo poder de compra é o maior dos últimos 40 anos.
Não abro aqui outros exemplos, sob pena de ser tachado de gostar desse ou daquele (o que costuma ocorrer), mas os que julgam que a desinformação “do povo” é o que põe Lula na liderança das pesquisas talvez não percebam que desinformados estão eles mesmos. Colocar de lado medidas que para uns não significam nada e para outros significam muito é um erro recorrente a esta parte do país, dita, “esclarecida”.Outro fator são os desacertos frequentes da pré-campanha Alckmin. Ainda que esteja no começo, o que pode justificar os tropeços, a campanha não tem sal, é fria, desarticulada, sem projetos, sem o “cativante”. PSDB e PFL brigam pelo vice, brigam por questões regionais, brigam contra as pesquisas. E, mais grave, não há a novidade. Qual a política externa de Alckmin? Qual a política para o desenvolvimento regional, Nordeste em especial?
Evidente que tudo isto está em fase embrionária e que em semanas o eleitor terá tudo isso em mãos, mas há alguns temas nacionais, como esses e muitos outros, que desdenham de longo debate justamente por já estarem consolidados, como opinião, ainda mais para quem tem 34 anos de vida pública. Deixar para externá-los apenas quando todo o projeto estiver discutido com os aliados é perda de tempo. Bom lembrar que não se trata de uma eleição municipal. São mais de 120 milhões de votos a conquistar, partindo-se de um segundo lugar apertado, lembre-se, com Anthony Garotinho na cola.
Ademais, protegido pela mídia e com uma ampla base de proteção no Assembléia paulista (e que conseguiu barrar a instalação de 69 CPIs), Alckmin também parece não saber se defender das denúncias que pipocam contra ele desde o anúncio de sua candidatura. Não que ele esteja diretamente envolvido nelas. A de que a Nossa Caixa favoreceu com recursos deputados aliados, por exemplo, é algo que visivelmente não participou. Mas, na hora de se defender, agiu muito mal. Primeiro por fugir das perguntas e segundo por “fugir respondendo”, ao dizer que “é tudo mentira”. Conseguiu se sair pior do que Lula com seu “as CPIs vão investigar tudo”. No caso dos vestidos da dona Lu, a mesma coisa. Não se sabe se foram 40 ou 400. Não se sabe se 10, ou 39 ou sabe-se lá quantos foram doados às instituições de caridade. Não houve esclarecimento, pois.
Desimportante dizer que tanto uma denúncia quanto outra, de longe, são comparáveis às contra Lula e sua turma. São fichinhas perto das artimanhas petistas. Mas o modo como se reage a elas muitas vezes acabam sendo pior do que elas próprias. E muitas vezes a reação acaba por fazer com que o acusado se descole delas. Lula que o diga.Há muito tempo ainda para as eleições. Mas se os tucanos não se atentarem, poderão ser surpreendidos.
As pesquisas de intenção de voto que apontam a liderança isolada do presidente Luiz Inácio Lula da Silva tem causado revolta nas oposições política e civil. Afinal, ninguém sabe ao certo as razões que levam um governo assolado por denúncias e, recentemente, indiciamentos, levar a preferência popular com larga folga, ainda que momentânea. Para esse fenômeno, o argumento predominante dos petistafóbicos são, basicamente, dois: o de que vivemos em um país de ignorantes desinformados que ainda votam em Lula e o de que estamos a meses do início da campanha eleitoral que, com o bombardeio diário das cuecas com dólares, ministros depostos e indiciamentos em tramitação, iluminará os que ainda insistem em ser do outro lado. Ambas as explicações, fáceis demais e, assim, incompletas demais, são meias verdades.
É fato que em um país grande e desigual, em que há focos de educação de ponta ao lado de uma grande massa analfabeta e outra desinstruída, o apelo popular e o carisma que um político tenha ao se apresentar a essa população conta muito, e aqui a situação evidentemente favorece Lula. Mas concluir por aí sua liderança nas pesquisas é insatisfatório. O país não é tão simples assim. O raciocínio é o mesmo para quem crê que, em decorrência da campanha eleitoral, a massa mal informada verá que este foi “o governo mais corrupto da história”.
Cabe, portanto, verificar o comportamento de alguns atores políticos envolvidos nesse quadro para ampliar o leque de explicações plausíveis para o que, por ora, tem-se chamado de fenômeno. O primeiro, e mais importante deles é o que os gringos chamam de “feel-good factor”. Recentes pesquisas mostram que 85,3% das pessoas cadastradas no Bolsa Família, o carro chefe do governo, consideram o programa ótimo ou bom e 97% dizem que a iniciativa é muito importante em suas vidas. Seis em cada dez responderam que daqui a cinco anos a vida vai estar melhor. É assistencialismo? Populismo barato? Esta é outra discussão. Mas que surte efeito eleitoral, não há dúvida. Para ficar em outro exemplo, o tal do programa Luz para Todos. Já atendeu mais de 2 milhões de pessoas. Nas pesquisas, cerca de 60% das pessoas tem conhecimento dele. Ou ainda a fixação de um salário mínimo cujo poder de compra é o maior dos últimos 40 anos.
Não abro aqui outros exemplos, sob pena de ser tachado de gostar desse ou daquele (o que costuma ocorrer), mas os que julgam que a desinformação “do povo” é o que põe Lula na liderança das pesquisas talvez não percebam que desinformados estão eles mesmos. Colocar de lado medidas que para uns não significam nada e para outros significam muito é um erro recorrente a esta parte do país, dita, “esclarecida”.Outro fator são os desacertos frequentes da pré-campanha Alckmin. Ainda que esteja no começo, o que pode justificar os tropeços, a campanha não tem sal, é fria, desarticulada, sem projetos, sem o “cativante”. PSDB e PFL brigam pelo vice, brigam por questões regionais, brigam contra as pesquisas. E, mais grave, não há a novidade. Qual a política externa de Alckmin? Qual a política para o desenvolvimento regional, Nordeste em especial?
Evidente que tudo isto está em fase embrionária e que em semanas o eleitor terá tudo isso em mãos, mas há alguns temas nacionais, como esses e muitos outros, que desdenham de longo debate justamente por já estarem consolidados, como opinião, ainda mais para quem tem 34 anos de vida pública. Deixar para externá-los apenas quando todo o projeto estiver discutido com os aliados é perda de tempo. Bom lembrar que não se trata de uma eleição municipal. São mais de 120 milhões de votos a conquistar, partindo-se de um segundo lugar apertado, lembre-se, com Anthony Garotinho na cola.
Ademais, protegido pela mídia e com uma ampla base de proteção no Assembléia paulista (e que conseguiu barrar a instalação de 69 CPIs), Alckmin também parece não saber se defender das denúncias que pipocam contra ele desde o anúncio de sua candidatura. Não que ele esteja diretamente envolvido nelas. A de que a Nossa Caixa favoreceu com recursos deputados aliados, por exemplo, é algo que visivelmente não participou. Mas, na hora de se defender, agiu muito mal. Primeiro por fugir das perguntas e segundo por “fugir respondendo”, ao dizer que “é tudo mentira”. Conseguiu se sair pior do que Lula com seu “as CPIs vão investigar tudo”. No caso dos vestidos da dona Lu, a mesma coisa. Não se sabe se foram 40 ou 400. Não se sabe se 10, ou 39 ou sabe-se lá quantos foram doados às instituições de caridade. Não houve esclarecimento, pois.
Desimportante dizer que tanto uma denúncia quanto outra, de longe, são comparáveis às contra Lula e sua turma. São fichinhas perto das artimanhas petistas. Mas o modo como se reage a elas muitas vezes acabam sendo pior do que elas próprias. E muitas vezes a reação acaba por fazer com que o acusado se descole delas. Lula que o diga.Há muito tempo ainda para as eleições. Mas se os tucanos não se atentarem, poderão ser surpreendidos.
A culpa é dos outros
Caio
A indignação é generalizada, muito embora o compartilhamento da culpa não o seja. Aponta-se o dedo com facilidade para as incomposturas das instituições mas os crimes menores, anões, imperceptíveis à comunidade e por isso mesmo inexistentes na percepção de seus autores, passam sem revolta. Isso, sem dúvida, colabora para que os crimes grandes e de maior repercussão também sejam compreeendidos por esses menores como aceitáveis, e, portanto, isentos de punição. Nesse ciclo, de um ponto que sai da desfaçatez de um delito pequeno e vai até a mesma desfaçatez de um crime grande, trava-se um grande acordo implícito de mal comportamento.
Pegando-se um caso, diga-se, médio nessa percepção de impunidade. O Secretário de Segurança do Estado de São Paulo, Saulo de Castro Abreu Filho, depôs nesta semana na Comissão de Segurança da Assembléia Legislativa do Estado. Tosco que é, e com a segurança pública estadual nas mãos do crime organizado, carregou consigo cerca de 200 policiais militares para aplaudi-lo e vaiar os deputados. O que faziam esses policiais lá, além de compor a claque do machão? Deveriam estar nas ruas, não? cadê as instituições civis? No mesmo balaio talvez. A OAB, na sua sagaz luta pelo impeachment de Lula, faz vista grossa contra os advogadinhos pilantras que ora levam celulares para presos (os advogados “de pobre”) ora vasculham as brechas na legislação para fazer o “planejamento tributário“, que, em outras palavras, trata-se de como enganar o Fisco. Menos imposto para o governo gastar mal, com a vantagem de colocar a culpa no legislador que legislou mal. Eles erram e nós gostamos disso. É bom para o cliente, é bom para o meu bolso.
A Associação Brasileira de Imprensa, voz reinante no Collorgate, preocupa-se mais em fiscalizar jornalistas não-formados que atuam na área do que na qualidade dos textos, das reportagens produzidas e do comércio de interesses que permeia a mídia. Nesse cenário todo, os políticos foram pegos de surpresa com a decisão do TSE de restringir a verticalização. A medida, coerente, visto que barra mais ainda a prostituição partidária no arranjo das alianças, colocou um breque na putaria que vinha sendo armada pelas lideranças das legendas, em especial do PT, PSDB, PFL e PMDB. É um tal de ter PT e PMDB juntos em um lugar, mas em outro serem inimigos. Ou PSDB e PFL amicíssimos lá em cima mas aqui ou acolá se odiando. E lugar em que PT e PSDB são aliados informais então? Sinistro esse país.
E revoltante ver que há meses essa patota toda está com a cabeça nas eleições enquanto o país se debate com todos os seus problemas. Reflexo dessa indiferença é a inércia do Congresso em aprovar qualquer matéria. A única coisa que se aprova a partir de agora neste país é apoio político para outubro. E vem o TSE e bagunça tudo. Revolta idiotas como eu que são obrigados a assistir isso diariamente. Mas que um requintado sentimento de satisfação revanchista ofusca brevemente essa revolta, ofusca sim. É como um jogo em que sabemos que vamos perder, mas se o adverário se complica em algo, rimos.
Aliás, uma correção. Aprovaram nesta semana algo.
Tucanos e pefelistas garantiram o reajuste de 16,6% os salários de aposentados e pensionistas do INSS que ganham mais de um salário mínimo. Impacto adicional de R$ 7 bilhões nas contas públicas. Justo os partidos que criticam tanto o governo pelo descalabro na gerência das contas públicas. E para completar o jogo de cena, o governo petista, antes maior defensor do aumento do salário para aposentados, chiou. Está tudo invertido mesmo.E o pior é que as autoridades são tão ruins de serviço que tiveram quatro anos para fazer alterações nas regras da verticalização. Deixaram para a última hora, aprovaram uma emenda constitucional, mas o princípio da anualidade não permitiu que o fim da verticalização tivesse validade já para este pleito. Trombaram, pois, nas próprias pernas.
O quebra-quebra do sem-terra talvez seja o emblema da semana contra esse desrespeito às instituições e das instituições. Um desrespeito que tem o curioso movimento de duas mãos, já que parte de dentro para fora as atuações incompatíveis com o senso republicano de decência e do que é de fato bom para o país. Como se fosse um pedido para serem atacados. Ou como se fosse o sinal de avalistas do acordão entre nós e eles, cada qual com suas irresponsabilidades cívicas e com a exaltação da regra de que só vale lutar pelo que me trará mais dinheiro e mais poder. A coletividade que se dane.
A indignação é generalizada, muito embora o compartilhamento da culpa não o seja. Aponta-se o dedo com facilidade para as incomposturas das instituições mas os crimes menores, anões, imperceptíveis à comunidade e por isso mesmo inexistentes na percepção de seus autores, passam sem revolta. Isso, sem dúvida, colabora para que os crimes grandes e de maior repercussão também sejam compreeendidos por esses menores como aceitáveis, e, portanto, isentos de punição. Nesse ciclo, de um ponto que sai da desfaçatez de um delito pequeno e vai até a mesma desfaçatez de um crime grande, trava-se um grande acordo implícito de mal comportamento.
Pegando-se um caso, diga-se, médio nessa percepção de impunidade. O Secretário de Segurança do Estado de São Paulo, Saulo de Castro Abreu Filho, depôs nesta semana na Comissão de Segurança da Assembléia Legislativa do Estado. Tosco que é, e com a segurança pública estadual nas mãos do crime organizado, carregou consigo cerca de 200 policiais militares para aplaudi-lo e vaiar os deputados. O que faziam esses policiais lá, além de compor a claque do machão? Deveriam estar nas ruas, não? cadê as instituições civis? No mesmo balaio talvez. A OAB, na sua sagaz luta pelo impeachment de Lula, faz vista grossa contra os advogadinhos pilantras que ora levam celulares para presos (os advogados “de pobre”) ora vasculham as brechas na legislação para fazer o “planejamento tributário“, que, em outras palavras, trata-se de como enganar o Fisco. Menos imposto para o governo gastar mal, com a vantagem de colocar a culpa no legislador que legislou mal. Eles erram e nós gostamos disso. É bom para o cliente, é bom para o meu bolso.
A Associação Brasileira de Imprensa, voz reinante no Collorgate, preocupa-se mais em fiscalizar jornalistas não-formados que atuam na área do que na qualidade dos textos, das reportagens produzidas e do comércio de interesses que permeia a mídia. Nesse cenário todo, os políticos foram pegos de surpresa com a decisão do TSE de restringir a verticalização. A medida, coerente, visto que barra mais ainda a prostituição partidária no arranjo das alianças, colocou um breque na putaria que vinha sendo armada pelas lideranças das legendas, em especial do PT, PSDB, PFL e PMDB. É um tal de ter PT e PMDB juntos em um lugar, mas em outro serem inimigos. Ou PSDB e PFL amicíssimos lá em cima mas aqui ou acolá se odiando. E lugar em que PT e PSDB são aliados informais então? Sinistro esse país.
E revoltante ver que há meses essa patota toda está com a cabeça nas eleições enquanto o país se debate com todos os seus problemas. Reflexo dessa indiferença é a inércia do Congresso em aprovar qualquer matéria. A única coisa que se aprova a partir de agora neste país é apoio político para outubro. E vem o TSE e bagunça tudo. Revolta idiotas como eu que são obrigados a assistir isso diariamente. Mas que um requintado sentimento de satisfação revanchista ofusca brevemente essa revolta, ofusca sim. É como um jogo em que sabemos que vamos perder, mas se o adverário se complica em algo, rimos.
Aliás, uma correção. Aprovaram nesta semana algo.
Tucanos e pefelistas garantiram o reajuste de 16,6% os salários de aposentados e pensionistas do INSS que ganham mais de um salário mínimo. Impacto adicional de R$ 7 bilhões nas contas públicas. Justo os partidos que criticam tanto o governo pelo descalabro na gerência das contas públicas. E para completar o jogo de cena, o governo petista, antes maior defensor do aumento do salário para aposentados, chiou. Está tudo invertido mesmo.E o pior é que as autoridades são tão ruins de serviço que tiveram quatro anos para fazer alterações nas regras da verticalização. Deixaram para a última hora, aprovaram uma emenda constitucional, mas o princípio da anualidade não permitiu que o fim da verticalização tivesse validade já para este pleito. Trombaram, pois, nas próprias pernas.
O quebra-quebra do sem-terra talvez seja o emblema da semana contra esse desrespeito às instituições e das instituições. Um desrespeito que tem o curioso movimento de duas mãos, já que parte de dentro para fora as atuações incompatíveis com o senso republicano de decência e do que é de fato bom para o país. Como se fosse um pedido para serem atacados. Ou como se fosse o sinal de avalistas do acordão entre nós e eles, cada qual com suas irresponsabilidades cívicas e com a exaltação da regra de que só vale lutar pelo que me trará mais dinheiro e mais poder. A coletividade que se dane.
9.1.06
A (não) esquerda em ação
Caio
O excêntrico nas eleições deste ano em comparação com as outras é o papel inverso que o PT assume. Desta vez, tentará se manter na presidência como partido da situação, com a difícil tarefa de defender quatro anos de um governo com suas intermináveis falhas e seus poucos acertos, equação, aliás, inerente ao que se viu em gestão pública desde a redemocratização, à exceção do governo Sarney, que só errou. Outro aspecto, porém, pode conceber o ar alternativo no pleito deste ano. Apesar de ser grande a possibilidade de, como em 2002, assistirmos a um cenário que contenha apenas candidatos, em tese, da esquerda brasileira, como Lula, Serra, e Garotinho, o PSDB pode trazer de volta o entrave esquerda contra direita, caso Alckmin entre no páreo.
O governador nega se assumir como de direita, mas seu perfil administrativo e político derruba sua contra argumentação. Pela vertente pessoal, vende bem a imagem de boa praça, católico, médico que subiu na vida no núcleo da família cristã. Freqüenta colunas sociais e é amigo da elite. Como gestor, defende o Estado mínimo, a terceirização na prestação dos serviços essenciais à população e a repreensão como solução a criminalidade. Representaria algo como Afif Domingos em 1989, o candidato da classe média alta, capaz de captar os anseios desse segmento, em especial a excessiva carga tributária que sobre ela pesa. Sabe disso bem, tanto que se pôs a reduzir o ICMS de diversos produtos durante seu governo. Com essas características, enfrentaria os esquerdistas Lula, Serra e Garotinho.
No entanto, com a experiência petista no poder e com a ciência de como se comportaram Serra e Garotinho em suas gestões em cargos executivos, fica a dúvida de que seria somente Alckmin o direitista da questão? Serra aprovou nesta semana a terceirização dos serviços da cidade de São Paulo, a começar pela saúde. Enviará novos projetos em fevereiro, para fazer o mesmo com a cultura, educação, entre outras áreas. Lula, apesar de ainda resistir a certos impulsos do capital, como a pressão para dar continuidade nas privatizações, e de ter feito uma política externa essencialmente de esquerda, manteve a política econômica do seu antecessor, com privilégios a quem sempre viveu de privilégios. Já Garotinho, não cabe tentar qualificá-lo como desta ou daquela facção. Mistura o fisiologismo barato que sempre cercou a direita com um populismo assistencialista de esquerda, sem mencionar a confusão entre religião e política que, propositalmente, faz.
Nesse cenário, o que parece ter ocorrido no país nos últimos 20 anos é que foi de muita valia para os partidos de esquerda durante os anos 90 assumir o papel de salvadores e de defensores dos excluídos e, com isso, crescer politicamente, em um quadro que os governos de direita pouco resultados práticos traziam para a população em geral. O ápice disso veio em 2002, quando o eleitorado tradicionalmente de direita, cansado da falta de avanços na economia, da fórmula do "estabilizar sem crescer", e do país ainda concentrar muita renda e abarcar milhões de miseráveis em seu encalço, resolveu optar pelo projeto PT.
Ao mesmo tempo em que esse processo se dava, a direita fisiológica, traduzida predominantemente pelo PFL, PTB, PL e PP, procurou fazer o papel de coadjuvante dos partidos de esquerda, que, com seu discurso supostamente revolucionário, agradava mais às massas eleitorais. Sim, era mais fácil se alçar ao poder ao lado de um intelectual como FHC, com vasta bibliografia sobre terceiro-mundismo do que ir com um Bornhausen ou um Marco Maciel na frente das câmaras tendo que pedir o seu voto e ao mesmo tempo explicar por que mesmo sempre tendo participado do poder, o país sempre continuou o mesmo.
O que intriga é que nunca conseguimos eleger um governo estritamente de esquerda neste país. Quando pensamos que conseguimos, veio junto o pacote dos três porquinhos (PL, PTB e PP) e junto com eles todos os compromissos assumidos em campanha e suas práticas enfadonhas de poder. Evidente que em uma democracia as minorias também fazem parte do todo e devem ser contempladas, mas a cada eleição se distancia mais o sonho da esquerda de ver um governo que adote seus principais preceitos como prioridade na administração: saúde pública decente, universal e acessível; educação gratuita avançada e, na economia, um Estado forte e investidor, desprendido de receitas econômicas que travam o desenvolvimento.
Quem, ao menos no ideal, poderia assumir essa postura seria Lula, em um eventual segundo governo. Pode parecer delírio, mas um segundo governo Lula, pelo menos no aspecto estrutural, poderia contrariar a sina de segundos mandatos serem piores do que o primeiro e trazer algo melhor ao país. Uma aliança escorada no PSB, PC do B e PT, e um novo núcleo do governo formado pela desenvolvimentista Dilma Roussef, pelo apartidário Márcio Thomaz Bastos e pelo dialogador Jaques Wagner não seria de todo mal. Substituiria o maculado núcleo duro (e sujo) do começo do atual governo, formado pelo arrogante Dirceu, o heterodoxo Palocci e o fraco Gushiken. A decisão, porém, é da população. Difícil aceitar que um governo que se melou em podridões corruptas como este mereça uma segunda oportunidade. È o que as pesquisas, até o momento, dizem.
Serra, por sua vez, também traria um pouco de luz à falta de esperanças das esquerdas, mas atualmente é a hipótese mais provável. Centralizador e desenvolvimentista, pode tirar o país das pífias taxas de crescimento. O tucano também é um grande cérebro quando se pensa no país como uma grande estrutura complexa. Exemplo disso é o estudo do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) feito por economistas muito ligados a Serra: José Roberto Afonso, assessor da bancada tucana na Câmara dos Deputados, e Geraldo Biasoto, que trabalha na prefeitura de São Paulo. Em suma, duvidam que as parcerias público-privadas (PPPs) ajudem em algo e propõem que projetos estratégicos sejam executados pelo governo com "recursos específicos, captados diretamente no mercado", por meio de empréstimos comuns ou fundos de investimento. Por falta de espaço, não coloco aqui toda a proposta, que está disponível no site do Ipea (www.ipea.gov.br/pub/td/sumex/se1141.htm http://www.ipea.gov.br/pub/td/sumex/se1141.htm).
Com essa mistura constante entre esquerda e direita, e, mais especificamente, campanhas de esquerda com governos de direita, o que seria mesmo um alento na política brasileira é uma aliança entre PT e PSDB. Os dois maiores partidos do Brasil vivem hoje para se degladiar, na tentativa de assassinar um ao outro, sem que sequer um entendimento ao menos nas matérias primordiais para o desenvolvimento do país sejam debatidas. Nessa briga, carregam consigo os partidos tradicionais de direita, que, sem força política para chegar à presidência, utilizam-se dessas siglas para perpetuar-se no poder e manter-se no jogo político. Apesar de algo distante da atual realidade política, passos nesse sentido já poderiam ser dados, para o bem do país.
O excêntrico nas eleições deste ano em comparação com as outras é o papel inverso que o PT assume. Desta vez, tentará se manter na presidência como partido da situação, com a difícil tarefa de defender quatro anos de um governo com suas intermináveis falhas e seus poucos acertos, equação, aliás, inerente ao que se viu em gestão pública desde a redemocratização, à exceção do governo Sarney, que só errou. Outro aspecto, porém, pode conceber o ar alternativo no pleito deste ano. Apesar de ser grande a possibilidade de, como em 2002, assistirmos a um cenário que contenha apenas candidatos, em tese, da esquerda brasileira, como Lula, Serra, e Garotinho, o PSDB pode trazer de volta o entrave esquerda contra direita, caso Alckmin entre no páreo.
O governador nega se assumir como de direita, mas seu perfil administrativo e político derruba sua contra argumentação. Pela vertente pessoal, vende bem a imagem de boa praça, católico, médico que subiu na vida no núcleo da família cristã. Freqüenta colunas sociais e é amigo da elite. Como gestor, defende o Estado mínimo, a terceirização na prestação dos serviços essenciais à população e a repreensão como solução a criminalidade. Representaria algo como Afif Domingos em 1989, o candidato da classe média alta, capaz de captar os anseios desse segmento, em especial a excessiva carga tributária que sobre ela pesa. Sabe disso bem, tanto que se pôs a reduzir o ICMS de diversos produtos durante seu governo. Com essas características, enfrentaria os esquerdistas Lula, Serra e Garotinho.
No entanto, com a experiência petista no poder e com a ciência de como se comportaram Serra e Garotinho em suas gestões em cargos executivos, fica a dúvida de que seria somente Alckmin o direitista da questão? Serra aprovou nesta semana a terceirização dos serviços da cidade de São Paulo, a começar pela saúde. Enviará novos projetos em fevereiro, para fazer o mesmo com a cultura, educação, entre outras áreas. Lula, apesar de ainda resistir a certos impulsos do capital, como a pressão para dar continuidade nas privatizações, e de ter feito uma política externa essencialmente de esquerda, manteve a política econômica do seu antecessor, com privilégios a quem sempre viveu de privilégios. Já Garotinho, não cabe tentar qualificá-lo como desta ou daquela facção. Mistura o fisiologismo barato que sempre cercou a direita com um populismo assistencialista de esquerda, sem mencionar a confusão entre religião e política que, propositalmente, faz.
Nesse cenário, o que parece ter ocorrido no país nos últimos 20 anos é que foi de muita valia para os partidos de esquerda durante os anos 90 assumir o papel de salvadores e de defensores dos excluídos e, com isso, crescer politicamente, em um quadro que os governos de direita pouco resultados práticos traziam para a população em geral. O ápice disso veio em 2002, quando o eleitorado tradicionalmente de direita, cansado da falta de avanços na economia, da fórmula do "estabilizar sem crescer", e do país ainda concentrar muita renda e abarcar milhões de miseráveis em seu encalço, resolveu optar pelo projeto PT.
Ao mesmo tempo em que esse processo se dava, a direita fisiológica, traduzida predominantemente pelo PFL, PTB, PL e PP, procurou fazer o papel de coadjuvante dos partidos de esquerda, que, com seu discurso supostamente revolucionário, agradava mais às massas eleitorais. Sim, era mais fácil se alçar ao poder ao lado de um intelectual como FHC, com vasta bibliografia sobre terceiro-mundismo do que ir com um Bornhausen ou um Marco Maciel na frente das câmaras tendo que pedir o seu voto e ao mesmo tempo explicar por que mesmo sempre tendo participado do poder, o país sempre continuou o mesmo.
O que intriga é que nunca conseguimos eleger um governo estritamente de esquerda neste país. Quando pensamos que conseguimos, veio junto o pacote dos três porquinhos (PL, PTB e PP) e junto com eles todos os compromissos assumidos em campanha e suas práticas enfadonhas de poder. Evidente que em uma democracia as minorias também fazem parte do todo e devem ser contempladas, mas a cada eleição se distancia mais o sonho da esquerda de ver um governo que adote seus principais preceitos como prioridade na administração: saúde pública decente, universal e acessível; educação gratuita avançada e, na economia, um Estado forte e investidor, desprendido de receitas econômicas que travam o desenvolvimento.
Quem, ao menos no ideal, poderia assumir essa postura seria Lula, em um eventual segundo governo. Pode parecer delírio, mas um segundo governo Lula, pelo menos no aspecto estrutural, poderia contrariar a sina de segundos mandatos serem piores do que o primeiro e trazer algo melhor ao país. Uma aliança escorada no PSB, PC do B e PT, e um novo núcleo do governo formado pela desenvolvimentista Dilma Roussef, pelo apartidário Márcio Thomaz Bastos e pelo dialogador Jaques Wagner não seria de todo mal. Substituiria o maculado núcleo duro (e sujo) do começo do atual governo, formado pelo arrogante Dirceu, o heterodoxo Palocci e o fraco Gushiken. A decisão, porém, é da população. Difícil aceitar que um governo que se melou em podridões corruptas como este mereça uma segunda oportunidade. È o que as pesquisas, até o momento, dizem.
Serra, por sua vez, também traria um pouco de luz à falta de esperanças das esquerdas, mas atualmente é a hipótese mais provável. Centralizador e desenvolvimentista, pode tirar o país das pífias taxas de crescimento. O tucano também é um grande cérebro quando se pensa no país como uma grande estrutura complexa. Exemplo disso é o estudo do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) feito por economistas muito ligados a Serra: José Roberto Afonso, assessor da bancada tucana na Câmara dos Deputados, e Geraldo Biasoto, que trabalha na prefeitura de São Paulo. Em suma, duvidam que as parcerias público-privadas (PPPs) ajudem em algo e propõem que projetos estratégicos sejam executados pelo governo com "recursos específicos, captados diretamente no mercado", por meio de empréstimos comuns ou fundos de investimento. Por falta de espaço, não coloco aqui toda a proposta, que está disponível no site do Ipea (www.ipea.gov.br/pub/td/sumex/se1141.htm http://www.ipea.gov.br/pub/td/sumex/se1141.htm).
Com essa mistura constante entre esquerda e direita, e, mais especificamente, campanhas de esquerda com governos de direita, o que seria mesmo um alento na política brasileira é uma aliança entre PT e PSDB. Os dois maiores partidos do Brasil vivem hoje para se degladiar, na tentativa de assassinar um ao outro, sem que sequer um entendimento ao menos nas matérias primordiais para o desenvolvimento do país sejam debatidas. Nessa briga, carregam consigo os partidos tradicionais de direita, que, sem força política para chegar à presidência, utilizam-se dessas siglas para perpetuar-se no poder e manter-se no jogo político. Apesar de algo distante da atual realidade política, passos nesse sentido já poderiam ser dados, para o bem do país.
27.11.05
O teatro dos interesses
Caio
Gushiken era ministro do núcleo duro do governo. Influente e poderoso, comandava toda a comunicação federal. Caiu depois do desgaste sobre as acusações de que a empresa da qual foi sócio teria ampliado a receita de contratos com fundos de pensão. Na verdade, não foi bem uma queda, mas uma perda de status de ministro da Secretaria de Comunicação de Governo para a atual chefia do Núcleo de Assuntos Estratégicos da Presidência. José Dirceu caiu também. Suspeito de ser o mentor de outro suspeito, o mensalão. Genoino caiu. Não suportou a pressão pelas trapalhadas gerenciais do partido que dirigia. Não é suspeito de muita coisa. Sabe-se que assinou sem ler, não executou, não fiscalizou e foi para a rua. Pesa sobre ele a anuência com o caixa 2, fato que ele diz que não sabia e a ninguém finge que acredita. Isso porque queria governar São Paulo. Passou.
Apenas quem não “passa” aqui é Palocci. E as acusações contra ele são muitas. Por falta de espaço, elenco as principais. A mais grave vem da Polícia Civil e do Ministério Público. De acordo com as instituições, já há provas para indiciá-lo por peculato e formação de quadrilha, sob a acusação de que houve superfaturamento dos serviços de recolhimento de lixo em Ribeirão entre 2001 e 2002, na primeira gestão do hoje ministro. Tem mais. Rogério Buratti, ex-assessor da prefeitura de Ribeirão, afirma ter havido pagamento de propina no valor de R$ 50 mil mensais, que abasteceriam o caixa 2 do PT. Mais uma? As pessoas próximas a Palocci, a chamada “República de Ribeirão”, estão imersas em denúncias. Juscelino Dourado, ex-chefe de gabinete, é acusado pelo Ministério Público de negociar com uma construtora complementos salariais a assessores da prefeitura. A ex-superintendente do Departamento de Água e Esgoto de Ribeirão, Isabel Bordini, é acusada de superfaturar contratos. O secretário de Palocci, Ademirson Ariovaldo, trocou mais de 1500 telefonemas com Vladimir Poleto, protagonista de uma dos mais constrangedores episódios da CPI dos Correios: a divulgação do teor de uma fita com uma conversa durante seu depoimento, em que contradiz o que dissera minutos antes.
Olhando o cenário de fora, nada em muito diferencia Palocci, Genoino, Dirceu e Gushiken. Os três são petistas-raiz, cresceram com o partido e tiveram papel fundamental na eleição de Lula e em boa parte de seu governo. Agora, por que raios os outros caem e Antonio não cai, se, tanto como os outros, pesam contra ele acusações fortíssimas e se cercaram de gente esquisita?
Por partes, que ajuda a tentativa de elucidação. Primeiro é preciso considerar o fator interno, que também pode ser chamado de fator Lula, ou fator reeleição. A condução da política econômica, apesar de levar a sua parcela de crítica, é o que segura o governo naquela parcela do eleitorado que foi determinante para a vitória de Lula em 2002: o mercado. Ok, é muito genérico e clichê falar “mercado”, mas entenda-se aqui, basicamente, grandes empresários e banqueiros. Infelizmente, o país depende muito desses tipos e caso a economia não os servisse, áqueles a quem os servem no Congresso já teriam, talvez, derrubado o presidente. A manutenção da restritiva política fiscal e da conservadora política monetária interessam, pois, a gente poderosa. Um processo de desestabilização do Ministério da Fazenda colocaria em xeque os conceitos financistas aplicados desde a Era FHC e mantidos no atual governo. Logo, mexer com Palocci é mexer com grandes interesses. Prova disso é o abalo que o mercado tem tido nos dias de depoimento do ministro no Congresso. Além disso, é nítido que a oposição quer evitar que a política econômica dê uma guinada à esquerda em pleno ano eleitoral, já que isso poderia se transformar em forte capital político para os petistas.
Tudo isso explica o carinho com que a oposição trata o ministro, mesmo estando ele tão sujo como seus partidários e ex-companheiros de governo. Porque é muito, mas muito difícil crer que pefelistas e tucanos não batem em Palocci apenas por considerarem boa a gestão por ele comandada da economia brasileira. Invertam-se os papéis. Estivesse Palocci em outra pasta, elementar que não teria o mesmo tratamento. Já estaria na rua. Estivesse ele na mesma pasta, mas com atuação mais desenvolvimentista e menos monetarista, seria interrogado com punhos de veludo?
Passemos a outro ponto, agora o fator reeleição. A celeuma principal entre Dilma e Palocci é quanto à execução orçamentária. Dilma deu uma entrevista ao “Estado de S. Paulo” em que criticou os rumos da economia. Palocci foi à Comissão de Assuntos Econômicos do Senado e disse que a ministra estava errada. Lula deu exemplos de mal-chefia e preferiu deixar a bola de neve crescer. Com o olho em sua reeleição, quis testar como se comportariam o mercado, a oposição e a mídia com o risco Palocci-fora. Concluiu que seria melhor mantê-lo e, simultaneamente, fazer sensíveis alterações na economia: atender ao paloccismo e aumentar o superávit primário e atender à escola Dilma e aumentar a liberação de recursos para investimentos. O resultado final foi um mix entre essas duas conjunturas. Mantém-se Palocci no cargo e a confiança do alto capital continua sustentada. Atende-se aos suplícios de Dilma, avançam-se a execução de projetos e tenta se mostrar em 2006 que esse governo faz.
O diabo é que Lula poderia ter feito tudo isso sem o estardalhaço que o episódio causou nessas duas semanas. Mas em se tratando de um tabuleiro onde o comportamento de todas as peças _situação e oposição_ visam as próximas eleições, a prudência no trato político mais uma vez é esquecida é dá lugar aos interesses pessoais. O presidente quer jogar no fogo o que as instituições pensam da economia que chefia, a oposição quer proteger quem a sustenta e evitar uma gastança em ano eleitoral que beneficiaria o PT.
Gushiken era ministro do núcleo duro do governo. Influente e poderoso, comandava toda a comunicação federal. Caiu depois do desgaste sobre as acusações de que a empresa da qual foi sócio teria ampliado a receita de contratos com fundos de pensão. Na verdade, não foi bem uma queda, mas uma perda de status de ministro da Secretaria de Comunicação de Governo para a atual chefia do Núcleo de Assuntos Estratégicos da Presidência. José Dirceu caiu também. Suspeito de ser o mentor de outro suspeito, o mensalão. Genoino caiu. Não suportou a pressão pelas trapalhadas gerenciais do partido que dirigia. Não é suspeito de muita coisa. Sabe-se que assinou sem ler, não executou, não fiscalizou e foi para a rua. Pesa sobre ele a anuência com o caixa 2, fato que ele diz que não sabia e a ninguém finge que acredita. Isso porque queria governar São Paulo. Passou.
Apenas quem não “passa” aqui é Palocci. E as acusações contra ele são muitas. Por falta de espaço, elenco as principais. A mais grave vem da Polícia Civil e do Ministério Público. De acordo com as instituições, já há provas para indiciá-lo por peculato e formação de quadrilha, sob a acusação de que houve superfaturamento dos serviços de recolhimento de lixo em Ribeirão entre 2001 e 2002, na primeira gestão do hoje ministro. Tem mais. Rogério Buratti, ex-assessor da prefeitura de Ribeirão, afirma ter havido pagamento de propina no valor de R$ 50 mil mensais, que abasteceriam o caixa 2 do PT. Mais uma? As pessoas próximas a Palocci, a chamada “República de Ribeirão”, estão imersas em denúncias. Juscelino Dourado, ex-chefe de gabinete, é acusado pelo Ministério Público de negociar com uma construtora complementos salariais a assessores da prefeitura. A ex-superintendente do Departamento de Água e Esgoto de Ribeirão, Isabel Bordini, é acusada de superfaturar contratos. O secretário de Palocci, Ademirson Ariovaldo, trocou mais de 1500 telefonemas com Vladimir Poleto, protagonista de uma dos mais constrangedores episódios da CPI dos Correios: a divulgação do teor de uma fita com uma conversa durante seu depoimento, em que contradiz o que dissera minutos antes.
Olhando o cenário de fora, nada em muito diferencia Palocci, Genoino, Dirceu e Gushiken. Os três são petistas-raiz, cresceram com o partido e tiveram papel fundamental na eleição de Lula e em boa parte de seu governo. Agora, por que raios os outros caem e Antonio não cai, se, tanto como os outros, pesam contra ele acusações fortíssimas e se cercaram de gente esquisita?
Por partes, que ajuda a tentativa de elucidação. Primeiro é preciso considerar o fator interno, que também pode ser chamado de fator Lula, ou fator reeleição. A condução da política econômica, apesar de levar a sua parcela de crítica, é o que segura o governo naquela parcela do eleitorado que foi determinante para a vitória de Lula em 2002: o mercado. Ok, é muito genérico e clichê falar “mercado”, mas entenda-se aqui, basicamente, grandes empresários e banqueiros. Infelizmente, o país depende muito desses tipos e caso a economia não os servisse, áqueles a quem os servem no Congresso já teriam, talvez, derrubado o presidente. A manutenção da restritiva política fiscal e da conservadora política monetária interessam, pois, a gente poderosa. Um processo de desestabilização do Ministério da Fazenda colocaria em xeque os conceitos financistas aplicados desde a Era FHC e mantidos no atual governo. Logo, mexer com Palocci é mexer com grandes interesses. Prova disso é o abalo que o mercado tem tido nos dias de depoimento do ministro no Congresso. Além disso, é nítido que a oposição quer evitar que a política econômica dê uma guinada à esquerda em pleno ano eleitoral, já que isso poderia se transformar em forte capital político para os petistas.
Tudo isso explica o carinho com que a oposição trata o ministro, mesmo estando ele tão sujo como seus partidários e ex-companheiros de governo. Porque é muito, mas muito difícil crer que pefelistas e tucanos não batem em Palocci apenas por considerarem boa a gestão por ele comandada da economia brasileira. Invertam-se os papéis. Estivesse Palocci em outra pasta, elementar que não teria o mesmo tratamento. Já estaria na rua. Estivesse ele na mesma pasta, mas com atuação mais desenvolvimentista e menos monetarista, seria interrogado com punhos de veludo?
Passemos a outro ponto, agora o fator reeleição. A celeuma principal entre Dilma e Palocci é quanto à execução orçamentária. Dilma deu uma entrevista ao “Estado de S. Paulo” em que criticou os rumos da economia. Palocci foi à Comissão de Assuntos Econômicos do Senado e disse que a ministra estava errada. Lula deu exemplos de mal-chefia e preferiu deixar a bola de neve crescer. Com o olho em sua reeleição, quis testar como se comportariam o mercado, a oposição e a mídia com o risco Palocci-fora. Concluiu que seria melhor mantê-lo e, simultaneamente, fazer sensíveis alterações na economia: atender ao paloccismo e aumentar o superávit primário e atender à escola Dilma e aumentar a liberação de recursos para investimentos. O resultado final foi um mix entre essas duas conjunturas. Mantém-se Palocci no cargo e a confiança do alto capital continua sustentada. Atende-se aos suplícios de Dilma, avançam-se a execução de projetos e tenta se mostrar em 2006 que esse governo faz.
O diabo é que Lula poderia ter feito tudo isso sem o estardalhaço que o episódio causou nessas duas semanas. Mas em se tratando de um tabuleiro onde o comportamento de todas as peças _situação e oposição_ visam as próximas eleições, a prudência no trato político mais uma vez é esquecida é dá lugar aos interesses pessoais. O presidente quer jogar no fogo o que as instituições pensam da economia que chefia, a oposição quer proteger quem a sustenta e evitar uma gastança em ano eleitoral que beneficiaria o PT.
18.11.05
Na cidade campeã, PSDB nasceu de briga pelo poder local
(Publicada no Valor Econômico)
Caio
“Foi aquela correria para lá e para cá. Fizemos mutirão, o pessoal procurava a gente, a gente ia na casas, e fomos filiando.” Assim o tucano Jones Roberto, secretário de Saúde de Sítio d’Abadia (GO), relata o episódio que fez desta pequena cidade próxima à divisa entre Goiás, Minas Gerais e Bahia a localidade do Brasil com maior número de tucanos em proporção ao eleitorado. Lá, um em cada cinco eleitores é filiado ao PSDB, em decorrência de uma disputa local pelo comando do partido do então recém-eleito governador Marconi Perillo.
A primeira eleição do atual governador goiano, em 1998, foi o que impulsionou a disputa. No ano seguinte a sua vitória, um dos dois grupos políticos da cidade, ligado ao PPB (atual PP), vislumbrou na fundação do partido de Marconi na cidade o melhor meio para retomar a prefeitura, perdida três anos antes para os rivais do PMDB. Percebendo a manobra, os pemedebistas, liderados pelo prefeito, resolveram também entrar na disputa pelo controle do PSDB local. O resultado foi uma guerra. Quem filiasse mais, teria automaticamente mais votos na eleição interna. “Gente do PPB e do PMDB foi filiando para o PSDB”, relata Roberto, à época do grupo pepebista, que acabou derrotado, segundo ele, com auxílio de tucanos de Goiânia. “Nossa turma ia pedir ajuda para os assessores em Goiânia, mas daí eles acabaram vendo que o grupo do prefeito tava com o poder na época e preferiram eles, que já tinham uma infra-estrutura existente. O que o governador fez com a gente foi fogo. Nós demos o partido para ele e ele nos deu o inimigo.”
Essa lógica de que partido bom é o partido do governador não é nova na cidade. Nos anos 90, os prefeitos de Sítio foram do PMDB, partido dos ex-governadores Íris Rezende (1990-1994) e Maguito Vilela (1994-1998). Com a derrota do PMDB para Marconi em 1998, as forças políticas locais buscaram formar o que em breve seria o novo partido forte no Estado, o PSDB. Roberto explica essa avidez por integrar o partido do governador: “Quando você ‘tá fora’, você recebe benefícios. Por exemplo, o governo manda 100 cheques-reforma para a cidade. Quando você é ‘do lado deles’ tem chance de receber o triplo disso. Tem cidadão que é oposição que não consegue nada.” E relata ainda como o PSDB exerce sua hegemonia local: “PFL, PL, PPS e PTB. Isso é tudo controlado pelo PSDB. Se a gente fizer uma coligaçãozinha PFL e PSDB, ganhamos a eleição, mas ficamos com dois, três vereadores. Se juntar com todo mundo, a gente ganha a eleição e a Câmara dos Vereadores”.
Essas artimanhas, porém, não são suficientes para o êxito eleitoral no Sítio . Condição necessária é obter o apoio de lideranças que detém votos de grandes grupos de eleitores, caso da família Moura, ou “os mineiros”, como são conhecidos. Dentre irmão, tios, primos e sobrinhos, são quase 100 eleitores que sempre votam em bloco, o que, em um colégio eleitoral com pouco mais de 2,3 mil eleitores, faz grande diferença. Provenientes de Unaí (MG), o primeiro a chegar da família foi Joaquim Antero de Moura, de 59 anos, que se instalou no local em 1972 em busca de trabalho na lavoura. O ingresso na política aconteceu em 1986, quando o irmão de Joaquim, Aníbal, elegeu-se vereador e deu início a uma espécie de dinastia no Legislativo da cidade, pela qual sempre um “mineiro” marca presença na Câmara. Aníbal foi o primeiro. Outra sina dos mineiros é o fato de sempre apoiarem quem vence as eleições para prefeito, caso de 2004, quando fecharam com o tucano Kesser Reis.
No entanto, esse apoio pode ter o primeiro revés da história da família e da cidade, com a cassação do mandato do prefeito do PSDB. O Ministério Público do Estado de Goiás move contra ele uma ação de impugnação de mandato pela suposta compra de votos de um casal que vive no Povoado Capão, a 35 km do Sítio . Kesser teria oferecido R$ 1 mil mais um cheque-moradia (programa social do governo do Estado) no valor de R$ 1,5 mil. Nos autos do processo, que tramita em Alvorada do Norte (GO), o procurador eleitoral afirma que “no caso, fica patente que a opção e a liberalidade do voto do casal foram contaminados, exclusivamente, pela exploração de sua pobreza e falta de instrução”. Os advogados do prefeito afirmam que houve apenas uma proposta de trabalho na campanha, na qual não foram mencionados valores.
Caio
“Foi aquela correria para lá e para cá. Fizemos mutirão, o pessoal procurava a gente, a gente ia na casas, e fomos filiando.” Assim o tucano Jones Roberto, secretário de Saúde de Sítio d’Abadia (GO), relata o episódio que fez desta pequena cidade próxima à divisa entre Goiás, Minas Gerais e Bahia a localidade do Brasil com maior número de tucanos em proporção ao eleitorado. Lá, um em cada cinco eleitores é filiado ao PSDB, em decorrência de uma disputa local pelo comando do partido do então recém-eleito governador Marconi Perillo.
A primeira eleição do atual governador goiano, em 1998, foi o que impulsionou a disputa. No ano seguinte a sua vitória, um dos dois grupos políticos da cidade, ligado ao PPB (atual PP), vislumbrou na fundação do partido de Marconi na cidade o melhor meio para retomar a prefeitura, perdida três anos antes para os rivais do PMDB. Percebendo a manobra, os pemedebistas, liderados pelo prefeito, resolveram também entrar na disputa pelo controle do PSDB local. O resultado foi uma guerra. Quem filiasse mais, teria automaticamente mais votos na eleição interna. “Gente do PPB e do PMDB foi filiando para o PSDB”, relata Roberto, à época do grupo pepebista, que acabou derrotado, segundo ele, com auxílio de tucanos de Goiânia. “Nossa turma ia pedir ajuda para os assessores em Goiânia, mas daí eles acabaram vendo que o grupo do prefeito tava com o poder na época e preferiram eles, que já tinham uma infra-estrutura existente. O que o governador fez com a gente foi fogo. Nós demos o partido para ele e ele nos deu o inimigo.”
Essa lógica de que partido bom é o partido do governador não é nova na cidade. Nos anos 90, os prefeitos de Sítio foram do PMDB, partido dos ex-governadores Íris Rezende (1990-1994) e Maguito Vilela (1994-1998). Com a derrota do PMDB para Marconi em 1998, as forças políticas locais buscaram formar o que em breve seria o novo partido forte no Estado, o PSDB. Roberto explica essa avidez por integrar o partido do governador: “Quando você ‘tá fora’, você recebe benefícios. Por exemplo, o governo manda 100 cheques-reforma para a cidade. Quando você é ‘do lado deles’ tem chance de receber o triplo disso. Tem cidadão que é oposição que não consegue nada.” E relata ainda como o PSDB exerce sua hegemonia local: “PFL, PL, PPS e PTB. Isso é tudo controlado pelo PSDB. Se a gente fizer uma coligaçãozinha PFL e PSDB, ganhamos a eleição, mas ficamos com dois, três vereadores. Se juntar com todo mundo, a gente ganha a eleição e a Câmara dos Vereadores”.
Essas artimanhas, porém, não são suficientes para o êxito eleitoral no Sítio . Condição necessária é obter o apoio de lideranças que detém votos de grandes grupos de eleitores, caso da família Moura, ou “os mineiros”, como são conhecidos. Dentre irmão, tios, primos e sobrinhos, são quase 100 eleitores que sempre votam em bloco, o que, em um colégio eleitoral com pouco mais de 2,3 mil eleitores, faz grande diferença. Provenientes de Unaí (MG), o primeiro a chegar da família foi Joaquim Antero de Moura, de 59 anos, que se instalou no local em 1972 em busca de trabalho na lavoura. O ingresso na política aconteceu em 1986, quando o irmão de Joaquim, Aníbal, elegeu-se vereador e deu início a uma espécie de dinastia no Legislativo da cidade, pela qual sempre um “mineiro” marca presença na Câmara. Aníbal foi o primeiro. Outra sina dos mineiros é o fato de sempre apoiarem quem vence as eleições para prefeito, caso de 2004, quando fecharam com o tucano Kesser Reis.
No entanto, esse apoio pode ter o primeiro revés da história da família e da cidade, com a cassação do mandato do prefeito do PSDB. O Ministério Público do Estado de Goiás move contra ele uma ação de impugnação de mandato pela suposta compra de votos de um casal que vive no Povoado Capão, a 35 km do Sítio . Kesser teria oferecido R$ 1 mil mais um cheque-moradia (programa social do governo do Estado) no valor de R$ 1,5 mil. Nos autos do processo, que tramita em Alvorada do Norte (GO), o procurador eleitoral afirma que “no caso, fica patente que a opção e a liberalidade do voto do casal foram contaminados, exclusivamente, pela exploração de sua pobreza e falta de instrução”. Os advogados do prefeito afirmam que houve apenas uma proposta de trabalho na campanha, na qual não foram mencionados valores.
Tocantins e Goiás lideram filiação tucana
(Publicada no Valor Econômico)
Dezessete anos depois de surgir em SP e Minas, PSDB tem o maior peso de filiados no Norte e Centro-Oeste
Caio Junqueira
O PSDB realiza amanhã sua oitava convenção nacional para eleger seu novo presidente, o senador Tasso Jereissati (CE), como um partido radicalmente distinto daquele que, em 1988, foi fundado por dissidentes pemedebistas em desacordo com os rumos do então partido forte do governo José Sarney. Naquele ano, a recém-criada agremiação concentrava sua força nos Estados de São Paulo e Minas Gerais, de onde vinham seus mais importantes quadros, como os senadores paulistas Fernando Henrique Cardoso e Mário Covas, e os deputados mineiros Pimenta da Veiga e Célio de Castro.
Além disso, a metade da primeira bancada tucana na Câmara dos Deputados era originária dos dois Estados. Também foram neles que os tucanos conquistaram, no mesmo ano, suas três primeiras importantes prefeituras: Belo Horizonte, Contagem e Bauru. Passados 17 anos, a legenda supera 1,1 milhão de filiados espalhados em 97% dos municípios do país, em um processo de crescimento que avançou principalmente para as Regiões Norte e Centro-Oeste e se consolidou nos grotões brasileiros. Hoje, os Estados com maior número de tucanos em proporção ao eleitorado, conforme levantamento feito pelo ValorData, são Tocantins e Goiás. A quinta e a oitava posições estão, respectivamente, com Mato Grosso e Mato Grosso do Sul. A presença de fortes lideranças nesses Estados colaborou para esse novo cenário nacional da sigla, caso do ex-governador tocantinense Siqueira Campos e do atual governador goiano Marconi Perillo, que acabaram por jogar os Estados-raízes tucanos para baixo no ranking: São Paulo aparece na 16 colocação e Minas, na 12. Outro importante Estado na fundação, o Paraná do então senador José Richa, está em 10.
É certo que essa pulverização tucana rumo ao oeste do país em muito se deve ao inchaço ocorrido na era FHC, em que o partido saltou de 400 mil filiados em 1994 para 1 milhão em 2003. No caso do campeão Tocantins , pelo menos, a oposição petista na Assembléia Legislativa aponta o período entre 1995 e 2002 como negro na política regional. “O que tem de pior na política brasileira o PSDB fez aqui. Houve intensa utilização da máquina administrativa. Distribuiu-se uma rede de cabos eleitorais pelo Estado que detém muito poder. Um cabo eleitoral tucano aqui faz qualquer opositor entrar em dificuldade. A oposição se definhou, muitos capitularam”, afirma o líder do PT na Assembléia tocantinense, José Santana. As acusações são rechaçadas pelo senador Siqueira Campos, o Siqueirinha, filho do ex-governador. Apesar de ressaltar realizações das três gestões de seu pai à frente do governo estadual, como a construção de rodovias e a disponibilização de água tratada em 100% dos municípios, remete o crescimento do partido no Estado ao período posterior a 2002. “Crescemos na oposição. A presença de lideranças nacionais do partido no Estado e a fragilização da oposição com a onda de denúncias de corrupção colaboraram para isso”, diz.
Se o PT e o PSDB do Tocantins discordam quanto às razões de seu Estado ter a maior base tucana do país, a análise da história do partido nas dez cidades em que têm maior número de tucanos do Brasil revela a acomodação do PSDB à política do grotão. É o caso de Senador Cortes (MG), a quinta no ranking, onde o PSDB passou a ter atuação após uma “refundação”, em 1994, por um grupo de vereadores. “O prefeito era do PFL, mas dominava uns seis, sete partidos. Por aqui eles têm essa prática de pegar gente de confiança que nem é ligada à política e colocar no diretório para ter maioria. Tomam o partido, que fica imobilizado. Então recorremos ao diretório regional, que nos permitiu compor uma nova Executiva municipal”, relata o ex-vereador Herminio Guterres, que integrava o grupo e passou, então, a comandar a sigla. A base, porém, só veio a inchar em 2002, fruto de uma disputa local pela presidência tucana. Guterres, que venceu novamente, conta a estratégia de seu grupo. “Fizemos reunião no clube, convidamos o pessoal. Vinham famílias inteiras. Fizemos tipo uma convenção, colocamos frase de impacto, cartazes, e depois teve um forró, um churrasquinho, e o pessoal foi aderindo.”
Em Santa Isabel (GO), a terceira no ranking, a lista de filiados teve por base a de eleitores. Quem conta é uma das fundadoras, a professora Selma Maria da Silva. De acordo com ela, em 1995 uma pessoa remeteu a lista de todo o eleitorado santa-isabelense ao Tribunal Regional Eleitoral de Goiás, como se todos fossem filiados ao PSDB. “Ele chegou aqui com um edital do diretório estadual afirmando que havia sido nomeado presidente de uma comissão provisória. Fez outro livro de ata, pegou o que eu tinha feito e sumiu. Tirou cópia do rol de eleitores e encaminhou ao TRE, falando que era de filiados. Excluiu apenas presidentes e vereadores de outros partidos. Quando fui ver, o partido tinha mais de 2 mil filiados, quase o mesmo número de eleitores na época.” O responsável pelo ato, segundo ela, foi Manoel da Silva, cuja família possui propriedades na cidade. Não se sabe, porém, seus interesses. O Valor contatou o diretório estadual goiano, que afirmou desconhecê-lo, mesma informação fornecida pelo gabinete do deputado Rubens Otoni (PT-GO), para quem Manoel teria trabalhado nas eleições municipais de 2004 em Anápolis (GO).
Casos de corrupção também fazem parte das cidades mais tucanas do país. Localizada em histórica zona mineradora do Estado, a pequena Fortaleza de Minas assistiu à prisão do seu último prefeito, do PTB, junto com o ex-vice e o ex-contador da prefeitura, ambos tucanos. Segundo Rodrigo Colombinio, promotor de Jacuí (MG) responsável pelo caso, eles são suspeitos de montar um esquema de desvio de recursos por meio de fraudes em licitações, que teria causado um rombo de mais de R$ 8 milhões aos cofres municipais. Na única cidade nordestina da lista, Vila Nova do Piauí, a história de utilização do partido para consolidar um poder local se repete. O prefeito eleito da cidade em 1996, ex-PPB, mas um dos fundadores do PSDB no município, apoiou nas eleições de 1998 um candidato a deputado estadual da coligação de seu ex-partido, que fazia oposição a ele no âmbito municipal. “Ele não votou no partido, não apoiou nosso candidato, e ainda filiou a família inteira ao PSDB para manter o controle sobre o diretório”, relata a professora Núbia Josefa da Rocha, presidente municipal do PSDB. Revoltados, os tucanos da cidade começaram a construir a candidatura de um vereador do partido para sucedê-lo nas eleições de 2000. Na convenção municipal de 1999, ambos concorreram para a presidência do partido e aí os dois lados promoveram guerra de filiações. O vereador venceu, razão por que se desfiliou por definitivo da sigla e rumou a outro partido, desta vez o PPS.
As histórias dessas cidades não são por completo vinculadas à luta obsessiva pelo poder e à superação de obstáculos para alcançá-lo. Em Potim (SP), por exemplo, nona no ranking, o PSDB nasceu pela influência do então deputado federal e estrela crescente do partido Geraldo Alckmin. Localizada próxima a Pindamonhangaba (SP), berço político Paraíba paulista, reduto alckmista no Estado. “O município era distrito de Guaratinguetá (SP) e, quando foi emancipado, em 1992, eu conhecia o Geraldo, era amigo dele, e ele nos nos incentivou. A gente sempre se espelhou muito nele”, diz o presidente municipal do partido o professor de história Luiz Antonio de Moura.
Longe dali, em Abdon Batista (SC), oitava do ranking, Alckmin é venerado, mas nem tanto por seu trabalho, que é pouco divulgado, mas mais pelo temor de que o antitabagista prefeito de São Paulo, José Serra, vença o governador na disputa interna pela candidatura à Presidência em 2006. “Aqui só se fala no Alckmin presidente, pois o Serra é contra o tabaco. Ele diz que o fumo mata, mas a cachaça mata muito mais”, afirma o presidente do PSDB local, João Francisco, fumante há 50 anos. A bronca tem explicação. Santa Catarina tem 200 mil produtores rurais, dos quais 47 mil produzem fumo basicamente em pequenas propriedades, tendo nesta atividade uma das principais fontes de renda.
Dezessete anos depois de surgir em SP e Minas, PSDB tem o maior peso de filiados no Norte e Centro-Oeste
Caio Junqueira
O PSDB realiza amanhã sua oitava convenção nacional para eleger seu novo presidente, o senador Tasso Jereissati (CE), como um partido radicalmente distinto daquele que, em 1988, foi fundado por dissidentes pemedebistas em desacordo com os rumos do então partido forte do governo José Sarney. Naquele ano, a recém-criada agremiação concentrava sua força nos Estados de São Paulo e Minas Gerais, de onde vinham seus mais importantes quadros, como os senadores paulistas Fernando Henrique Cardoso e Mário Covas, e os deputados mineiros Pimenta da Veiga e Célio de Castro.
Além disso, a metade da primeira bancada tucana na Câmara dos Deputados era originária dos dois Estados. Também foram neles que os tucanos conquistaram, no mesmo ano, suas três primeiras importantes prefeituras: Belo Horizonte, Contagem e Bauru. Passados 17 anos, a legenda supera 1,1 milhão de filiados espalhados em 97% dos municípios do país, em um processo de crescimento que avançou principalmente para as Regiões Norte e Centro-Oeste e se consolidou nos grotões brasileiros. Hoje, os Estados com maior número de tucanos em proporção ao eleitorado, conforme levantamento feito pelo ValorData, são Tocantins e Goiás. A quinta e a oitava posições estão, respectivamente, com Mato Grosso e Mato Grosso do Sul. A presença de fortes lideranças nesses Estados colaborou para esse novo cenário nacional da sigla, caso do ex-governador tocantinense Siqueira Campos e do atual governador goiano Marconi Perillo, que acabaram por jogar os Estados-raízes tucanos para baixo no ranking: São Paulo aparece na 16 colocação e Minas, na 12. Outro importante Estado na fundação, o Paraná do então senador José Richa, está em 10.
É certo que essa pulverização tucana rumo ao oeste do país em muito se deve ao inchaço ocorrido na era FHC, em que o partido saltou de 400 mil filiados em 1994 para 1 milhão em 2003. No caso do campeão Tocantins , pelo menos, a oposição petista na Assembléia Legislativa aponta o período entre 1995 e 2002 como negro na política regional. “O que tem de pior na política brasileira o PSDB fez aqui. Houve intensa utilização da máquina administrativa. Distribuiu-se uma rede de cabos eleitorais pelo Estado que detém muito poder. Um cabo eleitoral tucano aqui faz qualquer opositor entrar em dificuldade. A oposição se definhou, muitos capitularam”, afirma o líder do PT na Assembléia tocantinense, José Santana. As acusações são rechaçadas pelo senador Siqueira Campos, o Siqueirinha, filho do ex-governador. Apesar de ressaltar realizações das três gestões de seu pai à frente do governo estadual, como a construção de rodovias e a disponibilização de água tratada em 100% dos municípios, remete o crescimento do partido no Estado ao período posterior a 2002. “Crescemos na oposição. A presença de lideranças nacionais do partido no Estado e a fragilização da oposição com a onda de denúncias de corrupção colaboraram para isso”, diz.
Se o PT e o PSDB do Tocantins discordam quanto às razões de seu Estado ter a maior base tucana do país, a análise da história do partido nas dez cidades em que têm maior número de tucanos do Brasil revela a acomodação do PSDB à política do grotão. É o caso de Senador Cortes (MG), a quinta no ranking, onde o PSDB passou a ter atuação após uma “refundação”, em 1994, por um grupo de vereadores. “O prefeito era do PFL, mas dominava uns seis, sete partidos. Por aqui eles têm essa prática de pegar gente de confiança que nem é ligada à política e colocar no diretório para ter maioria. Tomam o partido, que fica imobilizado. Então recorremos ao diretório regional, que nos permitiu compor uma nova Executiva municipal”, relata o ex-vereador Herminio Guterres, que integrava o grupo e passou, então, a comandar a sigla. A base, porém, só veio a inchar em 2002, fruto de uma disputa local pela presidência tucana. Guterres, que venceu novamente, conta a estratégia de seu grupo. “Fizemos reunião no clube, convidamos o pessoal. Vinham famílias inteiras. Fizemos tipo uma convenção, colocamos frase de impacto, cartazes, e depois teve um forró, um churrasquinho, e o pessoal foi aderindo.”
Em Santa Isabel (GO), a terceira no ranking, a lista de filiados teve por base a de eleitores. Quem conta é uma das fundadoras, a professora Selma Maria da Silva. De acordo com ela, em 1995 uma pessoa remeteu a lista de todo o eleitorado santa-isabelense ao Tribunal Regional Eleitoral de Goiás, como se todos fossem filiados ao PSDB. “Ele chegou aqui com um edital do diretório estadual afirmando que havia sido nomeado presidente de uma comissão provisória. Fez outro livro de ata, pegou o que eu tinha feito e sumiu. Tirou cópia do rol de eleitores e encaminhou ao TRE, falando que era de filiados. Excluiu apenas presidentes e vereadores de outros partidos. Quando fui ver, o partido tinha mais de 2 mil filiados, quase o mesmo número de eleitores na época.” O responsável pelo ato, segundo ela, foi Manoel da Silva, cuja família possui propriedades na cidade. Não se sabe, porém, seus interesses. O Valor contatou o diretório estadual goiano, que afirmou desconhecê-lo, mesma informação fornecida pelo gabinete do deputado Rubens Otoni (PT-GO), para quem Manoel teria trabalhado nas eleições municipais de 2004 em Anápolis (GO).
Casos de corrupção também fazem parte das cidades mais tucanas do país. Localizada em histórica zona mineradora do Estado, a pequena Fortaleza de Minas assistiu à prisão do seu último prefeito, do PTB, junto com o ex-vice e o ex-contador da prefeitura, ambos tucanos. Segundo Rodrigo Colombinio, promotor de Jacuí (MG) responsável pelo caso, eles são suspeitos de montar um esquema de desvio de recursos por meio de fraudes em licitações, que teria causado um rombo de mais de R$ 8 milhões aos cofres municipais. Na única cidade nordestina da lista, Vila Nova do Piauí, a história de utilização do partido para consolidar um poder local se repete. O prefeito eleito da cidade em 1996, ex-PPB, mas um dos fundadores do PSDB no município, apoiou nas eleições de 1998 um candidato a deputado estadual da coligação de seu ex-partido, que fazia oposição a ele no âmbito municipal. “Ele não votou no partido, não apoiou nosso candidato, e ainda filiou a família inteira ao PSDB para manter o controle sobre o diretório”, relata a professora Núbia Josefa da Rocha, presidente municipal do PSDB. Revoltados, os tucanos da cidade começaram a construir a candidatura de um vereador do partido para sucedê-lo nas eleições de 2000. Na convenção municipal de 1999, ambos concorreram para a presidência do partido e aí os dois lados promoveram guerra de filiações. O vereador venceu, razão por que se desfiliou por definitivo da sigla e rumou a outro partido, desta vez o PPS.
As histórias dessas cidades não são por completo vinculadas à luta obsessiva pelo poder e à superação de obstáculos para alcançá-lo. Em Potim (SP), por exemplo, nona no ranking, o PSDB nasceu pela influência do então deputado federal e estrela crescente do partido Geraldo Alckmin. Localizada próxima a Pindamonhangaba (SP), berço político Paraíba paulista, reduto alckmista no Estado. “O município era distrito de Guaratinguetá (SP) e, quando foi emancipado, em 1992, eu conhecia o Geraldo, era amigo dele, e ele nos nos incentivou. A gente sempre se espelhou muito nele”, diz o presidente municipal do partido o professor de história Luiz Antonio de Moura.
Longe dali, em Abdon Batista (SC), oitava do ranking, Alckmin é venerado, mas nem tanto por seu trabalho, que é pouco divulgado, mas mais pelo temor de que o antitabagista prefeito de São Paulo, José Serra, vença o governador na disputa interna pela candidatura à Presidência em 2006. “Aqui só se fala no Alckmin presidente, pois o Serra é contra o tabaco. Ele diz que o fumo mata, mas a cachaça mata muito mais”, afirma o presidente do PSDB local, João Francisco, fumante há 50 anos. A bronca tem explicação. Santa Catarina tem 200 mil produtores rurais, dos quais 47 mil produzem fumo basicamente em pequenas propriedades, tendo nesta atividade uma das principais fontes de renda.
Brasília (não é) para principiantes
Caio
Tarde de sol forte, 11h40. Chego ao aeroporto Juscelino Kubischek com algumas missões profissionais. A primeira dela é tentar convencer as duas mulheres da Unidas de que posso sim retirar o carro que o jornal alugou para mim, ainda que não tenha em mãos minha carteira de motorista, que já renovou em Bebedouro, mas não foi retirada, dado o fato de eu não mais aí morar. Tento usar, sem êxito, o documento que a despachante me deu. Preciso, então, ligar para uma amiga, esperar dar o seu horário de almoço, pagar um táxi para ela até o aeroporto e pronto. Tenho um Celta prata 2002 1.0 para rodar rumo ao norte de Goiás, onde o jornal me enviou para produzir uma matéria sobre as cidades mais tucanas do país. Antes disso, minha amiga me leva para um breve passeio pelo plano piloto. Ela dirigindo, claro.
A cidade, de fato, é muito bonita. Tudo planejado, tudo setorizado, tudo compartilhado. A Esplanada dos Ministérios é sensacional. Ampla, arborizada. Os palácios e seus traços, acompanhados dos espelhos d´água embelezam ainda mais. À exceção da catedral, que é cafona demais. Há o setor hoteleiro, onde (dã) se concentram os hotéis. Há o setor de mansões, setor dos tribunais, grandes vias que se entrecruzam, eixão, super quadras, postos de gasolina a cada n metros, tudo muito organizado. Organizado até demais. Mas para eles, não para nós, neófitos do Distrito Federal.
Esse limiar entre o belo e o não-belo é rapidamente quebrado com minha transformação de passageiro em motorista. No volante, e sozinho, a cidade é o terror. Após deixar minha amiga em seu trabalho, parto rumo à BR-040. Mas a sensação é de que parto mesmo para o desespero, a raiva, o incômodo da dificuldade de se transitar por aqui. “Como pego o Eixão Norte?”. “Contorna o prédio dos Correios, pega a primeira avenida, vira á esquerda, abaixa e passa pelas tesourinhas (ã?) e segue à direita”. Tento fazer tudo isso, mas não dá em nada. Parto para a segunda tentativa. “Como pego o Eixão Norte?”. “Retorna pelo eixo central (ã?), pega o primeirão balão, mas não entra nele (como?), faz uma curva quase reta (que?), volta, e vira à direita”. Novamente tento fazer tudo isso, mas novamente, nada. Pergunto então a um taxista. “Como pego o Eixão Norte?” “Volta por ali, pega a segunda a direita, vai reto, e antes do viaduto virá a direita ejá ta nele”. Faço isso. Mas antes, no semáforo, confirmo com um casal. Ia fazer o caminho errado (há duas saídas à direita no viaduto), mas ok, desta vez acerto.
A primeira impressão que ficou das explicações é que é facílimo andar aqui, mas para quem sabe. Como em qualquer lugar, diriam, mas aqui é em excesso. As explicações são dadas sempre precedidas de um “é fácil” ou “tá tranqüilo” que me irritam, dado que não me julgo tão estúpido a ponto de não conseguir me locomover com certa independência em qualquer local. Poxa, vivo em São Paulo, já rodei até na Polônia sozinho, e não consigo rodar na capital do país?
Pois bem, sigo a viagem. Percorro 250 km até Simolândia (GO), onde durmo em um hotel de beira de estrada, depois, claro, de duas paradas na rodovia para tomar água de côco, que é vendida a R$ 1. Às 7h do dia seguinte, levanto e rasgo ainda mais o cerrado até Sítio D`Abadia (GO), meu destino final, próximo à divisa entre Goiás, Bahia e Minas Gerais. Passo o dia na cidadela apurando, vou até Alvorada do Norte (GO), analiso autos de processo de cassação de registro de candidatura, bato papo com a juíza, com a promotora e pronto. Sigo de volta para Brasília, onde, três horas depois minha saga (e meu terror) recomeçam. Cansado e melado de suor, preciso urgentemente de um hotel. Preciso de água, banho, sabonete, jantar, assistir ao Jornal nacional e cama. Mas quem disse que é fácil conseguir tudo isso numa quarta-feira à noite em Brasília.
Primeiro, a dificuldade é chegar ao já malfadado setor hoteleiro. Após três perguntadas, chego lá. Agora a missão é outra: achar vaga em hotel. Tudo bem que procurar isso às 19h no meio da semana não é tão aconselhável, mas cazzo, até em Simolândia eu achei um hotel fácil, não é possível não encontrar isso aqui. O diabo é que como os hotéis estão concentrados, você estaciona o carro no estacionamento comum e sai em busca de quarto. Queria um três estrelas. Na real, até um dois estrelas servia, desde que com ar-condicionado, uma vez que o calor aqui é alto e a umidade baixa, o que dá aquela sensação de sufoco constante. Hotel Gran Bittar, tem ar mas não tem vaga. Hotel El Pilar, não tem ar nem vaga. Hotel Mirage, com ar, mas o casal que pegou o que seria meu quarto preenchia a ficha no balcão. Hotel Bittar, muito caro. Desisto dessa quadra, sigo para o setor hoteleiro sul (sim, há um setor hoteleiro norte e um sul, mas não há um leste e um oeste, o que poderia até aumentar a oferta e diminuir a minha procura). No setor sul, após duas tentativas, acho um hotel antigão, com decoração retrô, um ar-condicionado barulhento e funcionários com ar blasé. Desmaio.
No dia seguinte, outra missão. Durmo bastante, acordo tarde e vou ao Congresso. Tenho uma entrevista agendada às 15h, mas chego antes para conhecer a Câmara e o Senado. De terno, a andança começa. “Onde fica o comitê de imprensa?”. “Siga no saguão, sobe a escada, vai até o fim, faz um L (ã?) que é lá.” Só que não é lá. Ou eu errei mesmo. Afinal, o que é “fazer um L”? Uma boa pernada depois e chego no comitê. Pego minha credencial e parto para um breve turismo. Mas o Congresso parece um labirinto, com corredores, escadas, elevadores, salas, gabinetes, restaurantes, plenárias. E ninguém aqui te dá um mapa (tudo bem, mapa não, seria meio ridículo eu com um mapa da Câmara, na Câmara, na frente dos outros colegas jornalistas). Após longas caminhadas, vou para o Senado para minha entrevista. Só que preciso de outra credencial. “Onde fica o comitê de imprensa (do Senado)?”. 22o andar. Ufa, desta vez foi mais fácil. Mais fácil? Entrevista cancelada. “O quê?”. “Hoje o dia está corrido, Palocci pode cair, tem depoimento na CPI dos Bingos e o avião do senador é às 16h”, diz o assessor. Ok. Mas não quero perder o dia. Ligo para a sucursal, explico o ocorrido e me ponho à disposição para ajudar em eventuais pautas do dia. Eis que ganho duas, acompanhadas de uma boa dose de desespero (meu, evidentemente). Era o que faltava um début em Brasília com uma atuação queima-filme com a chefia daqui. No decorrer do dia, as coisas acabaram andando bem. Uma pauta caiu (sobre lei de microcrédito) e a outra deu trabalho, mas foi ok (sobre retirada de assinaturas do requerimento que prorroga a CPI dos Correios).
Tudo terminado, pego o telefone da TAM para antecipar meu retorno a São Paulo de sábado para sexta. Aqui, fica a certeza de que nessa cidade ou se vive ou não se visita. Não é para principiantes.
Tarde de sol forte, 11h40. Chego ao aeroporto Juscelino Kubischek com algumas missões profissionais. A primeira dela é tentar convencer as duas mulheres da Unidas de que posso sim retirar o carro que o jornal alugou para mim, ainda que não tenha em mãos minha carteira de motorista, que já renovou em Bebedouro, mas não foi retirada, dado o fato de eu não mais aí morar. Tento usar, sem êxito, o documento que a despachante me deu. Preciso, então, ligar para uma amiga, esperar dar o seu horário de almoço, pagar um táxi para ela até o aeroporto e pronto. Tenho um Celta prata 2002 1.0 para rodar rumo ao norte de Goiás, onde o jornal me enviou para produzir uma matéria sobre as cidades mais tucanas do país. Antes disso, minha amiga me leva para um breve passeio pelo plano piloto. Ela dirigindo, claro.
A cidade, de fato, é muito bonita. Tudo planejado, tudo setorizado, tudo compartilhado. A Esplanada dos Ministérios é sensacional. Ampla, arborizada. Os palácios e seus traços, acompanhados dos espelhos d´água embelezam ainda mais. À exceção da catedral, que é cafona demais. Há o setor hoteleiro, onde (dã) se concentram os hotéis. Há o setor de mansões, setor dos tribunais, grandes vias que se entrecruzam, eixão, super quadras, postos de gasolina a cada n metros, tudo muito organizado. Organizado até demais. Mas para eles, não para nós, neófitos do Distrito Federal.
Esse limiar entre o belo e o não-belo é rapidamente quebrado com minha transformação de passageiro em motorista. No volante, e sozinho, a cidade é o terror. Após deixar minha amiga em seu trabalho, parto rumo à BR-040. Mas a sensação é de que parto mesmo para o desespero, a raiva, o incômodo da dificuldade de se transitar por aqui. “Como pego o Eixão Norte?”. “Contorna o prédio dos Correios, pega a primeira avenida, vira á esquerda, abaixa e passa pelas tesourinhas (ã?) e segue à direita”. Tento fazer tudo isso, mas não dá em nada. Parto para a segunda tentativa. “Como pego o Eixão Norte?”. “Retorna pelo eixo central (ã?), pega o primeirão balão, mas não entra nele (como?), faz uma curva quase reta (que?), volta, e vira à direita”. Novamente tento fazer tudo isso, mas novamente, nada. Pergunto então a um taxista. “Como pego o Eixão Norte?” “Volta por ali, pega a segunda a direita, vai reto, e antes do viaduto virá a direita ejá ta nele”. Faço isso. Mas antes, no semáforo, confirmo com um casal. Ia fazer o caminho errado (há duas saídas à direita no viaduto), mas ok, desta vez acerto.
A primeira impressão que ficou das explicações é que é facílimo andar aqui, mas para quem sabe. Como em qualquer lugar, diriam, mas aqui é em excesso. As explicações são dadas sempre precedidas de um “é fácil” ou “tá tranqüilo” que me irritam, dado que não me julgo tão estúpido a ponto de não conseguir me locomover com certa independência em qualquer local. Poxa, vivo em São Paulo, já rodei até na Polônia sozinho, e não consigo rodar na capital do país?
Pois bem, sigo a viagem. Percorro 250 km até Simolândia (GO), onde durmo em um hotel de beira de estrada, depois, claro, de duas paradas na rodovia para tomar água de côco, que é vendida a R$ 1. Às 7h do dia seguinte, levanto e rasgo ainda mais o cerrado até Sítio D`Abadia (GO), meu destino final, próximo à divisa entre Goiás, Bahia e Minas Gerais. Passo o dia na cidadela apurando, vou até Alvorada do Norte (GO), analiso autos de processo de cassação de registro de candidatura, bato papo com a juíza, com a promotora e pronto. Sigo de volta para Brasília, onde, três horas depois minha saga (e meu terror) recomeçam. Cansado e melado de suor, preciso urgentemente de um hotel. Preciso de água, banho, sabonete, jantar, assistir ao Jornal nacional e cama. Mas quem disse que é fácil conseguir tudo isso numa quarta-feira à noite em Brasília.
Primeiro, a dificuldade é chegar ao já malfadado setor hoteleiro. Após três perguntadas, chego lá. Agora a missão é outra: achar vaga em hotel. Tudo bem que procurar isso às 19h no meio da semana não é tão aconselhável, mas cazzo, até em Simolândia eu achei um hotel fácil, não é possível não encontrar isso aqui. O diabo é que como os hotéis estão concentrados, você estaciona o carro no estacionamento comum e sai em busca de quarto. Queria um três estrelas. Na real, até um dois estrelas servia, desde que com ar-condicionado, uma vez que o calor aqui é alto e a umidade baixa, o que dá aquela sensação de sufoco constante. Hotel Gran Bittar, tem ar mas não tem vaga. Hotel El Pilar, não tem ar nem vaga. Hotel Mirage, com ar, mas o casal que pegou o que seria meu quarto preenchia a ficha no balcão. Hotel Bittar, muito caro. Desisto dessa quadra, sigo para o setor hoteleiro sul (sim, há um setor hoteleiro norte e um sul, mas não há um leste e um oeste, o que poderia até aumentar a oferta e diminuir a minha procura). No setor sul, após duas tentativas, acho um hotel antigão, com decoração retrô, um ar-condicionado barulhento e funcionários com ar blasé. Desmaio.
No dia seguinte, outra missão. Durmo bastante, acordo tarde e vou ao Congresso. Tenho uma entrevista agendada às 15h, mas chego antes para conhecer a Câmara e o Senado. De terno, a andança começa. “Onde fica o comitê de imprensa?”. “Siga no saguão, sobe a escada, vai até o fim, faz um L (ã?) que é lá.” Só que não é lá. Ou eu errei mesmo. Afinal, o que é “fazer um L”? Uma boa pernada depois e chego no comitê. Pego minha credencial e parto para um breve turismo. Mas o Congresso parece um labirinto, com corredores, escadas, elevadores, salas, gabinetes, restaurantes, plenárias. E ninguém aqui te dá um mapa (tudo bem, mapa não, seria meio ridículo eu com um mapa da Câmara, na Câmara, na frente dos outros colegas jornalistas). Após longas caminhadas, vou para o Senado para minha entrevista. Só que preciso de outra credencial. “Onde fica o comitê de imprensa (do Senado)?”. 22o andar. Ufa, desta vez foi mais fácil. Mais fácil? Entrevista cancelada. “O quê?”. “Hoje o dia está corrido, Palocci pode cair, tem depoimento na CPI dos Bingos e o avião do senador é às 16h”, diz o assessor. Ok. Mas não quero perder o dia. Ligo para a sucursal, explico o ocorrido e me ponho à disposição para ajudar em eventuais pautas do dia. Eis que ganho duas, acompanhadas de uma boa dose de desespero (meu, evidentemente). Era o que faltava um début em Brasília com uma atuação queima-filme com a chefia daqui. No decorrer do dia, as coisas acabaram andando bem. Uma pauta caiu (sobre lei de microcrédito) e a outra deu trabalho, mas foi ok (sobre retirada de assinaturas do requerimento que prorroga a CPI dos Correios).
Tudo terminado, pego o telefone da TAM para antecipar meu retorno a São Paulo de sábado para sexta. Aqui, fica a certeza de que nessa cidade ou se vive ou não se visita. Não é para principiantes.
4.11.05
Consultas populares e seus desafios
Caio
Com a vitória do ‘não’ no referendo do último domingo, somam-se três os resultados em que o eleitorado nacional, convocado a deliberar diretamente sobre temas nacionais, decidiu pela manutenção do status quo. No primeiro deles, em 1963, a população rejeitou o parlamentarismo, regime instaurado dois anos antes. Trinta anos depois, novo plebiscito e a opção pela manutenção da república presidencialista como, respectivamente, forma e sistema de governo. No domingo, a maioria dos brasileiros novamente preferiu não mudar as regras vigentes e permitiu a continuação do comércio de armas no país. Embora não se possa dizer que a população tenha um caráter conservador, visto que nas ocasiões em que consultada, nada alterou, esse fato está longe de ser algo depreciador ou restritivo do instrumento das consultas populares, em especial ao se considerar que, nas três vezes, o fator conjuntura sócio-política foi determinante nos resultados.
Explica-se. Nos anos 60, o parlamentarismo foi visto pela população como um artifício golpista para diminuir os poderes do então presidente de esquerda João Goulart. Em 1993, a facilidade da queda no ano anterior de Fernando Collor de Mello derrubou o principal argumento dos parlamentaristas de que no presidencialismo não se derruba presidente. E, neste ano, a falta de uma eficiente política de segurança pública em todas as esferas de governo aliado ao atrelamento do voto “sim“ ao governo federal, imerso em denúncias de corrupção, também colaboraram para manter a linha anti-reformista do eleitorado.
Como é patente que qualquer ida de cidadãos às urnas, para votar ou para “opinar”, é naturalmente contaminada pela conjuntura, o que se concluiu é que a não-alteração das regras vigentes pela terceira vez no país não significa que nas próximas vezes o comportamento será o mesmo, tampouco que o instituto (plebiscito ou referendo) será banido. Muito ao contrário. Em se considerando a quantidade de projetos sobre consultas populares tramitando no Congresso, os brasileiros podem se preparar para mais consultas em assuntos diversos: aborto, financiamento público de campanha, voto em listas partidárias, criação de Estados, unicidade ou pluralidade sindical, redução da maioridade penal e transposição das águas do rio São Francisco (essa, específica para os estados afetados). Há temas específicos como a escolha do valor do limite máximo dos benefícios concedidos pela Previdência entre R$ 2,4 mil, R$ 3,6 mil e R$ 4,8 mil, ou sobre a forma como devem ocorrer os processos licitatórios da Agência Nacional de Petróleo.
O número de propostas e o seu caráter genérico revelam o sentimento no Congresso de que a democracia participativa ganha força no país, em um movimento que segue o de outros países, em especial da América Latina. A partir da redemocratização na região, os vizinhos Chile, Bolívia, Argentina, Uruguai e Venezuela recorreram à população para discorrer sobre temas importantes como privatização de estatais e permanência de seus chefes de Estado. No Brasil, atualmente, apenas o Congresso pode convocar a população para plebiscitos e referendos, mas há projetos que pretendem flexibilizar essa regra. É o caso da proposta de emenda constitucional do deputado Babá (PSOL-PA), que dá à população a possibilidade de auto-convocação mediante a assinatura de 1% do eleitorado nacional. Outra idéia, também defendida pelo PSOL, é a do plebiscito revogatório de mandatos, pelo qual a população opta em manter ou retirar do cargo o governante.
Este arsenal de projetos de consultas e sobre consultas endossa a idéia de que, mesmo com a vitória do “não” que, mais uma vez, manteve uma norma, as consultas populares tendem a aumentar no país. Um paralelo pode ser feito com a derrota da Constituição Européia no referendo realizado em maio deste ano na França. Da mesma maneira como aqui, houve uma força inicial do “sim”, mas o desgaste do governo Chirac impulsionou o “não”, que recebeu 55%. Nem por isso o instituto da democracia direta está sendo posto em questão na Europa.
No entanto, há resistências às consultas populares que podem frear esse processo de amadurecimento. Sabe-se que propostas que envolvem maior representação e participação popular nas decisões do país são, ainda que de forma velada, rejeitadas por boa parte dos parlamentares, que ficam omissos ao tema, faltam em reuniões das comissões relacionadas ao tema, de forma a evitar que o quórum necessário seja constituído. Um exemplo desse tipo de atitude ocorre na Comissão Permanente de Legislação Participativa. O órgão, criado em 2001 para avaliar e encaminhar outro item da democracia participativa, os projetos de lei de iniciativa popular, sofre desde o início com o descaso da maioria dos deputados e partidos. Como é “feio” ser antidemocrata, a oposição, como acima dito, é camuflada e manifestada, por exemplo, na distribuição das quotas partidárias para as comissões permanentes da Casa. Os deputados nunca querem participar do órgão, encarando a missão como um castigo.
Ressalte-se que as resistências à democracia participativa também vêm daqueles que são, em tese, os maiores beneficiados desses instrumentos: os eleitores. Vários depoimentos de populares pôde ser vistos na mídia acusando o Congresso de jogar para a população uma responsabilidade que “não lhes cabia”. Isso resulta, sem dúvida, não do instrumento da consulta popular em si, mas da falta de amadurecimento político da média da população brasileira e também da forma despropositada com que o primeiro referendo do país foi jogado ao país, com conflito de dados, discussão rápida e sem que, nem os “esclarecidos” soubessem ao certo o que resultaria de uma ou outra opção. Tudo ao final ficou restrito a um jogo de interesses e sem qualquer menção às causas de fundo da violência, como a falta de uma educação pública decente, a marginalização, o preconceito, desemprego e a injustiça social.
Além da imaturidade política da maioria dos eleitores e da falta de vontade do aprofundamento do debate e do cerne dos problemas, outros fatores colocam em xeque a eficiência das consultas, como a delegação da decisão de temas importantes a uma maioria momentânea que pode ter uma opinião cambiante sobre determinado assunto. Também preocupante é a atuação de poderosos grupos econômicos no direcionamento dos resultados, fato muito visto nos Estados Unidos, em que a força do capital é altíssima e determinante nas consultas populares. Caso da Califórnia, Estado que usa com freqüência essas consultas. No próximo dia 8, seus cidadãos vão às urnas para decidir sobre diversos temas, dentre os quais a liberação de alguns medicamentos. Não precisa muito esforço para imaginar o lobby que a indústria do setor montou em prol da aprovação do que lhe interessa. Há ainda o personalismo de alguns governantes que, sob uma aparência democrata, mobilizam massas por meio de consultas para perpetuar o que bem quiserem, em uma forma de autoritarismo democrático.
Há, evidentemente, um mito de que quanto mais o povo for às urnas mais forte será a democracia. Isso, porém, deve ser visto com ressalvas. Uma democracia forte é feita com as salvaguardas necessárias que impeçam que outras forças que não os cidadãos se façam presente, como o dinheiro, a ignorância ou o ego. Saber balancear as situações de forma a preservar a vontade da maioria sem prejudicar a minoria dissonante é a virtude de um país democrático. Estamos longe disso, mas o amadurecimento só virá quanto maior e mais freqüentes forem os debates.
Com a vitória do ‘não’ no referendo do último domingo, somam-se três os resultados em que o eleitorado nacional, convocado a deliberar diretamente sobre temas nacionais, decidiu pela manutenção do status quo. No primeiro deles, em 1963, a população rejeitou o parlamentarismo, regime instaurado dois anos antes. Trinta anos depois, novo plebiscito e a opção pela manutenção da república presidencialista como, respectivamente, forma e sistema de governo. No domingo, a maioria dos brasileiros novamente preferiu não mudar as regras vigentes e permitiu a continuação do comércio de armas no país. Embora não se possa dizer que a população tenha um caráter conservador, visto que nas ocasiões em que consultada, nada alterou, esse fato está longe de ser algo depreciador ou restritivo do instrumento das consultas populares, em especial ao se considerar que, nas três vezes, o fator conjuntura sócio-política foi determinante nos resultados.
Explica-se. Nos anos 60, o parlamentarismo foi visto pela população como um artifício golpista para diminuir os poderes do então presidente de esquerda João Goulart. Em 1993, a facilidade da queda no ano anterior de Fernando Collor de Mello derrubou o principal argumento dos parlamentaristas de que no presidencialismo não se derruba presidente. E, neste ano, a falta de uma eficiente política de segurança pública em todas as esferas de governo aliado ao atrelamento do voto “sim“ ao governo federal, imerso em denúncias de corrupção, também colaboraram para manter a linha anti-reformista do eleitorado.
Como é patente que qualquer ida de cidadãos às urnas, para votar ou para “opinar”, é naturalmente contaminada pela conjuntura, o que se concluiu é que a não-alteração das regras vigentes pela terceira vez no país não significa que nas próximas vezes o comportamento será o mesmo, tampouco que o instituto (plebiscito ou referendo) será banido. Muito ao contrário. Em se considerando a quantidade de projetos sobre consultas populares tramitando no Congresso, os brasileiros podem se preparar para mais consultas em assuntos diversos: aborto, financiamento público de campanha, voto em listas partidárias, criação de Estados, unicidade ou pluralidade sindical, redução da maioridade penal e transposição das águas do rio São Francisco (essa, específica para os estados afetados). Há temas específicos como a escolha do valor do limite máximo dos benefícios concedidos pela Previdência entre R$ 2,4 mil, R$ 3,6 mil e R$ 4,8 mil, ou sobre a forma como devem ocorrer os processos licitatórios da Agência Nacional de Petróleo.
O número de propostas e o seu caráter genérico revelam o sentimento no Congresso de que a democracia participativa ganha força no país, em um movimento que segue o de outros países, em especial da América Latina. A partir da redemocratização na região, os vizinhos Chile, Bolívia, Argentina, Uruguai e Venezuela recorreram à população para discorrer sobre temas importantes como privatização de estatais e permanência de seus chefes de Estado. No Brasil, atualmente, apenas o Congresso pode convocar a população para plebiscitos e referendos, mas há projetos que pretendem flexibilizar essa regra. É o caso da proposta de emenda constitucional do deputado Babá (PSOL-PA), que dá à população a possibilidade de auto-convocação mediante a assinatura de 1% do eleitorado nacional. Outra idéia, também defendida pelo PSOL, é a do plebiscito revogatório de mandatos, pelo qual a população opta em manter ou retirar do cargo o governante.
Este arsenal de projetos de consultas e sobre consultas endossa a idéia de que, mesmo com a vitória do “não” que, mais uma vez, manteve uma norma, as consultas populares tendem a aumentar no país. Um paralelo pode ser feito com a derrota da Constituição Européia no referendo realizado em maio deste ano na França. Da mesma maneira como aqui, houve uma força inicial do “sim”, mas o desgaste do governo Chirac impulsionou o “não”, que recebeu 55%. Nem por isso o instituto da democracia direta está sendo posto em questão na Europa.
No entanto, há resistências às consultas populares que podem frear esse processo de amadurecimento. Sabe-se que propostas que envolvem maior representação e participação popular nas decisões do país são, ainda que de forma velada, rejeitadas por boa parte dos parlamentares, que ficam omissos ao tema, faltam em reuniões das comissões relacionadas ao tema, de forma a evitar que o quórum necessário seja constituído. Um exemplo desse tipo de atitude ocorre na Comissão Permanente de Legislação Participativa. O órgão, criado em 2001 para avaliar e encaminhar outro item da democracia participativa, os projetos de lei de iniciativa popular, sofre desde o início com o descaso da maioria dos deputados e partidos. Como é “feio” ser antidemocrata, a oposição, como acima dito, é camuflada e manifestada, por exemplo, na distribuição das quotas partidárias para as comissões permanentes da Casa. Os deputados nunca querem participar do órgão, encarando a missão como um castigo.
Ressalte-se que as resistências à democracia participativa também vêm daqueles que são, em tese, os maiores beneficiados desses instrumentos: os eleitores. Vários depoimentos de populares pôde ser vistos na mídia acusando o Congresso de jogar para a população uma responsabilidade que “não lhes cabia”. Isso resulta, sem dúvida, não do instrumento da consulta popular em si, mas da falta de amadurecimento político da média da população brasileira e também da forma despropositada com que o primeiro referendo do país foi jogado ao país, com conflito de dados, discussão rápida e sem que, nem os “esclarecidos” soubessem ao certo o que resultaria de uma ou outra opção. Tudo ao final ficou restrito a um jogo de interesses e sem qualquer menção às causas de fundo da violência, como a falta de uma educação pública decente, a marginalização, o preconceito, desemprego e a injustiça social.
Além da imaturidade política da maioria dos eleitores e da falta de vontade do aprofundamento do debate e do cerne dos problemas, outros fatores colocam em xeque a eficiência das consultas, como a delegação da decisão de temas importantes a uma maioria momentânea que pode ter uma opinião cambiante sobre determinado assunto. Também preocupante é a atuação de poderosos grupos econômicos no direcionamento dos resultados, fato muito visto nos Estados Unidos, em que a força do capital é altíssima e determinante nas consultas populares. Caso da Califórnia, Estado que usa com freqüência essas consultas. No próximo dia 8, seus cidadãos vão às urnas para decidir sobre diversos temas, dentre os quais a liberação de alguns medicamentos. Não precisa muito esforço para imaginar o lobby que a indústria do setor montou em prol da aprovação do que lhe interessa. Há ainda o personalismo de alguns governantes que, sob uma aparência democrata, mobilizam massas por meio de consultas para perpetuar o que bem quiserem, em uma forma de autoritarismo democrático.
Há, evidentemente, um mito de que quanto mais o povo for às urnas mais forte será a democracia. Isso, porém, deve ser visto com ressalvas. Uma democracia forte é feita com as salvaguardas necessárias que impeçam que outras forças que não os cidadãos se façam presente, como o dinheiro, a ignorância ou o ego. Saber balancear as situações de forma a preservar a vontade da maioria sem prejudicar a minoria dissonante é a virtude de um país democrático. Estamos longe disso, mas o amadurecimento só virá quanto maior e mais freqüentes forem os debates.
Nossos políticos adolescentes
Caio
Pareciam cenas de recreio de colégio, com os valentões, os grosseiros e os sem educação. Começou com o líder tucano no Senado, Arthur Virgílio (PSDB-AM), sempre armado para a guerra e para o afronte, agora macho até as unhas para bater no presidente da República por uma suposta espionagem do governo federal em cima de seus filhos. Depois foi a vez do projeto de avô, ACM Neto, também ameaçar bater no presidente por também estar sendo, supostamente, espionado. No vácuo dos dois, a senadora Heloisa Helena, nobre representante da esquerda, mas que de tão esquerda por vezes se confunde com a direita, na mostra de que um lado e outro muitas vezes podem estar juntos quando extremados no trato de seus interesses próprios (lembre-se aqui que a Itália de Mussolini, de “direita”, era tão absolutista quanto a União Soviética de Stálin, dita de “esquerda”).
Aos bravos parlamentares somou-se o acanhado e escapista Lula, que chamoujornalistas de sem educação por terem berrado perguntas a ele dentro do Planalto, em uma clara manifestação de desapreço pela prestação pública de contas à população. Fato esse que Lula, ou melhor, sua assessoria, mudará daqui para a frente, a começar pela próxima segunda-feira, com a participação no programa Roda Viva. Mas se engana quem pensa que o presidente se arrependeu por sempre ter evitado falar à imprensa nos três anos de governo. Sua ida ao programa pode ser considerada o começo da campanha para 2006, já que é difícil imaginar candidato que evite a imprensa, ainda mais quando se trata de reeleição, em que a prestação de contas de governo é o cerne do discurso dele, e da oposição.
Voltando, porém, aos colegiais, o que se nota no comportamento político brasileiro é algo quase que adolescente, de gente que mente, enfrenta, foge, xinga, bate, arrepende-se e se prostitui (com ou sem dinheiro) com a mesma facilidade que pensam não fazer nada disso ou que pensam perceber que ninguém nota a infantilidade dos seus atos. E que muitas vezes o efeito de toda a bravata agressiva pode ser contrário, já que ninguém gosta de ver marmanjos de ternos com mandatos eletivos envoltos a um jogo de ameaças físicas e verbais. Na mesma linha, perde Lula ao faltar com educação com jornalistas que ali estão a trabalho e que podem usar de seus veículos para um contra-ataque desfavorável, como fez o Jornal Nacional na data do ocorrido, ao atacar a atitude do presidente para uma audiência de 50 milhões de brasileiros.
Misturar política com adolescência é uma péssima opção, ainda mais em um país com baixa oferta de gente decente e alta demanda de cargos políticos, o que acaba por criar um déficit de pessoas capacitadas para exercer cargos no Legislativo e no Executivo.
Talvez a agressividade do senador Arthur Virgílio tenha sido inspirada na delicadeza do ato de seu filho, que há cerca de um ano foi preso por atentado ao pudor e desacato a autoridade por abaixar as calças e urinar em plena praça pública de Manaus. Ressalte-se que o ousado tucaninho é deputado estadual e tinha, à época, 25 anos.
Também é bom lembrar que Lulinha, filho do presidente Lula também deu de malandro ao receber, em janeiro deste ano, um investimento de R$ 5 milhões da Telemar, que tem empresas públicas como acionistas. Em ambos os casos, fica difícil saber se a influência veio de baixo para cima ou de cima para baixo.
O fato é que toda essa confusão politicagem-molecagem não é tão nova. Reflete, em seu viés profissional, um modo de ser dessa espécie “político brasileiro padrão”. Por outro lado, é algo que chega a ser explicado pelo próprio desenvolvimento da sociedade moderna, que passou a produzir um outro tipo de adulto, mais voltado para a satisfação dos seus instintos do que para os seus deveres morais e com a sociedade em que vive. Algo em sentido semelhante ao que diz o sociólogo inglês Frank Furedi aponta em artigo publicado no caderno Mais! da Folha de S. Paulo. No jornal, diz-se estarrecido com a decadência do prestígio da vida adulta entre os jovens na Inglaterra e nos Estados Unidos e menciona que os jovens atuais não mais querem deixar a “segurança” e a “proteção” da casa dos pais ou cultivam nostalgias precoces da infância comendo bolinhos coloridos e colecionando bonequinhos. A tese pode abrigar a maioria dos políticos brasileiros, que parecem querer se furtar de suas reais responsabilidades assumindo comportamentos infantis. São adolescentes ligados a cargos muito maiores do que suas capacidades. Pobre do país com esse cenário.
Vergonha bebedourense
O mês de outubro foi aquele em que a hora trabalhada dos vereadores de Bebedouro rendeu bem. Houve cinco segundas-feiras no mês de outubro, mas como há aquela regrinha safada de que vereador bebedourense não pode trabalhar cinco sessões por mês, o valor da hora trabalhada aumentou no mês passado. Com as quatro sessões realizadas em outubro (e considerando que a sessão dura três horas), os vereadores receberam R$ 250/hora. Se fossem cinco sessões_ que o bom senso e o respeito ao erário pedem, receberiam R$ 200/hora. Só para comparar, segundo o IBGE, o rendimento médio MENSAL nominal do bebedourense é de R$ 656,90. Querer cobrar moralidade de corruptos nacionais, estaduais ou municipais é fácil. Duro é se autocobrar moralidade, ainda mais em pequenas coisas, aquelas que (imaginam) ninguém saberá.
Pareciam cenas de recreio de colégio, com os valentões, os grosseiros e os sem educação. Começou com o líder tucano no Senado, Arthur Virgílio (PSDB-AM), sempre armado para a guerra e para o afronte, agora macho até as unhas para bater no presidente da República por uma suposta espionagem do governo federal em cima de seus filhos. Depois foi a vez do projeto de avô, ACM Neto, também ameaçar bater no presidente por também estar sendo, supostamente, espionado. No vácuo dos dois, a senadora Heloisa Helena, nobre representante da esquerda, mas que de tão esquerda por vezes se confunde com a direita, na mostra de que um lado e outro muitas vezes podem estar juntos quando extremados no trato de seus interesses próprios (lembre-se aqui que a Itália de Mussolini, de “direita”, era tão absolutista quanto a União Soviética de Stálin, dita de “esquerda”).
Aos bravos parlamentares somou-se o acanhado e escapista Lula, que chamoujornalistas de sem educação por terem berrado perguntas a ele dentro do Planalto, em uma clara manifestação de desapreço pela prestação pública de contas à população. Fato esse que Lula, ou melhor, sua assessoria, mudará daqui para a frente, a começar pela próxima segunda-feira, com a participação no programa Roda Viva. Mas se engana quem pensa que o presidente se arrependeu por sempre ter evitado falar à imprensa nos três anos de governo. Sua ida ao programa pode ser considerada o começo da campanha para 2006, já que é difícil imaginar candidato que evite a imprensa, ainda mais quando se trata de reeleição, em que a prestação de contas de governo é o cerne do discurso dele, e da oposição.
Voltando, porém, aos colegiais, o que se nota no comportamento político brasileiro é algo quase que adolescente, de gente que mente, enfrenta, foge, xinga, bate, arrepende-se e se prostitui (com ou sem dinheiro) com a mesma facilidade que pensam não fazer nada disso ou que pensam perceber que ninguém nota a infantilidade dos seus atos. E que muitas vezes o efeito de toda a bravata agressiva pode ser contrário, já que ninguém gosta de ver marmanjos de ternos com mandatos eletivos envoltos a um jogo de ameaças físicas e verbais. Na mesma linha, perde Lula ao faltar com educação com jornalistas que ali estão a trabalho e que podem usar de seus veículos para um contra-ataque desfavorável, como fez o Jornal Nacional na data do ocorrido, ao atacar a atitude do presidente para uma audiência de 50 milhões de brasileiros.
Misturar política com adolescência é uma péssima opção, ainda mais em um país com baixa oferta de gente decente e alta demanda de cargos políticos, o que acaba por criar um déficit de pessoas capacitadas para exercer cargos no Legislativo e no Executivo.
Talvez a agressividade do senador Arthur Virgílio tenha sido inspirada na delicadeza do ato de seu filho, que há cerca de um ano foi preso por atentado ao pudor e desacato a autoridade por abaixar as calças e urinar em plena praça pública de Manaus. Ressalte-se que o ousado tucaninho é deputado estadual e tinha, à época, 25 anos.
Também é bom lembrar que Lulinha, filho do presidente Lula também deu de malandro ao receber, em janeiro deste ano, um investimento de R$ 5 milhões da Telemar, que tem empresas públicas como acionistas. Em ambos os casos, fica difícil saber se a influência veio de baixo para cima ou de cima para baixo.
O fato é que toda essa confusão politicagem-molecagem não é tão nova. Reflete, em seu viés profissional, um modo de ser dessa espécie “político brasileiro padrão”. Por outro lado, é algo que chega a ser explicado pelo próprio desenvolvimento da sociedade moderna, que passou a produzir um outro tipo de adulto, mais voltado para a satisfação dos seus instintos do que para os seus deveres morais e com a sociedade em que vive. Algo em sentido semelhante ao que diz o sociólogo inglês Frank Furedi aponta em artigo publicado no caderno Mais! da Folha de S. Paulo. No jornal, diz-se estarrecido com a decadência do prestígio da vida adulta entre os jovens na Inglaterra e nos Estados Unidos e menciona que os jovens atuais não mais querem deixar a “segurança” e a “proteção” da casa dos pais ou cultivam nostalgias precoces da infância comendo bolinhos coloridos e colecionando bonequinhos. A tese pode abrigar a maioria dos políticos brasileiros, que parecem querer se furtar de suas reais responsabilidades assumindo comportamentos infantis. São adolescentes ligados a cargos muito maiores do que suas capacidades. Pobre do país com esse cenário.
Vergonha bebedourense
O mês de outubro foi aquele em que a hora trabalhada dos vereadores de Bebedouro rendeu bem. Houve cinco segundas-feiras no mês de outubro, mas como há aquela regrinha safada de que vereador bebedourense não pode trabalhar cinco sessões por mês, o valor da hora trabalhada aumentou no mês passado. Com as quatro sessões realizadas em outubro (e considerando que a sessão dura três horas), os vereadores receberam R$ 250/hora. Se fossem cinco sessões_ que o bom senso e o respeito ao erário pedem, receberiam R$ 200/hora. Só para comparar, segundo o IBGE, o rendimento médio MENSAL nominal do bebedourense é de R$ 656,90. Querer cobrar moralidade de corruptos nacionais, estaduais ou municipais é fácil. Duro é se autocobrar moralidade, ainda mais em pequenas coisas, aquelas que (imaginam) ninguém saberá.
20.10.05
A febre aftosa e as alternativas de modelos econômicos
Caio
A descoberta de focos da febre aftosa revela um caso evidente de contraste entre ideologia política-econômica e a vida real. Explico. A classe supostamente letrada do país tem uma ligação maior com setores à direita da classe política. Isso se comprova com a análise de resultados eleitorais de qualquer das últimas eleições. Maior concentração de riqueza, maior votação em grupos políticos vinculados à classe média e alta, como PSDB e PFL. Como exemplo, cito as eleições de 2004 em São Paulo, onde nos bairros mais afastados e pobres, como São Mateus e Guaianases, a candidata petista Marta Suplicy teve mais do que o dobro dos votos do tucano José Serra, ao contrário do glamour falido dos Jardins, onde ocorreu o inverso.
Pois bem, os setores ruralistas em geral são vinculados a partidos, em tese, de direita, com política econômica liberal e monetarista, que privilegia a produção e circulação de capital. Evidente que outro não poderia ser seu engajamento, visto que essas características são inerentes à sua atividade produtiva. Ocorre que a atenta observação dessa forma de condução macroeconômica deveria, às vezes, suscitar não o elogio e o incentivo de certos grupos econômicos _no caso, o ligado à terra_ mas, ao contrário, a revolta. E é aí que chega oa febre aftosa no rebanho bovino do país.
O atual governo segue a cartilha econômica dos anos FHC, que, por sua vez, seguiu o chamado Consenso de Washignton, com, entre outras medidas, política de metas inflacionárias e de superávit primário dentro de um padrão excessivamente liberal que interessa prioritariamente aos detentores de riqueza financeira e aos investidores de curto prazo. Nesse sentido, o ajuste a esse regime de metas leva a um bloqueio na liberação de recursos de modo que elas possam ser cumpridas. No caso da agricultura, e das conseqüências do freio na liberação de recursos, fica patente essa esquematização na análise da liberação de verbas deste ano.
Os primeiros recursos para a defesa sanitária em 2005 saíram no final de fevereiro. Foram R$ 37 milhões. Depois disso, vieram R$ 40 milhões no final de abril. Não como dinheiro em caixa, mas como limite para movimentação e empenho (ou seja, para contratar a despesa planejada). No total, saíram neste ano R$ 91 milhões de R$ 169 milhões previstos para a defesa agropecuária. O resultado está aí: perda de rebanho e de credibilidade com importadores da carne brasileira.
O curioso no episódio é justamente o fato de que o setor ruralista é, em sua maior parte, é, junto com outros grupos, forte apoiador dessa política econômica contigenciadora. Chegam a considerá-la o único setor louvável nesse governo, uma vez que o país apresenta excelentes índices de emprego, controle de inflação e produção de riqueza. É, paradoxalmente, onde se encaixam as suas convicções com os estafantes e repetitivos discursos que Lula faz em defesa da economia. Ledo engano. Visto sob a ótica internacional, a boa fase por que passa a economia é sofrível e não acompanha a ótima fase que vive a conjuntura nacional. Em uma lista de crescimento econômico entre 2003 e 2005 de quinze países periféricos, ocupamos a 13ª posição. Ou seja, apesar do mesmo impulso, o crescimento foi diferente.
O que revolta em todo esse cenário é que fomos vítimas de um estelionato quanto ao programa econômico eleitoral do então candidato Lula em 2002. Se esse governo possui relevante inclusão social em alguns programas, como de transferência de renda e de educação, por outro lado foi covarde em não acatar a tradição do pensamento desenvolvimentista brasileiro de esquerda que foi incorporado em importantes documentos políticos do PT como “Outro Brasil é Possível” e o “Programa de Governo 2002”. Essa covardia até pode ser compreensível do ponto de visto do risco que correria o país frente a uma mudança drástica, haja vista que, bem ou mal, houve alguma coisa de melhora na cartilha tucana dos anos 90, como a estabilidade da economia. Mas a que preço? Vale mais um país estável economicamente, mas que não cresce e se enche de filas de desempregados?
Olhar para o lado, nesses casos, pode ajudar. Na Venezuela, o governo Chávez investe em um modelo de desenvolvimento endógeno, com enfoque para a produção para o consumo local e nacional e o incentivo às vocações de cada região e a organização de cooperativas. Não que esse seja o modelo que o Brasil deveria adotar, já que cada país tem sua realidade. Nosso país vizinho, por exemplo, tem um histórico de dependência crônica do petróleo e precisa ajustar sua realidade econômica à sua demanda. No caso, diversificar sua economia.
Virando o olhar para o Oriente, vê-se outra alternativa econômica adequada à realidade intrínseca do país: a China. Lá, ao contrário da América Latina, que caminhou para uma economia de mercado como resposta a crises econômicas graves, os chineses se moveram ao capital por razões políticas: a Revolução Cultural, entre 1966 e 1976, e o massacre da Praça da Paz Celestial, em 1989, deixaram horror ao esquerdismo por suas características opressoras. Aliados a isso, veio o colapso soviético e a conseqüente insegurança no Partido Comunista Chinês quanto à rigidez burocrática.
Apesar das experiências ao redor do mundo, por aqui a ousadia econômica passa longe. Percebe-se, no comportamento deste governo desde a transição que uma eventual inovação no campo econômico poderia acabar de vez com todo o projeto petista de poder, visto que, se falhasse, seria a legenda eternamente condenada como autora da perda da estabilidade conquistada nos anos 90. Mas, enquanto se mantiverem as amarras ao já reduzido Orçamento brasileiro, não só a febre aftosa, como outras demais conseqüências dessa política, serão parte da vida do brasileiro. Em 2006, o eleitor poderá optar pela libertação ou não desses entraves. Poderá ser a oportunidade para aniquilar os mais de dez anos de estabilidade sem crescimento, e de, por exemplo, focos de doenças no campo em um país predominantemente agrário.
A descoberta de focos da febre aftosa revela um caso evidente de contraste entre ideologia política-econômica e a vida real. Explico. A classe supostamente letrada do país tem uma ligação maior com setores à direita da classe política. Isso se comprova com a análise de resultados eleitorais de qualquer das últimas eleições. Maior concentração de riqueza, maior votação em grupos políticos vinculados à classe média e alta, como PSDB e PFL. Como exemplo, cito as eleições de 2004 em São Paulo, onde nos bairros mais afastados e pobres, como São Mateus e Guaianases, a candidata petista Marta Suplicy teve mais do que o dobro dos votos do tucano José Serra, ao contrário do glamour falido dos Jardins, onde ocorreu o inverso.
Pois bem, os setores ruralistas em geral são vinculados a partidos, em tese, de direita, com política econômica liberal e monetarista, que privilegia a produção e circulação de capital. Evidente que outro não poderia ser seu engajamento, visto que essas características são inerentes à sua atividade produtiva. Ocorre que a atenta observação dessa forma de condução macroeconômica deveria, às vezes, suscitar não o elogio e o incentivo de certos grupos econômicos _no caso, o ligado à terra_ mas, ao contrário, a revolta. E é aí que chega oa febre aftosa no rebanho bovino do país.
O atual governo segue a cartilha econômica dos anos FHC, que, por sua vez, seguiu o chamado Consenso de Washignton, com, entre outras medidas, política de metas inflacionárias e de superávit primário dentro de um padrão excessivamente liberal que interessa prioritariamente aos detentores de riqueza financeira e aos investidores de curto prazo. Nesse sentido, o ajuste a esse regime de metas leva a um bloqueio na liberação de recursos de modo que elas possam ser cumpridas. No caso da agricultura, e das conseqüências do freio na liberação de recursos, fica patente essa esquematização na análise da liberação de verbas deste ano.
Os primeiros recursos para a defesa sanitária em 2005 saíram no final de fevereiro. Foram R$ 37 milhões. Depois disso, vieram R$ 40 milhões no final de abril. Não como dinheiro em caixa, mas como limite para movimentação e empenho (ou seja, para contratar a despesa planejada). No total, saíram neste ano R$ 91 milhões de R$ 169 milhões previstos para a defesa agropecuária. O resultado está aí: perda de rebanho e de credibilidade com importadores da carne brasileira.
O curioso no episódio é justamente o fato de que o setor ruralista é, em sua maior parte, é, junto com outros grupos, forte apoiador dessa política econômica contigenciadora. Chegam a considerá-la o único setor louvável nesse governo, uma vez que o país apresenta excelentes índices de emprego, controle de inflação e produção de riqueza. É, paradoxalmente, onde se encaixam as suas convicções com os estafantes e repetitivos discursos que Lula faz em defesa da economia. Ledo engano. Visto sob a ótica internacional, a boa fase por que passa a economia é sofrível e não acompanha a ótima fase que vive a conjuntura nacional. Em uma lista de crescimento econômico entre 2003 e 2005 de quinze países periféricos, ocupamos a 13ª posição. Ou seja, apesar do mesmo impulso, o crescimento foi diferente.
O que revolta em todo esse cenário é que fomos vítimas de um estelionato quanto ao programa econômico eleitoral do então candidato Lula em 2002. Se esse governo possui relevante inclusão social em alguns programas, como de transferência de renda e de educação, por outro lado foi covarde em não acatar a tradição do pensamento desenvolvimentista brasileiro de esquerda que foi incorporado em importantes documentos políticos do PT como “Outro Brasil é Possível” e o “Programa de Governo 2002”. Essa covardia até pode ser compreensível do ponto de visto do risco que correria o país frente a uma mudança drástica, haja vista que, bem ou mal, houve alguma coisa de melhora na cartilha tucana dos anos 90, como a estabilidade da economia. Mas a que preço? Vale mais um país estável economicamente, mas que não cresce e se enche de filas de desempregados?
Olhar para o lado, nesses casos, pode ajudar. Na Venezuela, o governo Chávez investe em um modelo de desenvolvimento endógeno, com enfoque para a produção para o consumo local e nacional e o incentivo às vocações de cada região e a organização de cooperativas. Não que esse seja o modelo que o Brasil deveria adotar, já que cada país tem sua realidade. Nosso país vizinho, por exemplo, tem um histórico de dependência crônica do petróleo e precisa ajustar sua realidade econômica à sua demanda. No caso, diversificar sua economia.
Virando o olhar para o Oriente, vê-se outra alternativa econômica adequada à realidade intrínseca do país: a China. Lá, ao contrário da América Latina, que caminhou para uma economia de mercado como resposta a crises econômicas graves, os chineses se moveram ao capital por razões políticas: a Revolução Cultural, entre 1966 e 1976, e o massacre da Praça da Paz Celestial, em 1989, deixaram horror ao esquerdismo por suas características opressoras. Aliados a isso, veio o colapso soviético e a conseqüente insegurança no Partido Comunista Chinês quanto à rigidez burocrática.
Apesar das experiências ao redor do mundo, por aqui a ousadia econômica passa longe. Percebe-se, no comportamento deste governo desde a transição que uma eventual inovação no campo econômico poderia acabar de vez com todo o projeto petista de poder, visto que, se falhasse, seria a legenda eternamente condenada como autora da perda da estabilidade conquistada nos anos 90. Mas, enquanto se mantiverem as amarras ao já reduzido Orçamento brasileiro, não só a febre aftosa, como outras demais conseqüências dessa política, serão parte da vida do brasileiro. Em 2006, o eleitor poderá optar pela libertação ou não desses entraves. Poderá ser a oportunidade para aniquilar os mais de dez anos de estabilidade sem crescimento, e de, por exemplo, focos de doenças no campo em um país predominantemente agrário.
14.10.05
As cidades mais petistas do Brasil
(publicada no Valor Econômico)
Caio
Entre esses 4.637 municípios em que o PT está organizado, há um colégio eleitoral excepcionalmente petista: dez cidades espalhadas por sete Estados de todas as regiões do país têm uma média de 9% de filiados petistas em seu eleitorado. A média nacional é de 0,68%. Os números foram obtidos pelo cruzamento da lista de filiados petistas por cidade com a distribuição municipal do eleitorado. Os petistas dessas cidades votaram maciçamente no primeiro turno no candidato do Campo Majoritário, Ricardo Berzoini, salvo dois deles, que preferiram Valter Pomar. A manutenção do grupo que comanda a legenda há dez anos, porém, não embaça a postura crítica dessas localidades sobre os rumos do partido no governo. O PT surgiu nesses lugares em circunstâncias muito distintas das de sua fundação, em 1980, pela efervescência operária-sindical no ABC paulista. Hoje tornaram-se os verdadeiros ‘grotões’ petistas. São municípios pequenos, de no máximo 12 mil eleitores, e economia predominantemente agrária. A única semelhança com o petismo de 25 anos atrás é a intensa presença de movimentos sociais.
Com 12 em cada 100 habitantes filiados ao PT, Pontão (RS), a 300 km de Porto Alegre, no noroeste do Estado, é a cidade brasileira com maior número de petistas do país em relação ao eleitorado. É lá que está localizada a Fazenda Annoni, onde, há 20 anos, foi feita a primeira ocupação do Movimento dos Sem Terra (MST). O antigo latifúndio foi transformado em glebas de terra onde hoje vivem 400 famílias que participam ativamente das atividades petistas. Nas reuniões, decidem desde temas cotidianos, como o melhor atendimento da rede de transporte rural, até quais devem ser os candidatos do PT a vereador e a prefeito. Foi assim que se decidiu pela pré-candidatura do atual prefeito, Delmar Zambiasi, de 38 anos. Filho de empregados rurais que trabalhavam na Annoni, Zambiasi nasceu na fazenda e participou da ocupação. Apesar de não mais morar lá, parte de sua renda -além dos R$ 4 mil que recebe da prefeitura- vem da Annoni, com a plantação de soja e um "camping" construído nos 30 hectares que recebeu no assentamento às margens de uma bela represa. Tem churrasqueiras, piscina de azulejo (um toboágua será colocado para o próximo verão), campos de futebol e vôlei e chalés com diárias a R$ 50. A data da ocupação da Annoni- 29 de outubro - transformou-se em feriado municipal depois que Pontão elegeu, em 1996, o primeiro prefeito sem-terra do país, que foi reeleito em 2000 e passou o cargo em 2004 a Zambiasi. A bandeira do MST tem local privativo no gabinete do prefeito e na Mesa da Câmara, que também é presidida por um sem-terra. Na parte urbana do município, uma pequena avenida se estica por um quilômetro na cidade, com a prefeitura ao meio delimitando a luta de classes que os petistas afirmam haver: à esquerda da prefeitura, ficam as terras dos assentados; à direita, as propriedades das 22 famílias cujas rendas somadas são maiores que a renda do restante da população pontãuense.
A tensão do conflito agrário já foi maior na época das primeiras ocupações, mas sempre reaparecem no período eleitoral. Às vésperas da eleição, os assentamentos ficam em vigília contra os chamados "ranchos", grupo de pessoas supostamente enviados por grandes proprietários rurais para trocarem cestas básicas por votos. Após as últimas vitórias eleitorais, houve atentados: uma escola e um posto de saúde foram incendiados na Annoni em 1996 e 2001, respectivamente. Neste ano, após a terceira vitória consecutiva do partido nas urnas, as ameaças por ora se restringem ao prefeito que, em uma das primeiras realizações de seu governo, desapropriou 10 hectares de uma fazenda colada à parte urbana da cidade. A crise do partido, segundo o prefeito, ainda não chegou à cidade. "As pancadas sobre o Lula não chegaram aqui e talvez nem cheguem", afirma. O otimismo pode ser explicado pelos projetos sociais do governo federal que chegam à cidade, como a distribuição de 180 bolsas-família, 60 cestas básicas e a construção de 400 habitações rurais.
Nas reuniões em que avaliam a conjuntura, os petistas locais apontam as alianças "com a direita" feitas nas eleições de 2002 e o esquecimento "do povo" após assumir o governo como principais causas da crise. "Uma coisa errada neste governo foi não governar com o povo . Perdeu uma grande oportunidade. Agora, não vejo outra saída a não ser fazer como o Hugo Chávez, que o povo segura no governo para ele fazer as mudanças", diz Odacir Valério, vice-presidente eleito do PT. No âmbito nacional, Pontão elegeu Valter Pomar com mais de 90% dos votos. No segundo turno, direcionarão essa ampla votação para Raul Pont. Os petistas de Pontão atribuem a força do partido no local às gestões dos prefeitos assentados, que, de acordo com eles, priorizaram necessidades locais como alargamento e manutenção das estradas rurais, formação de uma satisfatória rede de transporte escolar, reforma do posto de saúde e a ampliação da eletrificação rural. No entanto, o modo de operar dos petistas de Pontão são contestados pela oposição, que os acusam de privilegiar os assentados em detrimento do restante da população. Também apontam um empreguismo exagerado e falta de transparência administrativa. De acordo com Rudimar Banaletti (PTB), também assentado rural, mas duro oposicionista, desde que o PT assumiu a prefeitura em 1996 o número de cargos de confiança passou de 160 para 300, ocupando hoje 56% da folha de pagamento do município. "Não é que o PT é maioria aqui, é que a maioria aqui não se interessa e nem quer se comprometer", diz Benaletti.
Localizada na região do Bico do Papagaio, extremo norte do Estado do Tocantins, Sampaio é a segunda na lista das cidades mais petistas do país . No início dos anos 80, o padre Jozimo Tavares chegou ao Bico do Papagaio, onde fez trabalhos de evangelização com trabalhadores rurais que se encontravam imersos em intensos conflitos por grilagem de terra. Integrante da Comissão Pastoral da Terra e adepto da Teologia da Libertação, instalou-se para pregar na cidade que margeia o rio Tocantins e foi importante centro de distribuição dos produtos que chegavam do porto de Imperatriz (TO). Ali estava o embrião do PT na região, fruto da junção entre a Igreja e os trabalhadores rurais. Desde então, o petismo local só cresceu. Na comparação, por exemplo, com São Bernardo do Campo (SP), cidade natal do partido, Sampaio tem mais de dez vezes a proporção de petistas. Esse crescimento, porém, ocorreu paralelamente ao declínio e ao esquecimento econômico da cidade, iniciados pela construção de estradas federais nas proximidades no fim dos anos 80 e nos anos 90, tirando do rio e da cidade sua importância estratégica. Todo esse quadro não foi acompanhado por Jozimo, que foi assassinado por fazendeiros em 1986, pouco tempo depois de sua chegada ao local. Em meio à maior crise da história do partido, a terra de Jozimo cobra da cúpula petista um olhar para o passado com a consulta às bases, pilar formador da legenda. "A crise pegou todo mundo de surpresa aqui. Ninguém imaginou tudo isso. A gente sempre trabalhou pelo partido, com poucos recursos, no sufoco, e fomos esquecidos. Todas as informações que tivemos foram pela imprensa. Ninguém falou conosco, parece que a gente trabalhou à toa. Construímos o partido com camadas populares, com setores realmente comprometidos com a transformação do país. Queríamos que esse debate fosse ampliado, que fossem ouvidos os que estão há 25 anos na luta, os que se sacrificaram. Queríamos ser ouvidos. Isso tudo que está acontecendo é muito triste", afirma Carlos Luna, 33, integrante da Executiva municipal de Sampaio. De acordo com ele, nos encontros regionais que precederam as eleições internas do PT houve um consenso de que a antiga cúpula envolvida nas denúncias de corrupção deve se explicar às bases enquanto a nova cúpula que vencer as eleições neste domingo deve expulsar os petistas comprovadamente envolvidos."Tem que ter coragem para chegar e dizer às pessoas que elas não correspondem mais às expectativas."
Avaliação semelhante tem José Maria Rigo, presidente recém eleito do diretório de Floriano Peixoto (RS), o quinto município com mais petistas do Brasil. "O partido cresceu muito rapidamente e foram entrando pessoas descompromissadas com as raízes do PT", afirma. Apesar das críticas dos dirigentes de Sampaio e Floriano à forma como partido cresceu e ao esquecimento da consulta à militância, em ambas as cidades o Campo Majoritário, tendência que controla o partido há mais de dez anos, venceu as eleições com a quase totalidade dos votos. Os sampaienses deram a Ricardo Berzoini 95% dos votos, enquanto os florianos o elegeram com 90%. Rigo, porém, nega ter havido em sua cidade a filiação em massa incentivada pelo Campo em nível nacional. "Aqui o crescimento foi automático, decorrente das políticas públicas que implementamos". As melhorias a que o dirigente se refere são a finalização da eletrificação rural e a construção de poços artesianos em quase todo o município de Floriano Peixoto, medidas importantes em se considerando o caráter disperso deste pequeno município gaúcho, distante 300 km de Porto Alegre, com população basicamente descendente de imigrantes alemães e poloneses espalhados em 16 comunidades em um raio de 3 km. Antigo distrito de Getulio Vargas (RS), o petismo local nasceu com o movimento de pequenos agricultores contra a barragem de Machadinho (RS), cuja construção alagaria 30% da área do então distrito. Emancipada em 1997, a cidade passou por duas administrações petistas, mas perdeu a última. A alguns quilômetros dali fica Xavantina (SC), que apresenta traços parecidos com Floriano Peixoto. Terceira no ranking de filiação petista, vive da agricultura e pecuária. A população de 4.100 habitantes se espalha por 15 comunidades e descende, na maior parte, de imigrantes italianos, poloneses e alemães. Lá, o PT nasceu do movimento sindical agrário e, ao contrário de Sampaio e Floriano Peixoto, nas eleições internas Valter Pomar venceu Ricardo Berzoini.
Longe do ambiente agrário e do sul do país, também houve espaço para o forte crescimento do PT. Foi em Icapuí, cidade cearense limítrofe com o Rio Grande do Norte que tem economia focada na pesca de lagosta. Com quase 100% de filiados pescadores, é a quarta com mais petistas do Brasil, fato esse explicado pela cidade ter vivido sob a égide do partido durante cinco gestões seguidas. Por ter colocado a totalidade das crianças da cidade na escola, a cidade foi finalista do prêmio Município Amigo da Criança, promovido pela Unicef. Nas eleições de 2004, perdeu a prefeitura para o PSDB, mas na linha da administração Luiz Inácio Lula da Silva de abrigar petistas derrotados nas eleições, acomodou dois de seus principais líderes no governo federal: os ex-prefeitos José Airton, que foi para a Associação Nacional de Transportes Terrestre (ANTT), e Dedé Teixeira, que virou assessor da Secretária Especial de Aqüicultura e Pesca. Sobre a crise do partido, os petistas pescadores dividem suas opiniões. Uma parte culpa o deputado federal e ex-ministro da Casa Civil, José Dirceu, por todas as práticas contrárias ao que a sigla previa. Outra parte crê que, ainda que esses erros possam ter ocorrido, foram feitos devido a uma "boa causa". Nas eleições internas, os votos se dividiram entre o vencedor Berzoini e a deputada gaúcha Maria do Rosário.
Se a história destas cidades revela a propagação do partido por meio de suas bases históricas, há também nas cidades mais petistas do país flagrantes de incoerência com esses traços. É o caso de Iaras (SP), única paulista na relação e nona no ranking. Distante 282 km a noroeste de São Paulo, este pequeno município com cerca de 3.500 habitantes viu o PT ser criado já em um cenário nacional de partido grande e de filiação em massa. "Sou político aqui há muitos anos. Em 2001, analisei o quadro e, acreditando que o Lula seria eleito presidente, fundei o partido. O PT nunca existiu antes aqui", afirma o bancário Edílson Xavier, ex-PTB que rompeu em 2000 com antigos correligionários. Ele trava na Justiça um embate por uma nova anulação das eleições de 2004, em que perdeu para um antigo aliado do qual fora chefe-de-gabinete na primeira gestão após a emancipação do município, em 1992. No Estado vizinho do Mato Grosso do Sul, em Caracol, décima no ranking, algo parecido ocorreu. O partido foi fundado em 1994 em decorrência de uma greve de professores do setor público municipal. Hoje, a cúpula é formada por pecuaristas. Em contraste com os feudos petistas, as cidades com o menor número de filiados da legenda não estão nacionalmente distribuídas. São município maiores, com população que varia entre 50 mil e 100 mil habitantes, concentrados no Nordeste. Paragominas (PA), é a cidade com menos petistas do país. Há 26 em 50 mil eleitores (0,052%). Na seqüência, aparecem São Gonçalo do Amarante (RN), Itapecuru Mirim (MA), Acarau (CE), Monte Santo (BA), Tutoia (MA) e Maranguape (CE).
Caio
Entre esses 4.637 municípios em que o PT está organizado, há um colégio eleitoral excepcionalmente petista: dez cidades espalhadas por sete Estados de todas as regiões do país têm uma média de 9% de filiados petistas em seu eleitorado. A média nacional é de 0,68%. Os números foram obtidos pelo cruzamento da lista de filiados petistas por cidade com a distribuição municipal do eleitorado. Os petistas dessas cidades votaram maciçamente no primeiro turno no candidato do Campo Majoritário, Ricardo Berzoini, salvo dois deles, que preferiram Valter Pomar. A manutenção do grupo que comanda a legenda há dez anos, porém, não embaça a postura crítica dessas localidades sobre os rumos do partido no governo. O PT surgiu nesses lugares em circunstâncias muito distintas das de sua fundação, em 1980, pela efervescência operária-sindical no ABC paulista. Hoje tornaram-se os verdadeiros ‘grotões’ petistas. São municípios pequenos, de no máximo 12 mil eleitores, e economia predominantemente agrária. A única semelhança com o petismo de 25 anos atrás é a intensa presença de movimentos sociais.
Com 12 em cada 100 habitantes filiados ao PT, Pontão (RS), a 300 km de Porto Alegre, no noroeste do Estado, é a cidade brasileira com maior número de petistas do país em relação ao eleitorado. É lá que está localizada a Fazenda Annoni, onde, há 20 anos, foi feita a primeira ocupação do Movimento dos Sem Terra (MST). O antigo latifúndio foi transformado em glebas de terra onde hoje vivem 400 famílias que participam ativamente das atividades petistas. Nas reuniões, decidem desde temas cotidianos, como o melhor atendimento da rede de transporte rural, até quais devem ser os candidatos do PT a vereador e a prefeito. Foi assim que se decidiu pela pré-candidatura do atual prefeito, Delmar Zambiasi, de 38 anos. Filho de empregados rurais que trabalhavam na Annoni, Zambiasi nasceu na fazenda e participou da ocupação. Apesar de não mais morar lá, parte de sua renda -além dos R$ 4 mil que recebe da prefeitura- vem da Annoni, com a plantação de soja e um "camping" construído nos 30 hectares que recebeu no assentamento às margens de uma bela represa. Tem churrasqueiras, piscina de azulejo (um toboágua será colocado para o próximo verão), campos de futebol e vôlei e chalés com diárias a R$ 50. A data da ocupação da Annoni- 29 de outubro - transformou-se em feriado municipal depois que Pontão elegeu, em 1996, o primeiro prefeito sem-terra do país, que foi reeleito em 2000 e passou o cargo em 2004 a Zambiasi. A bandeira do MST tem local privativo no gabinete do prefeito e na Mesa da Câmara, que também é presidida por um sem-terra. Na parte urbana do município, uma pequena avenida se estica por um quilômetro na cidade, com a prefeitura ao meio delimitando a luta de classes que os petistas afirmam haver: à esquerda da prefeitura, ficam as terras dos assentados; à direita, as propriedades das 22 famílias cujas rendas somadas são maiores que a renda do restante da população pontãuense.
A tensão do conflito agrário já foi maior na época das primeiras ocupações, mas sempre reaparecem no período eleitoral. Às vésperas da eleição, os assentamentos ficam em vigília contra os chamados "ranchos", grupo de pessoas supostamente enviados por grandes proprietários rurais para trocarem cestas básicas por votos. Após as últimas vitórias eleitorais, houve atentados: uma escola e um posto de saúde foram incendiados na Annoni em 1996 e 2001, respectivamente. Neste ano, após a terceira vitória consecutiva do partido nas urnas, as ameaças por ora se restringem ao prefeito que, em uma das primeiras realizações de seu governo, desapropriou 10 hectares de uma fazenda colada à parte urbana da cidade. A crise do partido, segundo o prefeito, ainda não chegou à cidade. "As pancadas sobre o Lula não chegaram aqui e talvez nem cheguem", afirma. O otimismo pode ser explicado pelos projetos sociais do governo federal que chegam à cidade, como a distribuição de 180 bolsas-família, 60 cestas básicas e a construção de 400 habitações rurais.
Nas reuniões em que avaliam a conjuntura, os petistas locais apontam as alianças "com a direita" feitas nas eleições de 2002 e o esquecimento "do povo" após assumir o governo como principais causas da crise. "Uma coisa errada neste governo foi não governar com o povo . Perdeu uma grande oportunidade. Agora, não vejo outra saída a não ser fazer como o Hugo Chávez, que o povo segura no governo para ele fazer as mudanças", diz Odacir Valério, vice-presidente eleito do PT. No âmbito nacional, Pontão elegeu Valter Pomar com mais de 90% dos votos. No segundo turno, direcionarão essa ampla votação para Raul Pont. Os petistas de Pontão atribuem a força do partido no local às gestões dos prefeitos assentados, que, de acordo com eles, priorizaram necessidades locais como alargamento e manutenção das estradas rurais, formação de uma satisfatória rede de transporte escolar, reforma do posto de saúde e a ampliação da eletrificação rural. No entanto, o modo de operar dos petistas de Pontão são contestados pela oposição, que os acusam de privilegiar os assentados em detrimento do restante da população. Também apontam um empreguismo exagerado e falta de transparência administrativa. De acordo com Rudimar Banaletti (PTB), também assentado rural, mas duro oposicionista, desde que o PT assumiu a prefeitura em 1996 o número de cargos de confiança passou de 160 para 300, ocupando hoje 56% da folha de pagamento do município. "Não é que o PT é maioria aqui, é que a maioria aqui não se interessa e nem quer se comprometer", diz Benaletti.
Localizada na região do Bico do Papagaio, extremo norte do Estado do Tocantins, Sampaio é a segunda na lista das cidades mais petistas do país . No início dos anos 80, o padre Jozimo Tavares chegou ao Bico do Papagaio, onde fez trabalhos de evangelização com trabalhadores rurais que se encontravam imersos em intensos conflitos por grilagem de terra. Integrante da Comissão Pastoral da Terra e adepto da Teologia da Libertação, instalou-se para pregar na cidade que margeia o rio Tocantins e foi importante centro de distribuição dos produtos que chegavam do porto de Imperatriz (TO). Ali estava o embrião do PT na região, fruto da junção entre a Igreja e os trabalhadores rurais. Desde então, o petismo local só cresceu. Na comparação, por exemplo, com São Bernardo do Campo (SP), cidade natal do partido, Sampaio tem mais de dez vezes a proporção de petistas. Esse crescimento, porém, ocorreu paralelamente ao declínio e ao esquecimento econômico da cidade, iniciados pela construção de estradas federais nas proximidades no fim dos anos 80 e nos anos 90, tirando do rio e da cidade sua importância estratégica. Todo esse quadro não foi acompanhado por Jozimo, que foi assassinado por fazendeiros em 1986, pouco tempo depois de sua chegada ao local. Em meio à maior crise da história do partido, a terra de Jozimo cobra da cúpula petista um olhar para o passado com a consulta às bases, pilar formador da legenda. "A crise pegou todo mundo de surpresa aqui. Ninguém imaginou tudo isso. A gente sempre trabalhou pelo partido, com poucos recursos, no sufoco, e fomos esquecidos. Todas as informações que tivemos foram pela imprensa. Ninguém falou conosco, parece que a gente trabalhou à toa. Construímos o partido com camadas populares, com setores realmente comprometidos com a transformação do país. Queríamos que esse debate fosse ampliado, que fossem ouvidos os que estão há 25 anos na luta, os que se sacrificaram. Queríamos ser ouvidos. Isso tudo que está acontecendo é muito triste", afirma Carlos Luna, 33, integrante da Executiva municipal de Sampaio. De acordo com ele, nos encontros regionais que precederam as eleições internas do PT houve um consenso de que a antiga cúpula envolvida nas denúncias de corrupção deve se explicar às bases enquanto a nova cúpula que vencer as eleições neste domingo deve expulsar os petistas comprovadamente envolvidos."Tem que ter coragem para chegar e dizer às pessoas que elas não correspondem mais às expectativas."
Avaliação semelhante tem José Maria Rigo, presidente recém eleito do diretório de Floriano Peixoto (RS), o quinto município com mais petistas do Brasil. "O partido cresceu muito rapidamente e foram entrando pessoas descompromissadas com as raízes do PT", afirma. Apesar das críticas dos dirigentes de Sampaio e Floriano à forma como partido cresceu e ao esquecimento da consulta à militância, em ambas as cidades o Campo Majoritário, tendência que controla o partido há mais de dez anos, venceu as eleições com a quase totalidade dos votos. Os sampaienses deram a Ricardo Berzoini 95% dos votos, enquanto os florianos o elegeram com 90%. Rigo, porém, nega ter havido em sua cidade a filiação em massa incentivada pelo Campo em nível nacional. "Aqui o crescimento foi automático, decorrente das políticas públicas que implementamos". As melhorias a que o dirigente se refere são a finalização da eletrificação rural e a construção de poços artesianos em quase todo o município de Floriano Peixoto, medidas importantes em se considerando o caráter disperso deste pequeno município gaúcho, distante 300 km de Porto Alegre, com população basicamente descendente de imigrantes alemães e poloneses espalhados em 16 comunidades em um raio de 3 km. Antigo distrito de Getulio Vargas (RS), o petismo local nasceu com o movimento de pequenos agricultores contra a barragem de Machadinho (RS), cuja construção alagaria 30% da área do então distrito. Emancipada em 1997, a cidade passou por duas administrações petistas, mas perdeu a última. A alguns quilômetros dali fica Xavantina (SC), que apresenta traços parecidos com Floriano Peixoto. Terceira no ranking de filiação petista, vive da agricultura e pecuária. A população de 4.100 habitantes se espalha por 15 comunidades e descende, na maior parte, de imigrantes italianos, poloneses e alemães. Lá, o PT nasceu do movimento sindical agrário e, ao contrário de Sampaio e Floriano Peixoto, nas eleições internas Valter Pomar venceu Ricardo Berzoini.
Longe do ambiente agrário e do sul do país, também houve espaço para o forte crescimento do PT. Foi em Icapuí, cidade cearense limítrofe com o Rio Grande do Norte que tem economia focada na pesca de lagosta. Com quase 100% de filiados pescadores, é a quarta com mais petistas do Brasil, fato esse explicado pela cidade ter vivido sob a égide do partido durante cinco gestões seguidas. Por ter colocado a totalidade das crianças da cidade na escola, a cidade foi finalista do prêmio Município Amigo da Criança, promovido pela Unicef. Nas eleições de 2004, perdeu a prefeitura para o PSDB, mas na linha da administração Luiz Inácio Lula da Silva de abrigar petistas derrotados nas eleições, acomodou dois de seus principais líderes no governo federal: os ex-prefeitos José Airton, que foi para a Associação Nacional de Transportes Terrestre (ANTT), e Dedé Teixeira, que virou assessor da Secretária Especial de Aqüicultura e Pesca. Sobre a crise do partido, os petistas pescadores dividem suas opiniões. Uma parte culpa o deputado federal e ex-ministro da Casa Civil, José Dirceu, por todas as práticas contrárias ao que a sigla previa. Outra parte crê que, ainda que esses erros possam ter ocorrido, foram feitos devido a uma "boa causa". Nas eleições internas, os votos se dividiram entre o vencedor Berzoini e a deputada gaúcha Maria do Rosário.
Se a história destas cidades revela a propagação do partido por meio de suas bases históricas, há também nas cidades mais petistas do país flagrantes de incoerência com esses traços. É o caso de Iaras (SP), única paulista na relação e nona no ranking. Distante 282 km a noroeste de São Paulo, este pequeno município com cerca de 3.500 habitantes viu o PT ser criado já em um cenário nacional de partido grande e de filiação em massa. "Sou político aqui há muitos anos. Em 2001, analisei o quadro e, acreditando que o Lula seria eleito presidente, fundei o partido. O PT nunca existiu antes aqui", afirma o bancário Edílson Xavier, ex-PTB que rompeu em 2000 com antigos correligionários. Ele trava na Justiça um embate por uma nova anulação das eleições de 2004, em que perdeu para um antigo aliado do qual fora chefe-de-gabinete na primeira gestão após a emancipação do município, em 1992. No Estado vizinho do Mato Grosso do Sul, em Caracol, décima no ranking, algo parecido ocorreu. O partido foi fundado em 1994 em decorrência de uma greve de professores do setor público municipal. Hoje, a cúpula é formada por pecuaristas. Em contraste com os feudos petistas, as cidades com o menor número de filiados da legenda não estão nacionalmente distribuídas. São município maiores, com população que varia entre 50 mil e 100 mil habitantes, concentrados no Nordeste. Paragominas (PA), é a cidade com menos petistas do país. Há 26 em 50 mil eleitores (0,052%). Na seqüência, aparecem São Gonçalo do Amarante (RN), Itapecuru Mirim (MA), Acarau (CE), Monte Santo (BA), Tutoia (MA) e Maranguape (CE).
8.10.05
A fé move rios
Caio
Em se considerando que valeu a lógica de que é melhor matar um projeto do que um homem, a greve de fome do bispo de Barra (BA), dom Luiz Flávio Cappio, acabou relativamente bem para o governo, que, ainda que tarde, soube dar a relevância que o caso pedia e deslocou um dos seus principais ministros para Cabrobó (PE) para propor o adiamento do diálogo sobre a transposição do rio São Francisco. Também acabou bem para o bispo, que não matou a si próprio e, de quebra, deu sobrevida às discussões das obras.
O projeto, aliás, é uma babel. Afastado do eixo político-econômico do sul do país, nada sabemos e tampouco queremos saber sobre o projeto, já que por aqui temos água e outros problemas para resolver. Mas, para o governo federal, é um projeto essencial. Ali estão em jogo o futuro político do nordestino Ciro Gomes e o grande projeto social do PT para a região mais pobre do país.
Política aparte, o que chamou mesmo a atenção no episódio foi a capacidade que um jejum religioso teve de mobilizar milhares de pessoas que mal sabem quem é Ciro e PT, muito menos o que significa transposição. Peregrinaram pelo sertão nordestino em busca de algo que não sabiam, mas que queriam, visto que movidos por uma fé cega que lhes direcionavam diretamente ao bispo, o candidato à martir que poderia lhes fornecer não mais que uma benção, uma atenção, uma voz.
O processo ali ocorrido foi semelhante ao da formação dos outros mitos regionais, como Padre Cícero e Antonio Conselheiro. Imersos na miséria que os faz ignorantes, suados e sofridos sob o sol escaldante, o cenário pobre ao qual a parte rica do país pôde acompanhar com emoção contagiante contrapunha com a luta solitária de um homem letrado, o bispo, apoiado por uma massa em busca do seu Dom Sebastião, completamente desconectada com a causa da luta dele, mas que, mesmo assim, chegaram até a, ao seu lado, iniciar também um jejum. Erro, pois, o bispo dizer que os "letrados" não entendiam a sua luta, apenas o "povo simples". Oras, esse "povo simples" mal sabia o que fazia lá. Rezavam, louvavam, como fazem sempre, eis que a saída para a vida ingrata que levam. Carência de mitos de um povo, pois.
O que é mais correto dizer é que qualquer um entende a luta do bispo, dentro, evidentemente, de suas realidades. Se aos sertanejos há uma intensa paixão, no sentido bíblico do termo, aos letrados, de uma forma geral, há respeito pela bravura de passar dez dias sem comer, apesar do desinteresse pela causa. Isso, claro, se considerarmos parte desses letrados, já que muitos assistiram ao espetáculo da devoção como uma novela das seis, sem os toques da dramaturgia global, o que, na verdade, até pode ter desagradavel, já que muito pobre junto não enche os olhos de ninguém. Ou enche. De desgosto.
A greve de fome, como qualquer forma de protesto, é válida. Ela pode até ter ares de uma arrogância pacífica, haja vista que, levada até o fim, alguém morre, mas deixa a grande derrota para o adversário. Nesse sentido, cabe questionar o posicionamento de parte da Igreja ao condenar a atitude. Essa conversa de que ninguém é senhor da própria vida merece uma boa dose de relativismo, ainda mais quando se sobrepõe à essa vida a causa que a sustenta. Assim, para pessoas que têm uma motivação a lhes conduzir, por vezes maior que qualquer outra coisa, até mesmo a própria vida, vale dela abdicar.
Não tenho filho, mas não conheço um pai ou mãe que não daria a sua vida pela dos filhos. Transpondo-se isso para o bispo Cappio, que chegou a Bahia em 1974 só com a roupa de frei e o hábito de franciscano _sequer tinha documentos, o que fez com que a ordem franciscana confirmasse sua identidade, é compreensível sua atitude.
É direito da instituição religiosa questionar os atos de alguém de alto cargo como um bispo, mas a instituição também deve ter a humildade de delimitar e se perguntar até onde quer e pode chegar sua influência. A Igreja, perita em marketing há 2.000 anos, deve reconhecer a greve de fome do bispo com esse mesmo efeito marqueteiro. Ele conseguiu chamar a atenção para os supostamente esquecidos nos debates da transposição do rio São Francisco, e surtiu efeito, com o adiamento da execução da obra. Sua luta foi em vão? Evidente que não.
O quanto o governo cederá em relação ao projeto original ainda é dúvida. Alguns movimentos sociais, como o MST e a Comissão Pastoral da Terra já reivindicam a realização de um plebiscito sobre o projeto, que seria uma solução para o intenso confronto entre defensores e opositores do rio. Atualmente, dois projetos referentes a um plebiscito sobre a transposição tramitam no Congresso. A dificuldade maior será atrair atenção nacional para um projeto regional. Nem greve de fome conseguirá.
Em se considerando que valeu a lógica de que é melhor matar um projeto do que um homem, a greve de fome do bispo de Barra (BA), dom Luiz Flávio Cappio, acabou relativamente bem para o governo, que, ainda que tarde, soube dar a relevância que o caso pedia e deslocou um dos seus principais ministros para Cabrobó (PE) para propor o adiamento do diálogo sobre a transposição do rio São Francisco. Também acabou bem para o bispo, que não matou a si próprio e, de quebra, deu sobrevida às discussões das obras.
O projeto, aliás, é uma babel. Afastado do eixo político-econômico do sul do país, nada sabemos e tampouco queremos saber sobre o projeto, já que por aqui temos água e outros problemas para resolver. Mas, para o governo federal, é um projeto essencial. Ali estão em jogo o futuro político do nordestino Ciro Gomes e o grande projeto social do PT para a região mais pobre do país.
Política aparte, o que chamou mesmo a atenção no episódio foi a capacidade que um jejum religioso teve de mobilizar milhares de pessoas que mal sabem quem é Ciro e PT, muito menos o que significa transposição. Peregrinaram pelo sertão nordestino em busca de algo que não sabiam, mas que queriam, visto que movidos por uma fé cega que lhes direcionavam diretamente ao bispo, o candidato à martir que poderia lhes fornecer não mais que uma benção, uma atenção, uma voz.
O processo ali ocorrido foi semelhante ao da formação dos outros mitos regionais, como Padre Cícero e Antonio Conselheiro. Imersos na miséria que os faz ignorantes, suados e sofridos sob o sol escaldante, o cenário pobre ao qual a parte rica do país pôde acompanhar com emoção contagiante contrapunha com a luta solitária de um homem letrado, o bispo, apoiado por uma massa em busca do seu Dom Sebastião, completamente desconectada com a causa da luta dele, mas que, mesmo assim, chegaram até a, ao seu lado, iniciar também um jejum. Erro, pois, o bispo dizer que os "letrados" não entendiam a sua luta, apenas o "povo simples". Oras, esse "povo simples" mal sabia o que fazia lá. Rezavam, louvavam, como fazem sempre, eis que a saída para a vida ingrata que levam. Carência de mitos de um povo, pois.
O que é mais correto dizer é que qualquer um entende a luta do bispo, dentro, evidentemente, de suas realidades. Se aos sertanejos há uma intensa paixão, no sentido bíblico do termo, aos letrados, de uma forma geral, há respeito pela bravura de passar dez dias sem comer, apesar do desinteresse pela causa. Isso, claro, se considerarmos parte desses letrados, já que muitos assistiram ao espetáculo da devoção como uma novela das seis, sem os toques da dramaturgia global, o que, na verdade, até pode ter desagradavel, já que muito pobre junto não enche os olhos de ninguém. Ou enche. De desgosto.
A greve de fome, como qualquer forma de protesto, é válida. Ela pode até ter ares de uma arrogância pacífica, haja vista que, levada até o fim, alguém morre, mas deixa a grande derrota para o adversário. Nesse sentido, cabe questionar o posicionamento de parte da Igreja ao condenar a atitude. Essa conversa de que ninguém é senhor da própria vida merece uma boa dose de relativismo, ainda mais quando se sobrepõe à essa vida a causa que a sustenta. Assim, para pessoas que têm uma motivação a lhes conduzir, por vezes maior que qualquer outra coisa, até mesmo a própria vida, vale dela abdicar.
Não tenho filho, mas não conheço um pai ou mãe que não daria a sua vida pela dos filhos. Transpondo-se isso para o bispo Cappio, que chegou a Bahia em 1974 só com a roupa de frei e o hábito de franciscano _sequer tinha documentos, o que fez com que a ordem franciscana confirmasse sua identidade, é compreensível sua atitude.
É direito da instituição religiosa questionar os atos de alguém de alto cargo como um bispo, mas a instituição também deve ter a humildade de delimitar e se perguntar até onde quer e pode chegar sua influência. A Igreja, perita em marketing há 2.000 anos, deve reconhecer a greve de fome do bispo com esse mesmo efeito marqueteiro. Ele conseguiu chamar a atenção para os supostamente esquecidos nos debates da transposição do rio São Francisco, e surtiu efeito, com o adiamento da execução da obra. Sua luta foi em vão? Evidente que não.
O quanto o governo cederá em relação ao projeto original ainda é dúvida. Alguns movimentos sociais, como o MST e a Comissão Pastoral da Terra já reivindicam a realização de um plebiscito sobre o projeto, que seria uma solução para o intenso confronto entre defensores e opositores do rio. Atualmente, dois projetos referentes a um plebiscito sobre a transposição tramitam no Congresso. A dificuldade maior será atrair atenção nacional para um projeto regional. Nem greve de fome conseguirá.
20.9.05
A improvável travessia petista
Caio
Após a fundação do Partido dos Trabalhadores, em fevereiro de 1980, a data mais importante para os militantes, filiados e para os que odeiam a sigla é amanhã, quando os mais de 800 mil filiados poderão comparecer às urnas para decidir o futuro do partido. Afora o independente Gegê, ligado ao movimento de moradores, e o trotskista Marcus Sokol, disputam de fato o pleito o representante do Campo Majoritário _tendência que domina o PT há dez anos e responsável por sua guinada à direita e os outros quatro candidatos da chamada esquerda do partido. Para quem torce contra o partido, o ex-ministro de Lula é o nome mais apropriado para digamos, torcer-se.
Egresso do grupo que maculou o PT e introduziu no partido práticas comuns em outras siglas, como a aceitação de recursos de grandes empresas e de banqueiros para as campanhas eleitorais, a introdução do marketing eleitoral e a adequação do programa partidário ao bel sabor das classes mais abastadas da sociedade, a tendência ruiu o PT.
A que se ponderar, porém, essa observação. Como teria o partido ruído por essas adequações se foram elas que os fizeram vencer eleições e se tornar uma máquina eleitoral? E antes, quando todo o processo era feito, os milionários valores inundavam as eleições, onde estava a inquirição de todos acerca da proveniência do dinheiro? Parece hoje muito fácil a esquerda do partido atacar a conduta do Campo, de Dirceu e sua turma, mas não é difícil afirmar que, sem elas, o caminho ao poder com o discurso de estatização, calote na dívida externa e fora FMI seria quase impossível por vias democráticas.
Com todo o decorrer da crise, entre petistas se busca sempre seu efetivo início, sem consenso naturalmente. Alguns lembram a Carta ao Povo Brasileiro, em 2002, que acalmou o mercado e os endinheirados com a promessa de garantia dos contratos. Outros vão a 2000, na imposição de Lula de que só concorreria pela quarta vez à presidência se ganhasse. Há ainda a lembrança de 1995, quando foi aceito o grande capital na campanha, ou, no mesmo ano, a não-depuração interna feita ante as denúncias do ex-petista Paulo de Tarso do suposto esquema operado pela cúpula do partido para arrecadação de dinheiro em prefeituras administradas pela legenda.
O fato é que essas medidas não devem ser vistas isoladamente, mas como parte de um processo, o qual alguns tentaram impedir e foram sumariamente expulsos_ outros fingiram que não viram, já que o que interessava era o poder, e mais outros _Campo Majoritário basicamente_ aceitavam-no como o caminho para o poder.
As opiniões expressas em geral remontam a paixões dos seus emitentes, tal qual ocorre no que por aí se prolifera em relação a crise política. Ao escutar um petista convicto defender Lula, é possível que seus argumentos sejam coerentes, baseados no ele-foi-traído-e-nada-sabia. Com tucanos e pefelistas, o mesmo, com fundamento no mas-que-presidente-omisso-ou-ladrão-é-esse.
Nesse mesmo sentido, não faz sentido torcer para a derrocada terminal do Partido dos Trabalhadores, ainda que isso possa ocorrer. Isso porque um partido, antes de se firmar por quadros ou condutas, ele é construído em meio às idéias dos seus formadores, e é aí que o PT sempre se diferenciou dos seus pares e se tornou um dos principais fatos políticos do país no século 20 (assim como seu fim pode ter o mesmo título neste início de século).
Imaginar que a cassação do registro do PT ou sua desmoralização possa abafar o que por trás dele é, ou foi, representado, é um erro, vez que o partido pode passar, mas a massa desassistida que, ao menos em tese, foi objeto de cuidado da legenda, não passará tão cedo. Os anseios dos intelectuais que formaram o PT e as demandas da população menos favorecida continuarão, ainda que o partido passe. Nessa linha, a forma de representação encontrada pelas causas embrionárias do PT pode muito bem mudar de sigla e serem abrigadas em outra casa, e aí está o PSOL em franco crescimento.
No entanto, o que pode salvar o PT, neste momento crítico, é uma vitória da esquerda do partido concomitantemente com uma adequada visão política de futuro, coisa que, convenhamos, nunca foi muito o forte dos partidos de esquerda. Basta lembrar que das poucas vezes em que um partido de operários chegou ao poder, na Itália dos anos 20, o sonho durou pouco e logo o governo foi entregue ao ditador Benito Mussolini.
Colocados lado a lado, a esquerda petista que hoje concorre se divide entre mais próxima ao Campo Majoritário (a deputada gaúcha Maria do Rosário); uma de centro, que divide sua plataforma entre críticas à política econômica e apoio a Lula (a do terceiro vice-presidente Valter Pomar); uma que apóia Lula mas tece críticas mais duras ao seu governo (a do ex-prefeito de Porto Alegre Raul Pont); e, finalmente, a de ultra-esquerda, que ataca Lula e todo o seu governo, num discurso que se aproxima do da oposição (a do economista Plínio de Arruda Sampaio).
Desse modo, assim como na atmosfera política de qualquer nação, dentro do universo petista há uma linha que vai da extrema direita (Campo Majoritário) para a extrema esquerda (Plínio Sampaio). E não é forçoso dizer que a vez da direita petista chegou ao fim. Se o modelo a que o petismo se rendeu é o utilizado ampla, tradicional e historicamente pela maioria dos partidos políticos do país, o grupo petista que fez essa escolha deve ser bem punido pelos militantes com a sua saída do comando da sigla.
Esse, frise-se, seria o primeiro passo. Reorganizar o partido com todas as premissas que o formaram respeito à diversidade de opinião e a estrutura partidária. A travessia será difícil, ainda mais com a permanência do Campo Majoritário do partido. Qualquer que seja o resultados das eleições e do período pós-eleitoral petista, a certeza que fica é de que a causa embrionária do petismo nunca lhe pertenceu, e o eventual fim simbólico do partido tampouco a eliminará. Ao contrário, dará força para que as novas tendências de esquerda aprendam como não fazer com o PT e permeiem seu trabalho por uma fidelidade às práticas que suas causas pedem.
Após a fundação do Partido dos Trabalhadores, em fevereiro de 1980, a data mais importante para os militantes, filiados e para os que odeiam a sigla é amanhã, quando os mais de 800 mil filiados poderão comparecer às urnas para decidir o futuro do partido. Afora o independente Gegê, ligado ao movimento de moradores, e o trotskista Marcus Sokol, disputam de fato o pleito o representante do Campo Majoritário _tendência que domina o PT há dez anos e responsável por sua guinada à direita e os outros quatro candidatos da chamada esquerda do partido. Para quem torce contra o partido, o ex-ministro de Lula é o nome mais apropriado para digamos, torcer-se.
Egresso do grupo que maculou o PT e introduziu no partido práticas comuns em outras siglas, como a aceitação de recursos de grandes empresas e de banqueiros para as campanhas eleitorais, a introdução do marketing eleitoral e a adequação do programa partidário ao bel sabor das classes mais abastadas da sociedade, a tendência ruiu o PT.
A que se ponderar, porém, essa observação. Como teria o partido ruído por essas adequações se foram elas que os fizeram vencer eleições e se tornar uma máquina eleitoral? E antes, quando todo o processo era feito, os milionários valores inundavam as eleições, onde estava a inquirição de todos acerca da proveniência do dinheiro? Parece hoje muito fácil a esquerda do partido atacar a conduta do Campo, de Dirceu e sua turma, mas não é difícil afirmar que, sem elas, o caminho ao poder com o discurso de estatização, calote na dívida externa e fora FMI seria quase impossível por vias democráticas.
Com todo o decorrer da crise, entre petistas se busca sempre seu efetivo início, sem consenso naturalmente. Alguns lembram a Carta ao Povo Brasileiro, em 2002, que acalmou o mercado e os endinheirados com a promessa de garantia dos contratos. Outros vão a 2000, na imposição de Lula de que só concorreria pela quarta vez à presidência se ganhasse. Há ainda a lembrança de 1995, quando foi aceito o grande capital na campanha, ou, no mesmo ano, a não-depuração interna feita ante as denúncias do ex-petista Paulo de Tarso do suposto esquema operado pela cúpula do partido para arrecadação de dinheiro em prefeituras administradas pela legenda.
O fato é que essas medidas não devem ser vistas isoladamente, mas como parte de um processo, o qual alguns tentaram impedir e foram sumariamente expulsos_ outros fingiram que não viram, já que o que interessava era o poder, e mais outros _Campo Majoritário basicamente_ aceitavam-no como o caminho para o poder.
As opiniões expressas em geral remontam a paixões dos seus emitentes, tal qual ocorre no que por aí se prolifera em relação a crise política. Ao escutar um petista convicto defender Lula, é possível que seus argumentos sejam coerentes, baseados no ele-foi-traído-e-nada-sabia. Com tucanos e pefelistas, o mesmo, com fundamento no mas-que-presidente-omisso-ou-ladrão-é-esse.
Nesse mesmo sentido, não faz sentido torcer para a derrocada terminal do Partido dos Trabalhadores, ainda que isso possa ocorrer. Isso porque um partido, antes de se firmar por quadros ou condutas, ele é construído em meio às idéias dos seus formadores, e é aí que o PT sempre se diferenciou dos seus pares e se tornou um dos principais fatos políticos do país no século 20 (assim como seu fim pode ter o mesmo título neste início de século).
Imaginar que a cassação do registro do PT ou sua desmoralização possa abafar o que por trás dele é, ou foi, representado, é um erro, vez que o partido pode passar, mas a massa desassistida que, ao menos em tese, foi objeto de cuidado da legenda, não passará tão cedo. Os anseios dos intelectuais que formaram o PT e as demandas da população menos favorecida continuarão, ainda que o partido passe. Nessa linha, a forma de representação encontrada pelas causas embrionárias do PT pode muito bem mudar de sigla e serem abrigadas em outra casa, e aí está o PSOL em franco crescimento.
No entanto, o que pode salvar o PT, neste momento crítico, é uma vitória da esquerda do partido concomitantemente com uma adequada visão política de futuro, coisa que, convenhamos, nunca foi muito o forte dos partidos de esquerda. Basta lembrar que das poucas vezes em que um partido de operários chegou ao poder, na Itália dos anos 20, o sonho durou pouco e logo o governo foi entregue ao ditador Benito Mussolini.
Colocados lado a lado, a esquerda petista que hoje concorre se divide entre mais próxima ao Campo Majoritário (a deputada gaúcha Maria do Rosário); uma de centro, que divide sua plataforma entre críticas à política econômica e apoio a Lula (a do terceiro vice-presidente Valter Pomar); uma que apóia Lula mas tece críticas mais duras ao seu governo (a do ex-prefeito de Porto Alegre Raul Pont); e, finalmente, a de ultra-esquerda, que ataca Lula e todo o seu governo, num discurso que se aproxima do da oposição (a do economista Plínio de Arruda Sampaio).
Desse modo, assim como na atmosfera política de qualquer nação, dentro do universo petista há uma linha que vai da extrema direita (Campo Majoritário) para a extrema esquerda (Plínio Sampaio). E não é forçoso dizer que a vez da direita petista chegou ao fim. Se o modelo a que o petismo se rendeu é o utilizado ampla, tradicional e historicamente pela maioria dos partidos políticos do país, o grupo petista que fez essa escolha deve ser bem punido pelos militantes com a sua saída do comando da sigla.
Esse, frise-se, seria o primeiro passo. Reorganizar o partido com todas as premissas que o formaram respeito à diversidade de opinião e a estrutura partidária. A travessia será difícil, ainda mais com a permanência do Campo Majoritário do partido. Qualquer que seja o resultados das eleições e do período pós-eleitoral petista, a certeza que fica é de que a causa embrionária do petismo nunca lhe pertenceu, e o eventual fim simbólico do partido tampouco a eliminará. Ao contrário, dará força para que as novas tendências de esquerda aprendam como não fazer com o PT e permeiem seu trabalho por uma fidelidade às práticas que suas causas pedem.
1.9.05
A irresponsabilidade como requisito político
Caio J.
O presidente da Câmara, Severino Cavalcanti (PP-PE), foi, assim, dizer, o personagem da semana. Não que ele precise fazer muito para torná-lo. É o típico homem que aparece e acontece, perdoem-me o chavão. Mas essa semana houve algo como um superdimensionamento de sua figura, do atraso dos costumes políticos e da pieguice personalista por ele representada. Em entrevista à Folha de S. Paulo, defendeu a complacência com a corrupção. Para quem não se divertiu com a entrevista-piada-tragédia de uma página, em suma, o tosco parlamentar afirma que os deputados que comprovarem a utilização de recursos ilegais em suas campanhas merecem penas mais brandas, como uma advertência, enquanto os que receberam recursos em troca de apoio deveriam ter uma pena mais grave.
O problema em si não está propriamente na gradação de uma pena para a outra, visto que, de fato, a natureza dos são crimes diferentes. Em uma, burla-se o sistema para ter mais recursos, e, assim, mais chances de vencer a eleição. Em outra, burla-se a alma, a convicção, a ideologia ou a ausência desta stricto senso, e se troca o direito fundamental de um parlamentar e símbolo máximo da sua representação popular, o voto, por dinheiro. Ambos os casos corrompem o sistema, mas, em se considerando que um homem pode perder tudo, que continua tendo a sua alma, se esta é vendida, perde-se ela e aquele ao qual a ela se vincula.
Ocorre que aqui não se fala de um cidadão comum. O parlamentar, na atribuição de suas funções, possui um caráter diferenciado, vez que a ele é delegado o poder popular. Nessa linha, quando se vende, ou quando corrompe um sistema, seja ele eleitoral, fiscal ou até mesmo do clube a que pertence, iguala-se na quebra do que se usa chamar decoro, que nada mais é um nome chique para a quebra da safadeza implícita que não se deve deixar emergir quando se está ali, trabalhando e recebendo por delegação popular, ainda que isso seja ignorado pela maioria dos que lá estão.
Desse modo, caixa 2 e venda de voto podem até ter uma diferença no cerne de suas motivações e finalidades, mas nunca devem ter tratamento desigual quanto à gradação de suas punições. As duas devem ser vergastadas com a devida propriedade. Mas a situação é tão crítica que, como a punição exige autoridade, resta um quadro em que ficam escassas as lideranças para fazê-lo. O problema, como diz a piada corrente, não é de política, é de polícia. O presidente do Conselho de Ética, por exemplo. Soldado malufista, abateu-se durante os desvios dos recursos destinados a pagar precatórios judiciais nas gestões Maluf e Pitta em São Paulo. “Ele (Maluf) usou o dinheiro dos precatórios para fazer obra'', afirmou na época.
Há suspeitas dos motivos que levam Severino a ser tão brando com suas exigências. O presidente da Câmara declarou à Justiça Eleitoral ter gasto R$ 60 mil em sua última campanha por Pernambuco. Não declarou gastos comuns em qualquer campanha, como combustível. O jornalista Ricardo Noblat, conforme relata em seu blog, ouviu cinco pessoas do Recife habituadas com campanhas: três deputados federais, um estadual e um ex-ministro. Todas calcularam que a campanha de Severino não saiu por menos de R$ 600 mil, uma vez que se baseou na distribuição de cabos eleitorais nos grotões do Estado. Isso porque não houve gastos com gasolina.
O diabo em tudo isso, não bastasse o fato isolado deste homem ser o terceiro da linha sucessória, é uma velha prática de nossa sociedade: o afago, o puxa-saquismo. Neste país do status, não importa o caráter e os valores de uma pessoa para ela ser, digamos, agraciada com a boa educação da comunidade que o rodeia. Aqui, basta o poder, seja ele político ou financeiro, para capacitar alguém ao cargo de personalidade passível de congratulações e receber os beneplácitos de uma comunidade. Isso a despeito de práticas sujas empresariais que ele tenha praticado para chegar ao bom saldo financeiro em que chegou. Isso a despeito da condução impoluta de sua vida política. Tudo em nome do interesse. O ricão, ou o politicão tem, no Parlamento, nas grandes e nas pequenas cidades, a garantia de seus egos agraciados com o séqüito que os seguem e acabam os cegando, por, na realidade, estar cercado de devotos de uma fé suja, pois maculada por sub-interesses que não os da amizade e admiração, mas o do medo e do interesse. Daí decorre outras bizarrices vistas nesta semana em Brasília. A força com que os petistas-governistas-lulistas, como Devanir Ribeiro (PT-SP) e Arlindo Chinaglia (PT-SP), saíram em defesa de Severino após o deputado Fernando Gabeira (PV-RJ) trocar ofensas com o pernambucano e pedir sua deposição, em razão de suas declarações à Folha mostram isso. Fato pior foi a condecoração de Severino com a Grã-Cruz do Rio Branco, a insígnia de mais alto grau da diplomacia brasileira, concedida pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Uma ofensa a mundialmente reconhecida diplomacia nacional. Revela, assim, interesse e medo.
No entanto, não seria justo atacar somente os que dele precisam nesta crise. Cabe questionar quem o colocou lá. E aí aparece a oposição, tucanos e pefelistas que, em optar pela integridade e chatice do petista Greenhalgh, preferiram achincalhar o governo e eleger ele, Severino, em uma operação que hoje virou reversa, haja vista o explícito interesse do presidente da Câmara em segurar processos contra os governistas. O que comprova que, no quesito responsabilidade, ninguém passa. Pobre país.
O presidente da Câmara, Severino Cavalcanti (PP-PE), foi, assim, dizer, o personagem da semana. Não que ele precise fazer muito para torná-lo. É o típico homem que aparece e acontece, perdoem-me o chavão. Mas essa semana houve algo como um superdimensionamento de sua figura, do atraso dos costumes políticos e da pieguice personalista por ele representada. Em entrevista à Folha de S. Paulo, defendeu a complacência com a corrupção. Para quem não se divertiu com a entrevista-piada-tragédia de uma página, em suma, o tosco parlamentar afirma que os deputados que comprovarem a utilização de recursos ilegais em suas campanhas merecem penas mais brandas, como uma advertência, enquanto os que receberam recursos em troca de apoio deveriam ter uma pena mais grave.
O problema em si não está propriamente na gradação de uma pena para a outra, visto que, de fato, a natureza dos são crimes diferentes. Em uma, burla-se o sistema para ter mais recursos, e, assim, mais chances de vencer a eleição. Em outra, burla-se a alma, a convicção, a ideologia ou a ausência desta stricto senso, e se troca o direito fundamental de um parlamentar e símbolo máximo da sua representação popular, o voto, por dinheiro. Ambos os casos corrompem o sistema, mas, em se considerando que um homem pode perder tudo, que continua tendo a sua alma, se esta é vendida, perde-se ela e aquele ao qual a ela se vincula.
Ocorre que aqui não se fala de um cidadão comum. O parlamentar, na atribuição de suas funções, possui um caráter diferenciado, vez que a ele é delegado o poder popular. Nessa linha, quando se vende, ou quando corrompe um sistema, seja ele eleitoral, fiscal ou até mesmo do clube a que pertence, iguala-se na quebra do que se usa chamar decoro, que nada mais é um nome chique para a quebra da safadeza implícita que não se deve deixar emergir quando se está ali, trabalhando e recebendo por delegação popular, ainda que isso seja ignorado pela maioria dos que lá estão.
Desse modo, caixa 2 e venda de voto podem até ter uma diferença no cerne de suas motivações e finalidades, mas nunca devem ter tratamento desigual quanto à gradação de suas punições. As duas devem ser vergastadas com a devida propriedade. Mas a situação é tão crítica que, como a punição exige autoridade, resta um quadro em que ficam escassas as lideranças para fazê-lo. O problema, como diz a piada corrente, não é de política, é de polícia. O presidente do Conselho de Ética, por exemplo. Soldado malufista, abateu-se durante os desvios dos recursos destinados a pagar precatórios judiciais nas gestões Maluf e Pitta em São Paulo. “Ele (Maluf) usou o dinheiro dos precatórios para fazer obra'', afirmou na época.
Há suspeitas dos motivos que levam Severino a ser tão brando com suas exigências. O presidente da Câmara declarou à Justiça Eleitoral ter gasto R$ 60 mil em sua última campanha por Pernambuco. Não declarou gastos comuns em qualquer campanha, como combustível. O jornalista Ricardo Noblat, conforme relata em seu blog, ouviu cinco pessoas do Recife habituadas com campanhas: três deputados federais, um estadual e um ex-ministro. Todas calcularam que a campanha de Severino não saiu por menos de R$ 600 mil, uma vez que se baseou na distribuição de cabos eleitorais nos grotões do Estado. Isso porque não houve gastos com gasolina.
O diabo em tudo isso, não bastasse o fato isolado deste homem ser o terceiro da linha sucessória, é uma velha prática de nossa sociedade: o afago, o puxa-saquismo. Neste país do status, não importa o caráter e os valores de uma pessoa para ela ser, digamos, agraciada com a boa educação da comunidade que o rodeia. Aqui, basta o poder, seja ele político ou financeiro, para capacitar alguém ao cargo de personalidade passível de congratulações e receber os beneplácitos de uma comunidade. Isso a despeito de práticas sujas empresariais que ele tenha praticado para chegar ao bom saldo financeiro em que chegou. Isso a despeito da condução impoluta de sua vida política. Tudo em nome do interesse. O ricão, ou o politicão tem, no Parlamento, nas grandes e nas pequenas cidades, a garantia de seus egos agraciados com o séqüito que os seguem e acabam os cegando, por, na realidade, estar cercado de devotos de uma fé suja, pois maculada por sub-interesses que não os da amizade e admiração, mas o do medo e do interesse. Daí decorre outras bizarrices vistas nesta semana em Brasília. A força com que os petistas-governistas-lulistas, como Devanir Ribeiro (PT-SP) e Arlindo Chinaglia (PT-SP), saíram em defesa de Severino após o deputado Fernando Gabeira (PV-RJ) trocar ofensas com o pernambucano e pedir sua deposição, em razão de suas declarações à Folha mostram isso. Fato pior foi a condecoração de Severino com a Grã-Cruz do Rio Branco, a insígnia de mais alto grau da diplomacia brasileira, concedida pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Uma ofensa a mundialmente reconhecida diplomacia nacional. Revela, assim, interesse e medo.
No entanto, não seria justo atacar somente os que dele precisam nesta crise. Cabe questionar quem o colocou lá. E aí aparece a oposição, tucanos e pefelistas que, em optar pela integridade e chatice do petista Greenhalgh, preferiram achincalhar o governo e eleger ele, Severino, em uma operação que hoje virou reversa, haja vista o explícito interesse do presidente da Câmara em segurar processos contra os governistas. O que comprova que, no quesito responsabilidade, ninguém passa. Pobre país.
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