27.2.05

Por falar em esconder corrupção...

Marcio Pinheiro

Recordar é viver. Em dezembro de 1998, dois meses depois de vencer a eleição presidencial no primeiro turno, Fernando Henrique ligou para Lula para fazer um agradecimento ao petista.

FH agradeceu Lula por não ter usado o "dossiê Caribe" (documento forjado que comprovaria que Covas e outros tucanos teriam contas não declaradas fora do país) na campanha sucessória.

Lula autofágico

Marcio Pinheiro


Ao dizer que encobertou sujeiras no governo FHC, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva consegiu o que parecia quase impossível: ser acusado de corrupto (ou leniente com a corrupção).

Não é válido evocar aqui o argumento Waldomiro Diniz - ele não atingiu Lula diretamente; a "suspeita" caiu e cabia somente a José Dirceu, justamente pelo acusado ter sido seu assessor e amigo.

Ao falar qualquer coisa, não prezar a racionaliade e ligar de mais para o que Fernnado Henrique fala, Lula tende a perder fôlêgo onde mais precisa: o Congresso Nacional.

As asneiras de Lula colocam, a cada dia, em xeque sua reeleição. E, pra variar, seus áulicos assessores seguem sem alertar o chefe.

Uma crise dada de bandeja para a oposição. Fevereiro, recordemos o caso Waldomiro, é , definitivamente, o pior mês para o governo Lula.


PSDB, oposição responsável. Sei...

O mesmo PSDB que votou em peso em Severino Cavalcanti fala em impeachment de Lula e processo no Supremo.

Os dois partidos mais importantes do Brasil, PT e PSDB, descem a um nível desnecessário. Cabem a eles dar o melhor exemplo, mas isso não vem sendo feito.

Quando dois grandes brigam, sempre aparece um terceiro e leva. 2006 está aí, mas ainda dá tempo de consertar o estrago.

Ellen Gracie e a França

Marcio Pinheiro

Nesta semana o o ministro francês da Economia, Herve Gaymard, renunciou porque, pressionado pela opinião pública, vivia em um apartamento de alto padrão num bairro bem chique de Paris com despesas pagas pelo governo.

"Eu estou consciente do sério erro de julgamento [que cometi] sobre as condições de minha moradia oficial", delcarou.

Na mesma semana, a ministra do Supremo Tribunal Federal, Ellen Gracie Northfleet, mandou construir uma banheira de hidromassagem em seu apartamento funcional de 523 metros quadrados onde parrasá a morar em março.

Declaração da excelentíssima: "É claro que eu vou botar uma banheira lá, não tem nada demais nisso. E tem que ser paga com dinheiro público, sim, porque está em um imóvel público", disse a O Globo.

Pergunta que não quer calar: se é público, eu posso usar? A minsitra acaba de abrir um precedente muito peculiar para nosso país.

15.2.05

A vingança dos 300 picaretas...
...e a culpa é toda do PT

Marcio Pinheiro

Com 300 votos - especialmente aqueles do baixo clero - Severino Cavalcanti (PP-PE) foi eleito presidente da Câmara dos Deputados. Trata-se do terceiro homem na hierarquia da República.

Um azarão que só conseguiu esse status graças ao PT, o do Planalto e o do Congresso, nesta ordem.

O processo de escolha do candidato petista à sucessão de João Paulo Cunha (PT-SP) foi burra e ingênua. Burra, porque Luiz Eduardo Greenhalgh (PT-SP) não naturalmente o mais votado e não era o mais querido (tanto da bancada do PT quanto na Câmara em geral). O concorrente Virgilio Guimarães (PT-MG), por outro lado, não perdeu tempo e lançou sua candidatura avulsa. Ele também errou ao insistir nisso até o fim, fechando acordos até com garotinhos.

Mas o grande culpado, vamos logo deixar claro, não foram os petistas Greenhalgh x Virgilio, mas o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (e sua trupe) que trata com desprezo o Congresso nesses dois anos e dois meses de mandato.

Quinze anos depois, os "300 picaretas" se vingaram. Eles aproveitaram o racha do PT para lembrar os acordos e promessas não-cumpridos, a falta diálogo de atenção do primeiro escalão com o baixo clero, as ligações não-atendidas. É o tal "menosprezo pelo sentimento político da Casa", como resumiu bem o governador tucano Aécio Neves.

Lula até enviou 11 ministros para fazer lobby para a eleição de Greenhalgh. Mas era tade demais. Muitos desses ministros não atendiam os parlamentares há dois anos... Sem contar que o próprio presidente enrolou os parlamentares, aliados e inimigos por quase um ano ao não se decidir pelo apoio à emenda de reeleição para as Presidências da Câmara e Senado.

Além disso, o PT passou-se por ingênuo ao confiar na tradição da vitória ao partido com maior bancada, e esperava apoio oposicionista. Não passou pela cabeça das lideranças petistas que o "acordo de cavalheiros", que sempre ocorre nas eleições internas da Casa, poderia falhar.

Quem mais perde com a vitória de Severino não é o governo Lula - o deputado do PP tem tudo para fazer uma gestão sem grandes dificuldades para o Plantalto. Os grandes perdedores foram o Congresso Nacional e o Brasil.

O Congresso, especialmente pela imagem perante a opinião pública, ao eleger um ser reacionário, homofóbico, ultrareligioso e que defende abertamente o nepotismo e aumentos surreais de seu próprio salário. Além disso, questões como as da células-tronco, reforma política, dentre outras, entram automaticamente em xeque.

Quem vai pagar o pato com essa eleição, esperamos, será o próprio Congresso (oposição tucana e pefelista e partidos importantes para a base aliada como o PMDB, PL, PTB e o próprio PP). E o que é vingança hoje contra Lula poderá soar análogo a esses 300 inconseqüentes em 2006. O custo dessa eleição para o Brasil foi de anos para trás, e esperamos que os eleitores de Severino sejam punidos pelos cidadãos.

Por isso, é imprudente apontar a eleição de hoje como o "início da derrota da reeleição de Lula". Em breve chegará uma reforma ministerial na qual Lula terá que acolher os partidos traidores.

E para a nova estrela política brasileira, fica o paradoxo do político rasteiro que não tem o menor compromisso com o "projeto" de Lula para o Brasil. Severino diz que que governará com o Planalto, mas a base da Câmara o elegeu com motivos contrários ao palácio.

Não sabemos ainda como será a sua presidência, mas certamente a relação Executivo-Legislativo será mais trabalhosa e, por isso, o Congresso, que já anda devagar-quase-parando, ficará ainda mais lerdo nesses últimos anos do governo Lula.

2.2.05

Da barganha e da falta de esperança
Caio Junqueira


A reforma ministerial que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva promoverá nas próximas semanas em muito revela a promiscuidade política e o jogo sujo com que a política é feita, desde sempre, no país.

Num jogo que se arrasta há meses, Lula tenta acomodar aliados do Congresso –e inimigos históricos do PT , como o malufista PP_, e dar mais espaço aos fisiológicos PMDB e PTB para, assim, garantir a governabilidade no Congresso nos dois últimos anos de seu governo e aprovar reformas importantes, como a política, a sindical e a trabalhista. Pretende ainda, de quebra, assegurar uma ampla coalizão de partidos com o PT nas eleições de 2006.

Porém, para isso, submete-se à bárbara lógica da política tupiniquim e ajuda a manter um círculo vicioso no qual o comandante que nela não entra acaba punido, seja pela incapacidade de aprovar seus projetos no Legislativo ou por futuras rejeições em alianças eleitorais _com as quais se garante maior tempo de exposição na televisão.

A regra é clara. Se o administrador não conceder cargos a indicados políticos, deputados e vereadores, integrantes do partido “rejeitado” vota contra projetos enviados pelo Executivo, ainda que importantes à população. O bem-estar e a relevância aqui pouco importam, já que as regras há muito estão postas. Em contrapartida, o legislador, líder político ou partido que a elas não se sujeitar pode cair no ostracismo, já que, sem um cargo importante, como uma secretaria, ministério ou autarquia, terá menos exposição na mídia.

Afora isso, o tempo que se perde na discussão de qual-cargo-vai-para-qual-indicado demonstra a insensibilidade dos políticos, que, ou imaginam que o país possui índices econômicos e sociais de uma Escandinávia ou assumem a cara de pau e a suposta incapacidade de poder fazer algo para que se alterem as regras. Isso mostra, além de indiferença, distância entre a política e a vida popular brasileira e a comprovação de que a intenção dos políticos neste país é lutar e conservar suas posições, seus nomes e seus status.

Em São Paulo, o prefeito José Serra (PSDB) tentou, no início, não se submeter às maliciosas regras e teimou em negociar com o chamado centrão, grupo de vereadores do PL, PP, PMDB e PTB que se juntaram para negociar cargos de primeiro escalão e participação nas 31 subprefeituras da cidade.

Serra até tentou depois negociar, mas já era tarde. O centrão apoiou o dissidente do PSDB, Roberto Tripoli, e, assim, o partido majoritário na Casa e do prefeito ficou sem a presidência da Câmara, essencial na condução das votações de interesse do Executivo.

Ainda assim, Serra não deve ser considerado o bom mocinho na luta pelos bons costumes políticos. Longe disso. À exemplo de Lula, teve de colocar políticos no seu governo para contemplar aliados de sua eleição, como PFL, PPS, PDT e PV e preterir as indicações técnicas que tanto prometeu no processo eleitoral.

Diriam, “evidente, esses partidos o apoiaram e a fatura chegou”. No entanto, o enxugamento administrativo da Prefeitura de São Paulo e a fusão de secretarias foram promessas feitas pelo tucano durante a campanha, que não puderam ser cumpridas justamente para acomodar esses “parceiros”.

Umas de suas críticas mais freqüentes à então prefeita e candidata à reeleição Marta Suplicy (PT) era de que ela fez apenas nomeações políticas. A prática, como visto, manteve-se. O que mudou foi o sexo, o nome e o partido.

Até mesmo o governador Geraldo Alckmin (PSDB) entrou na dança. A reforma de seu secretariado _que teve início no final do ano passado_ busca acomodar parceiros como PPS e PDT, de forma a assegurar ampla aliança na difícil campanha para o governo do Estado em 2006, já que o partido carece de nomes para a disputa enquanto no rival PT sobram nomes, como Marta, Aloizio Mercadante e João Paulo Cunha.

Alckmin cai também na ciranda da tradicional política brasileira ao fazer a reforma do seu secretariado de olho no relógio. Precisa terminá-la antes de 15 de fevereiro, data das eleições para a presidência da Assembléia Legislativa. Acomodando outros partidos no primeiro escalão paulista, garante os votos para o nome do PSDB ao cargo.

É revoltante ver que o amadurecimento político caminha a lentos passos no país. Nomes como o de Lula, Marta, Serra e Alckmin, que sempre tiveram como bandeiras políticas a luta pela ética repetem o que os velhos barões do PFL, PMDB e PP sempre fizeram: barganha. Se não pudermos esperar deles a limpeza ética, de quem esperaremos?

16.9.04

Palimpsesto

Virgilio Abranches

Por que, meu Deus, hão de me escolher entre centenas que passam por aquela rampa do metrô para pedir esmolas? “Meu senhor, o senhor poderia...”. Não, eu não posso. Eu tenho pressa. “O senhor teria...”, não, eu não tenho. Quer dizer, tenho, mas não quero dar. Francamente. Eu tenho cara de socialmente responsável? Não é possível.

Eu tenho cara de petista. Isso, um dia, já foi sinônimo de socialmente responsável, mas hoje... Hoje, francamente! Se bem que essa história de dizer que eu tenho cara de petista é coisa dos meus amigos tucanos da escola. Ou dos meus tios “amo-Mário-Covas”. Mesmo porque é difícil mensurar o que é “ter cara de petista”.

Eu tenho barba. Isso faz pouco tempo. Mesmo antes, já diziam que eu tinha “cara de petista”. Na verdade, tudo advinha das idéias. A minha visão de mundo me deixava com a tal cara. Por quê? Ora, porque eu falava em educação para os pobres, em comida para todos, em empregos, em salários melhores. Isso, hoje, não é mais ser petista. É ser... vejamos... isso é ser... Socialmente responsável!

É isso. O mendigo me escolhe porque vê em mim uma certa responsabilidade social. Está decidido. A partir de amanhã, além da barba, vou usar uma camisa com uma foto do Palocci. Para parecer mais petista. Quem sabe esses pobres me deixam em paz!

12.9.04

Mentalidade tacanha

Não deveria, mas a politicagem sempre fala mais alto. Em ano de eleição então, nem se fala. Ao longo das última semanas tivemos dois episódios, vindos dos representantes dos dois Estados mais importantes da federação.

Em São Paulo, o governador Geraldo Alckmin vai à TV, nas inserções e no horário eleitoral de José Serra (PSDB) , para dizer que "só me dou bem com ele", ou seja, só faltou dizer que não se dá bem (e nem se esforça para isso) com a atual prefeita, Marta Suplicy (PT).

No Rio de Janeiro, a governadora Rosinha Matheus não compareceu num dos mais importantes eventos na capital: o seminário Revitalização do Rio. Motivo? "Tinha muita gente do governo federal".

Esse é o nível dos políticos mais "importantes" do eixo São Paulo-Rio. A arrogância deles nos faz indagar: será que eles pensam que estão governando Pindamonhangaba ou Campos?

31.8.04

O Jornal Nacional e a Venezuela

Nesta quarta-feira o Jornal Nacional, da Rede Globo, comemora 35 anos no ar. Os brasileiros também devem se orgulhar do telejornal, de seus erros e seus acertos.

Contar a história do JN não é apenas contar a história do jornalismo brasileiro, mas sobretudo os momentos cruciais da história política do Brasil recente. Afinal, jornalismo é versão, e a que foi e vai ao ar no JN foi e é vista por mais de 31 milhões de pessoas, formadores de opinião, eleitores.

A análise mais pueril é sempre a da “teoria da conspiração”. Não vamos negar que Globo não tenha dado apoio a todos os presidentes (e retirado o apoio em momentos oportunos), ou que não tenha servido de “Voz do Brasil” no regime militar (1964-1985). Mas alguns fatos – mal analisados – deram margem a esse tipo de interpretação mais apressada.

Passados vários anos, certos episódios são reavaliados. Em pesquisas qualitativas de um importante instituto de pesquisa - que por motivos óbvios jamais serão veiculadas no JN, mas ao qual o TRÊS PALAVRAS teve acesso – indicam que o quesito "manipulação" ainda vem junto com o nome Rede Globo e Jornalismo.

Dizer, por exemplo, que a Globo prejudicou o então candidato Luiz Inácio Lula da Silva no último debate com Fernando Collor em 1989 é fato. Mas a questão, nesses e em outros casos, é: foi incompetência ou má fé?

Ambos. E nenhum dos dois.

Os fatos. Às 13h entra no ar o "Jornal Hoje" de sábado. Na edição dos melhores momentos do debate da noite anterior, Collor e Lula ganham o mesmo tempo e uma edição que mostrava momentos bons e ruins de ambos os candidatos. Nada mais injusto: Collor se saíra bem melhor que o candidato do PT naquela noite! Conclusão: Lula foi beneficiado.

Horas depois, às 20h foi ao ar o JN. Uma edição bem diferente do “Hoje” e um pouco mais realista. Foram exibidas falhas de Lula, momentos bons de Collor (e este teve 1 minuto a mais que Lula; não é exagero dizer que 1 minuto em TV é uma eternidade). Conclusão: Collor foi beneficiado. Como o JN tem maior audiência, é claro que a celeuma se deu em torno da edição da noite, e não à da tarde.

Até hoje a autoria da edição do debate é reivindicada por alguns profissionais que eram da emissora à época. Isso aqui é o que menos importa. A questão era fazer uma edição com os melhores momentos (sic.) de um debate. E ninguém sabia como fazer isso. Era o primeiro debate da primeira eleição livre para presidente depois de 21 anos de ditadura militar.

Para se ter uma idéia desse absurdo, hoje, quando os candidatos (da presidência à prefeitura) são convidados para um debate na Globo, norma do contrato diz que a emissora se compromete a não fazer uma edição de debate. A história teve que mostrar isso. Errou-se para aprender. Assim como ocorre com o eleitor que erra o voto: não dá pra voltar atrás, mas aprende-se muito elegendo um candidato ruim. O troco virá na eleição seguinte. No caso da Globo, o aprendizado veio com debates e entrevistas seguintes.

O mea culpa de 89, por sinal, foi feito na edição do JN da última segunda-feira, dia 30 de agosto de 2004. Demorou 15 anos, já com Lula na Presidência da República. Mas já em anos tucanos, a própria apresentadora do jornal, Fátima Bernardes, já corroborava com essa visão. Em palestra em uma universidade do Rio de Janeiro em 1999 foi questionada por um estudante se “a Globo continuava a manipular”. Resposta da jornalista: “Já tivemos problemas no passado”. A fala de Fátima Bernardes é emblemática exatamente 5 anos depois ao vermos o telejornal correndo atrás de um outro erro: o modo de divulgação de uma pesquisa eleitoral.

Na edição desta terça (31 de agosto), o JN apresentou a margem de erro na pesquisa eleitoral – algo inédito na divulgação de pesquisas eleitorais em telejornais – em divulgação de pesquisa Ibope sobre a sucessão da prefeita Marta Suplicy (PT). Que ironia.

Tivesse tido o mesmo cuidado na apresentação de uma pesquisa do Ibope às vésperas do pleito do governo de São Paulo em 1998, talvez a hoje prefeita-candidata Marta fosse governadora. Mas a inexperiência mais uma vez atrapalhou.

Não só diretores do Ibope, mas todos os cientistas políticos com quem conversei desde então são unânimes: o erro na pesquisa não foi a pesquisa em si, mas a divulgação dela. E se Covas passou para o segundo turno foi graças ao “voto útil” de petistas que viram, na noite anterior, o nome de três candidatos acima do de Marta na telinha azul do telejornal.



A emissora que apóia todos os presidentes

A linha editorial do JN não é de apoio a um político ou um presidente específico, a um partido ou a um projeto de política pública. A Rede Globo adota, sobretudo, a linha preservacionista e, conseqüentemente, apóia aquele que está no poder. A moeda? A permanência da concessão com a família Marinho – autorizada com a bênção da Presidência da República – e, em troca, a estabilidade democrática no maior país da América Latina.

Tivesse o JN uma linha editorial crítica à la Folha de S.Paulo, certamente o Brasil se transformaria rapidamente numa Venezuela.

É a opção mais responsável para o único veículo que, se quiser, pode “derrubar” um presidente ou provocar uma crise institucional em segundos, pois somente a Globo fala simultaneamente para todo, todo o país (ok, vamos ser mais exatos, que fala para 99,8% do território nacional) e detém a maior audiência.

Esse tipo de preservacionismo ficou bem claro com a vitória de um candidato que, por décadas, foi renegado pelo dono da emissora.
A cobertura eleitoral de 2002 foi exemplar: todos os candidatos entrevistados no JN tiveram o mesmo tempo e tratamento semelhante; a emissora, portanto, não se comprometera com nenhum candidato, exceto com o vencedor, fosse quem fosse. Essa mudança de rumo na cobertura presidencial, claro, tem outras causas (que serão abordadas aqui neste espaço no momento oportuno), mas, por enquanto cabe a análise de que seja quem for o eleito, ele será “preservado” pelo jornalismo da Globo.

A crítica, a vigilância, a análise sobre o veículo de informação mais importante e de maior audiência do país devem estar sempre presentes. Ter a audiência desses milhões de brasileiros e escolher aquilo que o brasileiro vai ouvir, ver e sentir todas as noites é uma responsabilidade tão grande quanto governar o país. Maior até.



CRÍTICOS DO JN

Aqueles que criticam o JN por ser rápido, superficial e pouco analítico vão ao cerne da alma do jornal e pecam pela ignorância: o objetivo do JN é exatamente esse o descrito acima. Quer profundidade? Vá ler os clássicos, o JN decididamente não é pra você.




28.8.04

São Paulo vai ganhar as eleições
Caio Junqueira

Não é apenas o PT ou o PSDB que sairá vitorioso nas eleições de outubro em São Paulo. A cidade também ganhará e o sucessor, em 2005, receberá uma cidade melhor. Tanto a prefeita Marta Suplicy quanto o tucano José Serra são bons candidatos e com bom retrospecto político e gerencial.

Evidente que, ao se analisar suas trajetórias políticas, principalmente nos cargos executivos (Marta na Prefeitura de São Paulo e Serra no Ministério da Saúde), deslizes e erros são facilmente apontados.

A capital paulista, de longe, não é o melhor lugar para viver. Tem os maiores índices de violência do país, um trânsito que prejudica a economia e a saúde mental dos habitantes e milhares de miseráveis nas ruas. Mas não se resolvem erros históricos em quatro anos.
Marta, nos quatro anos de sua gestão, procurou, a sua maneira, melhorar a cidade. Desde a posse, mostrou ter um projeto para a cidade, ainda que discutível _e falho_ em diversos aspectos. Os CEUs vão além do projeto pedagógico, são centros sociais, muito necessários nas periferias tão carentes de áreas de lazer e cultura e esporte. O Bilhete Único funciona. A frota de ônibus na cidade foi renovada. Diversos espaços públicos, como praças e avenidas, nas áreas nobres e na periferia, foram revitalizados e ficaram com ares de cidade decente.
Isso é comprovado quando vê-se que certas áreas como transporte e educação --antes alvo de qualquer candidato-- são esquecidas do debate político, justamente pelo fato de saber-se que o projeto nestas áreas resumem-se à continuidade e ampliação.

Os críticos de Marta _em geral, integrantes da elite_ ignoram suas realizações ou por preconceito petista comum à classe econômica que fazem parte ou por desconhecimento e falta de vontade de reconhecer nela uma prefeita, no mínimo, razoável. Claro que a arrogância da prefeita colabora com essa oposição desinformada. Incomoda uma mulher petista no terceiro cargo mais importante do país. Alia-se a isso os erros cometidos pela prefeita durante sua administração, devidamente dimensionados, como o loteamento político feito nas subprefeituras e à falta de prioridade na área da saúde. Propositalmente ou não, criou-se uma situação em que seus erros são dimensionados e suas virtudes esquecidas.

A cidade também ganhará com Serra prefeito. O tucano, além de ter sido um dos melhores legisladores da Nova República, mostrou-se bom gestor no Ministério da Saúde. Entre seus pontos positivos, destacam-se o caráter executivo, de tirar idéias do papel e colocá-las em prática. Negativamente, além de sua antipatia e falta de carisma, ele fez parte do governo FHC, tão celebrado pelas classes dominantes, mas não visto pelas camadas pobres da sociedade como um bom governo. Pudera, desde 1995, ano da posse de FHC, até 2004, a renda do brasileiro diminuiu, a economia estagnou e o desemprego aumentou. Resultados de modelos econômicos sentem-se na pele e a era FHC, da qual Serra teve participação ativa, foi dura para a maior parte da população.

Assim, o que parece que está em disputa em São Paulo são mais os projetos de poder dos dois maiores partidos do país do que ideologia e gestão em si. No âmbito gerencial, os fins de ambos os candidatos são os mesmos, embora os caminhos sejam diferentes. Mas São Paulo, depois de administrações desastrosas como a de Celso Pitta (1997-2000) e Paulo Maluf (1993-1996), estará em boas mãos com Serra ou com Marta.

Baixo clero
José Aníbal, ex-presidente nacional do PSDB, tem sido criticado por sair candidato a vereador em São Paulo. A decisão, no entanto, transcende o caráter pessoal. O interesse do partido é ter uma força articuladora na Câmara Municipal em um eventual governo Serra, uma vez que dificilmente os tucanos terão maioria na Casa. Agora, não é preciso mencionar que uma eventual derrota de Aníbal seria o fiasco do ano.

Medo
Nenhum tucano quer enfrentar Lula em 2006. Próximas eleições presidenciais somente em 2010, quando marta deixará o governo do Estado de São Paulo e Alckmin o Senado para travarem o duelo PT x PSDB, que irá se consolidar como marca desse início de século na política brasileira. Uma opção para o tucanato é colocar o senador Tasso Jereissati na disputa em 2006. Outra é repetir a aliança com o PFL, só que desta vez com os pefelistas encabeçando a chapa.

Duda
Tenho esperança de que os CEUs da saúde não contabilizem votos para Marta, apesar de não achar isso possível. A apresentação do projeto deu a Marta um aspecto malufista, de político que faz grandes promessas. Isso piora ao constatar que o que a prefeita e seu marqueteiro tentam é rebater as críticas à gestão pífia que fez na saúde. Deprimente.

Quem sabe...
A derrota de Maluf não o faz desistir da carreira de candidato para sempre. Como paulista, tenho vergonha até mesmo de ele ser candidato.

20.8.04

HORÁRIO ELEITORAL 20/08/2004

O contraponto tem que chegar

No segundo dia de horário eleitoral em São Paulo, posicionamentos são estabelecidos. Marta Suplicy (PT) direciona o discurso para a educação. José Serra (PSDB), para saúde.

Marta exibiu orgulhosa os seus CEUs, o vai-e-volta, os uniformes, o material escolar de graça. E
criticou Pitta, com suas escolas de latinha. Serra, por sua vez, criticou o descaso da prefeita com a saúde. Até aí, nenhuma novidade. Essas críticas já foram feitas anteriormente pela imprensa, no debate da TV Bandeirantes, em entrevistas isoladas com candidatos e no programa de estréia da propaganda eleitoral.

Mas quando os candidatos líderes nas pesquisas terão a coragem fazer crítica nos quesitos em que são mais bem avaliados respectivamente? Será que o PT vai criticar o modelo excludente de saúde implementado pelo tucano no governo FHC? A crise de dengue será lembrada?

E a campanha do ex-ministro, vai lembrar que nos CEUs faltam professores de matemática? Que alguns alunos que foram para os CEUs querem voltar para as escolas "comuns", onde pelo menos não tinham um défcit tão grande de professores? Os pais dessas crianças serão entrevistados no horário eleitoral?

Enquanto isso, os lanternas Paulo Maluf (PP) "requenta" o programa anterior e Luiza Erundina (PSB) decreta a derrota. A candidata usou todo o programa de hoje para "velar" os mendigos assassinados no centro de São Paulo. Beirou a demagia, sentimento até pouco tempo atrás identificado apenas em outros concorrentes, especialmente os das antigas. O novo programa da Erundina é a cara do PMDB; talvez o fundo azul do cenário e a roupinha da mesma cor da candidata não sejam mera coincidência.

Assim como também não é coincidência o jingle de Havanir (Prona): a "5ª Sinfonia", de Beethoven, em ritmo grave. Mas curioso o uso de uma trilha de um músico alemão no mais nacionalista dos partidos.

E ainda sobre os partidos pequenos: parabéns ao PSTU. Tirando os programas do Duda Mendonça (com a exceção de alguns poucos), trata-se da campanha política mais eficiente (mas também a mais fácil de ser produzida).

18.8.04

Eterno retorno

No Rio de Janeiro, o argumento de ataque de um candidato contra o outro é motivo de auto-reconhecimento quando fazemos um breve retorno ao passado.

No início de julho, a candidata à prefeitura, Jandira Feghali (PCdoB) disse que jamais apoiaria o PFL. No entanto, em 1986, na eleição de Moreira Franco (PMDB), os comunistas se aliaram à Frente Liberal contra Fernando Gabeira, então candidato pelo PT e dos verdes (que ainda não existia como partido constituído; foi formado no ano seguinte).

Em 2004, por sinal, Gabeira apóia Cesar Maia (o ex-PV e x-PT foi personagem ilustre no programa eleitoral de estréia do prefeito que concorre à reeleição). O mesmo Cesar, aliás, que critica o apoio do PCdoB ao PMDB de Moreira Franco, o PMDB pelo qual foi eleito prefeito pela primeira vez, em 1992! Crítica não só a Moreira Franco, mas também a seu rival e ex-superaliado, Conde, que mudou de mala e cuia do PFL para o PSB e de lá para o ex-MDB, acompanhando o o casal Garotinho.

Resumo da ópera: PCdoB, que ama o PFL, que ama o PMDB, que, pelo visto, ama todo mundo. De quadrilha a orgia. Antes assim.




HORÁRIO ELEITORAL 18/08/2004

Propaganda começa com reprises de 2002 e com estratégias de 2006


A eleição começou de verdade. Incia-se o horário eleitoral para os candidatos a prefeito e vice-prefeito no rádio e na TV. A partir de hoje, o TRÊS PALAVRAS passa a oferecer pra você a análise da propaganda em São Paulo.

E primeira leitura que faço programa de estréia é de, simultaneamente, um "deja vu" e uma "pre-monição".

"Deja vu" não apenas por José Serra ter repetido cenas da campanha eleitoral de 2002 (quando estava visivelmente menos magro, em imagens com os mesmos cortes do tucano na ONU etc.) ou pela repetição dos bordões de PSTU e PCO. Mas principalmente pela reedição do segundo turno PSDB x PT, que veio pra ficar.

E "Pré-monitório" porque o discurso de Marta Suplicy (PT) certamente será repetido à exaustão em 2006 pelo candidato Lula. "Não deu pra fazer tudo em quatro anos". Foi o que disse Marta hoje à noite. Duvido que Duda Mendonça mude a ordem das palavras na gravação do programa presidencial do PT daqui a dois anos.

O programa da tarde na TV praticamente repetiu o que já havia sido mostrado no rádio horas antes: foi exibida uma breve biografia dos principais candidatos. Mas com uma peculiaridade: Marta Suplicy (PT), Paulo Maluf (PP) e Luiza Erundina (PSB) justificaram de cara os aspectos mais embaraçosos para suas respectivas campanhas.

Marta usou maior pare do tempo para explicar que ainda é amiga do senador Eduardo Suplicy (PT) e que a decisão de terminar um casamento de mais de 30 anos não foi fácil. Duda Mendonça colocou o dedo na ferida, e se saiu muito bem. Tranformou a "vilã" na mulher "justa" e "sincera" com o marido.

O narrador do programa de Maluf não deixou por menos e soltou nos primeiros segundos: "Maluf nasceu numa família de posses"; é dono da Eucatex, "gerando mais de 10 mil empregos diretos e indiretos". O "Rouba, mas faz já era". Agora veio o "roubar pra que, se já sou milionário?".

Já Erundina, via Michel Temer, justificou a aliança com o PMDB quercista. A aliança PSB-PMDB "não é eleitoral" e, ainda segundo Temer, "é uma aliança para hoje e amanhã". Literalmente até amanhã? Historicamente os candidatos em horário eleitoral não levam ao pé da letra o que prometem, portanto... quem sabe não chegue a 2006?

Outra estratégia usada na estréia foi a dos candidatos se adequarem ao que "pediam" as pesquisas qualitativas. A prefeita de São Paulo, que passa uma imagem de arrogância, prepotência (segundo as qualis), foi mostrada como a Marta "vovó", ganhando até música composta pelo seu filho João.

José Serra, agora "do bem", dedicou os últimos 30 segundos teve direito no programa da tarde a um clipe com imagens sucessivas de sorrisos seus. Falta de carisma? É, até que deu pra (deixar) enganar.

Já Erundina não teve dinheiro para usar qualquer estratégia. No dia anterior, dia da propaganda dos vereadores, o espaço na TV e no rádio foi usado pelos presidentes regionais do PSB e PMDB, e nenhum candidato a vereador da coligação foi mostrad! O programa foi modificado de última hora, pois parte dos assessores e colaboradores de Erundina se mandaram: em crise e atrás nas pesquisas, a campanha da ex-prefeita (1989-1992) não estava pagando os salários da equipe em dia. Aliás, a falta de dinheiro foi lembrada em discurso de Michel Temer no horário de hoje. O programa foi o mesmo à tarde e à noite pelos motivos já expostos.

À noite, Marta, Maluf e Serra tiveram programas novos. Maluf, com poucas alterações. Uma mudança interessante foi quando o locutor disse que Maluf já "era rico antes de entrar para a política". Eis que surge uma animação com setas mostrando o fluxo de dinheiro do exterior para o Brasil; simulando a aplicação de investidores nas empresas do candidato do PP. Um fluxo ao contrário, do Brasil para o Exterior? Só na arte do "Jornal Nacional".

Mas como estamos em pleno Horário Eleitoral, recordar é viver. Vide a estratégia de José Serra, que copiou imagens da campanha à presidência (ainda bem que foi só no da tarde). É certo que o candidato ainda não quitou suas dívidas da campanha anterior e que as imagens de arquivo eram boas, mas a parte que tratava da biografia do tucano foi demasiadamente extensa. Candidato à presidente, até Rio Branco sabe que o Serra é filho do feirante da Mooca. No entanto, já à tarde, Serra anunciou o que estava pro vir: Saúde, saúde, saúde. "Especialmente à voltada para a mulher" (maior parte do eleitorado).

Cumpriu-se o prometido à noite, quando apareceu o Serra dos genéricos, o Serra do mutirão da catarata, o Serra ministro da saúde. Também foi enfatizada a dobradinha "Serra-Alckmin".

Nos mesmos moldes da dobradinha "Marta-Lula", à tarde. "Tenho muito orgulho de ser amiga do Lula", disse a prefeita.

Mas à noite, brilhou a Marta dos CEUs (Centros Educacionais Unificado). O programa foi encerrado (com direto à lágrimas nos olhos do espectador; afinal o programa foi produzido por Duda Mendonça) com uma apresentação de música dos alunos dos CEUs, tocando violino. E já "respondendo" Serra: a prefeita reafirmou o "mea culpa" na saúde e pediu mais quatro anos para repetir na saúde a revolução que fez nos transportes ("bilhete único") e educação.

No mais, candidatos afirmando cobrar para dar entrevista (PAN), prometendo acabar com a "indústria da multa" (PSDC) e candidata histriônica usando palavras como "visceral", "sistêmico" e "maquiavélico". Nem criando um milhão de CEUs o povo alcança isso.

Enfim, a novela continua na sexta. Até lá.



16.8.04

O PSDB na Esplanada dos Ministérios em pleno governo do PT

O presidente do Banco Central e deputado federal licenciado por Goiás será, a partir desta terça-feira, o primeiro ministro do PSDB a integrar o governo do PT.

Numa manobra de Lula-Palocci, Henrique Meirelles passa a ter status de ministro de Estado, ou seja, terá FORO PRIVILEGIADO NO STF (Supremo Tribunal Federal). O motivo mais óbvio é que Lula quer proteger Meirelles das denúncias que começaram a sair na imprensa há algumas semanas, que tratam de crimes de sonegação fiscal e evasão ilegal de divisas que teriam sido praticadas pelo "ministro" Henrique Meirelles.


Meirelles teria uma conta não-declarada no Goldman Sachs, de cerca de US$ 50 mil. Esse dinheiro teria sido enviado para uma outra conta de doleiros investigados pela CPI do Banestado por suspeita de lavagem de dinheiro... Por causa disso, o tucano é aguardado pelo Senado para dar explicações.

O governo do PT mostra-se mais uma vez mais rasteiro que o antecessor ao mudar o status de um ministro para encobertar possíveis crimes finaceiros e dificultar as investigações. O pt revela-se o partido menos transparente que já ocupou o Planalto desde os militares. Asssitimos, nesta terça, a um golpe.

Mas o recado que parece ser mais importante (para o governo e para o mercado) foi dado: Meirelles fica fortalecido; o fechamento da Bovespa amanhã certamente ( e infelizmente) indicará esse caminho. Mas o mercado, entende-se. Esse joga contra. Injustificável é termos eleito um governo que também joga contra; que joga contra democracia, contra a transparência das contas do presidente do BC, contra a chance de se investigar um integrante do governo.

Lula, Palocci e Meirelles deram mais uma prova de covardia e passaram recibo da culpa no cartório.


12.8.04

Vai dar Brizola na eleição do Rio

Bizola nos deixou, mas seu legado ficará. Nos anos 90, perdeu todos os cargos eletivos a que concorreu. Mas elegeu todos seus afilhados e ex-afilhados para a prefeitura e para o governo. Começamos a contar a partir de 1982, primeira eleição disputada por Brizola e sua trupe desde a volta do exílio.

Na prefeitura:
1983: Jamil Haddad assume a prefeitura pelo PDT, mas deixa o cargo por discordar do partido; assume o vice, Saturnino Braga (PDT).
1985: Saturnino Braga é eleito pelo PDT; hoje é senador pelo PT
1988: Marcello Alencar é eleito pelo PDT; hoje é tucaníssimo. Não anda bem de saúde, mas foi o principal articulador em tirar a deputada federal Denise Frossard da sucessão à prefeitura nesta ano e entregar à vice a Cesar Maia.
1992: Cesar Maia é eleito prefeito. Lembramos que trata-se de um filhote direto de Brizola. Foi secretário de fazenda de caudilho e eleito deputado federal constituinte pelo PDT, em 1986. Por isso eu entendo porque tanta gente foi às ruas no Rio chorar a morte de Brizola. As pesquisas indicam que Cesar ganharia em primeiro turno.
1996: O filho do filho de Brizola é eleito; "Conde é Cesar, Cesar é Conde". Conde foi eleito pelo PFL.
2000: o ex-brizolista Cesar Maia ganha de novo a prefeitura, desta vez pelo PTB.

No senado:
O Senado é um caso à parte. Brizola só conseguiu eleger dois "filhotes" de 1982 até hoje.
1982: Saturnino Braga foi eleito pelo PDT; foi reeleito em 1998 pelo PT.
1990: Darcy Ribeiro é eleito pelo PDT.

No governo:
1982: Com todo o problema com Globo, Proconsult, deu Brizola na cabeça.
1986: A exceção; naquele ano, com a febre do Plano Cruzado, os candidatos do PMDB ganharam praticamente todos os governos estaduais. No Rio deu Moreira Franco; Darcy Ribeiro, candidato de Brizola, perdia a eleição.
1990: Ddepois de perder por pouco a chance de ir ao segundo turno contra Collor em 1989, Brizola é eleito no ano seguinte em primeiro turno para o governo do Rio.
1994: um ex-pedetista é eleito governador, desta vez pelo PSDB (na onda da febre do Plano real). Marcello Alencar ganha, no segundo turno, contra Garotinho (PDT).
1998: Garotinho governador, Bené vice. PDT de novo no poder.
2002: Rosinha Garotinho governadora; Conde (o filho do filho de Brizola) na vice. Rosângela Matheus foi eleita pelo PSB, mas hoje está no PMDB, partido pelo qual Cesar Maia foi eleito prefeito pela primeira vez.
2004: Tudo leva a crer que o ex-pedetista Cesar Maia vai ser eleito em primeiro turno. É o que indica todas as pesquisas. E se ganhar, Cesar terá poder de fogo grande para disputar o governo do Estado em 2006.
E também em 2006: Clarisse Garotinho para a Câmara dos Deputados. Mesmo com o casal Garotinho brigado com Brizola, Clarisse era fiel amiga do caudilho, e foi a responsável pela reaproximação do casal com o ex-governador pouco antes dele morrer. Clarisse prefeita em 2008? Não estranharia se ela concorrer/ganhar.

Nem morrendo Brizola deixou de fazer estragos.


18.7.04

A moda que não veio mais pra ficar

Marcio Pinheiro
 
No meu primeiro artigo aqui no TRÊS PALAVRAS eu havia criticado o uso indiscriminado dos programas partidários na TV que ocorriam à época. Segundo a lei eleitoral, esses programas deveriam ser usados para que os partidos divulguem suas idéias e propostas para o país, ou para criticar modelos vigentes. Isso ficou na ficção. Fez-se propaganda dos então pré-candidatos. E hoje, os agora candidatos começam a colher o que plantaram: a falta de ética.
 
Só para citar os recentes condenados mais ilustres: Paulo Maluf (PP), Luiza Erundina (PSB), José Serra (PSDB) e Paulo Pereira da Silva (PDT), que foram multados em R$ 21 mil por propaganda fora do prazo.
 
É que todos estavam achando que 2004 repetiria 2002. Naquele ano, todos os então pré-candidatos à Presidência usaram o horário partidário como eleitoral.
 
Mas dessa vez o Ministério Público está de atento e a Justiça Eleitoral, quem diria, está dando conta do recado, ao acolher as denúncias de propaganda antecipada (e ainda querem diminuir os poderes do Ministério Público... ).
 
Isso tudo, lembramos, está inserido num contexto de revolução do Tribunal Superior Eleitoral. Revolução sim porque, pela primeira vez em sua história, a Justiça Eleitoral está fazendo valer leis importantíssimas (sem criar nenhuma lei nova!). O maior exemplo até agora é o tempo do horário eleitoral.
 
Até então, entre a eleição dos deputados em outubro e a posse em fevereiro, inflavam-se bancadas de partidos bandidos, que cooptavam deputados para não só ter uma bancada enorme no Congresso, ou para dominar as comissões e aumentar seu poder de fogo no balcão com o Planalto. O que esses partidos realmente queriam era aumentar sua bancada para conseguir o maior tempo eleitoral na TV possível. Por que? Porque até então a Justiça Eleitoral dividia o tempo de horário eleitoral com base na bancada que tomou posse (ou seja, inflacionada), e não na que foi eleita. Isso mudou. O TSE fez valer o bom senso.
 
A segunda velha novidade trazida à tona pelo Tribunal foi o número de vereadores. Simplesmente o tribunal pegou a máquina de calcular e fez valer a o que está na constituição, ou seja, que o tamanho das Câmaras Municiapis seja proporcional ao número de habitantes! 

Que a (r)evolução continue. O Judiciário foi a instituição que mais demorou a se acomodar à democracia. Por vários motivos: por ter tido até poucos anos atrás a maior parte de ministros nomeados na ditadura, por ter tido que encarar de frente problemas muito graves com a então recém-aprovada "Constituição Cidadã" (o impeachment do Collor foi um exemplo, quando  Supremo foi acusado de fechar os olhos).

Mais à vontade e oxigenado, a Justiça vai gozando as atribuições dos novos tempos. Que bom. 
  
  
    
MAS TAMBÉM NÃO VAMOS EXAGERAR
 
Na Rússia, o homem mais rico do país é preso por corrupção. Nos EUA o ex-diretorzão da Enron e amigo de George W. Bush também vai em cana. Martha Stewart (uma espécie de Ana Maria Braga dos EUA), idem. E no Brasil? Aqui, senador acusado de corrupção é nomeado para Tribunal que julga as contas do Estado, político que “rouba, mas faz” é segundo colocado em pesquisas, ex-banqueiro “falido” foge com todo o luxo... 
  

  
O NOVO REI DO HABEAS CORPUS
 
Antes era o presidente Marco Aurélio Melo. Agora é Nelson Jobim, que soltou o Sombra, suspeito no assassinato do ex-prefeito petista de Santo André, Celso Daniel. Parece que no STF as bancadas petista e tucana se afinam cada vez mais. 
No entanto, ainda falta muito para Jobim ganhar a coroa. Marco Aurélio soltou o advogado Carlos Alberto da Costa Silva, da Operação Anaconda, o “cantor” “Belo”, envolvido com tráfico, votou a favor da liberação de Lalau (mas a maioria do pleno vetou), do banqueiro Caciola, entre outros. 
  
  
SURREALISMO NO RIO
 
Jorge Bittar (PT) e Jandira Feghali (PCdoB) declararam guerra um ao outro. A máxima "semelhantes atraem semelhantes" nunca valeu tanto para esses candidatos (afinal, 4% de intenção de voto é bem próximo a 5%).
Enquanto isso, “lá em cima” (nas pesquisas, ok?), Crivella (PL) apresenta uma declaração de bens suerral (R$ 21 mil de patrimônio), César Maia usa a torto e a direito o Palácio da Cidade pra fazer campanha, e Conde (PMDB), bem o Conde... o Conde que se dane! 
  
  
A BAIXARIA E O COVARDE
 
De um deputadozinho do PSDB, em comício no último fim de semana, sobre a prefeita Marta Suplicy: "Vamos falar da importância de tirar a prefeitura das mãos desta mulher, que parece uma menininha que só quer saber de viajar e namorar e esquece da cidade".
O ex-Itamaraty FHC deve estar desolado com a falta de classe de integrantes de seu partido. E com a falta de coragem de seu candidato em São Paulo, que delega a terceiros (ou a quartos ou quintos) a tarefa de atacar os adversários.
A resposta da candidatura Marta? Utilizar o candidato a vice, Rui Falcão, para atacar Alckmin. E olha que ainda falta um mês para o horário eleitoral!
  
 
BLAIRO MAGGI e MST
 
O governador do Mato Grosso disse na noite de domingo, no programa "Canal Livre", da TV Bandeirantes: "O MST usa a terra para fazer política. Quando ele tem crédito, não tem conhecimento. Quando consegue produzir, não tem mercado. O que o Brasil precisa é uma reforma agrícola, e não agrária".


15.7.04

Eleição como diagnóstico

Virgilio Abranches
 
Mais do que um plebiscito do governo Lula, as eleições municipais deste ano devem tornar claros os caminhos pelos quais a política nacional tende a percorrer nos próximos anos. Esses caminhos não serão resultado do pleito, mas este servirá como uma espécie de termômetro (não é a melhor analogia), enfim, como algo que vai trazer à tona _a partir de um resultado prático_ como estão realmente divididas as forças políticas do país. Um diagnóstico, enfim.
Trocando em miúdos: até agora foi muito blá-blá-blá. Esquerdistas revoltados, esquerdistas que correram para o centro, outros que foram para a direita, partidos que se fortalecem, partidos que se enfraquecem, mas tudo isso solto no ar. Afinal, o que vai acontecer com a esquerda que outrora depositava suas esperanças no PT? Como eles vão se comportar nas eleições municipais? Vão ficar jogados no vento ou correr para sob o guarda-chuvas das siglas menores e mais radicais? Enfim, a partir destas eleições nós vamos ver para onde está indo, na prática, a esquerda nacional. 
Siglas: o PTB está ousando para voltar, quarenta anos depois da deposição de João Goulart, a ser um partido significativo. É claro que o PTB não é nada igual àquela sigla da Era Vargas. Outra história, tem até collorido. Mas o apoio a Marta Suplicy em São Paulo, a Jorge Bittar no Rio e a fidelidade ao governo Lula estão empurrando a sigla para ter um vice numa possível tentativa de reeleição do presidente. Se a aliança PT-PTB vingar neste ano, está formada uma dobradinha a la PSDB-PFL, que governou o país por oito anos. Outra tendência que as eleições vão mostrar.
O que será do tucanato? Já descolou de FHC? Dá para falar em voltar ao poder sem ter vergonha do passado? Vamos ver. E o PMDB? Cada vez mais fraco? Será o fim de uma era que dura desde a redemocratização?
Eleições regionais _como para governadores e prefeitos_ sempre, inevitavelmente, são sintomáticas em relação ao momento e ao futuro político do país. A História mostra isso. O PMDB se tornou o partido mais forte na década de 80 quando elegeu quase todos os governadores sob a égide dos planos econômicos de Sarney. Mais lá atrás, a ditadura começou a despencar quando foram eleitos prefeitos e governadores oposicionistas.
Com a eleição de Lula em 2002, o panorama político do país começou a tomar um rumo. Com a de 2004, nós vamos saber que rumo é esse.

18.6.04

O mínimo não foi feito

Marcio Pinheiro

A culpa pela não-aprovação da MP do salário mínimo, a maior derrota de Lula no Congresso, foi do próprio presidente da República.

Desde o início de 2003 ao não tentar um outro tipo de relação com o Congresso que não fosse o toma-lá-dá-cá, Lula não teve a consciência de que o preço a ser pago seria muito caro; a conta chegou hoje. Preferiu a Reforma da Previdência à Reforma Política, no auge de sua popularidade. Mas o jogo estava só começando.

Em janeiro de 2004, Dirceu deixa o que de melhor sabia fazer: articulação política; ele que foi o grande articulador de “Lula Presidente” (aliás, se está no Palácio até agora é devido a esse reconhecimento de Lula). No entanto, foi aí que começou a ciumeira com Aldo, o novo articulador. Lula deixou correr solto o desgaste da cúpula palaciana: se Gushiken, Luiz Dulci e Aldo não se dão com Dirceu é porque algo está errado, não? Isso no nariz do presidente, “o grande conciliador”.

E desde o início do mandato até ontem: deixou senadores e deputados à espera, sem atenção (ele não havia escolhido em 2003 esse tipo de relação com o Parlamento?). Levou “no bico” relação com gente séria, Sarney inclusive, com quem fala pouco. Lula paga o preço do seu desapreço pelo Parlamento. Quando foi ligar para parlamentares, se rastejando por votos para o salário mínimo de R$ 260, já era tarde.

Outro motivo que mostra ser de Lula a culpa pela não-aprovação da MP é o mérito da questão, que vem desde a campanha: o então candidato do PT alardeou em 2002 que ia dobra o valor do salário mínimo. Ele não vai querer fazer isso de uma vez só no último ano de mandato, vai?

A perda do governo nessa votação, e pra Lula especificamente, é pra lá de simbólico. Símbolo que vem desde a era Vargas, político que introduziu o salário mínimo, usado como populismo, que os trabalhistas usavam e abusavam; do qual os trabalhadores-companheiros da então oposição petista sempre reclamavam, por ser de tão baixo valor. A MP de hoje seria a aprovação de uma medida que é base, o sustentáculo do trabalhador.

Depois de um ano e meio, o amadorismo do governo assusta. Numa casa onde sabidamente não tem sustentação forte, deixou o barco correr solto (vide o desleixo com a emenda de reeleição no Congresso); deixou rixas palacianas influírem.

Foi colocado em xeque o tão propagado “poder de convencimento” do presidente, ou seu poder de costuras políticas (não conseguiu porque delegou essa tarefa a duas pessoas que não se dão bem pessoalmente – Aldo e Dirceu). Além da “culpa” presidencial, ainda cabem outras observações.

1- A confirmação da política como “palco” e hipocrisia. Vide o incrível comportamento da dobradinha tucano-pefelê, que por oito anos comandou a ferro e fogo o Congresso e não foi capaz de, assim como Lula 2004, dar um aumento razoável ao salário mínimo (só pra lembrar um indicador econômico que justifique esse sentimento: o poder de compra do trabalhador conquistado desde o Real já foi perdido em termos reais).

2- O banho de realidade política pode ser visto sob a égide de uma lição da Democracia. É muito saudável que se veja na prática a independência entre os poderes da República, ver um Poder não refém do outro.

Mas não sejamos ingênuos ao cair de cabeça neste segundo tópico. O balcão foi reafirmado pelo governo do PT: a moeda de troca está mais do que nunca entranhada entre Planalto e Congresso, tanto que liberação de verbas foram postas no cardápio (e nem assim o Planalto levou..).

3- O medo e a infelicidade de ter que reconhecer que Regina Duarte é vanguarda. Medo de que a moda pegue e o Executivo simplesmente pare. Isso: uma crise institucional a essa altura.


6 ANOS DEPOIS...
A Embratel conquistou o primeiro lugar – dentre 180 marcas – no Ranking Info de Confiabilidade em Serviços de Comunicação, Voz e Dados na segunda Pesquisa Info de Marcas em Tecnologia da Informação. Quanto prestígio. Algo impensável até 1998, quando da privatização das teles. Um sucesso.
Mas só um detalhe: a pesquisa foi feita com base na opinião de 152 executivos das maiores empresas do país. Certamente pessoas que não tem idéia de qual prestadora cobra a menor tarifa ou qual delas deixa você esperando por mais tempo até ser atendido.


10 ANOS DEPOIS...
Rubens Ricupero volta às manchetes dos jornais. Não, não é como ministro do Real para dar uma notícia excelente sobre o plano. Muito menos para dizer que "não tem escrúpulos” ou que “o que é bom a gente fatura, o que é ruim, esconde”.
Escondeu e não faturou: caiu no dia seguinte à exibição dessa delcaração.
Mas Ricupero deu uma volta por cima e tanto. Ele volta à mídia como secretário-geral da Unctad (Conferência das Nações Unidas sobre Comércio e Desenvolvimento), cuja última reunião ocorreu em São Paulo. O ex-ministro da Fazenda de Itamar trabalha hoje em prol das nações pobres. Está faturando o que é bom mostrando o que é ruim.

17.6.04

Robin Hood às avessas

Caio Junqueira

Um país fudido querendo ajudar outros países mais fudidos e que acaba fodendo os fudidos que vivem nesse país fudido. Essa é a interpretação grosseira da intenção de Lula de querer comprar produtos dos países da América do Sul, ainda que sejam mais caros, proposta durante a reunião da Unctad na última segunda, em São Paulo.
Então o presidente quer economizar R$ 260 no mínimo mas quer gastar milhões com importações caras? Por favor né, ou para com essa demagogia ou já pode passar a chamar os brasileiros de palhaços.

EMBRIÃO DE CORONEL
Está provado. O Nordeste brasileiro é o grande renovador do fisiologismo político brasileiro. O marido da atriz Patricia Pillar, Ciro Gomes, é um desses casos em desenvolvimento. Ciro, que além de marido de atriz famosa, é ministro da Integração Nacional do governo Lula, está começando a se emburrar com o governo, surpreendentemente ao mesmo tempo em que o governo começará a ser mais questionado, criticado e colocado em xeque, devido às eleições municipais.
Ele, que ficou um ano e meio quietinho e mansinho, quase imperceptível, agora já percebe que é hora de se mexer para não correr o risco de afundar junto com o governo.

ATRAÇÃO PAULISTANA
Agora é regra. Todo gringo que pisar por aqui tem que visitar os CEUs da Marta. Nesta semana o privilegiado foi o secretário-geral da ONU, Kofi Annan, que foi até o escolão do Campo Limpo, zona sul de SP, um dos bairros mais violentos da capital. Annan achou o "ambiente maravilhoso".
O mais interessante é o “maquiamento” dado a essas regiões quando “gente importante” por lá aparece. Um aluno da escola disse que nunca tinha visto tantos policiais em sua vida como durante a visita de Annan.

JUSTIÇA HEIN?
“A hipótese ora tratada não é de mera desclassificação ou mesmo de absolvição do paciente, mas, sim, de decisão que reconhece a inexistência do crime contra o sistema financeiro nacional. Ou seja, essa infração jamais ocorreu.”
Naji ficou famoso por ter feito operações, em 1989, que provocaram prejuízos à Bolsa de Valores do Rio de Janeiro, culminando no seu fechamento. Segundo a Justiça, nada aconteceu.

UM DIA CHEGA
O papa João Paulo 2º pediu perdão pela Inquisição, período entre os séculos 13 e 17 em que a Igreja torturou, fez julgamentos sumários, conversões forçadas e queimou na fogueira acusados de heresia. Se demorou mais de 300 anos para o pedido de perdão da Inquisição, podemos calcular que lá pro ano de 2300 o papa da época pedirá perdão pelo apoio do papa Pio 12 ao 3º Reich de Hitler.

CLÁUSULA DE BARREIRA
Pelo dispositivo que será apresentado à CCJ (Comissão de Constituição e Justiça) pelo relator da reforma política, deputado Rubem Otoni (PT-GO), os partido pequenos não serão tão censurados como na proposta anterior.
A idéia é que o partido tenha 2% dos votos nacionais (e não 5%, como antes), não mais tenha votação mínima no Congresso. Porém, será preciso eleger deputados federais em pelo menos cinco Estados e ter votação em 9 Estados. Ponto para a democracia.

FACETAS IRRITANTES DE UM PAÍS DESIGUAL
70% do faturamento de pet shops correspondem a comercialização de produtos importados, como um frasco de perfume por R$ 2 mil, uma gargantilha de R$ 2,5 mil ou uma cama alemã com base de ferro, de R$ 1 mil.
Enquanto isso, no Brasil Real, a média nacional dos alunos da rede pública e particular em 2003, na prova de português da 4 série, foi de 169,4 pontos numa escala de zero a 500. Em 2001, havia ficado em 165,1 pontos. Essas pontuações deixam os alunos no nível 2, numa classificação que tem oito níveis de conhecimento. Nesse nível, os alunos só identificam informações explícitas em pequenos textos e precisam do apoio de ilustrações para reconhecer o tema de narrativas simples como histórias infantis.

REGISTRO
Todo mundo já bateu, mas eu também quero. O artigo de Danusa Leão criticando a festa de Lula por ser jeca, caipira, símbolo de um país atrasado foi elitista, preconceituosa e nojenta.

QUENTE
To vendo na TV Senado. O governo perdeu a votação do mínimo. Pode comparar ae com os outros sites . 44 a 31 com uma abstenção. O 3 palavras deu primeiro.

15.6.04

Tarso Genro, a luz no fim do túnel

Virgilio Abranches

Com a proposta do ministro da Educação, Tarso Genro, de utilizar parte dos recursos destinados ao pagamento da dívida externa para o desenvolvimento educacional do país vê-se que enfim alguém resolveu trabalhar em cima de idéias no governo de Luiz Inácio Lula da Silva.
Até agora, a parte que mais colheu resultados - ainda que pouco expressivos - foi a econômica, que não adotou um projeto original, mas sim um simples aprofundamento do que já vinha sendo aplicado ao país pela trupe da PUC do Rio sob a aprovação de Fernando Henrique Cardoso.
De resto, só trapalhadas. Apenas programas que não saíram do papel (vide Primeiro Emprego e Fome Zero), golpes marqueteiros sem nenhum resultado prático (vem aí o Farmácia Popular) e fofocalhadas, intriguinhas palacianas que paralisam o governo e teleguiam as pautas da mídia e da imprensa. Talvez seja esse o intuito do ministro José Dirceu, o campeão dos mexericos: ocupar os jornalistas com as encenações de bastidores e impedi-los de notar que esse governo não anda.
Vamos esquecer e fingir que não ouvimos a proposta de Tarso Genro de criar uma loteria para financiar as universidades. Foi um lapso, consideremos. Como bem observou Élio Gaspari, em sua coluna na Folha de S. Paulo do último domingo, seria tirar dinheiro dos pobres (os maiores apostadores de loterias) para dar aos ricos (os maiores beneficiários das universidades públicas).
A proposta esdrúxula da loteria não diminui o mérito da idéia de investir em educação o dinheiro da dívida. Obviamente não será fácil convencer os credores do Brasil. Mas só a discussão do tema e uma articulação internacional, como defende o ministro, já são passos importantes. Seria uma forma de driblar a falta de recursos e de imprimir uma certa justiça na relação do país com os agentes financeiros, sem abalar os tão prestigiados ânimos do mercado.
A maior decepção do governo Lula até agora, independente de juros altos, superávit, transgênicos e afins, é a não atenção à educação. Imaginou-se que um governo de esquerda veria no tema prioridade, inclusive para alcançar o tão desejado crescimento (se é para analisar a tudo sob a ótica econômica). Não foi assim. Não está sendo assim. Tarso Genro mostra agora que pretende agir para mudar a situação. Só pretender não adianta. Ainda mais se tratando apenas do ministro. É preciso ação. E do presidente.

DEPRIMENTE
É ridículo as pessoas se ocuparem em criticar a festa junina do presidente Lula. Por qualquer ângulo.

CAMPEÃ
É lógico que o título de idiota da semana vai para Danuza Leão em seu artigo preconceituoso e ignorante na Folha de S. Paulo. Está estabelecido. A partir de hoje, em todas as terças será eleito "O idiota da semana".

OLHOS NELES
Vamos ver quem serão os incoerentes de PFL e PSDB dessas vez na votação do salário mínimo no Senado. E vamos ver quem são os petistas que continuam achando que vivem na Albânia.


14.6.04

Um círculo viciado

Marcio Pinheiro

O caso Law Kin Chong faz lembrar o clássico dilema presente no debate sobre o tráfico de drogas, que existe porque há demanda pelo produto. O mesmo se aplicaria aos produtos roubados: eles são comercializados porque tem gente que compra.
Mas ao contrário das drogas, as pessoas consomem esses produtos de origem duvidosa (mais baratos) simplesmente porque não podem pagar pelo produto legal (mais caro).
Em comum com o mercado dos entorpecentes, o hábito de comprar produtos ilegais se alastra por todas as classes.
Mas o curioso é que 47% da classe A e 49% da classe B preferem as mercadorias à la “Law Kin Chong”. Justo aqueles que 1- têm dinheiro para pagar pelo produto legal, mas optam pelos de origem duvidosa e 2- geralmente, são os que sofrem na pele as dificuldades de se manter no mercado legal, pagando em dia a brutal carga tributária. Boa parte das classes A e B é dona de empresas (pequenas ou médias), ou de alguma forma estão a ela vinculados (prestam algum serviço ou têm algum parente envolvido, trabalhando nesse negócio) e, portanto, são os mais conscientes sobre essa situação.
Esse é o retrato da elite no Brasil: reclama da carga tributária, mas consome produtos roubados. Produtos, frequentamente, roubados deles próprios, e que muitas vezes são vendidos para engrossar os lucros do tráfico de drogas, em que o número de consumidores é, certamente, mais elevado nas classes mais altas, de maior poder de compra.
Mas certamente o caminho mais fácil seria culpar essa elite. No entanto, lembramos aqui também da (in)competência do Congresso Nacional e da omissão do Executivo sobre questões dessa natureza.
Cabe ao legislativo votar a reforma tributária, que não sai do papel (enquanto o comércio ilegal incha e as pequenas empresas continuam quebrando); o projeto de lei para legalizar as drogas simplesmente não existe e os traficantes, mesmo se condenados, não tem para onde ir (afinal, o crime de tráfico é um crime federal, mas simplesmente não existem presídios federais; a obra do primeiro, em Mato Grosso, foi suspensa).

O TREM DA HISTÓRIA
Além dos projetos parados acima, outra demanda da sociedade que não é desengavetada é o projeto de lei da então deputada federal Marta Suplicy, de 1995, que regulamente a união civil dos homossexuais. Só ontem em São Paulo, a Parada do Orgulho Gay reuniu cerca 1,5 milhão de pessoas (gays, bissexuais, heterossexuais etc.) que gostariam de ver um Parlamento que acompanhasse as causas de seu tempo.

QUEM É O ASSASSINO?
Anthony Garotinho foi eleito governador em 1998 como o homem que iria resolver os problemas de segurança do Rio. O discurso era duro; ele se especializou no assunto. Quem leu “Violência e Criminalidade no Estado do Rio de Janeiro” (editora Hama, 1998, 170 páginas) não tem dúvida de que os autores (entre eles Garotinho) eram muito bem informados sobre o tema, e que o problema seria solucionado.
Teve gente que acreditou, tanto que elegeram a mulher de Garotinho para o governo do Rio, e ela, claro, chamou o marido especialista para comandar a segurança do Estado.
É claro que toda boa análise é feita a posterori, tudo bem. Mas alguns resultados da atuação do ex-governador e atual secretário podem ser comentadas. Mas não vou comentar; melhor é lembrar:
1- Garotinho manteve presos de facções rivais em uma mesma unidade. Resultado na Casa de Custódia de Benfica: 31 mortos;
2- Caso 174. Por ordem do então governador, a polícia não agia enquanto esperava ordens de Garotinho. Resultado: uma professora morta pela polícia “especializada” com um tiro na cabeça e um seqüestrador asfixiado por policiais (eles foram absolvidos);
3- A novela dos bloqueadores de celular: Garotinho era favorável ao uso do celular nas prisões porque o criminoso, ao falar ao telefone, teria a conversa grampeada pela polícia, o que ajudaria nas investigações. Depois, concluiu que a idéia não era tão eficaz assim, quando informado de que esses traficantes punham fogo na cidade e controlavam o tráfico de dentro das celas pelo celular;
4- Caso Staheli: o secretário de segurança apresenta ao vivo e a cores o “assassino” do casal norte-americano na Barra da Tijuca. O acusado desmentiu o depoimento no dia seguinte. Certamente nenhum inimigo político de Garotinho conseguiria dar uma rasteira dessas nele com tamanha eficiência;
5- Sem contar os bandidos que nesse período fugiram pela porta de frente de perídios ou que vendiam/ vendem drogas e fumam maconha nas cadeias (imagens estas mostradas a exaustão pelas TVs no ano passado)
Conclusão: se eu fosse o Gilberto Braga, chamaria correndo o Garotinho para descobrir quem é o assassino de Lineu Vasconcelos.

EU JURO
O Copom não deve aumentar os juros nesta semana. Basta olhar o mercado futuro: a taxa Selic já está alcançando o mínimo aceitável. Leia-se: com um taxa ainda menor de juro (ou bem menor, como deseja o presidente Lula), os investidores evaporam. A avaliação é reiterada pelo ministro Palocci, que no último dia 7 disse que “os juros já cumpriram seu papel na retomada da atividade econômica”, ou seja: não precisam mais cair.